CAPÍTULO VII – UMA LUZ PARA DAMASTOR (Parte I)

Delegacia de Polícia no Rio de Janeiro.

Delegacia de Polícia no Rio de Janeiro.

— Aquiles-san, não precisa vir à noite para o treino.

Kimura fez o cumprimento tradicional de seu dojô e se retirou sem demonstrar cansaço. Seu aluno, contudo, estava à beira da exaustão. O sensei exigira o máximo dele. Chegara ao dojô às 06h da manhã. Era já meio­-dia e meia. Foram seis horas e meia de treino ininterrupto. Seus golpes mais fracos, suas defesas mais vazadas, suas esquivas mais deficientes foram treinadas e retreinadas, corrigidas e recorrigidas ao infinito. Seu corpo todo doía. Os socos, os ponta-pés e as cotoveladas e joelhadas lhe foram aplicadas sem piedade. Uma surra memorável. Aquiles respondeu, quase sem consciência de que o fazia, ao cumprimento de seu mestre vendo tudo estranhamente azulado. Deu dois passos para se retirar do dojô e desabou como um saco vazio.

O sensei, que o observava 1á de dentro do vestiário, bateu palmas três vezes e a massagista veio rápida e silenciosa.

— Cuide dele, Sumiko. Eu fui muito duro no treino de hoje. Pre­ciso fazer isto mais vezes. Talvez consiga salvá-lo da morte certa. Não quero que morra, porque se morrer, eu me sentirei culpado. Afinal, sou quem preparou a mão assassina.

Massako Sumiko curvou-se no cumprimento respeitoso dos orientais e encaminhou-se para o dojô onde Aquiles jazia inconsciente. Ela abriu-lhe o quimono e lhe viu os hematomas. Habilidosamente despiu o médico e alí mesmo deu início ao trabalho de shiatsu. Depois de mais de duas horas de trabalho cuidadoso e criterioso, Sumiko pôs os 96 Kg de músculos sobre os ombros e os transportou para cima como se ele fosse o corpo de um menino. Quando Aquiles abriu os olhos sentia frio. Soergueu-se e percebeu que estava nu, no consultório de Sumiko. Sentou-se na maca. O corpo ainda estava dolorido, mas diante do que já estivera, no dojô, aquilo e­ra nada. Sumiko surgiu como por mágica a seu lado.

— Aquiles-san melhor, agola? – perguntou a moça, olhos no chão. Ela era jovem, talvez vinte e quatro anos, se muito. Tinha estatura mediana, cintura bem feita, busto pequeno, mas rijo e face arredondada e agradável de se ver. Suas pernas eram muito bem torneadas e retas. Massako Sumiko era uma oriental muito bonita.

— Sim, Massako – disse Aquiles embevecido com a delicadeza da o­riental. — Estou bem melhor, obrigado. Agora, onde estão…

— Na cadeila, Aquiles-san. Sumiko já tem comico pala senhol.

— Comida? Que bom. Estou mesmo com fome. Você pensou em tudo, minha querida Sumiko. Mais uma vez muito grato.

— Kimula-san golta mutu senhol Aquiles. Mandô Sumiko cuidar de aluno. Aquiles-san mutu machucado.

Aquiles gostava de ver o esforço da moça para falar português. Seu sotaque e sua postura sempre humilde e prestativa lhe enterneciam o coração.

— É… O mestre Kimura me castigou para valer… – e Aquiles es­ticou-se fazendo careta.

— Necessálio, Aquiles-san. Homem mau, Flatelli-san, queler matar homem-bom. Kimula-san não goltar idéia. Sensei polcula fazer homem-bom, melhol que homem-mau.

— Ele tenta, Massako, ele tenta. Mas eu acho que nunca serei bom à altura do que ele espera de mim. Fratelli tem seis anos mais que eu de treinamento.

— Tempo não significar mutu, Aquiles-san. Concentlação e respila­ção, hay. Saber lespilar mutu impoltante. Não concentlar no ponto a atin­gir. Concentlar ponto seu colpo que vai bater. Expilar no monto…momento batida. Em defesa, não concentlar no colpo oponente que ataca. Concentlar no ki. Ki aceita enelgia diligida seu colpo. Ki move seu colpo e deixa a enelgia passar. Não bloqueio. Não folça contla folça.

