CAPITULO VI  –  A VELHA DAMA

O pensamento religioso dos tempos antigos ainda vigoram com força na atualidade hebraica.

O pensamento religioso dos tempos antigos ainda vigora com força na atualidade hebraica.

Fazia dez minutos que tinham chegado ao Amarelinho e estavam na metade do chope quando Ludimila apareceu.

— Chegou cedo – disse Tamara.

 — Oi! – cumprimentou Ludmila.

— Oi! – respondeu Franco, erguendo-se e puxando a cadeira para a repórter de “EL MONDO” sentar.

— Obrigada, Franco. Um chope pra mim também – disse ao gar­çon que se aproximara.

 — E então? – indagou Tamara. – O que resolveu?

— Resolvi que vou ao encontro – respondeu Ludmila.

— Está doida? Vai entrar na cova do leão. E se o tal sujeito que perseguiu vocês estiver lá?

— O que a faz pensar que esteja?

— Luis Filipe é amigo dos Kamuratti. O homem disse que trabalhava para o banqueiro. Some dois mais dois e terá o mesmo resulta­do que eu.

— Pode ser… Vai ser interessante. Eu quero mesmo ver nova­mente aquela fera humana.

— Por que o chama de fera humana? – perguntou Franco.

— Porque ele é isto. Uma fera. Uma fera que fascina, mas uma fera.

— E qual é o interesse em ver a fera de novo? – indagou Tamara. – Não acho que deva expor-se assim.

— Eu preciso. Já cutuquei a cobra na toca. Agora, tenho de acompanhá-la de perto. E para isto é necessário que a faça vir no meu rastro. Você vai comigo, Tamara. Eu não tenho mais a companhia de Mara. Você vai substituí-la.

— Não dá. Nós duas somos muito diferentes. Pra começar, sou jambo e ela é branca. Depois, ela é bem mais alta que eu.

— Tudo bem, tudo bem. O desgraçado não viu nenhuma de nós. A única vez que cruzamos foi no bar, lá na Barra. Eu não creio que tenha fixado nossa imagem. Não era para nós que estava polarizado. De qualquer modo, a gente tem de se arriscar.

— E eu? Onde entro nessa história? Sim, porque vocês não es­tão pensado em me deixar de fora, não é?  Se estão, podem tirar o cavalinho da chuva – disse franco interessado.

— Um fotógrafo? Como explicaríamos a sua presença, meu caro? – indagou Ludmila.

— Não sei. Pensem em algo, ora. Vocês são as patroas. Eu só obedeço.

— Muito cômodo. Mas se lhe acontecer algo, a gente é que vai sentir a culpa – disse Tamara.

— Sei que você me ama perdidamente, gata parda. Mas não ve­nha com esta história de que deseja me proteger, não. Eu não quero você dando sopa perto de uma fera qualquer. Esse material tem de ser meu, tá sacando? – brincou Franco.

— Não brinque, Franco – disse Ludmila muito séria. – O perigo é real.

— Eu não fujo ao perigo, ruivinha tesão.

— Sei que não. Mas não vejo com bons olhos você nos acompanhando até o escritório de Luis Filipe. O que diabo Irina Hesse estaria fazendo com um fotógrafo a tiracolo, hein?

— Mas eu não preciso ir lá. Fico na rua, vigiando. Se tiver alguma sujeira sendo preparada… Chamo o delega e pronto. Quando minha gata parda descer, tudo estará limpinho, limpinho.

— Essa paixão é crônica, não é? – ironizou Lud—mila olhando para Tamara.

— Pior que bronquite, minha cara. Pior que bronquite asmática ­- E Tamara riu divertida.

— Bom, vamos falar sério, agora. Vamos os três. Acho uma excelente idéia o Franco estar lá embaixo escrutando o ambiente. Mas ele tem de chegar separado de nós, tá claro?

— Hum-hum – fizeram os dois, atentos.

— Tamara e eu, devidamente caracterizadas, subimos e nos apre­sentamos ao Dr. Luis Filipe. Mesmo que o tal sujeito esteja lá, não creio que se atreva a tentar alguma coisa contra nós dentro do edifí­cio. Ele certamente vai optar por nos seguir de perto e atacar quando julgar que é o melhor momento. Contudo, se alguma coisa esquisita es­tiver preparada lá embaixo, o Franco nos avisa.

— Como?

— Simples. Você nos chama pelo celular de Tamara. Depois, cha­ma o detetive Damastor. Vocês se conhecem, não conhecem?

