CAP. VI – UMA LUZ PARA  DAMASTOR (Um crocodilo onde não devia estar – Última parte)

 

O monstro estava pronto para o ataque...

O monstro estava pronto para o ataque…

A água esverdeada e transparente de Angra dos Reis estava deli­ciosa. Mara e Milena nadavam sem preocupação. Naquele momento volta­vam para a branca areia da praia na ilha particular da milionária. Saíram d’água e foram sentar nas cadeiras preguiçosas. Mara sentia-se ótima. A recém-conquistada amiga era pessoa simples, acessível e feliz.

– Que tal, está gostando? – Milena falava com os olhos tapados com um protetor contra a luz do sol das 16h.

– Muito. Este local é fantástico – a repórter cobria o rosto com o braço. – Sabe, vou-lhe confessar uma coisa: é a primeira vez que a­ceito o mar sem receio.

             – Receio?! Por que você tem receio do mar? – e Milena tirou os protetores a fim de olhar para Mara.

             – Um pesadelo… –  Mara arrependeu-se de ter falado, mas, agora, era tarde. Despertara a curiosidade da outra.

             – Teme o mar por causa de um pesadelo? Esse é boa. Que  pesadelo é esse?

             – Eu preferiria não falar dele –  disse Mara, agastada.

             – Ora, por que? Vamos, fale. Sou psicóloga. Quem sabe, posso a­judar? – e Milena soergueu-se para melhor ver a amiga.

             – Você é psicóloga? De verdade? – espantou-se a repórter.

             – Quer que lhe mostre o diploma e as declarações das clínicas onde trabalhei? Se quiser… – e Milena sorriu divertida com o espanto da moça que trouxera à sua ilha.

             – Não, não. É que… eu não pensei…

             – Não pensou que sendo eu milionária tivesse estudado e trabalhado, não é? Ora, não sou parasita, Mara. Não só fiz o doutorado como cliniquei, como empregada comum, em quatro clínicas famosas. Uma delas foi aqui no Rio. E agora, vamos ao seu pesadelo?

             – Espere! Você não é modelo profissional?

             – Atualmente, sim. Mas estou largando isto. Já vi tudo o que queria ver, neste meio.

             – Vai largar a passarela?

             – Sim.

             – Não gostou?

             – Não, não é isso. Eu já vi o que queria.

             – E o que você queria ver lá?

             – Os bastidores. A cama de Procusto.

             – Cama de Procusto?!

             – É. Eu me refiro aos sacrifícios que uma candidata a modelo, tem de fazer para ingressar no mundo glamuroso de sonhos e fantasia da al­ta costura. Mas eu não tive de provar esta cama. Vantagens de ser milionária, sabe? Agora, vamos ao que interessa?

             Mara estava encurralada. A outra era franca, objetiva e aberta. Ela não podia ser menos que isso. E mentir lhe parecia indigno para tanta hospitalidade e tanto calor humano. Por isto, Mara respirou fundo, tomou coragem e falou. Eram 17h:45m quando terminou de falar sobre o seu pesa­delo e a sua psicanalista. Milena ouviu-a com toda atenção e em comple­to silêncio. Quando Mara acabou sentia-se estranhamente leve. Milena, sentada, olhava-a fixamente. Então, levantou-se dizendo:

             – A noite chegou. Vamos tomar um banho e comer alguma coisa. De­pois, voltamos ao seu pesadelo.

             Um pouco decepcionada, Mara concordou. As moças subiram a trilha, já escura, que conduzia, por entre flores e uma densa mata nativa, ao chalé encarapitado sobre uma grande pedra. A varanda ampla, a uns seis me­tros da trilha que, antes de atingir a parte lateral esquerda, único a­cesso fácil ao chalé, passava quase sob a grande pedra, possibilitava lin­da vista da baía com as dezenas de ilhas e centenas de barcos espalhados pelo verde mar. A ilha não tinha mosquitos pernilongos, mas rãs e pererecas faziam enorme algazarra com as cigarras, àquela hora do anoitecer. As duas mulheres caminhavam lado a lado e ambas se sentiam unidas fortemen­te entre si. Mara sentia a sua anfitriã como se ela fosse sua irmã de sangue. Milena também percebia a repórter como alguém muito íntima. A pre­sença dela lhe era muito agradável. E agora que compartilhara de seu se­gredo, sentia-se como se fosse mais que uma confidente. Sem se dar conta do que fazia, Milena passou o braço em torno da cintura de Mara e esta naturalmente fez a mesma coisa com ela. Nenhuma sabia disto, mas era a primeira vez que se permitiam tal intimidade com outra mulher.

