COISA VELHA, O EDU 1º E ÚNICO E SEU CUMPINCHA, RENAN, O ETERNO JÁ NEM MAIS FALAM NISTO.

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"Vencemos! O velhote jogou a toalha!"

“Vencemos! O velhote jogou a toalha!”

É, Polititica já perdeu meu interesse faz tempo e deu pra notar, visto que não ando mais tão virulento contra os pestes engravatados. Mesmo assim, às vezes a gente se vê acuado, né não? Foi o caso com meu velho amigo Orozimbo que, por sinal, anda sumido. Mas quem é vivo sempre volta (não aparece que ainda não é fantasma). E ele voltou. Chegou vomitando fogo pelas ventas. Dei-lhe o café preto (porque sem leite) e amargo, como o velho gosta. Sentou-se, pitou e bebeu em silêncio. Então, quando finalmente se acalmou, voltou-se para mim e falou.

— Home, sabe qui véi gosta de vim aqui?

— Mesmo?! Não parece. Você some e não manda dizer onde se meteu.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar ou desabafar.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar ou desabafar.

— É qui a vida, num sabe, anda danada de aperriada pra quem é pobre. Vancê e sua muié ainda tem ai os caraminguá da aposentadoria. Mas e véi? Véi num tem nada. Só minha hortinha e argumas pranta cum qui faço mesinha pra curá desde dô de amô inté unha incravada.

— Eu nem isto tenho. Também, se tivesse, não saberia fazer mesinhas como as suas.

— Mió pra véi, né não? Um concorrente a menos, ora.

— Verdade. Mas notei que você chegou pondo fogo pelos chifres. Por que?

— Qui merda é essa de dizê qui Orozimbo tem chifre, sô? — E ele me lançou um olhar assassino. Eu ri. Adorava cutucar meu amigo. Ele era gasolina pura. Riscou fósforo a menos de um metro e ele pegava fogo. Fazia eu me lembrar dos tempos idos de meus 20 anos… Mais

UM CASO DE RELAÇÃO COMPLEXA

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Grand Cânion - Arizona, EUA.

Grand Cânion – Arizona, EUA.

Nós nos relacionamentos de vários modos e com vários objetos. Quando se fala de “relacionamento” as pessoas tendem a subentender este termo na dicotomia homem-mulher. Não é isto. No caso em questão, meu relacionamento complexo diz respeito ao Espiritismo. Há muito tempo, tanto que já nem mais me lembro de quando comecei este relacionamento, acho que foi em 1970, eu tinha 30 anos e entrei no Espiritismo meio de través, como se dizia na minha terra, pela porta da Umbanda. Eu estava-me separando de um casamento idiota, que levara a efeito por pura birra contra minha mãe, e já me envolvia aos trambolhões com outro relacionamento que iria me dar grandes amarguras, três filhos e tremendas dores de cabeça. Ele me lançaria num desafio terrível, tanto quanto como andar de olhos vendados sobre um fio de náilon suspenso entre os cânions dos desertos norte-americanos. Mais

A ILHA DE PARGOS – CAPÍTULO IX – A FORÇA OCULTA – PARTE I

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CAPÍTULO IX – A FORÇA OCULTA (Parte I)

O Cão No Rastro da Raposa

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor entrou no Instituto Médico Legal. Eram as nove e o sol estava esquentando o dia. A rua estava, como sempre, esfumaçada e barulhen­ta. O tráfego era um dos piores e os oitizeiros enfumaçados e sujos de fuligem enfeavam mais ainda o aspecto sujo e abandonado da Mem de Sá.

           — Pois não, senhor? — atendeu o recepcionista.

           — Sou o detetive Damastor. O doutor Hélios está?

           — Sim, senhor.

           — Poderia falar com ele, agora?

           — Sim, senhor. Siga o corredor e desça as escadas. Ele está lá, na morgue. Siga o seu nariz. Mais

A ILHA DE PARGOS – CAP. VIII – CRESCE A INTRIGA – PARTE 3

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Capítulo VIII (Parte 3) –  Terror na Ilha de Milena

 

O luxo sobre águas.

O luxo sobre águas.

O iate chegou na hora. O Dr. Khamal Adib Tanatratos foi chamado pelo serviço de som. Ergueu-se e se dirigiu ao píer. Logo depois foi o nome de Ludmila que se ouviu nos alto-falantes. A repórter levantou-se.

             — Somos nós — disse ela. — Vamos!

             Tamara e Karina seguiram-na.

             — O convidado convida onze e o dono da festa bota doze para fora ­- disse Karina, cética.

             — Milena Forcis é fina demais para isto — respondeu Ludmila otimista.

             — É, mas colocou você e Mara para fora do carro do noivo sem maiores considerações – disse Karina.

             — Aquela foi uma situação excêntrica. Acho que qualquer uma de nós teria feito a mesma coisa, no lugar dela — rebateu Ludmila.

             Subiram ao luxuoso iate. Foram recebidos pelo impecável comandan­te, que fez as apresentações delas com o psiquiatra e as acomodou no con­vés. Depois mandou servir-lhes suco de frutas gelado e pôs-se em viagem.

             O Dr. Khamal era homem bonito, pele clara, rosada, corpo forte e peludo. Tinha olhos caramelados, rosto quadrado, queixo forte e cavanha­que muito bem cuidado. Aparentava uns quarenta e cinco anos.

             — As senhoritas são amigas de Milena? — iniciou ele.

             — Não. Na verdade, nós não nos conhecemos pessoalmente —  respon­deu Karina pelas demais.

             — Não?! — surpreendeu-se o médico. — Então, como se explica e que estejam no iate dela? Desculpem a curiosidade, mas Milena é muito seleti­va com as pessoas.

             — Tudo bem, eu explico — disse Ludmila. E contou porque estavam ali.

             — Ah, então a senhorita também deseja fazer uma sessão hipnótica. Posso saber qual o motivo? — perguntou Khamal.

             — Prefiro apreciar a paisagem, doutor — fugiu Ludmila — Tudo a seu tempo, sim?

             O psiquiatra sorriu.

             — Tem razão. Mas deixe-me preveni-la de duas coisas importantes. A primeira é que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. A segunda, só faço hipnose em casos especiais.

             — Quando conversarmos sobre o meu problema, o senhor decidirá – disse Ludmila sorrindo. 0 médico assentiu, olhando-a nos olhos.

             — 0 senhor é psiquiatra de Milena Forcis? — quis saber Karina.

             — Não, senhorita. Fizemos alguns simpósios juntos. Ela é Psicóloga. E é muito competente – respondeu o médico.

             Tamara pediu licença, distanciou-se do grupo e iniciou uma boni­ta seqüência de Wushu. 0 médico observou-a interessado por alguns ins­tantes.

             — Ela tem excelente equilíbrio. Com o balanço do iate não é fácil fazer o que faz — comentou o médico.

             — É — concordou Ludmila. — Tamara escolhe sempre condições desfavoráveis para treinar sua arte marcial. 0 senhor não acreditaria se eu lhe dissesse que ela faz aquela seqüência saltando sobre as pontas de estacas finca­das no solo, a três metros de altura. E gosta de praticar à noite, quan­do chove e venta forte.

