O Pacificador dos pacificadores não dobrou o mau gênio de seus irmãos.

O Pacificador dos pacificadores não dobrou o mau gênio de seus irmãos.

Fazia já nove meses que Yehoshua tinha partido. E durante todo este tempo as mulheres da família de Yehoshua progrediam nos ensinamentos ministrados pelos monges. Ruth era a mais querida de todos eles. Em segundo lugar vinha Míriam, a mãe, quieta, meditativa, prestativa e cada vez mais com um olhar aéreo, desligado do mundo que a rodeava. Parecia inundada de uma felicidade que ninguém compreendia, exceto Ruth. As duas eram carne e unha e se se quisesse encontrar uma, era só procurar pela outra. Até o Rimpoche já se tinha acostumado com isto.

Entre os homens, irmãos de Yehoshua, a discórdia era grande e a revolta também. Não abdicavam de modo algum de suas origens hebraicas e defendiam teimosamente a vinda de um Messias guerreiro para libertá-los dos kittins cruéis e detestados.

Naquela manhã Judas tinha sido designado a acompanhar um monge até o mercado para realizar as compras necessárias ao Mosteiro. Ele estava encarregado das mulas e do carregamento dos mantimentos. Ou seja, o trabalho mais pesado lhe cabia.

A doce Míriam, mãe de Yehoshua, distanciava-secada vez mais da condição humana.

A doce Míriam, mãe de Yehoshua, distanciava-secada vez mais da condição humana.

Não foi de bom humor que Judas aceitou a incumbência, mas há muito desistira de brigar com os monges. Sempre que arranjava encrenca levava boas e doloridas bordoadas de seus bastões amaldiçoados. Amuado, não se despediu de suas parentas que lhe acenavam com as mãos. Também não quis saber de conversa com seu irmão Thiago, muito menos com seus irmãos, Matheus, e Yoseph. Míriam, a irmã, juntamente com Ruth e Martha estavam juntas e foi Ruth quem levou a mão ao coração, preocupada.

— O que foi? — Perguntou Míriam, sua irmã.

— Não sei dizer… Senti um aperto ao vê-lo passar pelo portão…

— Tu te preocupas demais com ele, irmã — disse Martha, atenta à conversa das duas. — Aliás, todas nós. Mas Judas é cabeça dura. Um bom hebreu, mas é só o que ele é. Ninguém vai conseguir abalar sua crença na Torá e em seus preceitos basilares. É claro que aqueles introduzidos pelos Rabinos do Templo estão totalmente deslocados e são espúrios à Verdadeira Religião, mas quem pode lutar contra aquilo?

— Que não estão errados em nada, os preceitos basilares da Torá não estão mesmo — disse Míriam, a esposa, secundada por um aceno de cabeça de Míriam, a mãe de Yehoshua. — Mas tenho compreendido, aqui entre estes monges, que há exagero no modo como são interpretados pelos nossos Rabinos. Eles tornam a interpretação da Torá difícil e confusa, a maioria por interesses pessoais. Isto, lança nosso povo em confusão e fica mais fácil para os corruptos do Templo manipulá-los.

Assim era, como este, o templo no mosteiro de Hemi.

Assim era, como este, o templo no mosteiro de Hemi.

O portão foi fechado e elas se voltaram para entrar no grande salão da biblioteca. Sobre uma pesada e bastante usada mesa de estudos havia muitos papiros escritos em páli, a língua sagrada do Tibete. Todas, menos Míriam, a mãe, se sentaram ao redor da grande mesa e cada uma tomou de um rolo de papiro para estudar. Míriam, a mãe, retirou-se pisando tão suava que parecia deslizar sobre nuvens. Desceu da biblioteca e se dirigiu ao Templo, naquele momento vazio. Fez girar uma roda de orações e entrou no grande salão silencioso. Foi sentar-se sobre uma das muitas almofadas espalhadas pelo assoalho de madeira, em padmasambava. Fechou os olhos, fez sete respirações profundas e se concentrou em seu chakra Ajna. Logo estava ausente do ambiente e de todo o Templo…