— Claro. Aliás, o homem anda que é uma pilha. Também, depois do que fizeram à família de seu compadre…

— Muito bem. Até aqui, tá entendido. Mas e se não houver nada de anormal cá em­baixo e o fera estiver lá em cima? Como agiremos? – indagou Tamara.

— Bem, aí o Franco vai ser muito importante. Ele tem de prepa­rar alguma coisa para nos afastar do homem. E advirto que não vai ser fácil. Ele é uma águia. Para facilitar as coisas, Tamara e eu vamos separar-nos quando chegarmos ao térreo como precaução para o caso de estarmos sendo seguidas. O homem terá de optar por uma de nós – respondeu Ludmila

— Isto não será problema para ele. Não deverá ir só. Um segue você e o outro a Tamara. E eu, como vou fazer? – questionou Franco com o cenho franzido.

— Você segue aquela que o homem seguir – sugeriu Ludmila.

— E a outra?­ – perguntou Tamara.

— Se safa sozinha do assecla. O mais perigoso é o fera. Ele é capaz de matar sem pestanejar – respondeu Ludmila.

— Quem lhe garante que o assecla não seja do mesmo modo?- questionou Franco, duvidoso.

— Ninguém garante. Eu apenas suponho.

— Acho isto muito perigoso – disse Franco, preocupado. – Posso dar uma sugestão?

— Pode. Qual é?

— Se vocês forem seguidas pelo homem, uma sai do edifício, mas a outra permanece lá, de preferência em lugar bem movimentado. Loja A­mericana, por exemplo. O meliante não ousaria atacar diante de uma multidão.

— Boa idéia. Faremos assim. Agora, vamos?

— Vamos.

* * *

Na véspera daquele encontro, um acontecimento funesto tinha acontecido na estranha casa escondida no Alto da Boa Vista. Sete prisioneiras amarradas e amordaçadas, estavam no sombrio e frio salão de reuniões do estranho grupo de Magos Negros, sentadas no chão e presas a argolas para que não pudessem se levantar. Eram mulheres criminosas, quatro delas assassinas e entre estas duas que tinham matado os próprios filhos sem qualquer resquício de culpa. As outras três eram prostitutas que aliciavam menores para satisfação das taras de seus clientes, a maioria políticos corruptos e desequilibrados emocionais. Os vinte e um homens de preto e capuz se dispuseram ao redor da mesa. O Mestre de Cerimônias falou e todos, inclusive as prisioneiras, prestaram atenção ao que dizia.

“Não é do conhecimento geral, mas estamos em transição da era de Peixes para a era de Aquários. Os que falaram sobre isto não faziam a mínima idéia do quanto importante é esta mudança de regência astronômica para o Inconsciente Coletivo da Humanidade. Ao longo de dois  Ayu-kalpa, mais ou menos 200 anos lunares, este planeta estará sofrendo a transição. Durante estes dois séculos tumultuosos, a humanidade deverá sofrer fenômenos já previstos no Visuddhimagga. Alguns países desaparecerão pela ocorrência de três tipos de fenômenos destrutivos e incontroláveis, a saber:

1. Sashthrantha-Kalpa – Extinção em massa por guerras.

2. Durbhikshantha-Kalpa – Extinção em massa por fome.

3. Rogantha-Kalpa – Extinção em massa por peste.

O fenômeno da Ressonância de Schumann.

O fenômeno da Ressonância de Schumann.

Durante os segundo e terceiro fenômenos destrutivos, alguns acontecimentos maus podem ocorrer por ação direta dos homens. Nós estamos prestes a acelerar algum fenômeno que desconhecemos sobre o Estado do Rio de Janeiro. Não temos como controlar alterações intervenientes na Ressonância de Schumann, que, como todos aqui sabem, é um conjunto de picos no espectro da ELF, uma banda de frequências extremamente baixas do espectro do campo eletromagnético terrestre, formado por ondas de ressonância que partem de 55 km abaixo da superfície do planeta e vão até cem quilômetros de altura, atingindo, assim, as camadas inferiores da ionosfera. As radiações eletromagnéticas causadas por tempestades elétricas são fontes das oscilações das ELF. As ressonâncias de Schumann acontecem aleatoriamente na superfície da Terra, ao menos é o que se pensa até agora. Não se sabe o que causa este fenômeno, mas sabe-se muito bem que sua ocorrência tem forte influência não somente nas comunidades humanas por ele abrangidas, afetando suas psiques, como também altera de modo descontrolado a dimensão Tempo, podendo fazer que acontecimentos que temos como “passados” voltem a se sobrepor aos fenômenos do momento presente. Nosso ritual, se aceito pelo Senhor Trevoso, vai acontecer justamente num momento em que a Ressonância de Schumann estará ocorrendo sobre o Rio de Janeiro. Mas eu creio que valerá a pena, se conseguirmos a entrevista com a alma danada de Antíoco Epifanes IV e dele extrairmos os segredos que levou consigo para o Reino da Escuridão. De qualquer modo, fiquem certos de que algo muito estranho, que poderá interferir até com os fenômenos naturais, poderá desabar sobre esta cidade, principalmente sobre ela, onde os Portais da Escuridão foram por nós abertos. Assim, que fique bem claro: se algo der errado, todos que aqui estamos iremos fazer companhia ao rei maldito. Mas já não temos como reverter esta situação.