             — Sem iluminação? — admirou-se Khamal.

             — Sim. A sensibilidade perceptiva e sensorial dela é muito desenvolvida.

             — Por que necessita de tão intenso treinamento? É excelente para o equi­líbrio psicomotor, é claro. Mas por que deseja ir além dos limites natu­rais? Por acaso pretende ser uma monja Shao-lin?

             — Ginástica é como uma droga, sabe? As doses vão sempre num crescendo… sempre o ginasta quer um pouco mais — disse Karina. — Nossa amiga é uma dependente… eu acho.

             Todos riram.

             — Vocês também praticam arte marcial? — quis saber Khamal.

             — Sim — disse Ludmila. — Também somos… dependentes.

             — Sei… Fiz judô há muito tempo, quando era mais jovem — disse o médico de olhos fitos em Tamara. — Hoje, gosto mais da natação e da pesca submarina.

             E o médico falou da fauna marinha, suas excentricidades, os perigos ocultos nos corais de arrecifes e o fascínio que exercem sobre os a­feitos ao esporte. A viagem tornou-se amena. A conversa, cativante e interessante. Botafogo e Icaraí passaram sem serem notadas pelos convida­dos no iate. Tamara terminou seus exercícios e veio juntar-se ao grupo.

*   *   *

             Mara e Milena, após o desjejum, desceram para a prainha sossegada e paradisíaca. A água estava deliciosa. Mara, contudo, olhava ressabiada para as pedras e as moitas à beira-mar. Milena observou sua cautela.

             — Procurando o jacaré? — perguntou a milionária.

             — Sim. Não é companhia para dentro d’água — respondeu Mara.

             – Não se preocupe. Eles não costumam ficar na ilha. Às vezes aparecem, mas logo voltam aos manguezais no continente. A chuva os arrasta para o mar e eles vêm dar com os costados nas ilhas da baía. Mas aqui eles são muito raros. Em três anos, desde que comprei a ilha, só vi dois. E um deles foi o que você pôs a correr. Por sinal, o mais avantajado que já surgiu por estas bandas. Assisti à captura de alguns deles em outras ilhas, mas nenhum chegava à metade do de ontem.

             Mara decidiu-se e mergulhou junto com Milena. Nadaram por um bom tempo. A água era translúcida e temperada. O vento estava quase parado e o sol iluminava preguiçosamente toda a Angra dos Reis, não ardendo na pele. As duas fizeram nado síncrono e deram muitos passos de balé aquático. Não foi preciso que falassem uma com a outra. Simplesmente começaram a nadar em sintonia. O sol começou finalmente a aquecer a areia da praia e elas voltaram para a terra e se estenderam sobre as toalhas.

             — Você nada muito bem disse Milena. — Onde aprendeu a nadar assim?

             — Fui campeã de balé aquático pelo Flamengo — respondeu a repór­ter satisfeita.

             — Interessante — comentou a milionária. — Também eu fiz balé a­quático nos Estados Unidos. Competi várias vezes e cheguei a ter algumas medalhas pela Universidade de Harvard.

             — Gente fina é outra coisa — brincou Mara sorrindo. Depois acrescentou: — Isto aqui é muito gostoso.

             — É. Eu gosto muito. Apaixonei-me no primeiro dia e não sosse­guei enquanto não comprei a ilha.

             — De quem era ela, antes de você a comprar?

             — De Anteu Kamuratti. Mas ele não costumava usá-la. Vivia abandonada. O chalé estava muito maltratado. Mesmo assim, aquele pão-duro não queria desfazer-se dela. Paguei o suficiente para adquirir três ilhas semelhantes a esta.

             — E por que fez isto?

             — Porque quando quero algo, não arredo pé até conseguir — disse Milena sorrindo. Depois, mudando de assunto, perguntou:

             — Diga-me, Mara, você sempre teve esse… esse poder?

             — Que poder? — surpreendeu-se a repórter.

             — O de… nem sei como chamar a isso. O poder de pressentir o perigo e… e de dominar os animais.

             — Sinceramente, não sei. Só vim descobri-lo há pouco tempo. Ago­ra, aqui, em sua ilha, foi a primeira vez que ele se manifestou sem que eu tivesse plena consciência. Isto me deixa apreensiva.

             — Não, não, isto é ótimo. Você mostra que temos poderes mentais ainda insuspeitados pela humanidade normal. Você é o exemplo vivo de que nossas faculdades psíquicas têm muito ainda a evoluir. Veja, Mara, ainda não atingimos nossa perfeição nem na forma física, nem no aproveitamento total de nossas potencialidades psicológicas. Temos dois cérebros, mas ainda que vivendo 120 anos em plena produtividade intelectual e social, a gente não logra usar a metade da potência de um destes cérebros. Por que isto acontece? A Ciência não sabe. Todos temos um aparelho neurológico super-equipado, mas ele morre sem que nós o utilizemos. A Natureza é pródiga até o esbanjamento de tanta perfeição. Por que? Esta pergunta atormenta a mente privilegiada de centenas de cientistas em todo o mundo. Você ter ficado inconsciente pode ser porque sua estrutura psicofísica não está pronta para a explosão desse poder paranormal. Mas se ele já se manifesta, então, talvez o próprio processo da manifestação acelere sua maturação, de modo que, em algum tempo, você poderá exercer esse poder maravilhoso naturalmente. Veja, os Kirlian descobriram uma aura de saúde em volta de todo ser vivo na Terra. Provaram sem sombra de dúvida que irradiamos luzes nu­ma freqüência acima da perceptível. Com isto, provaram que realmente existe uma dimensão além daquela que podemos perceber e acima do que os aparelhos científicos têm podido desvendar até nossos dias. E se existe esta dimensão, deve existir uma espécie de matéria mais sutil do que a que estamos acostumados a estudar. Mais sutil que a matéria em ponto crítico, a que mais longe no estudo da matéria a Ciência já alcançou. E como é a realidade nesta dimensão, Mara? Você já especulou sobre isto? Esta matéria, sutil como é ou deve ser, interpenetra até nossos átomos. Veja, se um gás pode ser modificado pela mínima descarga elétrica, o que pode acontecer com a matéria mais sutil do que o gás quando atingida pelas descargas elétricas de nossos cérebros, quando pensamos? Isto quer dizer ser possível que a expansão desta matéria… sua vibração ou como seja que se deseje nomear sua reação às ondas eletromagnéticas do pensamento, pode distender-se a uma distância muito grande e pode ser captada por cérebros de pessoas privilegiadas como você. Mesmo um sáurio deve emitir ondas cere­brais, pois ele possui um. Talvez você tenha captado subliminarmente as vibrações cerebrais do jacaré e tenha compreendido suas intenções a nosso respeito, naquela hora. Para ele, éramos alimento.

             — Uma hipótese cientificamente aceitável, mas muito desagradável para mim — disse Mara pessimista. — A perspectiva futura que vejo é muito incômoda.

             — Ora, por que? — Milena sentou-se e passou protetor solar no copo.