Muito longe dali, sozinho em uma pequena clareira à margem de um lago, Yehoshua saía das águas frias. Nadara por mais ou menos trinta minutos e, satisfeito, totalmente nu, postou-se sobre uma lage à margem, abriu os braços e orou a seu Pai Celestial em agradecimento pela vida gostosa que levava onde quer que estivesse. O local era bastante ensombrado devido às densas copas das árvores e Yehoshua pensava em como era bom desfrutar da paz daquele lugar; como era bom sentir o cheiro da água e das folhas verdes; como era bom a brisa arrepiando seu corpo ainda molhado e friorento. Tudo lhe era imensamente agradável. Orou por quase uma hora e, então, sentou-se sem se incomodar com sua nudez. Passou a friccionar vigorosamente todo o corpo com ambas as mãos, a fim de estimular o sangue a afluir para a superfície e aquecer seu corpo. Ele bem podia sair do lugar escurecido pelas copas e ir mais acima, onde a luz do sol já esquentava um pouco, mas preferiu permanecer ali e de seu próprio corpo tirar o calor de que necessitava. Estimular a circulação era saudável e gostoso.

Então, percebeu intuitivamente que ia ter visita. Parou por um momento e olhou para um ponto fixo na parte mais escura da margem do lago, onde a vegetação densa tornava a sombra muito espessa, quase negra. Permaneceu assim por quase um minuto, depois voltou a se esfregar enquanto dizia.

— Por que não chegas de uma vez? O que ganhas me observando escondido? Não tenho nada para esconder nem nada de que me envergonhar. Vem. Sei que queres falar comigo. Então, faze-o de uma vez.

Belphegor ou Satanás, o Senhor das Trevas.

Belphegor ou Satanás, o Senhor das Trevas.

Uma sombra se desprendeu de dentro das sombras dos arbustos e avançou sobre as águas como se fosse uma fumaça negra na forma de um corpo humano. Veio postar-se diante de Yehoshua que não lhe deu a mínima atenção e continuou o que fazia cantarolando baixinho um hino em louvor ao seu Pai Celestial.

— Não tens respeito por tua visita, Yehoshua? Ou devo chamar-te Issa? Talvez Michael?

— Chamas-me como queiras. O que desejas de mim?

— De ti? Nada! Exceto conversar, se me permitires.

— Não te chamei? Eu sei que tu queres conversar. Então, começa. Estou mesmo precisando de falar um pouco.

— És o Rei dos Reis. Por que, então, tu te escondes dessa corja de tolos, os homens, fingindo ser um deles? Por que não tomas comigo as rédeas deste reino maravilhoso em que te encontras, agora? Vejo que gostas muito de meu território e até agradeces ao Criador ter-te permitido vir gozar de tudo o que é dele. Então, fica de uma vez aqui e assume as riquezas que meu mundo te pode oferecer. 

Yehoshua parou de se esfregar e olhou dentro dos dois pontos luminosos e vermelhos que brilhavam no meio da bola que seria a cabeça daquele abantesma.

— Ora, tu me ofereces o teu Reino? Tu me dás a Terra?!

— Sim, também ela será teu se me aceitares como teu senhor. Só a mim servirás. Que tal? Não é uma proposta tentadora? Se aceitares minha proposta, dou-te permissão para usufruir de minhas imensas riquezas como bem te aprouver.

Yehoshua soltou uma gargalhada divertida.

— És o senhor da Escuridão, Belphegor. A Ti meu Pai entregou a Terra, os animais, as plantas e os homens e te deu toda a liberdade de os tentares por todos os meios. Se vencerem tuas tremendas forças, ascenderão ao meu Reino. Por que achas que eu desceria a te servir?

— Porque vejo que tu te apaixonaste não somente pelos homens e suas pequenezas, como também pela Terra, este paraíso que durará infinitamente.

