Droga! A velhice é mesmo uma merda!!!

Droga! A velhice é mesmo uma merda!!!

Fui ao supermercado. Estou “pra baixo”; mais pra baixo que cu de cobra e na verdade nem sei dizer a razão. Mas é certo que ando de crista baixa. Muita coisa me decepciona. Queria fugir deste mundo e ir morar num planeta preferentemente em outra galáxia que não a Via Láctea. E quando estou de “crista baixa” é o pior momento para ser provocado, pois fico irritadiço que nem mulher em menopausa. Me olhou de cara feia já está na linha do pênalti. Por isto, não encaro os outros e ando olhando para o chão, a fim de não explodir à-toa.

Estou perambulando por entre as gôndolas danado da vida comigo mesmo porque esqueci a razão de  ter ido até ali. O que diabos eu queria mesmo comprar? Não me lembrava. No entanto, quando saí de casa, aquilo me parecia de grande premência.

Um dos raros comentaristas e homem culto que admiro de todo coração.

Um dos raros comentaristas e homem culto que admiro de todo coração.

Deixei a TVzona ligada n TV Câmara, onde um debate estúpido sobre LIBERDADE DE EXPRESSÃO estava sendo levado ao ar. Emproados doutores universitários, que não vivem senão em um mundo teórico, à parte da vida dos Zé Nings como eu, deitavam falação de ora veja pois pois” e nada diziam de aproveitável. A censura continua firme e forte, principalmente na Imprensa dita Livre. Eu, por exemplo, sou sempre censurado quando faço qualquer comentário a algum artigo publicado na Folha de São Paulo. Nunca sou publicado imediatamente. Minhas críticas, que não contêm nem insultos, nem xingamentos, nem palavrões, nem ironias, mas são escritas escorreitamente, obedecendo ao politicamente correto, sempre devem ser submetidas à censura prévia “porque contêm palavras inadequadas blá-blá-blá. Imagina se aqueles idiotas censores lessem o que escrevo aqui…

Alguém toca em meu ombro. Volto-me e dou de cara com um pastor evangélico que conheço de meu bairro. Está todo mesuroso e delicado.

 — Desculpe-me, doutor, mas eu li seu último artigo e fiquei preocupado. O senhor está mesmo pensando em deixar de escrever seu blog?

— Estou — respondi voltando a olhar as coisas nas gôndolas, ainda tentando fazer que minha memória caduca voltasse a funcionar. Sem sucesso.

— Eu… Eu gostaria de lhe pedir que desconsiderasse essa sua opção — disse o homem. Voltei-me para ele com curiosidade.

— Por que?

Seguidores evangélicos são emburrecidos e agem como este animal.

Seguidores evangélicos são emburrecidos e agem como este animal.

— Sou seu leitor e muito do que o senhor escreve eu coloco em discussão entre meu rebanho.

— Ovelhas são burras. Não adianta colocar nada para elas. Claro que não pisam nas pérolas, como fazem os porcos, mas nem olham para o que se lhes coloca, caro pastor. Simplesmente se limitam a seguir o pastor e pronto. Isto já lhes basta. De certo modo, ovelhas são como filiados a partidos políticos. Não têm olhos de ver nem ouvidos de ouvir.

Ele sorriu.

— Cita a Bíblia, apesar de dizer que não a lê. Gostei disto.

“Vá à merda!” pensei comigo mesmo, mas me censurei. O homem não me estava provocando, portanto, ainda não merecia uma resposta atravessada. Mas se escorregasse…

— Posso-lhe perguntar de que religião o senhor é?

Um congá de Umbanda.

Um congá de Umbanda.

Desta vez eu me voltei para ele pronto para matá-lo. Com raiva, respondi: Sou Umbandista. Por que?

Sem se deixar impressionar pela raiva que deve ter percebido em meu olhar assassino, ele respondeu com outra pergunta.