             – Interessante – disse Milena – conheço centenas de pessoas no mundo da Alta Costura. Conheço outras tantas entre os de minha profissão, e no entanto só você me traz esta sensação de tranquilidade… É como se a gente já se conhecesse há anos. Você me deixa assim.

             – Assim como? – perguntou Mara satisfeita, mas curiosa.

             – Confiante. Sinto que confio em você. Sinto que lhe tenho afeto.

             – Também eu lhe quero bem. É estranho que lhe diga isto, mas não pensava que você fosse assim, acessível… companheira e… simples. Afinal, você é milionária e… e de modo natural, os milionários se defen­dem da intimidade com a plebe.

             – Eu não sou acessível, Mara. Eu até que sou muito fechada, principalmente com jornalistas. Mas você… Eu não sei. Eu a olhei e senti uma satisfação grande, como se nós tivéssemos de nos conhecer. Mesmo quando você se revelou repórter, eu não tive o impulso natural de mandá-la sumir. Geralmente é o que faço. Não gosto de futilidades. E na profissão que exerço no momento…

             – Pare! – a própria Mara assustou-se com a rispidez de sua voz.

             – O que foi? – Milena olhou-a espantada.

             – Saia daí! Saia já, daí! – gritou Mara olhando fixamente à frente, para o mato, e se desvencilhando do abraço fraterno da espantada anfitriã.

             – Mas o que é? O que está…

              Milena não concluiu a frase e de dentro do mato cerrado, a dois metros de onde estavam, um corpo escamo­so de jacaré apareceu. O sáurio era grande demais para a sua própria espécie. Ele cruzou vagarosamente a senda, sob o olhar de fogo de Mara e, logo, com o estranho bocejo que é o som de sua espécie, atirou-se por entre os arbustos em direção à praia. Milena, estupefata, ficou ouvindo o barulho do mato sendo rompido pelo animal que afundava para o mar. De repente sua recém-conquistada amiga cambaleou e não caiu ao chão porque a milionária amparou-a pela cintura.

             – Mara! Mara, o que há? Sente-se mal?

             – Não… eu… eu… Senti uma tontura… Mas está passando.

             – Como você sabia que ele estava ali? – perguntou Milena ainda a tremer do susto.

             – Ele? Ele quem? – Mara, sentindo-se atordoada, não compreendia do que a outra falava.

             – O Jacaré. Você falou com ele. Mandou que fosse embora. Como soube?

             Mara olhou para a amiga sem entender o que ela estava dizendo.

             – Do que… do que você está falando?

             A noite descia rápida. Milena quase não podia ver a amiga.

             – Deixa pra lá – disse ela. – Vamos! Temos de chegar lá em cima antes que a noite se feche de vez. No escuro é muito ruim andar aqui. A gente fica sem enxergar nada e nós não trouxemos lanterna.

             Abraçadas, estugaram o passo. Quinze minutos depois estavam na varanda do confortável chalé.

             – Aceita um martini, Mara?

             – Sim, obrigada.

             – Eu trago. Eu mesma quero preparar a bebida. Espere aí, sim?

             – Certo. – E Mara foi sentar-se em uma das cadeiras que pendiam do teto, presas por fortes correntes.

             Uma governanta atendeu pressurosa à entrada de Milena na sala.

             – Deseja alguma coisa, senhorita?

             – Não, Téia. Eu mesma preparo os drinks. Mas você podia preparar­-nos, para mim e para minha amiga, um banho de imersão.

             – Algas ou sais?

             – Algas, Téia.

             – Sim senhora.

             E a governanta afastou-se silenciosa como viera. Milena preparou dois martinis e os trouxe à varanda. Entregou o de Mara a ela e sentou­-se noutra cadeira suspensa com o seu copo nas mãos.

             – Obrigada – disse Mara e provou o drink. Milena fez a mesma coi­sa. Então, olhando a outra, falou.

             – Mara, você mandou que aquela fera saíssse de onde estava escondida. Ela, certamente, nos atacaria quando cruzássemos a sua frente. Como soube que ela estava 1á, entre as folhagens e no escuro?

             Mara olhou espantada para a amiga.

             – De que fera você está falando?

             – Do jacaré. Você não lembra? – parecia impossível que a moça não se recordasse do que fizera.

             – Não. Eu senti uma tonteira e quando dei por mim você me segura­va com força. Por que fala em jacaré?

             – Porque havia um 1á embaixo, de tocaia à margem da estrada por onde subíamos. Você não está de gozação comigo, está?

             – Eu não estou entendendo o que você está falando. Eu juro! Você está assustando-me.

             Milena tomou outro gole de Martini em silêncio, o olhar perdido à frente, no espaço.

