Capítulo IV – Atiçando o Chefe (Última Parte)

 

Líderes sujos, como este, que polarizou consciências e emoções, criram o Astrossoma da Cidade Maravilhosa e este Astrossoma vai levar ao desastre aqui narrado.

Líderes sujos, como este, que polarizou consciências e emoções, criaram o Astrossoma da Cidade Maravilhosa e este Astrossoma vai levar ao desastre aqui narrado.

                   Tamara e Franco passam o dia zanzando pelo Fórum, porém não viram nem sinal do homem que procuravam.

                   — O que terá acontecido? — perguntou ela ao seu colega.

                   — Não faço a mínima idéia — disse Franco. — Você repa­rou que também Kantor está sumido? Acho que isto confirma nossas sus­peitas: eles são ou amigos, ou o bonitão está na cola do marginal. Se é isto, a pergunta é: será ele um Federal?

                   — Um federal teria notado você — disse Tamara, cética. — Não acho que seja da polícia.

                   — A propósito — disse Franco — seu celular está chamando. Não vai atender?

                   Tamara sorriu e tirou o telefone da bolsa.

                   — Alô? … Ludi! O que há?

                   Ficou ouvindo, fazendo “hum-huns” a intervalos curtos. Depois falou demonstrando certa desconfiança.

                   — Não, minha amiga, eu não creio que deva ir lá. Nem de polícia, nem de repórter… Não sei não, mas isto não me cheira bem. Kamuratti é amigo dos ricos e esse sujeitinho é milionário. Pode estar armando uma pra cima de você e de sua parceira… Como? Ela não mais é sua parceira?… Que pena! Eu tinha gostado dela, apesar de ser muito, mas muito crua nisso… O quê? Eeeuuu? … Está bem, vamos-nos encontrar dentro de… — olhou o relógio — uma hora e trinta minutos. Pode ser no Amarelinho, que tal?… Então, tudo bem.

                   — O que ela quer? — indagou Franco, curioso.

                   — Sarna para se coçar — respondeu Tamara.

                   — E de onde vem essa sarna?

                   — Dos Kamuratti.

                   — Fiuuu! — assoviou Franco — Ludmila anda mexendo neste vespeiro?

                   — Se anda. E o melhor: me chamou para mexer junto.

                   — Você não vai… Ou vai?

                   — O Sol vai brilhar amanhã? — respondeu Tamara — É claro, “seo” boboca. Vou e você vai comigo.

                   — Logo eu? — chacoteou o rapaz.

                   — Logo você. Se eu morrer, não quero deixá-lo infeliz e sofrendo as dores da saudade. Você vai comigo.

                   — Pro céu ou…?

                   — Talvez pro ou, quem sabe?

                   — Bem, dizem que no “ou” a gente pode… Sabe como é, a gente faz fuc-fuc…

                   — É, lá deve ter uma porção esperando por você, “seo” tarado sem-vergonha. Agora, vamos andando.

                   — Mas é cedo.

                   — Nem tanto. O trânsito está uma droga e nós vamos a pé.

                   — Vai desistir de encontrar o “bonitão”?

                   — Não. Vou somente adiar. Eles deverão voltar a apare­cer e, então, nós colamos nos danados.

                   — Nós?

                   — Sim. De agora em diante, você não vai andar por aí fotografando machões bonitões sozinho, não.

                   — Pois eu prefiro assim — e começaram a andar — Não quero ver você se desmiliguindo por um deles. Eu mataria o safado, pode acreditar.

                   — Deixa estar que eu acredito — zombou Tamara.

                   E brincando e rindo, lá se foram os dois rumo à Cinelândia, sem pressa nenhuma. Tinham tempo.

                   Mara estava de mau humor. Diante de seu superior hierárquico, reclama­va de ter recebido ordens de regressar ao seu posto natural.

                   — Mas o que há? — estranhou Faleros. — Você detestava a Ludmila e, agora, briga para continuar na companhia dela? Eu não estou entendendo. O que há com você, Mara? Você não gosta da Policial. To­do mundo tá cansado de saber disto aqui, na redação. Que paixonite é essa, agora, quer explicar-me?­

                   — A gente pode mudar de opinião, não pode? Eu gostei de começar a trabalhar no caso do tal de Anteu Kamuratti. E quero ir até o fim. É so­mente isso.