             — Porque me antevejo uma cobaia cercada de cientistas avidamente curiosos em me estudar e experimentar. Não sou rato de laboratório nem a idéia de ser tratada como um me agrada.

             — Tome, passe em você também — e Milena deu a Mara o líquido per­fumado. A moça sentou-se e se entregou ao trabalho com prazer.

             — A sua hipótese tem uma falha — disse Mara, devolvendo a garrafinha do protetor solar à sua dona.

             — Qual? — perguntou Milena curiosa.

             — Qual? Ora, onde se enquadra Pargos, nela? A tal ilha existiu. Um repórter, chamado Sísifo, viveu nela e deixou algumas reportagens interessantes. Entre elas, falou de como a menina Letícia chegou à ilha. E foi exatamente do modo como eu vejo no meu pesadelo recorrente, como você o chama. Eu sinto que de algum modo aquele bebê sou eu. Isto não se enqua­dra em sua hipótese.

             — Não, ainda não. Mas este detalhe pode ser apenas um ângulo que percebemos aparentemente desconectado porque não temos uma teoria abran­gente. Se a gente se dedicar a estudar o fenômeno cientificamente, quem sabe possamos encontrar os elos de ligação?

             — Que tal a hipótese da transmigração da alma? — disse Mara, estudando atentamente a reação de Milena.

             — Você não crê nisto, não é? — reagiu a milionária, cética.

             — Bem, há algum tempo atrás eu riria da idéia. Agora, já me inclino favoravelmente a ela.

             — Eu prefiro ficar no terreno científico — disse Milena. — É muito mais seguro.

             — Mas você é contra esta crença? — insistiu Mara.

             — Não. Na verdade, como psicóloga, estou aberta a todas as possibilidades. A crença na transmigração da alma é tão velha quanto o ser humano na Terra. Talvez tenha sólidas razões para existir, apesar de o catolicismo e o evangelismo moverem acirrada luta contra ela. Sei que nos Estados Unidos da América do Norte muitos médicos de renome se dedicam à pesquisa séria deste assunto. Mas a Ciência ainda se mantém tímida, reticente quanto a ele. Eu também. Gosto de ter bases sólidas, pés no chão.

             — Eu compreendo, eu compreendo — disse Mara lembrando-se dos cães e do motorista do táxi.

             — Enquanto o psiquiatra não chega, quer fazer uma experiência? ­— indagou Milena muito séria.

             — Que experiência? — inquietou-se Mara.

             — Vamos para cima daquela pedra, lá — e a milionária apontou pa­ra um pedregulho que sobressaia das águas esverdeadas da baia, a uns vinte metros de onde estavam. — De lá de cima podemos ver os peixes na água que é muito clara. Que tal você se concentrar neles e dar ordens mentais para verificarmos se estou certa no que suponho? Por exemplo: mande mentalmente que formem um triângulo… ou que se posicionem uns sobre os outros e nadem em círculos. Ou, até mesmo, que nadem de barriga para cima. Que tal?

             — Eu não sei… — hesitou Mara olhando alternativamente de sua a­miga para a pedra. — Acho que podemos estar mexendo com algo que não co­nhecemos. Temo por mim, pra falar a verdade.

             — Ora, Mara, o máximo que pode acontecer é uma dor de cabeça passageira. E isto se você se concentrar de verdade. Vamos! Não custa experimentar. Veja, o ambiente é calmo. Estamos só nós duas. Você não vai ter momento mais propício que este… E então? — Milena estava realmente dis­posta a tentar e Mara se via acuada. Ela olhou para a pedra. Ficava próximo e a fundura ali não ia a três metros.

             — Vamos, eu gostaria de ver você tentar — insistiu a milionária. Hesitante, Mara concordou. As duas atiraram-se na água e nadaram até a pedra. Foi relativamente fácil subir na rocha. Mara olhou para a água e viu os peixes lá em baixo. Olhou para a sua amiga com vontade de dizer que não se sentia animada, mas Milena já marcava um lugar na pedra de onde era fácil concentrar-se olhando a água.

             — Aqui, sente aqui — disse a milionária. — Fique com a coluna reta, corpo relaxado, deixe a paz do ambiente penetrar em você.

             Mara suspirou e se deixou conduzir. No entanto, em seu íntimo e lá no mais profundo de sua Mente algo soava como um alarma. Ela não sa­beria dizer o que fosse, mas sentia que não deviam fazer a tal experiência. No entanto, como dizer isto à amiga? Como explicar que peixinhos e mar calmo poderiam ser perigosos? Impossível. De mais a mais, com base em quê ela poderia alegar perigo, se é que algum pudesse existir? Havia o tal jacaré, mas não era crível que ele aparecesse ali, em torno daquela pedra de águas calmas, claras, salgadas e ondulantes. Mara suspirou e se deixou conduzir pela amiga. Sentou-se na posição do lótus, fechou os o­lhos e fez três inspirações profundas. Fixou um ponto mentalmente entre os sobrolhos e se deixou absorver por ele. Não sabia dizer quanto tempo ficou assim. De repente seus olhos abriram e ela fixou o mar lá adiante, embora lutasse intimamente para não o fazer. Algo, porém, muito mais forte que ela impunha-lhe que o fizesse. Era como se outro ser dentro de seu Ser fosse capaz de a dominar. Uma sensação forte de impotência e uma horrível resignação invadiu-lhe a própria alma. Ela era ela e, contudo, não era ela. Aquilo era estranho e aterrorizante, embora Mara não pudesse definir bem como aquele sentimento se revelava dentro de si. Sua consciência foi apagando como num sonho…

             A uns trezentos metros de onde estavam a água se agitou. Era para lá que Mara olhava fixamente, rosto duro, feições contraídas e estranhamente envelhecidas. Na água surgiu uma elevação, uma corcova como se um casco gigante se movesse a grande velocidade sob a água clara do mar sereno. A corcova d’água vinha direto para a pedra. Milena olhou para a amiga, intrigada. Notou-lhe o olhar fixado algures e o acompanhou. Viu a corcova que avançava.

             — O que está fazendo? — perguntou a milionária, voz tensa. Aquilo podia não ser nada, apenas uma marola, mas como explicar uma coisa assim, se só acontecia num ponto bem definido do mar? E como explicar a velocidade com que avançava diretamente para a pedra onde estavam? Milena sentiu-se tensa e uma estranha sensação de perigo alertou-lhe o sub­consciente.

             — Mara — chamou ela algo gritado — concentre-se nos peixinhos… – E seus olhos fixaram a corcova d’água. Aquilo se aproximava rápido.

             — Mara! — quase gritou Milena, apreensiva e com o coração acelerado. — Mara, pare! Não traga nada perigoso para cá. Mara! MARA! PAREE!