Ninguém disse nada. Ninguém se moveu, exceto as prisioneiras. Então, depois de esperar por meio minuto, o Mestre de Cerimônias acenou com a cabeça e um dos mascarados encaminhou-se para a fila de prisioneiras. Era um médico. Ele fez uma das moças deitar, enfiou-lhe uma agulha na veia e colocou uma botija de vidro com capacidade para três litros. Deixou que o sangue da mulher escorresse para a botija, enquanto fazia a mesma operação nas outras seis. Quando de todas elas três litros de sangue tinham sido retirados, todas entraram em agonia e coma. Então, com precisão cirúrgica, o médico lhes abriu o tórax e lhes retirou os corações. Estes órgãos foram colocados numa grande tina contendo os vinte e um litros de sangue das assassinadas. O ritual de acendimento do candelabro de sete velas em U foi realizado e o Mestre da Escuridão foi invocado. Ele aceitou a oferta. O ambiente mergulhou numa escuridão impenetrável e gélida. E todos ouviram alguma coisa sugando com prazer o sangue ofertado, ao mesmo tempo em que se ouvia o mastigar dos corações das mulheres assassinadas. Após isto, uma voz cavernosa disse: “Cumpristes bem vossa parte. Então, dentro de 90 dias voltai aqui, a este salão, e eu vos trarei a alma do condenado com a qual desejais falar. Tereis 21 minutos para convencê-la a vos dar o que desejais”. E a luz das velas voltou a brilhar lugubremente naquele ambiente tétrico. 

* * *

Desconhecendo totalmente o que havia ocorrido na sombria mansão e, também, a alteração no campo magnético do fenômeno da Ressonância de Schumann que estava começando a acontecer sobre o território do Estado do Rio de Janeiro, o destino parecia conspirar a favor das aventureiras…

— E não poderá comparecer? – Luis Filipe estava contrariado. A notícia que ouvia ao telefone era a causa disto. Fratelli lhe informava que estava impossibilitado de comparecer ao encontro.

 — E o que faremos se as moças vierem? – perguntou o milionário dono da frota aérea mais famosa do país – Afinal, eu as chamei por sua causa. Eu mesmo não tenho nada a pedir a elas. Não me agrada fi­car com cara de bobo, sabia?

— Ora, Dr. Luis Filipe, o senhor pode perguntar, por exemplo, se as moças consegui­ram descobrir quem eram os seus perseguidores. A­final o senhor me disse que elas lhe tinham deixado a impressão de que tinham mentido…

— Isto não é possível. Eu disse na polícia que necessitava de um favor pessoal delas, esqueceu?

— Bem… – Fratelli pensou rápido. Não podia deixar escapar a oportunidade. – Es­cute, Dr. Filipe. Sua noiva pretende fazer um pas­seio pelas Antilhas, não é?

— Sim, pretende. Por que?

— Bem, que tal o senhor pedir às moças que dêem cobertura à sua noiva?

— Como assim cobertura?

— Bem, o senhor pode dizer que suspeita de que ela corre peri­go de seqüestro, por exemplo. Afinal, ela é uma mulher milionária e no Rio de Janeiro os milionários estão correndo constantemente este perigo – arrazoou o meliante..

— Isto não é um favor pessoal, Dr. Fratelli. A polícia…

— Discordo, Dr. Filipe. Os milionários não gostam de publicidade, principalmente quando se trata de assunto tão… tão delicado. Se o senhor estivesse realmente sob uma tal ameaça, apelaria diretamente para a polícia?

— Hum… Acho que não.

— Então? Eu estou certo.

— Tudo bem. Eu peço isto. Mas o senhor não vai ver nenhuma delas. De que serve isto?