Sumiko percebeu que não estava sendo compreendida,

— Aquiles-san ataca Sumiko… — pediu ela, curvando a cabeça.

— O quê? — surpreendeu-se Aquiles. — Você quer que eu…?

— Hum-hum. Aquiles-san ataca.

 Aquiles olhou para a oriental com espanto. Ela era miudinha, talvez um metro e setenta, não mais. Tinha aparência frágil. Ele meneou a cabeça negativamente.

— Não, minha amiguinha. Posso ferir você e eu jamais me perdoaria se fizesse isto.

— Sumiko sabe que faz, Aquiles-san. Agola, ataque! — insistiu a oriental, posicionando-se em base. — Vamos, Aquiles-san. Ataque sei-ken. Folte!

Aquilo pareceu ridículo ao médico. Um seiken forte simplesmente fulminaria sua querida amiguinha. Ele podia arrebentar um makwara com um seiken. Já fizera aquilo.

— Não posso fazer isto, Sumiko. É perigoso.

— Sumiko não polcelana, Aquiles-san. Não temer. Ataque!

Os olhos dela estavam fixos nos seus e Aquiles não reconheceu o olhar sempre doce e submisso de Sumiko. Era um olhar duro e incisivo como punhal. Um olhar alerta. E as feições da moça estavam endurecidas. Pareciam de pedra. A mulher miudinha havia desaparecido para dar lugar a algo muito determinado e… forte. Fantasticamente forte.

Hesitante, Aquiles tomou a base e preparou-se para bater. Não o fazia por querer, fazia-o hipnotizado por aquele olhar de aço. Concentrado, Aquiles disparou dois rapidíssimos seikens, um dirigido ao plexo de Sumiko e outro ao rosto. A moça não se moveu, nem mesmo piscou e seus olhos não se afas­taram dos de Aquiles. Os punhos dele pararam a milímetros da pele de Sumiko. Com voz dura, ela o repreendeu.

— Sumiko dizer não ser polcelana. Agola, não blincar, Aquiles-san. Atacar folte. Sumiko sabe que faz. Ande, Aquiles-san, ataque!

Embora não acreditasse em Sumiko, aquela força súbita que a pe­quena oriental exibia e que lhe era desconhecida fê-lo decidir-se por obedecer. Voltou a posicionar-se e a inspirar fundo, preparando-se para o ataque.

— Lemblar, Aquiles-san, atacar folte! – disse Massako Sumiko.

O médico atacou rápido e com toda a potência que tinha. A oriental parecia indefesa à sua frente e Aquiles teve a certeza de que ia matá­-la. Mas a moça sumiu de sua frente assim que ele disparou o primeiro seiken. Ela surgiu como do nada a seu lado direito. Aquiles sentiu a forte pancada no cotovelo de seu braço atacante, lançando-o para a es­querda e lhe abrindo a guarda. Simultaneamente algo muito duro bateu à altura de suas costelas flutuantes tirando-lhe o fôlego enquanto um inesperado ashi barai lhe roubava o equilíbrio. A mão delicada de Sumiko ferrou-se em seu ombro direito puxando-o para baixo e ajudando-o a cair mais depressa. Mesmo antes de tocar o chão já o cotovelo da moça atin­gia de leve a ponta de seu externo.

— Aquiles-san molto – disse Sumiko cumprimentando o espantado lutador.

— Como você fez isto? — perguntou o médico levantando-se.

— Não Sumiko, mas ki. Ki Sumiko molveu pala deixar sua enelgia passá. Ki flui. Ki não se choca com outlo ki. Entendeu, Aquiles-san?

— Teoricamente sim. Mas não saberia como fazer — disse o médico olhando respeitoso para a moça que, agora, não lhe parecia tão pequena e indefesa como antes..

— Relaxar, Aquiles-san. Relaxar mente e colpo. Pensar, sim?