             Milena gritou em pânico. A corcova d’água estava a menos de cem metros e o volume já se igualava á altura da pedra onde se encontravam. Desesperada, Milena considerou a possibilidade de nadar até a prainha, mas achou que jamais conseguiria chegar lá antes que a coisa atingisse a pedra. Avançou para a amiga cuja face estava encovada, pele como de palha velha e olhos injetados e tentou sacudi-la pelos ombros. Mal tocou o seu corpo, contudo, e deu um grito. A pele de Mara queimava como brasa. Seus dedos saíram como chamuscados e ardendo muito. Milena recuou assustada e o seu pé escorregou. Ela desequilibrou-se e agitou os braços no ar desesperadamente antes de mergulhar dentro da água fria. “Meu Deus!” pensou ela debatendo-se para ficar de pé. — “Vou morrer! Aquilo vai-me pegar!” — E este pensamento deu-lhe a força necessária de que precisava para vencer a resistência da água. Ela ficou de pé. Jogou-se para a pedra, mas fra­cassou por duas vezes. “Preciso ter calma” — dizia de si para consigo a pobre milionária desamparada — “Meu Deus, eu preciso ter calma”‘ – E ela tornou a se jogar sobre a pedra escorregando as mãos no limo e não conseguindo firmar-se. A corcova d’água estava a uns dez metros e avançava direto para ela. “Não quero morrer”‘ quase gritou Milena lutando ferozmen­te para subir na pedra. Seus braços estavam arranhados e sangravam, mas finalmente ela conseguiu aferrar-se numa reentrância da pedra e içar­-se para cima. Gritando sem controle, Milena pedia em desespero:

             – MARA, PÁRA, PELO AMOR DE DEUS, PÁRA! A COISA ESTÁ SOBRE NÓS… MEU DEUS, O QUE É AQUILO?

             A corcova finalmente chegou. Era tão alta que banhou a pedra envolvendo as mulheres. Mara, curiosamente, não se abalou, mas Milena teve de lutar muito para não ser puxada de sobre a pedra. Um grito quase inu­mano escapou da garganta da milionária. A coisa passou entre a pedra e o canal num semicírculo e voltou para de onde tinha surgido. Milena, olhos arregalados, entreviu sob as águas algo cinzento e enorme, de uma potência tão grande que por segundos ela teve a impressão de que aquilo ia arras­tar a pedra atrás de si. Mas não arrastou. Sem voz, Milena, coração ain­da em disparada, ficou observando a corcova d’água se afastar velozmente tal como havia chegado. Lá, no mesmo ponto onde surgira, a corcova se desfez. O mar voltou a serenar. Milena soltou um longo suspiro. Nem acredita­va que ainda estivesse ali, viva. Foi quando um gemido a trouxe de volta à dura realidade. Voltou-se e viu o corpo da amiga cambalear e pender em direção à água. Correu para ela e a sustentou a tempo de impedir que despencasse para o mar. Procurando controlar seu nervosismo, Milena chamou:

             — Mara! Mara, acorde! Pode-me ouvir?

             O corpo da moça estava tão frio que parecia ter saído de dentro de uma geladeira e Milena lembrou-se de que há pouco ele literalmente havia queimado sua mão.

             “Fantástico!” — murmurou a milionária. — “Que poderes desconhecidos tem esta moça?”

             Mara abriu os olhos, bocejou e se espreguiçou.

             — Você está bem? – perguntou Milena apreensiva e ainda cheia de medo, lançando olhares de desconfiança para o mar tranqüilo.

             — Eu… Eu acho que adormeci — balbuciou Mara, sonolenta. — Desculpe-me. Eu vou tentar de novo.

             — Não! – quase gritou Milena. — Não é preciso. Acho melhor a gente voltar. O iate deve aportar em poucos minutos. Vamo-nos preparar para receber sua amiga e o psiquiatra, sim?

             Enquanto falava, Milena olhava desconfiada e apreensiva para as tranqüilas e esverdeadas águas da baía. Nenhum sinal da corcova. A água estava calma e as marolas de sempre lançaram reflexos prateados para o ar. De qualquer modo, Milena ainda tinha bem viva em sua memória aque­la coisa cinzenta capaz de nadar com uma velocidade impressionante sob a água. Temia secretamente que aquilo voltasse.

             — Desculpe eu ter dormido — pediu Mara, constrangida.

             — Ora, acontece — respondeu Milena sempre olhando desconfiada para o mar, lá onde a coisa descomunal e cinzenta sumira. “Será que aquilo vai voltar quando estivermos na água?” perguntava-se inquieta, mas tentando aparentar calma. Pelo que podia observar, Mara nem desconfiava do perigo que ambas tinham passado há pouco. A dúvida a inquietava, embora, é claro, tivesse a certeza de que tinham de nadar. Não havia como sair dali sem nadar e não havia como nadar sem ter de mergulhar no mar. Não fôra uma boa idéia a sua. Mara estava com razão, quando dissera que talvez elas estivessem mexendo com algo que não podiam controlar. Mas a­té onde a repórter tinha consciência do que lhe acontecia? Naquele momento parecia-lhe que a moça era totalmente ignorante a respeito.

             — Saltamos?

             Milena encarou o mar. Estava com medo, mas tinha plena consciên­cia de que a responsabilidade fora toda sua. Tinha de assumi-la.

             — Saltamos? — insistiu Mara.

             — Sim! — E Milena atirou-se com ímpeto na água, saindo com vigo­rosas braçadas. Parecia-lhe que a coisa estava em seus calcanhares e na­dou tão fortemente que estava já na prainha quando Mara ainda se encon­trava a meio caminho. Quando a repórter saiu da água perguntou sorrindo para a sua anfitriã:

             — Era competição? Você devia ter-me prevenido.

             — Não, não, nada disto. Eu… eu só queria estirar o corpo. Não foi nada agradável ficar sentada lá, sem fazer nada a não ser olhar as águas… — e Milena mais uma vez mirou o mar. Estava calmo e ela se sentiu aliviada.

             — Não funcionou, não foi? Eu temia isto. A coisa me vem de supetão. Eu não tenho controle sobre ela.

             Milena permaneceu de pé, enxugando os cabelos com a toalha e fitando disfarçadamente o ponto onde aquilo havia sumido. “Que diabo de negócio era aquele? Onde se esconde, agora? Será que é um habitante natural do mar despertado pela força mental de Mara, ou será que foi algo que a moça criou inconscientemente? A última hipótese não era plausível ao seu julgamento, e Milena sacudiu a cabeça com descrença. Criar de onde? Com o quê? Partenogênese já era difícil de engolir; aquela criação do nada, en­tão, nem se fala. Mara percebeu o insistente olhar de Milena para as se­renas águas do mar e franziu o sobrolho. Teria acontecido algo de que não tomara consciência?

             — O que é? Por que olha tão insistentemente para as águas do mar?

             — O que? Oh, nada, nada mesmo… quer dizer, eu pensava em que espécie de vida há sob estas águas… . O mar é sempre uma incógnita, não é?

             Milena apanhou a toalha na areia e seu bronzeador e convidou a desconfiada repórter que, agora, também mirava escrutadoramente as tranqüilas águas verde-azuladas da baía mais bela das Américas.

             — Vamos? — convidou.

             — O que você quer dizer com isto? — indagou Mara, desconfiada.

             — Apenas um comentário que geralmente me faço quando olho as águas serenas do mar, onde quer que eu me encontre. Vamos embora.