             – Eu não concordo com a sua analista. Não no que diz respeito ao seu pesadelo recorrente.

             – Como? – Mara fora pegada de surpresa.

             – Seu pesadelo. Ele não se enquadra nos rijos padrões da Psicaná­lise. Você já tentou a T.V.P.?

             – Não. Marquei uma sessão de hipnose, mas não compareci. Devo marcar outra para a próxima semana.

             – Você não gostaria que fosse amanhã? – perguntou Milena.

             – Eu não sei se o doutor vai poder atender assim, de repente.

             – Quem é ele?

             – É o Dr. Tanatratos.

             – O grego?! Você marcou hipnose com o grego? Ótimo! Somos amigos há muito tempo.

             – Eu não sei se ele é grego. Seu nome é uma mistura esquisita. Na verdade. chama-se Khamal Adib Tanatratos – informou Mara.

             – É o próprio. Khamal era o nome de seu bisavô, um turco. Adib é de seu avô e Tanatratos é de seu pai, um grego. A linhagem toda é masculina. Entre aqueles povos a linhagem feminina não tem qualquer importância, você sabia?

             – Sim. Porcos chauvinistas – disse Mara e ambas riram.

             – E então, você não gostaria de fazer a hipnose amanhã?

             Mara pensou em Ludimila. A colega aceitaria a presença de Milena à sessão? E Milena aceitaria a presença de mais uma repórter em sua ca­sa?

             – Por que hesita? – insistiu Milena.

             – É que há outra pessoa que também deseja fazer a hipnose, mas ela teme ir sozinha. Eu combinei que iríamos juntas – explicou Mara.

             – Traga-a para cá – simplificou Milena.

             – Você não se incomodaria?

             – Não.

             – Bem… A sessão será aqui?

             – Hum-hum.

             Mara pensou um instante e decidiu-se.

             – Vou ligar para ela. Posso?

             – Esteja à vontade. O telefone é logo à direita.

             Mara dirigiu-se à sala e discou o número da casa de Ludimila.

*   *   *

 

             As duas mulheres, mal saltaram do elevador, correram para a saída. Do outro lado da rua Franco as esperava. Elas começaram a andar atentas a algum movimento estranho, mas aparentemente tudo estava normal. O automóvel de Franco encostou no meio-fio e as duas amigas entraram rapidamente nele.

             – Vamos para onde?

             – Em direção à P.F. mas dê voltas. Quero ver se estamos sendo se­guidas – disse Ludimila, olhos fixos no retrovisor do seu lado. Franco obedeceu-lhe sem questionar. Rodou à-toa e passou várias vezes pelo mesmo local. Ninguém os seguia.

             – E aí, Ludi? Eu não vi ninguém atrás de nós – disse Franco.

             – É, parece que estamos limpos… O que você acha, Tamara?

             – Não vi ninguém suspeito – disse a outra.

             – Para a P.F. ou para o jornal? – perguntou Franco.

             – Para a esquina próxima de meu apartamento – foi a resposta de Ludimila.

             – Falou!

             Em meia-hora Ludimila e Tamara desciam do carro de Franco. Não estavam mais maquiadas nem de perucas.

             – A gente se encontra amanhã, Franco. Agora nós vamos para o meu apartamento – informou Ludimila.

             – Essa não! Eu vou ficar sem saber o que se passou lá, é?

             – Por enquanto, vai. Precisamos do clube da Luluzinha, sacou?

             – O susto foi grande, hein? – ironizou Franco.

             – Você nem faz idéia. Tchau! – e Ludimila afastou-se arrastando a colega pelo braço. Franco ficou olhando as duas entrarem na portaria do e­difício e permaneceu observando por algum tempo os arredores. Quando se certificou de que não havia nenhum movimento suspeito, arrancou.

             Banhadas e alimentadas, Ludimila e Tamara sentaram para conversar sobre o que lhes acontecera.

             – Eu desconfiava que o talzinho era pau mandado dos Kamuratti e tinha razão – disse Tamara. – Você mexeu com o diabo, minha amiga.

             – É, eu sei. Minha supresa foi encontrar a própria senhora Kamu­ratti lá. Por que ela e não o marido? Os semitas são muito machistas. Como se explica que ela tomasse a frente?

             – Talvez este seja um assunto secundário para o Sr. Kamuratti.

             – Não, não, eu não acho assim. A remessa de dólares ilegal para o banco em Israel, quando eu mencionei, mexeu mais com ela do que com o marido. Ele, na verdade, não me pareceu tocado nem por isto, nem pelo rap­to de Anteu, o filho do casal. Nem quando mencionei o envolvimento do rapaz com o Kantor Antratos. Isto é que me intriga. Por que a frieza de­le com estes assuntos?