             E Sumiko, curvando-se diante de Aquiles, convidou-o a segui-la para fazer a refeição. 0 médico, agora, já não conseguia vê-la como a uma mocinha frágil. Aquele corpinho escondia uma agilidade espantosa e… perigosa. Mortalmente perigosa.

             Quando, mais tarde, a caminho de seu apartamento, Aquiles ía meditando no que a massagista lhe dissera e lhe demonstrara.

*   *   *

 — Sinto muito, detetive, ainda nenhuma reação.

Damastor passou a mão pelos cabelos, levantando-se e foi até a janela. Ficou ali, olhando o trânsito fluir lá embaixo, a três anda­res de onde estava. O tráfego corria sem atropelo àquela hora do dia. O detetive permaneceu alheio a tudo, mergulhado apenas em suas recordações. O seu companheiro, o detetive Arthur, que há 12 anos era seu parceiro, estava ali reduzido a um vegetal. A família dele, trucidada. E ele. Damastor, sentindo-se totalmente impotente. Cidade violenta. Gente violenta e gente apavorada. O Rio de Janeiro estava um caos e a polícia desarmada, mal-remunerada e deixada ao Deus-dará. Não era justo. Os políticos falavam, falavam, mas nada resolviam. Os Secretários cobravam resulta­dos. A população cobrava resultado. Mas policiais eram mortos ou tinham suas famílias trucidadas e ninguém parecia importar-se. Onde estavam os defensores dos Direitos Humanos? Para bandidos e aprendizes de bandidos eles existiam. A famosa e tão falada chacina da Candelária estava aí para confirmar. Agora, quando era a família de um policial honesto, onde é que eles se escondiam? Por que não faziam estardalhaço? Seu companheiro não merecera nem a primeira página dos jornais, mas a quadrilha de adolescentes de Madureira sim. A polícia não tinha mais crédito. Estava pior que os marginais. Estes, quando aprontavam, apareciam em todos os jornais e em todos os noticiários de televisão e rádio. Um policial, não. Uma pequena nota numa estação de TV de segundo escalão e pronto. Damastor sabia que a corrupção atingia quase oitenta por cento da Polícia carioca, tanto a civil quanto a militar. Delegados e coronéis integravam a folha de pagamento de algum marginal. Isto era certo. Mas era certo, também, que vinte por cento ainda resistia desesperadamente, apesar do salário de fome e do abandono e perigo de morte que corriam até por parte dos companheiros. Corrompidos, estes não hesitavam em matar os colegas de farda. Como um detetive podia resistir a um suborno mensal de três a cinco mil reais, quando seu salário líquido não chegava aos quatrocentos reais? Não era o “dinheiro fácil”. Era o desespero de morar dentro do morro ou ao pé da favela e ter a família sob constante ameaça, enquanto ele, o policial, arriscava a vida nas viaturas mambembes da corporação, com armas velhas e enferrujadas, com munição vencida, tentando defender os milhões dos poderosos contra os constantes assaltos a bancos, carros-forte e contra os seqüestros. O que se podia esperar de homens em tais condições? Ele mesmo, Damastor, recebia líquido em seu contra-cheque somente novecentos e trinta e dois reais. Não fosse a sua mulher ser Administradora, trabalhar numa multinacional e ganhar um salário quatro vezes superior àquele seu, e ele, certamente, teria entregado os pontos.

— Deseja mais alguma coisa, detetive?

A voz do médico trouxe-o de volta à realidade.

— Não, não, doutor. Eu estava… Bom, volto amanhã. E… Doutor!

— Pois não?

— Se o Arthur precisar de algum remédio especial e o hospital não tiver, ligue para minha casa. Nós providenciaremos.

— O senhor já nos deu o seu telefone e já fez esta recomendação, senhor detetive.

— Ah, já? Desculpe… Até amanhã, então, doutor.

— Até, detetive.