             A milionária pôs-se a caminho seguida de Mara que a olhava ainda intri­gada. Subiram a estrada rústica, calçada de pedras brutas que facilitavam a íngreme ascensão por entre o verde brilhante das folhas das grandes ár­vores e dos arbustos sempre úmidos. Muitos pássaros cantavam entre as fo­lhagens e os insetos zumbiam numa sinfonia entorpecente. As cigarras pre­nunciavam o calor carioca com o seu trilar contínuo e monótono. Em silên­cio, as duas mulheres passaram ao lado noroeste da ilhota. Mara, não sabia definir a razão, sentia-se tensa e apreensiva. Qualquer coisa dentro dela incitava-a a ir embora dali o mais depressa possível. A mata, que devia ser agradável, dava-lhe a impressão de algo oprimente. Estava irritada e esta sensação desagradável crescia dentro dela sem razão nenhuma. Tinha de lutar muito para não solicitar que o iate a levasse de volta para a mari­na. Chegaram ao píer a tempo de assistir a embarcação manobrando para atracar. Quando, finalmente, atracou, três passageiros desceram e se encami­nharam para elas.

             — Sua amiga trouxe companhia — disse Milena sem olhar para Mara.

             — São Karina e Tamara. Só não faço idéia do porque as convidou…

             — Por mim, não tem problema. E por você? — Milena olhou para a repórter. O tom de voz da moça parecia aborrecido e pôde observar que a fi­sionomia dela também estava carregada.

             — Não se preocupe. O Chalé é grande e, se são suas amigas, são bem-vindas — disse Milena tentando aliviar a preocupação de Mara pela falha da companheira que convidara.

             — É que eu não gostaria que as outras participassem da sessão — falou Mara à guisa de explicação.

             — É só dizer isto ao Dr. Khamal — explicou Milena sorrindo. — Ele tomará as precauções necessárias. Afinal, é um profissional competente.

             — É…  você tem razão — concordou Mara notando que a outra a ob­servava atentamente. Respirou fundo e tratou de descontrair-se mostrando um sorriso simpático.

             — Milena… — disse Mara.

             — Hum?

             — Muito obrigada.

             — Não há do que agradecer, minha cara. Você é que me revelou um aspecto da vida que ainda não conheço. Eu sou quem lhe agradece o favor de tê-lo trazido a mim. Venha, vamos receber nossos amigos.

             As moças se encaminharam ao encontro do grupo que já se punha a andar em sua direção. Mara fez a apresentação de suas colegas e Milena cumprimentou carinhosamente seu velho amigo Khamal, apresentando-o, por sua vez, a Mara. A moça gostou do médico logo de saída. Este, por sua vez, também sentiu-se agradavelmente atraído pela sua futura paciente. O gru­po encaminhou-se para o chalé. Mara, agora, dava-se conta que todo o es­tranho aborrecimento que a havia acometido momentos antes desaparecera. O magnetismo de Khamal lhe fazia bem. Enquanto Karina e Tamara papagueavam com Milena sobre as belezas do lugar, Mara entabulou conversa com o médico, que lhe ofereceu naturalmente o braço, aceito sem restrições pela bela repórter.

             — O senhor tem um sobrenome sui generis — disse Mara ao simpático doutor.

             — Como assim? — perguntou ele surpreso.

             — Tanatratos. É… é  um tanto mórbido,  não  acha?

             — Não. Era o sobrenome de meu pai, que Deus o tenha — disse o médico.

             — Bem, Tanatratos lembra Tanatus… Morte. — Comentou Mara.

             — Oh, isso? — E Khamal sorriu. — Pois fique sabendo que é um so­brenome tradicional na Grécia, minha cara. Meu pai foi um nobre grego.

             — Oh, que surpresa! Isto pode dar uma bela reportagem — disse a moça.

             — Não, não. Os Tanatratos já estão praticamente extintos. Que eu saiba restamos eu e uma parenta longínqua que nunca conheci e que vive lá pelas ilhas da Grécia. Sou apenas um psiquiatra entre os milhares que vivem no nosso Brasil. Não tenho qualquer projeção social para atrair a atenção de repórteres como você e suas amigas. De meu ponto de vista, um trabalho sobre mim só lançaria você em situação desconfortável ante seu redator chefe…

             Mara sorriu. Tanatratos demonstrava claramente que não entendia nada de jornais.

             — Depois de nossa sessão de hipnose vamos cuidar disto. Eu lhe mostro se não é assunto para uma reportagem, a sua descendência. E, acredite, isto vai-lhe tirar do ostracismo, doutor.

             Ambos deram uma gargalhada. Entre chistes e risos, o grupo chegou ao chalé, muito admirado pelas recém-chegadas. Milena deixou-os aos cui­dados de Téia e foi, com Mara, tomar um chuveiro e se livrar do sal.

             Luis e Andréia trataram de colocar as visitas à vontade. Serviram-lhes sucos de maracujá bem gelado e biscoitos com patê e ovos de codorna a fim de que pudessem aguardar pelo almoço, um dourado a escabeche, geralmente servido lá pelas três da tarde.

             A conversa estava muito animada quando as duas retornaram. Khamal gostou do que viu. Mara vestia um short de Milena e mostrava um corpo de­licioso sob a blusa leve e sem soutiens. A moça tinha um modo suave de pisar o chão que dava a impressão de que não andava, mas deslizava sobre o piso.

             — Vejo que já se entrosou com as moças — disse Milena pondo uma azeitona na boca.

             — O Dr. Khamal é excelente companhia. Aprendemos muito sobre a vida submarina durante a viagem até aqui — informou Ludmila.

             — E eu aprendi muito sobre Shao-lin do Norte com a jovem Karina ­— disse o médico.

             — Bom, então, que tal você conversar com a sua paciente? Eu não sei se esta é a melhor hora, pois são quase 11, mas ela está ansiosa — informou Milena.

             — Para o que ela quer não há horário. Por mim, tudo bem. Onde é que podemos…

             — Na biblioteca que tenho lá em cima. Há dois excelentes divãs, caso necessitem disto — disse Milena sentando-se entre as repórteres.

             Khamal levantou-se.

             — Está bem — disse. — Vamos, senhorita Mara?

             — Por favor, chame-me simplesmente Mara, sim? — pediu a repórter.

             — Como quiser. Vamos, então, Mara? — e Khamal sorria um sorriso cativante. Mara sentiu o coração bater mais forte e compreendeu que não era devido à experiência que estava prestes a viver. Era o médico. Ela se sen­tia fortemente atraída por ele. Era a primeira vez que tal coisa aconte­cia e Mara estava num gostoso misto de excitação e vergonha. Sentia-se uma adolescente diante do seu primeiro namorado. E, para falar a verdade, era a primeira vez que vivia aquela emoção. “Gostaria que não fosse casa­do” pensou a moça levantando-se. “É a primeira coisa que vou procurar descobrir depois da sessão. Gostaria de namorá-lo. Será minha primeira vez e vou gostar disto.”

             — Eu também vou – disse Ludmila pondo-se de pé. — Pode ser, não é doutor?