                   Jasão Faleros considerou, silencioso, a sua repórter. O que ela dizia era plausível, mas ele não podia admitir que fosse a verdade, naquele caso específico.

                   — Mara disse — você saiu das sociais e foi para o “Mausoléu”. Agora…

                   — Eu não fui para o “Mausoléu”. Não ainda.

                   — Errado. Você pediu sua transferência para lá. E fez isto em sigilo, o que muito me chateou.

                   — A transferência chegou?

                   — Ainda não. Eu coloquei uma pedrinha nela, sabia?

                   — E por que fez isto?

                   — Você acha que eu ia perder minha melhor repórter social assim, sem mais aquela?

                   — Você não tem somente eu na social, droga! E quero ir para o “Mausoléu”  porque tenho meus motivos.

                   — Pode ser. Mas em primeiro lugar estão os motivos e os interesses do jornal e do público. Está esquecendo-se disto?

                   — Não. Mas quem lhe disse que o que eu procuro não é do interesse do público, hein?

                   — Ninguém, porque ninguém sabe do que se trata. Talvez a gente possa, quem sabe? entrar num acordo. Você me conta do que se trata. Se real­mente puder interessar ao público…

                   — Nunca! É segredo pessoal — disse Mara impulsivamente. Jasão ficou a olhá-la com uma interrogação na face. “Droga”! — pensou a repórter arrependida de ter falado — “eu levantei a lebre.”

                   — Segredo pessoal… Segredo pessoal… Isto é muito intrigante, não acha colega? Que segredo é esse que põe você para esquecer que pa­ra o jornal o público vem primeiro que tudo?

                   — Nada. Mas eu não estou interessada em discutir o “Mausoléu”. O que me interessa é saber se você vai ou não, me deixar junto com Ludmila e Karina — desconversou a repórter.

                   — Não. As duas estão muito bem, juntas.

                   E Jasão voltou a sentar-se mergulhando na papelada e dando clara demonstração de que o assunto estava encerrado.

                   “Isto não vai ficar assim, não.” E Mara se retirou em brasas. Estava realmente contrariada. Não podia ser transferida para onde queria e não podia estar junto com Ludmila. Isto era horrível. O seu chefe não sabia onde as duas tinham-se metido e não podia compre­ender que, longe de Ludmila, Mara seria uma presa fácil para os com­parsas de Kamuratti. Pelo menos era assim que a moça pensava. Estava desolada. Voltou para sua mesa e ficou a dar tratos à bola para encontrar uma saída. Como participar da investigação? Como estar junto com as outras e saber das novidades e de como fazer para se proteger? Seus olhos caíram sobre a mesa. Algumas notas estavam espalhadas sobre ela. Olhou-as desinteressadamente, com fastio. Um baile de debutantes… Um “conaisseur” em visita à cidade, uma vernissage… Um cruzeiro pelas Antilhas que Milena Forcis pre­tendia fazer antes de seu noivado ser oficializado… Milena Forcis? Aquele nome não lhe era estranho. Milena… Milena… Ah! Era a garo­ta do bar. A que estava acompanhando o “play-boy” da moda quando fo­ram perseguidas pelos capangas dos Kamuratti.

                   Mara levantou-se e se dirigiu para a mesa de Jasão. Ele a olhou desconfiado.

                   — Vou fazer uma cobertura — anunciou ela.

                   — É sobre o quê? — indagou ele, arredio.

                   — A ricaça Milena Forcis. Ela vai fazer um cruzeiro. Parece que é pelas Antilhas. Vou entrevistá-la.

                   — Ótima idéia — disse Jasão animado — Ela é a “socialite” mais em moda no momento.

                   Mara olhou-o com um ar de deboche e saiu.

                   “Ela está aprontando. Tenho certeza de que está. Mas o que terá em mente?” — pensou Jasão enquanto acompanhava com o olhar a saída decidida de Mara.