Novamente Yehoshua soltou uma gargalhada divertida. Ainda rindo, levantou-se e se vestiu. Depois, veio novamente sentar-se diante da estranha aparição.

— E vejo mais. Vejo que tu tentas tolamente ensinar aos homens o que eu jamais permitirei que aprendam. Estás desperdiçando tempo à-toa. Eu comando a Alma dos homens. Comando toda a Terra e seus seres viventes. Suas vidas me pertencem. Mas eu estou disposto a dá-las todas a ti, satisfazendo, assim, tua gula de Poder e Dominação, se tu concordares em ser meu servo. É tão pouco o que te peço, em troca do que te dou! Já viste o brilho do ouro, como fascina? Já miraste o brilho das pedras preciosas? Se já, diz-me com sinceridade, não te sentiste atraído por elas? Não mintas, pois também eu posso ver a mentira nos outros. E posso vê-la mais que tu, pois ela é um de meus muitos produtos com que premio os homens sobre a Terra.

O abantesma fez um largo gesto com o que seria seu braço e sua mão e imediatamente Yehoshua se viu cercado por faiscantes gemas coloridas. A pedra onde se sentava virou um trono de ouro puro cravejado de pedras preciosas. Yehoshua não se dignou a olhar para aquilo e se manteve tranqüilo, mirando no que seriam os olhos vermelhos da aparição.

— Por acaso, Belphegor, tu me viste alguma vez usando qualquer coisa destas que mostras? Por acaso tu viste em meu coração o desejo por estas coisas que não têm qualquer valor diante do Eterno?

— Não. Ainda não vi. Mas se tu te decidires a provar do que elas te podem dar diante dos reinos de meu mundo, certamente irás gostar de tê-las. Palácios maravilhosos e até reinos tu poderás conquistar com elas. Os exércitos mais numerosos e de guerreiros mais valentes se colocarão ao teu dispor num piscar de olhos. A riqueza, Yehoshua, compra tudo…

— É… Talvez tenhas razão no que diz respeito aos homens, mas isto não vale para mim, Belphegor. Já olhaste para o céu sem luar, à noite? Já viste a imensidão de jóias que brilham na abóbada celeste? Pois bem, em verdade te digo que sou o dono de tudo aquilo e, ainda assim, a cobiça não vinga em meu coração. Estou muito acima destas emoções mesquinhas, dignas somente de seres como tu.

— Falas de mim com desprezo, Yehoshua. Mas foi Teu Pai quem também me criou, logo, tu e eu somos irmãos queiras ou não.

— Eu sou a Luz; tu és a Treva. Tu és minha sombra, Belphegor, e a sombra é a negação da Luz. E só um louco se deixa fascinar por sua sombra.

—Dizes a verdade, Yehoshua. Não posso negar isto.  Mas os homens, a quem vieste tentar conquistar para teu lado, vivem em mim, na tua sombra. E sempre viverão, podes crer. Jamais permitirei que tu, com teus ensinamentos errados, tolos, mos tires de meu domínio.

— Os homens vivem em ti e sempre viverão enquanto estiverem mergulhados na Ignorância do que seja a real origem de todos eles. É contra esta ignorância que vim me bater. É contra a escuridão da Alma Mortal dos homens que eu vim me contrapor.

Pelos séculos que durar o Manvantara em que estamos, Yehoshua e Belphegor  se empenharão numa luta sem tréguas.

Pelos séculos que durar o Manvantara em que estamos, Yehoshua e Belphegor se empenharão numa luta sem tréguas.