             — Se Mara não se opuser…

             Mara bem gostaria de dizer que se opunha, mas não o fez.

             — Não, eu não me oponho. Combinamos isto, antes.

             — Então, venha também. Com licença das outras moças — e Khamal se dirigiu para a escada.

             — A gente não pode assistir? — pediu Karina expectante.

             — Não, senhorita — respondeu Khamal, voltando-se para Karina. — A senhorita Ludmila só estará presente porque as duas já haviam combinado isto, antes. Sinto muito. Podemos ir?

             Os três subiram as escadas e se dirigiram para a bem arejada e iluminada biblioteca. Os janelões em vidro fumê permitiam uma belíssima vista da ilha e do mar.

             O trio tomou assento. O médico numa cadeira giroflex e as moças numa poltrona, cada uma.

             — Bem, antes de iniciar eu gostaria de ouvir as razões das senhoritas para tentar a hipnose e a regressão. Quem quer começar?

             — Eu começo — disse Mara. Ato contínuo passou a narrar seu pesadelo, suas pesquisas, suas descobertas sobre Pargos, a opinião de sua a­nalista, a suspeição de um fenômeno espírita e a hipótese aventada por Milena. Quando acabou, foi a vez de Ludmila. O Dr. Khamal ouviu-as sem interromper nem uma vez sequer. Quando as moças acabaram suas histórias, Khamal levantou-se e foi até uma das janelas, abrindo-a e ficando em si­lêncio, olhando a bela vista que de lá descortinava.

             — Moças — disse ele, após um grande silêncio em que parecia es­tar querendo organizar seus pensamentos. — não sei se o problema de am­bas seja da esfera da Terapia de Vidas Passadas. No pesadelo recorrente de Mara  há grandes e importantes símbolos pertencentes àquela área do Ser Humano a que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. É sabido por todo terapeuta que o símbolo por excelência da área emocional humana e a á­gua. O mar, então, é o símbolo arquetípico primeiro deste manancial que é o Inconsciente Coletivo. A jamanta… a arraia que ela percebe sob o barco é mandálica. A criança dentro de um cesto abandonada sobre as águas é universal. Três mil anos antes de Moisés, na desconhecida cida­de de Uruk, festejava-se o lendário herói Guilgamesh. Entre as muitas e muitas versões sobre este herói, que se acredita ter existido e ser anterior a Uruk, há uma que o cita como tendo sido recolhido de sobre as á­guas do mar. Suspeita-se que o mito de Moisés tem fundamentação numa có­pia daquele, tão antigo que se perde nas brumas do tempo. O fogo como elemento purificador da alma, saindo de dentro d’água tem um significado mítico universal. É a transmutação dos baixos sentimentos em sentimentos e emoções altruísticas e humanitárias. A ilha também é mandálica, pois que geralmente toda ilha é redonda ou arredondada. Mas tem a significação da solidão do ser que evolui para a sua Individualização ou a sua Personalização, como quer Jung. Enfim, o sonho ou pesadelo de Mara é muito rico e muito cheio de símbolos arquetípicos difíceis de interpretar, a menos que se faça o seu acompanhamento psicoterapêutico há anos. A simbologia ar­quetípica não surge aleatoriamente. Tem muito a ver com a situação psicoafetiva evolutiva do indivíduo.

             — Mas Dr. Khamal — protestou Ludmila.— A ilha de Pargos corres­ponde exatamente ao sonho de Mara e às minhas visões. Como se explica isto?

             — Senhorita — disse Khamal —, tenho navegado muito pelos oceanos e tenho visitado quase todas as ilhas da terra. Jamais ouvi qualquer men­ção à Ilha de Pargos. Pelo menos, não na latitude e longitude citadas. O local ali é somente de águas. Conheço bem o Pacífico.

             — No entanto o repórter Sísifo esteve lá e escreveu sobre a ilha — contestou Mara.

             — Sim, e isto me deixa com uma interrogação. Os atacamenhos existiram no Chile. Eram um povo de pastores, mas estão extintos há muitos e muitos séculos. Quanto aos míticos atlantes… Bem, particularmente eu não acredito em Atlântida. Talvez sejam gregos antigos que aportaram por aquelas bandas… Talvez numa ilha que já afundou… eu não sei. De qualquer modo, a existência das tais reportagens é um mistério. Eu não posso ligar os pesadelos de Mara e as suas visões, Ludmila, à misteriosa ilha descrita pelo colega de profissão de vocês duas. Mas uma civilização de­saparecida criou, também, moldes arquetípicos em costumes, em lendas e particularmente em religião. É possível — notem que não estou afirmando —, é possível que Mara, assim como você, tenha lido algo a respeito ou… ou de algum modo, tenha tido contato com a história daquele povo. A impres­são que isto lhe causou pode ter suscitado a força psíquica capaz de possibilitar a realidade arquetípica daquela civilização desaparecida através dos pesadelos. Estes, de certo modo, têm a ver com os fenômenos internos do processo de Personalização de Mara. A recorrência pode-se dever a que o Ser transpessoal de sua colega ainda está-se debatendo no árduo processo de crescimento… de individualização. Daí porque ela é representada como uma criança abandonada sobre o mar e dentro de um cesto… Uma semideusa, como todo indivíduo mítico com lenda semelhante, inclusive o tão fa­moso Moisés. Este símbolo corresponde, aliás, ao arcano nove, o Ermitão, no baralho Tarô. A criança sofre pela Luz do Sol. O Sol, como se sabe, é o símbolo de Deus e sua Luz quer dizer redenção, crescimento, que nunca acontece sem sofrimento. Todo crescimento implica a dor de um renascimento. Daí porque Mara é uma criança que, embora bebê, é sábia. O velho Ermi­tão no Ser que cresce… Estão-me entendendo?

             — Acho que sim… — responderam as moças titubeantes e se entreolhando.

             — Bem, o pescador… Gaditano, segundo o tal repórter, não é? O pescador Gaditano também representa a prudência do Ermitão. É solitário, é forte e é cauteloso. Talvez que simbolize pura e simplesmente a parte da personalidade de Mara que deve reagir para que a criança que está morrendo queimada pelo Sol possa nascer novamente… sobreviver… Em outras palavras, esta parte do sonho bem pode significar que Mara precisará ter muita prudência e muita cautela diante das situações de vida ainda desconhecidas para ela e que lhe trarão experiência e maturidade perante a aspereza e a rudeza do interagir humano. É neste vulcão que se cresce, que se deixa a inocência e o apego primitivo à dependência para se ser sozinho e sábio o suficiente para manter a própria vida e a daqueles que por sua vez dependem de nós porque os geramos. Estão-me entendendo?