— Não se preocupe. Se conseguir pôr as duas com a atenção vol­tada para a sua noiva, elas certamente estarão rondando a Marina da Glória. Meus… Uns amigos cuidarão de fotografá-las para mim. Daí em diante, a coisa fica por nossa conta.

—  Se é assim…

— Acho que é um meio de a gente não perder as duas trapalhonas de vista.

— E se são realmente polícias federais? Afinal, elas vêm pelo departamento…

— A gente vai descobrir, pode ficar descansado. Mas não se preocupe que, a partir do momento em que elas estejam sob nossos cuidados, o senhor e sua noiva estarão fora do as­sunto. Fique sossegado. Es­ta é uma ordem bem clara de Dr. Kamuratti.

— Menos mal. Então, tudo bem. Vou aguardar que cheguem.

Filipe desligou o aparelho justamente quando o interfone chamava. Atendeu.

— Dr. Filipe? A Senhora Lucilla Kamuratti pede licença para entrar.

— Ela é sempre bem-vinda, Laura. Deixe que entre.

Pouco depois a velha dama entrou no elegantíssimo escritório, precedida pela bela secretária.

 — Que boa surpresa – disse Filipe escondendo a contrariedade. – O que a traz aqui, cara senhora Kamuratti?

 — Eu não quero aborrecê-lo, meu jovem. Mas gostaria de estar aqui, quando as fal­sas policiais chegarem.

 — Ah! Bom, pelo menos é alguém mais. Eu estou feliz, sabe? Não estava à vontade depois de saber que o advogado dos senhores não poderá comparecer. Por favor, queira sentar-se. Aceita alguma coisa?

 — Não, obrigada. disse que o Dr. Enrico Fratelli não vem?

— Sim, senhora. Acabei de receber uma ligação dele comunicando que estava machucado e sem poder sair de casa.

— Então foi bom eu ter vindo, não é?

— Foi ótimo, senhora Kamuratti. Como vai o Dr. Kamuratti?

— Muito atarefado, muito atarefado.

— Alguma notícia de seu filho?

— Não, nenhuma ainda. Mas isto não é caso para grandes preocu­pações. Temos toda a polícia e mais de oito detetives particulares na pista. Ele será encontrado, tenho certeza. Agora, diga-me, meu jovem, como vão os preparativos para o seu noivado?

— Vão bem, obrigado. Milena…

— Parece que vai fazer um cruzeiro pelas Antilhas, não é?

— Sim, vai.

— Estivemos juntas, hoje, no cabeleireiro. Ela me contou a respeito do cruzeiro. Até me convidou para acompanhá-la.

— Eu teria grande satisfação em que a senhora aceitasse o con­vite – mentiu Filipe.

— Infelizmente não será possível. Tenho algumas coisas a a tra­tar em Israel. Como você sabe, não sou adepta de Itzhak Rabin nem de seu cúmplice, Shimon Peres. Não concordo com nenhum acordo de paz com os palestinos. Os verdadeiros israelenses não aceitam tamanha demons­tração de fraqueza. A política deles está pondo em risco alguns de nossos empreendi­mentos lá. E isto traz reflexos em nossos negócios na Eu­ropa e nos Estados Unidos.

Filipe manteve-se cautelosamente silencioso. Sabia do radica­lismo dos Kamuratti e sabia, também, que quem discordasse deles imediatamente era considerado inimigo. E isto não era bom para a saúde dos negócios de ninguém.

— Você, ao que parece, não nos apóia, não é?

— Por que diz isto, senhora Kamuratti?

— Seu silêncio é significativo, meu jovem.

— Não se trata de não os apoiar. Simplesmente não tenho negó­cios no Oriente Médio e não possuo informações abalizadas sobre o con­flito entre judeus e palestinos. Não gosto de opinar quando não es­tou seguro.

— Uma desculpa plausível, contudo não me convence, meu caro. O seu tipo de negócio – táxis aéreos em quase todo o mundo – exige ne­cessariamente que esteja muito bem informado sobre a política nos diversos países.

— Sim, sei dos conflitos e sei quando e onde não devo atuar. A Palestina e Israel não se incluem neste caso. A guerra por lá não im­pede que minha frota de aeronaves chegue e saia do seu país normal­mente. Então, não tenho porque saber mais. Além disto, senhora Kamuratti, o conflito entre aqueles povos é de milênios. Para opinar é ne­cessário conhecer muito bem as raízes históricas que o geraram. Eu confesso minha total ignorância a respeito.

— O que não é bom, meu jovem, o que não é bom.  Somos o povo escolhido pelo Sen­hor. Nossa história devia ser obrigatória em todas as escolas dos gentios.