— Se não me engano, o senhor tem dito que é Teosofista. Como, agora, me diz que é Umbandista?

— Ora, a Teosofia busca explicar a origem de tudo. Busca esclarecer as perguntas fundamentais dos humanos que ainda pensam em coisas sérias: de onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Como surgiu o Universo? Que Leis Verdadeiras o Regem? Qual o significado e a magia que há nos símbolos? A Umbanda não se preocupa com isto, mas sim em pregar e praticar os ensinamentos do Cristo Maytréia, quando este esteve entre nós na sua projeção humana, conhecido em sua religião e por todos os que se dizem cristãos como Jesus, mas que foi batizado por João com o nome de Yehoshua. A Umbanda vai ao necessitado e os ajuda, tanto espiritualmente quanto fisicamente. E Recebe a todos de portas abertas. Não fazem como certos pastores que, para prestar auxílio, exigem primeiro o pagamento do dízimo. A Caridade não se vende. Doa-se.

Ele tinha parado de sorrir e me ouvia atentamente. Propositada e estudadamente não aceitou minha provocação, o que me irritou mais ainda.

— Eu não sabia desta distinção. Quer dizer que os Umbandistas são verdadeiramente cristãos? Mas eles cultuam entidades inferiores, até o demônio ao qual chamam Exu.

“O peste não me dá chance de o mandar à merda!” — Exu não tem nada haver com o que vocês, falsos cristãos, pensam que seja o Demônio. Exu faz parte de uma falange que trabalha também para o Cristo.

O homem arregalou os olhos. Ele é meu vizinho de bairro, mas me pediu insistentemente que não publicasse seu nome aqui. Eu assenti com um gesto de cabeça. “Se teme que eu lhe mencione em meu blog, como pode ser meu seguidor?” pensei, voltando-me pela última vez para olhar as mercadorias naquele esforço malfadado para me lembrar do que fôra comprar.

— Doutor, Jesus condenou os que praticavam bruxarias. Os umbandistas não fazem isto? Eles não sacrificam animais em oferenda a seus deuses?

— Não. Quem faz isto é o falso Candomblé brasileiro, misto de Vodu haitiano e Candomblé africano. É certo que alguns “Pais e Mães de Santo” umbandistas estão mais perdidos que cego em tiroteio e misturam alhos com bugalhos. Assim como em sua religião há os que vendem o Cristo a retalho e a Ele estupidamente tentam se igualar dizendo que fazem milagres até pela televisão.

— É… Isto é verdade, para a vergonha do Evangelismo. Mas não podemos condenar toda uma cesta de uvas só porque entre elas há algumas podres, não é mesmo?

— Hum-hum — fiz eu, sem grande entusiasmo.

— Mas… Posso perguntar uma coisa?

— Pergunte.

Belphegor ou Satanás, o Senhor das Trevas. Ele é mais complexo de se explicar que o próprio Yehoshua.

Belphegor ou Satanás, o Senhor das Trevas. Ele é mais complexo de se explicar que o próprio Yehoshua. Notem a conotação do catolicismo arcaico: só mulheres nuas ao redor de Satanás. Sabe a razão disto?

— O senhor acredita em Satã? Quero dizer: acredita que ele exista realmente, no Espaço, como uma entidade que se opõe ao Cristo e ao Bem?

Parei de procurar o que não conseguia me lembrar e me voltei para o homem. Agora, ele me merecia atenção. Ao menos, um pouco. Afinal, não estava sendo nem provocativo nem insultuoso. Eu é que estava raivoso sem saber o motivo. Andropausa, talvez.

— Não. Eu não creio no tal de Satã. Ele não existe como uma entidade real, um anjo caído que se opõe a Deus. Nada, absolutamente Nada pode opor-se ao Criador de tudo. Até porque, se o tal Satã existisse, ele seria também filho de Deus e um filho do Criador Amoroso não pode ser desamoroso nem mau, simplesmente porque seu Criador não tem Maldade em si.