             Enquanto o Dr. Khamal explanava suas idéias sobre o pesadelo re­corrente de Mara e as visões quadridimensionais de Ludmila, Milena con­vidava suas hóspedas a visitarem a pequena, mas agradável ilha. Principiou pelos arredores do chalé, mostrando-lhes a boa localização dele sobre a pedra. Depois de discutirem a arquitetura arrojada da construção, desceram para o mirante, um local descampado, doze metros abaixo do chalé e uns vinte e cinco acima do mar. A descida até lá era íngreme e muito arborizada, principalmente por arbustos e espinheiros. Entre a mata rala e natural do local, Milena mandara plantar mogno e outras plantas raras como o pau rosa e alguns cedros. As ibiunas foram plantadas pelo antigo dono e estavam grandes o suficiente para dar uma sombra muito densa e gos­tosa. O grupo desceu alegremente. No platô artificial elas pararam para admirar a vista tanto do mar lá embaixo, quanto de outras duas ilhotas a menos de uma milha de onde estavam.

             — Você é uma pessoa totalmente diferente da imagem que eu fazia a seu respeito — disse Karina a Milena, sentada no rústico banco feito de um tronco caído e ao abrigo do sol sob a sombra de enorme e copado ingazeiro.

             — E qual era a imagem que você fazia de mim? — perguntou divertida a milionária, sentando-se a seu lado. Tamara se encaminhara até a borda do mirante e se deliciava com a vista e a brisa.

             — Bem… eu a imaginava uma pessoa superficial. Uma… irresponsável filhinha do papai, sabe? Aquela cabecinha de vento fanática pelo aplauso nas passarelas e fissurada nas noitadas regadas a vinho e a…se­xo sem compromisso.

             Milena soltou uma gostosa gargalhada.

             — Eu gosto do modo franco que você usa para dizer as coisas — falou entre risos. Algumas amigas “não-me-toques” que eu conheço diriam que você é demasiado rude, mas eu não acho isto. Sua franqueza me diz que se trata de pessoa firme e até confiável.

             — Por que o até?  — estranhou a repórter.

             — Porque aprendi a duras penas que repórter e polícia são profis­sionais em quem não se deve confiar.

             — Eu acrescentaria também os advogados — disse Tamara aproximan­do-se das duas.

             — Nisso vocês têm razão — concordou Karina.

             — Eu sei que tenho. Quando meu noivo e eu…

             Milena parou o que ia dizer e olhou em volta. Alguma coisa muda­ra no ar. Uma mudança sutil, quase imperceptível. A atmosfera ficara densa, pesada. A milionária sentiu os pelos na pele arrepiarem-se e um tremor involuntário lhe sacudiu o corpo. Sem se controlar ela cruzou os braços alisando os músculos como se querendo aquecer-se.

             — O que foi? — surpreendeu-se Tamara.

             — Não perceberam? Algo mudou… Eu não sei bem o quê, mas o ambiente… o ar…  eu sinto como se tivesse havido uma… uma densificação. Não sentem a mesma coisa?

             As repórteres pararam para prestar atenção ao lugar. Sim, qual­quer coisa havia mudado no ambiente. Não era algo visível ou palpável. Era somente sensível. Karina, olhar perdido no vazio, foi a primeira a de­tectar um sinal da estranha alteração na atmosfera do local.

             — Os pássaros e os insetos pararam de fazer ruído… — murmurou.

             — É. É isso! — concordou Milena. — A mata está silenciosa demais e foi de repente.

             — A luz do sol ficou mais mortiça ou é impressão minha? — perguntou Tamara, olhando em volta.

             — Não… Bem, ficou sim. Mas vejam, sobe uma tênue névoa do mar e envolve a ilha exclamou Milena, surpresa.

             Sim. Uma estranha névoa subia do mar e da terra, como o rocio da manhã, só que em hora muito imprópria — vinte para o meio-dia. — Um frio úmido fez que as moças tremessem.

             — Isto é inusitado — disse Karina. — É comum, aqui?

             — Nunca vi tal coisa acontecer, antes. E nesta época do ano, me­nos ainda – informou Milena.

             — 0 que será que está acontecendo? — a voz de Milena demonstrava certa apreensão. Ela se recordara do acontecido no mar e o medo voltou a lhe esfriar o coração. Pensou em Mara. Estaria ela já hipnotizada? Kari­na observava a milionária e notou-lhe a tensão. Pôs-se em alerta. Não sabia por quê, mas sentia perigo iminente no ar.

             — Antes… alguma vez… você presenciou algum fenômeno inusita­do aqui, na sua ilha? — indagou suspeitosa a repórter.

             — Não… Quer dizer… — Milena hesitou.

             — O que é? 0 que aconteceu? — inquiriu Karina curiosa.

             — Eu presenciei dois fenômenos esqui…

             Milena parou de chofre. Um horrível bocejo chegou até elas. Algo como um exalar de ar por uma garganta enorme. A milionária empalideceu e levou a mão ao coração.

             — Meu Deus, não é possível! — exclamou ela, assustada e pálida.

             — O que… O que é? — perguntou Karina perplexa e olhando para o lugar onde se fixava os olhos da sua anfitriã. Não viu nada. Tamara tam­bém escrutava a mata sem notar nada de anormal. Aquele estranho ruído parecia-lhe muito conhecido, mas não conseguia identificá-lo de pronto.

             — Que barulho horrível foi esse…? — perguntou num murmúrio a mulata.

             — 0 jacaré… — disse Milena num fio de voz.

             — 0 quê? jacaré…? — Karina olhou em volta. Agora estava com medo de verdade. A neblina adensara-se e ela quase não conseguia ver o ca­minho pelo qual haviam descido até ali.

             — Ele está por aqui. Pode-nos atacar… disse Milena, tensa e chorosa. — Ah, meu Deus, como eu queria que a Mara estivesse aqui.

             — Mara?! — estranhou Tamara. — O que a Mara tem com isto? Confes­so que não estou entendendo nada.

             Alguma coisa muito pesada arrastou-se pelo chão, a uns oito me­tros de onde elas estavam. Karina olhou apreensiva para lá e a mesma coi­sa fizeram as outras duas.

             — Sua ilha tem jacarés? — perguntou Tamara espantada e assustada.

             — Não. Esse aí é um inquilino indesejável que apareceu ontem, a­qui na minha ilha. Pensei que tivesse ido embora…

             — Eu espero que não esteja com fome. A gente não tem muita opção, aqui — disse Karina preocupada.

             — Jacarés não sobem em árvores, mas nós, sim — falou Tamara pondo-se de pé e acenando com a mão para que as outras a seguissem. A coisa lá no mato voltou a bocejar e arrastou-se em direção às mulheres.

             — É hora de bancarmos a chita de Tarzan — e Karina empurrou Milena para os primeiros galhos de uma árvore.

             — Vá para o mais alto que puder — comandou. Ato contínuo ela também subiu, seguida de Tamara que se movia agilmente. Encarapitadas a qua­se cinco metros de altura, elas esperaram, corações disparados. Não podi­am ver o chão, tal era a densidade da neblina. Lá do mato vinha o barulho de algo pesado arrastando-se sobre galhos e folhas secas…

 * * *

             Toda Rio de Janeiro sentiu algo estranho na atmosfera. Os que estavam dentro de ônibus tiveram a impressão de que o ar tremera por um ou dois segundos. As coisas pareceram ter centenas de bordas: as cabeças das pessoas, os bancos à frente, a rua por onde trafegava o ônibus. A mesma coisa aconteceu com os que dirigiam seus veículos próprios.