 “Quanta petulância, santo Deus” – pensou Luis Filipe, perplexo. Mas disse:

— Não sei, senhora. Isto é uma questão religiosa e eu não sou religioso.

— Não, meu jovem. Isto é uma questão política. Os governantes, os poderosos do mundo todo terão de aprender esta verdade: nós somos a salvação dos povos. Quando aprenderem a nos respeitar como tal, es­te planeta terá mais sossego, eu lhe garanto.

Filipe não se agüentou. A velha senhora o estava provocando. Sua atitude arrogante, com ar de superioridade e se comportando co­mo se estivesse na casa de um criado seu o irritaram profundamente.

—Não concordo com seu modo de pensar, senhora Kamuratti. Nenhum povo na face da Terra pode se arrogar o título de salvador do mundo. Estamos todos nesta casca de noz vagando pelo espaço infindo. Não há um que seja privilegiado em relação ao outro. Fazemos, todos, parte de um ecossistema delicadíssimo e as guerras que nações, como a da senhora, mantêm acesa por séculos e séculos, só nos levam – a todos nós – em direção a um destino obscuro. O ódio não é predicado do Senhor, como a Senhora chama a Deus. E não conheço uma guerra que seja santa e feita por Amor, senhora Kamuratti.

— Ora, ora, ora – ironizou a velha dama – então o jovem fi­nalmente se revela um anti-semita, não?

— Não, nada disto. Sou, sim, anti-qualquer arrogância, seja ela de que nação for. E no que diz respeito a Israel, não acredito, se quer saber, que este modo de pensar jurássico seja de todo aque­le povo sofrido, senhora Kamuratti. Itzhak Rabin e Shimon Perez es­tão aí para provar o que digo.

— Eles é que são jurássicos, senhor – rugiu surdamente a ve­lha dama. Filipe notou o ódio na voz da mulher, mas estava por de­mais irritado para se acautelar contra ela. – E se não quer perder de vez a nossa amizade e consideração exijo que se desculpe do que acaba de me dizer. Foi muito ofensivo.

Eram duas pessoas de fortes convicções em confronto. O rapaz sabia muito bem do radicalismo dos Kamuratti e sempre havia conseguido fugir às provocações, principalmente da tenaz e provocante senhora Kamuratti. Mas naquele momento, seu gênio se rebelou contra a arrogância e a constante provocação da mulher e ele não estava disposto a retroceder e se mostrar tímido e arrependido diante da incomensurável arrogância ali personificada.

— Lamento, senhora Kamuratti, não tenho a intenção de me retratar do que quer que tenha dito aqui. Não ofendi ninguém. Somente expressei minha opinião, do mesmo modo como a senhora o fez, li­vremente, em minhas dependências e deixe-me lembrar-lhe isto. Embora incipiente, no meu país já há um pouco de Democracia e às pessoas é reconhecido o direito de exprimir o que pensam livremente. E não a­cho que entre pessoas civilizadas a franqueza quanto a posições ideológicas seja motivo de rancores e dissensões.

— Não se trata de posição ideológica, meu caro Jovem. 0 se­nhor me chamou de jurássica. Isto é um insulto.

— Não, senhora. Eu disse que o modo de pensar é jurássico. 0 modo de pensar, não quem pensa.

O interfone soou e Filipe deu graças a Deus por isto. Estava disposto a não arredar o pé, desse no que desse, diante da arrogân­cia da velha dama. 0 Sr. Kamuratti, ainda que arrogante, era muito mais tratável, mais polido. Ele não entraria numa discussão daque­las à-toa. Nem a provocaria assim, do modo como a velha dama o fizera. O que tinha aquela megera em mente?

— Sim, Laura?

— As duas policiais que o senhor pediu que viessem aqui, chegaram.

— Excelente! Mande-as entrar, Laura, por favor.

Lucilla Kamuratti nada disse. Limitou-se a olhar as unhas da mão com imponência e ainda com clara expressão de ofendida rancorosa. A porta foi aberta e as duas mulheres entraram.

— Boa-tarde, Dr. Filipe. Recebemos o seu chamado e viemos assim que nos foi possível – disse Irina Hess estendendo a mão para Filipe em cumprimento.

— Boa-tarde, senhorita Irina…  É esse o seu nome, não é?

— Vejo que não esqueceu meu nome – e Ludmila deu-lhe o melhor e mais cativante sorriso. Malgrado seu, Filipe simpatizou com aquela estranha.