— Inutilmente, Yehoshua. Eu sou o Senhor disto a que chamas Alma Mortal. Eu reino soberano nas Emoções que originam, moldam e dirigem as idéias e os pensamentos da Alma Mortal. Neste território eu sou senhor absoluto. Nunca me vencerás nesta luta. Os homens serão sempre meus. Farão o que eu quiser e como eu quiser. Não se voltarão para ti e se alguns deles ousarem isto, eu os confundirei. Tu não queres igrejas em teu louvor. Ora, isto é maravilhoso para mim, pois levarei os homens a construírem milhares delas, de todos os formatos e com os mais variados ritos. Eles se perderão de ti e quanto mais te procurarem, mais distantes ficarão. Eu não permitirei que te encontrem. Vê, o povo entre os quais escolheste nascer, tem a Lei escrita que é o caminho certo para Teu Reino. No entanto, eu enchi de avareza os corações dos que deviam interpretá-las e ensiná-las corretamente. E eles passaram a transmiti-las de modo confuso, movidos pela avareza e pela ganância de suas Almas. Avareza e ganância alimentadas pelo Desejo de Dominação. Tolos e cegos. Não são capazes de entender a verdade: suas vidinhas miseráveis duram muito pouco na carne. Passarão a maior parte delas em minha companhia. E chorarão amargamente seus desvarios, pois sou o Carrasco que deve puni-los atrozmente pelos erros que cometeram… E eu me aprazo com seus desesperos e suas dores. Os erros…

— …dos quais és tu o responsável, não eles — cortou Issa. — E pagarás por isto, Belphegor. Tu serás um milhão de vezes mais duramente cobrado pelos erros deles que eles mesmos. E te garanto: pode levar o tempo que for, eu resgatarei cada um deles para mim.

— Não farás isto, pois já puseste o pé em meu reino, esqueceste?

— E quando fiz isto?

— Quando tu te casaste e te uniste na carne a uma mulher. Tu a amas, amas àquela carne tenra e desejosa. Tu já começaste a te escravizar a mim, Yehoshua. Tu já deste o primeiro passo para te distanciares de Teu Reino, que na verdade não é teu, mas de teu Pai.

— Míriam de Magdala é especial. Não é uma mortal comum. Eu não poderia conubiar-me com uma mulher comum, cega de coração. Ela deixou de pertencer ao teu reino, desde há muito tempo. E isto prova que tu te enganas. Quem assim quiser, pode escapar facilmente de teu domínio, e sabes por que? Porque tu não existes de verdade. És Mâyâ, és ilusão. És apenas um pesadelo que a humanidade sonha…

— Um pesadelo do qual nunca despertarão, eu posso te garantir isto. Tua Míriam, Yehoshua, ainda está sob meu domínio e eu vi que tu gostaste muito de provar dos prazeres da carne com ela. O leito te foi tão ou mais agradável que aos homens comuns. Então, tu gostas do prazer carnal. Aprendeste isto com uma de minhas filhas diletas…

Novamente Yehoshua soltou uma gargalhada e foi entre risos que falou.

— Ora, Belphegor, vim a este mundo conhecer todas as tuas tentações. A carne é a mais forte de todas. Eu precisava de alguém com quem experienciar o poder da carne sobre a Alma Mortal. Por isto escolhi Míriam de Magdala para me mostrar isto. Se não fosse assim, como poderia saber de teu poder sobre os homens? Claro que este corpo físico gostou imensamente do prazer do leito conjugal. E gostou mais ainda dos carinhos e da paixão que despertou em outro corpo físico, pois o Desejo e a Sensação pertencem integralmente a ambos. Mas minha Alma e a de minha Esposa não se conspurcaram na luxúria mental. Descobri que é possível sacralizar o coito praticando-o sem malícia e sem impulsos animalescos. É isto que faz a diferença. Nós dois, ela e eu, não aviltamos o prazer. Ao contrário, nós ambos desfrutamos dele e pude ver quer o sexo é o caminho mais curto que o homem comum pode ter para encontrar a porta de saída de teu reino de escuridão. É fácil. Basta Amar de Verdade. E se queres saber, nem de longe tu estiveste por lá naquelas noites gostosas.

— Claro que não, ora. Teu empregado arrogante cuidava para que eu não me aproximasse de vós. Eu detesto esse Gabriel e seus irmãos, Miguel e Raphael. São três intrometidos. Se decidires aceitar minha proposta, exigirei que tu te livres deles. Esta é minha única condição.