Damastor pôs-se a caminho da delegacia. Estava sentindo-se impo­tente. A procura de pistas fora inútil. Os inimigos de Arthur tinham álibis sólidos. Será que o serviço tinha sido feito por alguém da civil? Então, quem? Por que? Se ao menos o amigo pudesse falar…

Entrou na velhas, mofada e fedorenta a sarro de cigarro sala da Delegacia com profunda sensação de derrota. O mal-humor estava em todos os lados. Do escrivão ao delegado, todos andavam nervosos, mal-humorados e com medo. Estava preso na delegacia o meliante apelidado “Zeca-Exu”, o novo dono do Morro do Dendê. Perigosíssimo traficante de drogas e armas. A delegacia corria o risco de ser atacada pelos elementos do seu bando e isto punha todo mundo com os nervos à flor da pele. Damastor só encontrou, na sala dos detetives, o novato chamado Ivaldo. Cumprimentou­-o com um grunhido ininteligível e deixou-se cair sentado atrás da escrivaninha atulhada de papéis, toda riscada e arranhada. A cadeira gemeu em protesto contra o seu peso. Damastor espreguiçou-se e ficou quedo.

— Alguma novidade?

 Ele olhou o jovem companheiro. Era forte e tinha sob a axila uma inseparável quarenta e cinco muito reluzente. Não eram amigos. Apenas se conheciam superficialmente. Damastor olhou para o homem. Tinha feições e olhar simpáticos e naquele momento sorria de modo conciliador. Contra a sua vontade, respondeu-lhe com uma outra pergunta.

— O que disse?

— Perguntei se tem alguma novidade sobre o Arthur…

Damastor suspirou desanimado.

— Não — respondeu apático e lacônico.

— Faz quantos dias? — insistiu o outro.

— Vai para o quinto… — o olhar de Damastor perdeu-se no vazio.

— Nenhuma pista? — tornou a voltar à carga o colega.

— Não. Nenhuma.

Ivaldo levantou-se com alguns papéis nas mãos e os jogou diante de Damastor. Este olhou para a papelada sem qualquer interesse. Depois fitou Ivaldo com uma interrogação na expressão da face.

— O que é isto? – perguntou.

— É o caso da “gang” de Madureira.

— Ah… — fez Damastor desinteressado e sem tocar na papelada.

— Um caso muito estranho, não acha? — insistiu Ivaldo.

— Não. Pra mim, um caso banal — e Damastor deu de ombros querendo encerrar aquela conversa aborrecida.

— Talvez. Mas eu estive pensando… — e Ivaldo ficou olhando para o companheiro, estudando-lhe a expressão do rosto. Damastor se viu constrangido a continuar o diálogo.

— É? Em quê? — Na verdade desejava que o outro sumisse de sua frente. Estava a ponto de engrossar com ele.

— O assassinato dos meninos da “gang” de Madureira se deu na mesma noite em que o seu parceiro foi violentado e a família dele, trucidada.

Aquilo mexeu com Damastor. Teve o poder de sacá-lo da indiferença em que se encontrava. Alguma coisa ficou remexendo em seu subconsci­ente, mas, mesmo assim, queria ficar só.

— E daí? — perguntou indiferente. Sua mente, contudo,estava parcialmente acompanhando o raciocínio de Ivaldo. O pensamento, parecia-lhe torporoso.

— Será que os dois fatos não têm relação? — disse Ivaldo, olhos brilhando de excitação por poder expor a alguém a sua teoria.

Damastor remexeu-se na cadeira, incomodado.

— Eu não sei. Acho que não… — disse, mas não estava mais tão convicto. Pegou num lápis e se pôs a rolá-lo sobre o tampo estragado da velha mesa. Ivaldo fez silêncio, observando-o. Percebia que o cole­ga não estava muito interessado no que ele tentava-lhe colocar, mas não estava disposto a entregar os pontos assim, sem mais aquela.

— Você não está muito interessado em me ouvir, não é? — provocou Ivaldo.

— Pra falar a verdade – disse Damastor sem o olhar —, não estou mesmo, não. Eu quero ficar só.

— Ficar só não vai resolver nada – provocou novamente Ivaldo.

— É? E o que sugere? — Damastou olhou-o rancorosamente.

— Eu sugiro que a gente vá, hojo à noite, lá no inferninho que a “gang” freqüentava — disse Ivaldo.