— Não, não esqueci. Contudo, não me lembro do nome de sua companheira…

— É melhor que seja assim, desculpe – disse Irina, sempre a sorrir com simpatia.

— Tudo bem, então – falou, encantado com a simpatia da repórter, o rapaz. – Eu gostaria de lhe apresentar…

— Não é preciso, meu jovem cortou a velha dama – nós já nos conhecemos. E Lucilla olhou fixamente para as duas falsas policiais.

— Ela tem razão, Dr. Filipe – confirmou Irina, olhando também desafiadoramente para a velha senhora, – nós já nos conhecemos. Co­mo vai a senhora, Madame Lucilla e… como vão os seus simpáticos cães?

Tamara não gostou nem um pouco do brilho assassino que viu faiscar nos olhos daquela estranha mulher. Instintivamente pôs-se em guarda, ainda que não soubesse contra o quê.

— Eu vou sempre muito bem, moça. E meus cães… continuam à espera de intrometidas. Agora, um pouco mais bem treinados, esteja cer­ta. Agora, com licença de Filipe, vamos ao que interessa: por que se disfarçaram de policiais para entrarem em minha casa? O que desejaram?

Sorrindo brejeiramente, Ludmila sentou-se, após pedir li­cença ao anfitrião. Karina preferiu ficar de pé, estrategicamente. Mantinha-se de lado para Luis Filipe, pronta para se defender contra um a­taque, embora seu instinto lhe dissesse que não era dele que vinha o perigo.

— E então? – insistiu incisiva e carrancuda a Velha Dama.

— Não viemos aqui para lhe falar, Sra. Kamuratti – disse Ludmila provocadoramente. Entrementes, Karina terminou aceitando o con­vite insistente de Luis Filipe para que se sentasse. Ele fez a mesma coisa.

— Engana-se minha jovem – falou pausada e controladamente a Velha Dama. – Estão aqui porque o Dr. Filipe, que nos deve dinheiro e favores, atendeu a uma nossa… solicitação e armou este nosso encontro. Agora, queira explicar: quem é a jovem que a esta acompanhando, hoje?

— Não a reconhece? – brincou Ludmila, pondo-se em alerta.

— Nunca nos vimos antes, minha jovem. Ela não é a que lhe fazia companhia quando você, desavergonhadamente, invadiu a privacidade de minha casa. E… não se engane comigo, moça. Sou como uma gata. Eu pi­so macio, mas quando arranho, arranho fundo. Minhas unhas nunca estão à mostra, mas elas estão sempre prontas a ferir, quando necessário.

Ludmila sustou o riso. A ameaça era clara, direta e rude. Com que, então, a velha víbora era mesmo mais perigosa do que pudera supor no primeiro encontro. E era muito arguta e perspicaz. Fora a altura – que um salto Luis XV quase remediava, Tamara estava suficientemente parecida com a Mara daquele dia. Mesmo Luis Filipe não havia notado a diferença, embora, agora, olhasse mais atentamente para Tamara, estu­dando-lhe cuidadosamente a silhueta e o rosto, sem nada dizer. Ludmila, num rápido olhar que lhe dera, tivera a impressão de ter visto um ar de constrangimento acentuado. Ele dava a impressão de haver “enco­lhido” de algum modo.

— Muito arguta, Sra. Lucilla Kamuratti, parabéns. A senhora esta certa. Minha companheira de agora não é a mesma pessoa que me acompanhou naquela… visita –  falou Ludmila com um meio sorriso sarcástico nos lábios mas com a fisionomia muito séria. Dava-se perfeitamente conta de que estavam totalmente à mercê daqueles dois e não havia nenhum meio de escapar dali que não fosse pela porta de entrada. De repente, os doze passos que a separavam daquela porta pareceram transformar-se em longos quilômetros.

— Quem são vocês? Trabalham para quem? O que querem? – Os    olhos da Velha Dama faiscavam de ódio e a voz era incisiva. Tamara sentiu os pelos de pé. Aquela mulher era demoníaca. Que poder se ocultava por de­trás dela? O que lhe emprestava aquele porte de imperatriz, capaz de se fazer indiferente até mesmo ao seu anfitrião? Ela estava totalmente se­nhora do ambiente e Luis Filipe, apagado. Ela mandava e se impunha como se o escritório fosse seu. Por que? O que Ludmila andara fazendo que despertava aquela cascavel ensandecida contra si? Seu sexto sentido a­lertava para um perigo de morte. Agora, não somente Mara, mas ela tam­bém corria perigo de vida. Aquela víbora não descansaria até quando soubesse quem eram elas e as pegasse. A caçada começara e Tamara se perguntava se fizera bem em aceitar ser uma das caças. Afinal, o trabalho era de outro jornal… O diabo é que ela também era jornalista e não ia desprezar a sua fatia, ah, isto não. E uma aventura até que vinha mesmo a calhar. Era algo diferente, além das estripulias já velhas demais para atrair público. O Comando e os traficantes de armas não e­ram criativos. Pó, então, nem mais era notícia. Mas ali estava algo muito, muito quente, mesmo. Tamara notou que Ludmila exibia um sorriso divertido no rosto, “É doida varrida. Está brincando com a morte, cara­-a-cara” – pensou, preocupada.