— Tu me exigirás?! Não estás passando a carroça à frente dos bois, não?

— Perdoa-me. Tu ainda és o Senhor, entre nós dois. Mas, como eu te disse, estás no meu Reino e aqui quem manda sou eu. Este Reino é totalmente meu por determinação de teu Pai. Então, aqui, o Senhor sou eu. Não posso contra ti, mas tu não podes desorganizar meu reino. E sabes disto. Quem aqui adentra fica imediatamente sob meu domínio. Até tu…

— Eu não pretendo desorganizar teu reino e te enganas se pensas que estou sob teu domínio. Se é o Medo a mim o que te preocupa, vai em paz. Volta para tua escuridão e me deixa sob a linda luz do Sol, que, a propósito, é criação de meu Pai. Já viste o quanto és fraco? Tu não podes andar pela luz…

— O Sol não me interessa. Não há nada nele que possa me despertar a atenção, exceto, é claro, o fogo. Mas aqui também eu tenho o fogo de que necessito. O meu Reino é bem quente e gosto muito disto. Se tu o conheceres, saberás a razão pela qual gosto tanto do fogo. Mas o fogo de que mais gosto é o das paixões que vou despertando cada vez mais no coração daquela que devia ser a criação suprema de Teu Pai, Yehoshua. O fogo da cobiça, o fogo da ganância, o fogo da usura, o fogo do egoísmo e o fogo da mentira. Destes cinco fogos nascem incêndios que um dia levarão todas as Almas à hecatombe final e, aí, todas serão recolhidas por mim, ao meu verdadeiro reino. 

Yehoshua calou-se e olhou ao redor. Ainda estava sobre diamantes, rubis, safiras e uma infinidade de outras gemas preciosas. Ainda estava sentado em um trono de ouro cravejado de rubis e esmeraldas. Com um simples gesto de mão ele tornou o ambiente ao que era, antes da chegada de Belphegor. Então, virando-se para este, com voz imperiosa, ordenou:

— Chega! Já não há mais graça em ti ouvir. Vai-te de minha presença. Tu és ousado até à temeridade. Não podes me tentar, Demônio. Não estou ao teu alcance. És apenas minha sombra e ninguém se curva à sua sombra, nem o mais demente dos homens. Agora, retira-te que tua presença me insulta!

— Ouve bem, Yehoshua. Eu me vou. Mas não vai demorar, ainda antes de findar este dia, um de teus irmãos será meu. Por não me aceitares, eu mesmo vou recebê-lo, quando partir da carne para a Alma. Tu tens até o final do dia para que eu reverta esta condição d’ele. E não podes interferir, pois este é o karma negativo que ele vem desenvolvendo e tem de cumprir e este tipo de karma é todo de minha competência fazer que se cumpra. No entanto, se aceitares que eu o salve, então, tu te associarás a mim e esta condição nem teu pai poderá reverter.

Com um rugido que fez a terra tremer a forma escura se esvaneceu e desapareceu. Yehoshua permaneceu quieto, mirando a pedra sob seus pés. As últimas palavras e Belphegor o pegaram de surpresa. Estava pensando nelas e se sentindo muito perturbado consigo mesmo. O Demônio tinha razão. Se um homem alimenta seu karma negro, o mais pesado e o mais cego que ele pode criar, então, está além do alcance de seu socorro. O homem nestas condições não pode ouvi-lo e não pode sentir sua excelsa presença. O homem, então, se perde.

Gabriel surgiu diante do Mestre e lhe falou.

— Ouvi tudo e me mantive longe porque assim era teu desejo. Mas o Demônio está certo. Judas, teu irmão, está perto de se meter em grande encrenca. No entanto, se queres, eu poderei interferir nisto e salvá-lo da perdição.