             – O homem joga alto, Ludi – disse Tamara, reflexiva. – E tem ner­vos de aço. Eu creio que é o natural dele ser assim.

             A campainha do apartamento soou. Tamara olhou interrogativamente para Ludimila. Quem poderia ser sem se fazer anunciar?

             – É Karina – sossegou Ludimila. – Só ela pode entrar em meu prédio e vir para cá sem ser anunciada.

             – Ah, ela voltou à ativa, não é?

             – Sim.

             – Ela está a par do assunto?

             – Não. Pelo menos, não até agora.

             – Pretende informá-la?

             – Sim.

             A campainha se fez ouvir insistentemente.

             – Espere um pouco que eu vou atendê-la. – E Ludimila foi abrir a porta. Karina entrou sem cerimônia.

             – Ora, ora, ora – foi dizendo enquanto se encaminhava para o sofá onde depositou a bolsa e se sentou – as traidoras estão reunidas. Qual é a jogada?

             – Hei, que história é esta? – protestou Ludimila. – Vai entrando, assim, sem cerimônia, e já vai insultando, é?

             – Insultando?! Quem foi insultada fui eu – disse a bela morena.

             Karina beijou a face de Tamara e se voltou para a amiga, que veio sentar-se também a seu lado.

             – E então? – provocou a recém-chegada.

             – Então o quê? – disse Ludimila brejeiramente.

             – Quando é que vão contar o que estão fazendo e aprontando?

             – Isto depende – disse Tamara.

             – Depende de quê? – inquiriu Karina, séria.

             – Do que você quer saber… – provocou Tamara.

             – E de seu compromisso em guardar segredo em relação ao jornal – completou a ruiva.

             – Hei – protestou Karina – o jornal é o nosso empregador. Que negócio é este de sabotá-lo?

             – Quem falou em sabotagem? – disse Tamara.

             – Não é questão de sabotagem. É questão de vida ou morte e é sé­rio, muito sério. Se alguém falar demais nós morremos – disse Ludimila. A morena olhou espantada de uma para outra colega e lhes viu os semblantes fechados. Compreendeu que o assunto era grave.

             – Os… Os Kamuratti…? – arriscou ela.

             – Hum-hum – fizeram as duas.

             – Ainda é o assunto do Anteu…?

             – Hum-hum – repetiram elas.

             – Se importariam de falar? Esses “hum-huns” estão-me dando no saco, se querem saber. Agora, escutem, eu fui quem começou tudo. Era eu quem estava no motel quando os sequestradores chegaram. E pra finalizar a história, eu é que fui atirada para morrer naquela pista molhada. Os sequestradores viram o meu rosto, mas eu não vi os deles. Estou em des­vantagem. Sei apenas que eram negros e jovens. Exceto um, o que dava as ordens. Este era homem feito, tenho certeza. E era um animal sanguinário. Foi dele a ordem de me jogar do carro em velocidade.

             – Como sabe que eram negros e jovens? – indagou Tamara.

             – Olfato e audição. Pelo olfato identifiquei o cheiro dos negros. Pela audição distingui a voz do homem. Agora, digam-me, tenho ou não te­nho direito de ser informada do que tem acontecido em minha ausência?

             As duas amigas se entreolharam. Karina tinha realmente uma boa razão para pleitear que lhe dissessem tudo.

             – Bom – disse Ludimila – eu creio que você tem todo o direito de saber a quantas andam as coisas. Mas deve-nos prometer não passar nada à redação antes que tudo esteja desvendado, caso contrário vai condenar todas nós à morte certa.

             – Está jurado por minha honra de mulher e de profissional – disse a bela morena, muito séria.

             – Muito bem, então… – o telefone tocou. Ludimila interrompeu o que ía falar e foi atender.

             – Alô? … Mara! Que surpresa! Onde…? Não acredito!… O que?… Aí?… – Ludimila ficou muito tempo ouvindo ao telefone, sem interromper. Então, falou –  Bem, se você confiou, então eu também confio. Ah, sim, está bem. Estarei na Marina às nove em ponto… Sim, sim, tenho, tenho muitas, mas contarei quando estivermos juntas. Até amanhã!

             Ludimila voltou para junto de suas amigas.

             – Vocês não sabem da maior. Mara está hospedada na ilha de Milena Forcis.

             – O que? Na casa da noiva do pau-mandado? Ela endoidou?

             – Não, Tamara, não. Eu vou explicar tudo. Temos a noite toda pela frente e nada melhor a fazer. Além do mais, são apenas vinte horas…