— Então, quem é Satã?

— Você. Eu. Os polititicas brasileiros. Todos os seres humanos, enfim.

— Mas isto é um contra-senso — protestou ele. — Somos criaturas de Deus; fomos criados por Ele. E o senhor acabou de dizer que quem é sua criação não pode ser endemoninhado porque o Criador não tem o Mal em si.

"Isto é preconceito contra nossa classe!"

“Isto é preconceito contra nossa classe!”

— Não, não tem. Mas Ele nos concedeu o livre arbítrio para pensar, imaginar e criar. E este é nosso grande desafio. Ele também nos deu as Emoções para que pudéssemos nos defender de ataques ferozes de animais inferiores. Imaginação+Emoção = Criatividade. E nós desenvolvemos uma psiquê que não aceita gestalt aberta. Gestalt é uma palavra alemã que significa forma. Uma forma aberta é uma mensagem incompleta. Por exemplo: se eu lhe digo: Todo político é….” Certamente o senhor não completará esta oração com palavras como honesto, bom, sincero etc… O senhor terá a tendência a dizer quase num impulso…

— … corrupto e falso — completou ele, sorrindo.

— Viu só? O senhor fechou a gestalt que eu tinha deixado em aberto.

— Entendi.

Eis Iansã, a rainha dos raios e das tempestades.

Eis Iansã, a rainha dos raios e das tempestades na crença dos negros africanos.

— Nossa psique não aceita gestalt aberta. Por isto é que antigamente os homens apelavam para a criação de Deuses a fim de se explicarem fenômenos comuns e banais, para nós, hoje, que já possuímos o conhecimento deles, como o trovão, os raios, as tempestades, por exemplo. A maioria das doenças psicossomáticas, mentais ou deformantes, que hoje a Medicina não somente explica como trata, no tempo de Yehoshua eram entendidas como manifestações demoníacas e aqueles que delas sofriam eram imediatamente estigmatizados e até lapidados pelos assustados cidadãos hebreus. Yehoshua curava não para fazer milagres, mas simplesmente porque sua aura divina era tão poderosa que a imperfeição, perto dela ou por ela envolvida, imediatamente se tornava perfeita. Um exemplo foi a cura da mulher que lhe tocou a barra da túnica, quando ele passava seguido por uma multidão. Ele nem viu quem fizera aquilo, mas sentiu a aura doentia da desconhecida. Entendeu?

— Aura?! Isto não é uma designação da Psiquiatria para estados pré-epilépticos?

— Também. Mas no Ocultismo Teosófico, Aura é a Luz que um Espírito Imortal emana de si para todo o seu Ovo Áurico… O senhor sabe o que é isto?

— Sei. O senhor já explicou o Ovo Áurico muito claramente em seus artigos.

— Pois bem, a aura que emanava de Yehoshua era imensamente poderosa e podia envolver uma multidão de dez ou cem mil pessoas que estivessem ao seu redor. Elas eram, então, poderosamente influenciadas pela Aura do Mestre e se curavam de seus males, quer espirituais, quer psíquicos, quer físicos. Era um processo natural para Ele, mas totalmente incompreendido pelos que o viam e ouviam.

Uma mulher se aproximou toda alegre porque via seu pastor. Com ela, mas duas. Aproveitei para me despedir rapidinho do sujeito. Mas ele, antes que eu me fosse, me disse em voz baixa:

— Por favor, fale mais sobre a aura humana em seus escritos. Isto é muito importante.

Assenti com a cabeça, sem muita convicção e vim embora, frustrado porque não me tinha recordado do que tinha ido comprar. Mas quando entrei em casa e a Atena me lambeu a perna da calça é que me lembrei. Eu não devia ter ido ao supermercado. Eu devia ter ido à farmácia comprar remédio para o corte em minha perna.

Merda! Ser velho é um porre!