— Tenho dito: quem planta vento colhe tempestades; quem semeia ódio, colhe guerras. E isto é válido até para os filhos de minha mãe com meu pai carnal. Assim, Judas, meu irmão, deverá fazer sua opção nesta vida. No entanto, se Belphegor ganhar esta disputa, quando eu me for; quando meu espírito deixar a carne, então levarei comigo o de meu irmão, pois sei que até lá ele já terá chorado todo amargor do seu arrependimento e a Luz se terá feito em seu Espírito, apesar dos esforços do Demônio. Assim está escrito e assim será.

Gabriel permaneceu observando Yehoshua, na face de quem uma lágrima rolou. Então, com um cumprimento respeitoso, o Arcanjo se foi.

Longe dali, já próximo da hora nona (três horas da tarde), Judas e o monge estavam na agitada feira da vilazinha próxima ao mosteiro. O monge ia escolhendo o que lhe interessava, pagava, e Judas arrumava as compras do melhor modo dentro dos grandes jacás que a mula carregava. Quando, finalmente, o monge se deu por satisfeito, com um aceno de cabeça chamou Judas para se irem. Os dois começaram a sair da feira e quando já estavam chegando ao seu final, Judas, que olhava para trás, para a mula, deu um tremendo encontrão em alguém. Voltou-se com cara de poucos amigos para olhar em quem batera. Era um guerreiro mongol. Forte, tão forte quanto ele mesmo, o homem também o olhou raivoso.

— O que diabos estás fazendo, infeliz? Não olhas por onde andas?!

— Não ouses falar assim comigo, goin. És meu inferior. Eu sou da raça superior a todas as raças. Quando tu me dirigires a palavra deves olhar para o solo, que é teu lugar!

Os olhos do mongol fuzilaram de raiva e logo o monge e o imprudente Judas se viram cercados por homens aguerridos, todos prontos a matar. Mas o irmão de Yehoshua era demasiadamente arrogante e demasiadamente crente na superioridade de sua raça e não demonstrou senão arrogância diante dos brutais mongóis.

— Vais morrer pelo que disseste, estúpido! — Rugiu o mongol sacando da espada. Mas antes que seu braço terminasse o saque, Judas se atirou de ombro sobre seu peito e o jogou ao chão. A espada voou longe e o mongol, surpreso, rodou rapidamente no solo para escapar dos pontapés furiosos que Judas lhe desferia. Ao mesmo tempo, sacava do punhal de lâmina fina e fio cortante. Ao se pôr de pé já estava com a arma colada no pulso, escondendo-a das vistas de furioso agressor. Judas partiu para cima do mongol e se atracou com ele. Aos empurrões eles rodaram sobre si mesmos, um tentando derrubar o outro. Parado, segurando as rédeas da mula, o monge assistia impassível o combate mortal entre os dois titãs. Num dado momento o braço do mongol que segurava o punhal se soltou da mão de ferro que o segurava e num segundo a lâmina afundou na lateral do corpo de Judas. Este soltou um gemido abafado, mas aproveitou-se da parada momentânea que o mongol fez para olhá-lo vitorioso e com toda a fúria da dor enfiou os dedos sob a garganta do gigante de olhos rasgados e lhe arrancou do pescoço o pomo de Adão. O mongol gorgolejou, arregalou os olhos, desgrudou-se de Judas e andou sem destino, passos cambaleantes e sem conseguir emitir som nenhum pela boca desmesuradamente aberta, por onde jorros fortes de sangue eram lançados para fora. Ele se dirigiu para o lado de seus companheiros, mas tombou ao solo antes de os alcançar. Judas, por sua vez, curvou-se sobre si mesmo e caiu de joelhos, o sangue jorrando abundantemente da ferida que o punhal lhe abrira. A arma lhe atravessara o pulmão esquerdo e a hemorragia era grande. Judas olhou para o monge, sem conseguir respirar direito e caiu também ao solo. Sua visão foi-se escurecendo. A dor, esmorecendo e desaparecendo, na medida em que as sensações também iam deixando de existir. 

E o irmão de Yehoshua mergulhou numa escuridão sem dores nem nada…