Kamuratti estava no alto da Torre onde se encontrava seu escritório e olhava pela janela para a Praia da Urca. Súbito a vista se lhe escureceu e tudo pareceu flutuar entre uma realidade e outra; entre um mundo e outro. Foi uma experiência estarrecedora, mas rapidíssima. O Morro da Urca por décimo de segundo pareceu ter duas silhuetas. Tudo aconteceu no limiar da percepção consciente. Mas Kamuratti estava certo de que por um tempo curtíssimo ele vivenciara uma experiência extraordinária: estivera entre dois mundos. Aturdido deu alguns passos pelo grande escritório, mão direita na testa, sem poder apreender bem o que havia acontecido. Então, algo chocou-se com a vidraça da janela. O banqueiro voltou-se rápido a tempo de ver uma pomba-rola caindo. Correu para lá e abriu a janela. Levou uma baforada de ar quente no rosto que o fez recuar. Assustado, correu a fechar novamente a janela e olhou para baixo. Vários carros se tinham chocado bem diante da entrada do Túnel Novo. Uma grande confusão se formara no local. Buzinas nervosas, apitos trilados…

Kamuratti arregalou os olhos. “A Ressonância de Schumann!” exclamou de si para consigo. Sua pulsação é muito rápida, imperceptível, algo em torno de 7,83 pulsos por segundo… A reunião… O ritual… Será que provocamos algum abalo fora do controle científico?”

Kamuratti correu a ligar a TV e logo ouviu, pasmo, o repórter anunciar: “Atenção! Um fenômeno inexplicável acontece agora, na Cidade Maravilhosa. A temperatura subiu de repente e passa dos 45º. Aves caem mortas, pois o calor parece abrasador. As pessoas relatam uma tontura repentina. Motoristas que se acidentaram também alegam que tiveram a sensação de estar em duas ou mais dimensões de tempo-espaço. Vários acidentes de trânsito tornam caótico trafegar pelo Rio de Janeiro neste momento. Agora mesmo, eu tenho a impressão de que há duas temperaturas ao mesmo tempo, na atmosfera. Simultaneamente sinto calor e frio intenso. Não sei como explicar tal coisa espantosa. Voltaremos em breve com o Dr…”

Kamuratti desligou a TV e se sentou, aturdido. “Não pode ser. Nós não mexemos com fenômenos naturais… O que deu errado na reunião?”

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO LXI – YEHOSHUA ENSINA SUA DOUTRINA AOS CELTAS (II)

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Ele era pacífico e confiava em sua Vontade para fazer que sua Fé fosse produtiva.

Ele era pacífico e confiava em sua Vontade para fazer que sua Fé fosse produtiva.

A estátua de cinzas espantou e amedrontou os presentes. O Mago estrangeiro não tinha sido páreo para o Druida Allan. Um pesado silêncio se fez e todos os olhos estavam pregados na estátua em que pensavam eles Issa se tinha transformado. Mas um homem abriu passagem silenciosamente entre os circunstantes e veio colocar-se ao lado de Allan, que o olhou e sorriu, matreiro. Issa avançou e se colocou à vista de todos. Houve um recuo dos presentes, tomados por um susto maior do que aquele que tinham sofrido ao ver o estrangeiro ter-se transformado em cinzas.

— Por que ficais aí, olhando algo sem qualquer significado? Isto são cinzas — e Issa deu um tapa na estátua, que se desfez e sumiu no ar soprada pela brisa noturna. Allan avançou e abraçou o Mago estrangeiro com uma sonora gargalhada. Ambos, rindo, se dirigiram ao espantado Bryan que recuou dois passos, olhos esbugalhados de susto e sem compreender como é que Allan estivesse rindo ao lado de “sua vítima”.

— Nem tudo é aquilo que parece, chefe Bryan — disse Allan, ficando novamente sério. — Issa não é Mago como eu. É infinitamente superior a qualquer Druida Celta. Ele é quem É, se me entende. E se curou, alimentou, dessedentou e libertou os germanos, então, que eles sigam de volta para sua aldeia e dêem o recado de Issa a seus comandantes. Mais

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO LX – YEHOSHUA ENSINA SUA DOUTRINA AOS CELTAS

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Corrigido em alguns trechos.

PENSANDO BEM...

Como Jesus falou com o Pai enquanto estava no escuro, sobre o topo de um morro que se acreditava assombrado pelo diabo? Ninguém sabe.Pacífico, sim. Covarde, jamais.

Um mês se passara desde que Yehoshua impedira que seus dois irmãos fossem mortos pelos mongóis nômades. Agora, ele viajava em companhia de seus três discípulos. Iam numa carroça, puxada por quatro belos cavalos, direto para uma das aldeias mais violentas entre os celtas e que ficava próxima do território dominado pelos germanos, outro povo guerreiro e conquistador. Uma batalha sangrenta estava a ponto de se estabelecer entre os dois povos. A manhã era fria e uma bruma preguiçosa se estendia por entre as grandes árvores de copas altas e densas. Issa cantava baixinho enquanto se entretinha em trançar uma corda com finos fios de lã de carneiro. Olhando-o trabalhar absorto naquela tarefa cansativa e meticulosa, Primus e Atonchau cochichavam sobre o desperdício de tempo de Issa. O Mestre, que não os ouvia, cantarolava sua canção em idioma desconhecido pelos dois.

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HAITIANOS EM GOIÁS

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"O quê? Fui parar nesse blog?! Mas como?"

“O quê? Fui parar nesse blog?! Mas como? Quem falou pro danado sobre a Cachoeira Dourada? Eu quero que esse assunto fique esquecido, diabo!”

Ouço, às 7:15 h, que aqui perto, em uma cidadezinha que se tornou quase bairro da capital, conhecida como Aparecida de Goiânia, há uma colônia de 8.000 haitianos e que, diariamente, chegam por aquelas plagas a média de 10 a 15 novos  esperançosos em busca de paz e trabalho.

Ora, Aparecida de Goiânia é des-governada por Maguito Vilela, um ex-Zé Ninguém que, apadrinhado de Iris Resende, terminou por ser primeiramente eleito Prefeito de Goiânia, depois Governador, quando fez merda de montão, inclusive esculhambou a Companhia de Eletricidade do Estado, a CELG. De tal modo foi a roubalheira e a desorganização e desadministração na Empresa, que Maguito teve de vendê-la para conseguir tapar os rombos do PMDB e quadrilheiros. Apurou quase um bilhão de dólares (1997), o que realmente não somente daria para tampar os rombos causados pelos eternos roubos políticos, crônicos no Brasil, como, ainda, daria para realizar muitas obras boas em Saúde Pública e Educação, visto que naqueles idos, a população do Município não ultrapassava um milhão de habitantes. Nem chegava a tanto. Mas, como SEMPRE acontece neste “brasil” de coitadinhos, o dinheiro sumiu não se sabe como. O próprio Maguito (com um nome destes…) declara até hoje não fazer idéia de para onde foi tanto dinheiro (só não explica é como conseguiu aumentar subitamente suas posses e adquirir fazendas, mas isto é outra história).  Mais

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