 — Os Kamuratti não são todo-poderosos, minha cara senhora? Como é que ainda não sabem quem somos nós? – Irina sorria zombeteira.

Após um silêncio incômodo, durante o qual os olhos de Lucilla Kamuratti pareciam querer furar o rosto da falsa Irina Hess, ela disse:

— Saberemos, mais cedo ou mais tarde, fique certa. No entanto, já que estamos aqui, por que não abrevia a sua… agonia, hum? Providenciaremos para que tudo se esclareça e volte aos conformes sem muitas dores nem muitos estardalhaços, prometo.

— Senhora Kamuratti – disse Ludmila séria – a pressa é inimiga da perfeição. É por não ter pressa que estamos chegando ao âmago de sua intrigante e… terrificante história. É a Terceira Guerra Mundial que já está em plena batalha e da qual ninguém ainda tomou conhecimento, não é? Eu não gosto de holocaustos, minha senhora. 0 primeiro ainda não está bem esclarecido, não. Há muito coisa podre escondida por detrás dos campos de concentração, não é? Uma nação como a alemã não se vira con­tra um… como devo chamar? Um estado como o estado judeu sem um motivo muito sério… Temos todos a versão de seu povo. E qual é a versão do povo alemão? Como os egípcios no tempo de Moisés, eles simplesmente se conformarão em serem transformados em terríveis lobos sanguinários con­tra o escolhido povo de Deus? De que Deus, senhora Lucilla Kamuratti? Novamente as águas do Mar Vermelho da Ignorante Inocência dos povos arianos e outros, serão abertos para o seu povo passar e se fecharão tragicamente sobre as cabeças dos incautos? Não creio que devamos permitir esta repetição trágica da história do homem na terra, senhora Lucilla Kamuratti. Agora, com a licença do Dr. Filipe, já que ele foi um mero objeto de uso de sua… esperteza, vamos-nos retirar.

E Ludmila ficou de pé, seguida de Tamara. Intimamente Luis Filipe gostou do modo como aquelas estranhas mulheres se comportavam. Lu­cilla Kamuratti fora muito sem ética ao revelar que ele lhe devia di­nheiro e favores, e não fôra, de modo nenhum, devido a isto que resolve­ra armar aquela arapuca para as duas jovens. Começava a achar que, fossem elas quem fossem, tinham muito boas razões para agir como agiam. A história da Terceira Guerra lhe pegara de surpresa e lhe deixara uma interrogação: o que a tal Irina Hess queria dizer com isto? Por que a senhora Kamuratti sustivera a respiração e arregalara tanto os olhos quando a moça falara daquele modo enigmático? 0 que havia por detrás da tão exaustivamente explorada história do Holocausto? Qual a relação entre o profeta Moisés e os alemães da Segunda Guerra Mundial?

— Sentem-se! — A ordem estalou como um chicote no silêncio do ambiente. A voz era seca, cortante e imperiosa. – Eu não lhes dei ordens para que se retirassem! – a velha dama estava de pé, punhos fechados e toda trêmula de indignação.

— É mesmo? — ironizou Ludmila. — Eu pensava que este era o escritório do Dr. Luis Filipe e que ela era quem mandava aqui.

Enquanto Ludmila falava, Lucilla retirava o seu celular de den­tro da bolsa e discava um número. Ludmila viu-lhe a manobra, mas jamais podia esperar que a velha dama pudesse ser tão ousada e desrespeitosa para com o seu anfitrião. Assim, foi com ar divertido que a ouviu, com voz rouca, mas firme, ordenar:

— Agora!