Damastor olhou para o companheiro, silenciosa e demoradamente.

— Por que me olha assim? — perguntou o outro, em guarda.

 — O que eu iria fazer naquele antro? — rosnou Damastor de mal-humor e já no limite de sua paciência.

— Iríamos investigar, ora essa. É para isto que somos investiga­dores, não é? — respondeu incisivo, Ivaldo.

— Investigar o quê? — Damastor estava a fim de brigar, agora.

— Tudo. O que houver. Que tal? — Ivaldo percebeu a irritação explosiva do outro e começava a achar que não fora uma boa idéia provocá­-lo daquele modo.

 — Ora essa — exclamou Damastor raivoso —  o caso não é meu.

— Mas é meu — disse, firme, Ivaldo.

— Não. Nem é da jurisdição de nossa delegacia, meu caro.

—Errado. Eu consegui que ele nos fosse transferido. Não foi di­fícil. O Delegado daquela área estava mais era querendo se livrar do abacaxi de caroço.

— Azar o seu, então.

— Por que diz isto?

—Porque uma delegacia só passa adiante um caso se ele é sem es­perança — respondeu Damastor mal-humorado.

— Eu sei.

— E mesmo assim, quis este aqui? — e Damastor bateu com o indicador na papelada à sua frente. Tinha um ar de sarcasmo no rosto cansado.

— Sim, quis.

—- Por que?

— Porque minha intuição me diz que os massacres têm relação com o que aconteceu com seu parceiro — e Ivaldo fixava firmemente o rosto de Damastor. Este virou-se para ele e também o olhou, beligerante, mas interessado.

— E a sua intuição se baseia em quê para lhe dïzer isto?

— Ambos os trabalhos foram feitos por um… ou talvez mais de um profissional altamente treinado. Não temos muito esta espécie de gente, aqui no Rio. A bandidagem daqui é escrachada. E é burra. A polícia sem­pre sabe quem é o autor da trampolinagem só de olhar os resultados. No caso da gangue, os assassinatos foram primorosos.

— Como assim? — Damastor nem percebeu que Ivaldo o envolvera totalmente.

— Veja, o garoto apelidado de “Lagartixa” foi eliminado no mictório daquele antro. Ninguém viu nada, não é de espantar? Um banheiro com vinte e um coletores de urina e dezoito vasos sanitários só é construí­do porque tem clientela garantida. Às 22 ou 23h, aquilo lá não podia estar vazio. Mesmo assim, ninguém notou nada de anormal. Não é curioso?

Damastor não estava mais nem irritado nem cansado. Seu faro fora despertado.

— Como morreu o garoto? — indagou interessado. Isto incentivou o outro a continuar expondo suas idéias.

— O I.M.L deu a morte como tendo sido parada cardíaca. Mas acontece que a família duvida disto. O garoto é de uma família onde o “tic-tac” de todos tem sido muito bom há séculos.

— Ora, uma boa overdose…

— Teria sido detectada. Não havia droga no sangue do rapaz. Nem álcool. O “Largatixa” era abstêmio.

— Então, garoto, onde quer chegar? Se não foi droga, o que foi? — Damastor estava fisgado. Mistério sempre o fascinava, mormente quando tinha uma remota possibilidade de conduzi-lo ao bandido que fizera aquilo com seu irmão de profissão.

— Aí é que está: não se sabe.  Todo mundo, exceto a família, aceitou a história do ataque cardíaco.  O garoto era um João-Ninguém…

— É .. Muito esquisito. — Comentou Damastor, intrigado.

— Mas tem mais. Quase ao mesmo tempo em que “Lagartixa” era despachado pelo “sombra” no banheiro, o outro membro do grupo conhecido pelo apelido de “Barata” também morria junto ao balcão do bar.

— Ah, é? E morreu de quê? Tiro? Navalhada…?

— Não, nada de barulho. Foi envenenado.

— O quê? — A surpresa quase fez Damastor saltar da cadeira, — Envenenado? Você tem certeza?