Ludmila meneou a cabeça negativamente e estendeu a mão a Luis Filipe, que se pusera de pé. Antes, porém, que terminassem o cumprimento de despedida, um grito abafado soou na recepção. Houve o barulho de algo pesado caindo ao solo e a porta foi aberta bruscamente. Cícno entrou por ela e investiu sobre Tamara. Fílio veio quase em seus calcanhares e atirou-se contra Ludmila. A ação foi instantânea e pegou a to­dos de surpresa. Luis Filipe ainda estava com a mão da falsa policial entre as suas quando o impetuoso Cícno girou no ar e estatelou-se sobre a mesinha de centro espatifando-a e reduzindo a cacos os enfeites de cristal que havia sobre ela. O arranjo de flores desidratadas ficou em frangalhos. Quase simultaneamente Fílio arregalava os olhos que se enchiam de lágrimas e se curvava com as mãos nas virilhas, onde o salto da “Anabela” de “Irina” afundara amassando desapiedadamente os escrotos do me­liante. Sem mesmo tocar o pé agressor no chão e fazendo um rodopio ele­gante no ar, a falsa policial aplicou, com o outro pé, um estralejante chute na face do homem, atirando-o desacordado no carpete. Cícno ainda tentou levantar-se, mas foi agarrado pelos cabelos pela “frágil” Tamara e erguido bruscamente para receber outro lançamento de judô que o lançou com todo o peso sobre as costas no chão, tirando-lhe o fôlego e tonteando-o. Antes que pudesse gritar pela dor nas costas, o “Luis XV” a­certou-lhe a testa e o lançou em abençoada inconsciência.

 Luis Filipe estava boquiaberto. Aquelas duas eram um furacão am­bulante. Lucilla Kamuratti pusera a mão sobre a boca, olhos arregalados, quase não acreditando no que assistia. Foi tudo muito rápido. E ainda sob o impacto da surpresa, a velha dama ouviu a falsa policial dizer-lhe, rosto quase colado ao seu:

— Na Federal temos aulas de defesa pessoal madame. Seus homens deviam saber disto.

E com uma aceno de cabeça, Irina Hess cumprimentou o estupefato anfitrião e se dirigiu para a porta, seguida da companheira. De lá, a­pontando para o estrago, disse:

— É tudo cortesia de madame Lucilla. Apresente-lhe a conta, sim?

A porta foi batida com força e os dois ficaram mudos, olhando os homens desacordados estendidos no grosso carpete da rica sala.

— Não é possível! – Lucilla foi a primeira a falar. – Eu não acredito no que estou vendo…

— Nem eu – disse Luis Filipe, soturno – A senhora ultrapassou todos os limites. Como pôde ter tido tamanho atrevimento?

— Ora, o que são alguns bibelôs para gente como nós? – disse a velha dama com desprezo.

— Eu não me refiro aos móveis e aos enfeites – respondeu Luis Fi­lipe. – Isto pode ser substituído. Eu me refiro à falta de respeito que a senhora demonstrou ter para comigo e para com o meu espaço. A senhora, madame Kamuratti, não tem o direito de mandar agredir duas visitas minhas, em minha casa, sem o meu consentimento e a minha anuência! Este foi um comportamento inclassificável, madame!

— Ora, rapaz – disse Lucilla Kamuratti olhando para Luis Filipe com desprezo expresso no olhar e na postura corporal – isto não é impor­tante. Somos amigos o suficiente para eu me dar tal liberdade. Era uma emergência, você tem de convir. De mais a mais, você nos deve favores, está esquecendo? Favores e dinheiro.

Luis Filipe sentou-se estupefato e boquiaberto enquanto a velha e arrogante dama apanhava sua bolsa. Era espantosa a falta de consideração de Mme. Kamuratti para com os outros. E era inacreditável sua grosseria. Aquela dama que ele sempre julgara distinta e nobre revelava-se-lhe grosseira, arrogante e mal-educada ao extremo.

— Mandarei indenizá-lo até o último centavo, não se preocupe. Agora estou-me indo. Quando estes dois inúteis acordarem mande que se apre­sentem a mim. Até mais ver, jovem.

E empertigada como sempre, a velha dama se retirou sem se dignar a olhar sequer para o seu anfitrião, que ficou a olhá-la ainda mudo de espanto pelo que presenciara e ouvira. Quando a porta fechou-se ele per­maneceu a olhar para lá com um estranho sentimento de mal-estar que crescia e se ia, a pouco e pouco, revelando como uma profunda revolta, uma incontida indignação.

— Eu não lhes deverei mais nenhum tostão, ‘seus’ malditos – disse entredentes Luis Filipe e, ato contínuo, pôs-se de pé e foi ao telefone.

(Registro nos Direitos Autorais nº 108.933, de 16/08/1996)