— Sim. E foi cianureto, se quer saber — disse Ivaldo contente por ter pegado o colega pelo beiço.

— Essa não! — exclamou Damastor, surpreso — Mas eu não lembro de ter lido nada sobre veneno nos jornais — disse ele.

— E não leu. O laudo foi de intoxicação por overdose. Na verdade, o “Barata” tinha muita droga no sangue, mas o legista me confidenciou que o que matou mesmo foi o cianureto.

— E por que o laudo não acusou a verdade?

— Porque, sabe como é, né? Preto, pobre, morrendo em um inferninho… Não dá outra: overdose. Os médicos que recolheram o corpo já chegaram ao Instituto com o veredictum pronto. Foi só datilografar e fim. Tudo terminado sem mais problemas.

— Então, por que o legista resolveu investigar?

— Um incidente. Ele estava de plantão naquela noite. Quando levaram o cadáver para a gaveta, o lençol que cobria o corpo escorregou justamete quando ele passava perto. Ele perguntou se era para necropsiar o cadáver. Alguém lhe respondeu que não era necessário. Era caso de overdose. O legista lançou um olhar ao corpo e algo lhe prendeu a atenção: a cor. Mais tarde, como não tinha o que fazer, resolveu abrir o “Barata”. Rela­tou o que descobriu, mas só despertou aborrecimento. Mandaram que se ca­lasse e liberaram o corpo com o atestado de óbito errado. Como eu disse, preto, pobre… pra que se incomodar? Ivaldo ficou observando Damastor coçar o nariz à moda de Bruce Lee.

— E os outros? — os olhos de Damastor brilhavam.

—Foram encontrados boiando no Guandu. A necrópsia revelou que haviam morrido por asfixia. Fui confidenciar com o legista – que é meu primo, diga-se de passagem. O laudo acusava morte por afogamento, mas o le­gista me disse que foi asfixia por ingestão de gás carbônico em alta do­sagem.

— Gás carbônico? — admirou-se Damastor.

— É.

— E onde os infelizes foram encontrar isto para morrer?

— Sei lá! Talvez que presos numa garagem con algum carro ligado. Quem sabe? As vezes a vida imita a fantasia, não é o que dizem?

— Como se chamavam os asfixiados?

— Negão, Catucão e Navalha.

— Bonitos nomes…— ironizou Damastor. Ambos riram, Damastor levantou-se e andou pela pequena e fétida sala mordendo os lábios e fitan­do o chão sujo. Ivaldo o observava atento. O velho detetive estava pro­fundamente concentrado. Era algo para começar. No mínimo dois assassinos profissionais. E dos bons mesmo. Sua memória não se recordava de nenhuma ficha que citasse homens tão treinados, tão profissionais. Seriam estrangeiros? Se fossem, por que se incomodar com moleques pés-rapados como a­queles? Só havia uma resposta: os garotos tinham conhecimento de algo que incomodava alguém. Alguém com cacife para importar gente fina na arte de matar. Ivaldo parece que tinha um grande caso nas mãos, mas onde Arthur se enquadrava nele? Damastor não via nenhuma ligação. Arthur não andava investigando nada que ele não soubesse. Eram parceiros. No entanto, do modo como Ivaldo apresentara o caso alguma coisa soava estranho. Um alarma dentro dele. Por que?

— O processo da “gangue” está com você? — perguntou.

— São apenas 72 páginas e estão sobre a sua mesa, agora. Mas não contém nada, pode poupar seu tempo.

— É, pode ser. Mas já que iremos lá, hoje à noite, quero ler tudo o que houver sobre o assunto — disse Damastor. Ivaldo olhou-o com alívio e sorriu. Ele queria o companheiro a seu lado. Damastor era famoso entre os policiais pela sua inteligência, tenacidade e capacidade de luta. E era instrutor de jiu-jitsu na Academia de Polícia. Aquele lugar onde pretendiam ir era famoso pelas porradas que sempre irrompiam entre as gan­gues. Era confortante ter alguém bom de luta ao lado, se tivesse que en­frentar uma briga.

             Damastor apanhou os papéis, sentou-se e mergulhou na leitura.