COISA VELHA, O EDU 1º E ÚNICO E SEU CUMPINCHA, RENAN, O ETERNO JÁ NEM MAIS FALAM NISTO.

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"Vencemos! O velhote jogou a toalha!"

“Vencemos! O velhote jogou a toalha!”

É, Polititica já perdeu meu interesse faz tempo e deu pra notar, visto que não ando mais tão virulento contra os pestes engravatados. Mesmo assim, às vezes a gente se vê acuado, né não? Foi o caso com meu velho amigo Orozimbo que, por sinal, anda sumido. Mas quem é vivo sempre volta (não aparece que ainda não é fantasma). E ele voltou. Chegou vomitando fogo pelas ventas. Dei-lhe o café preto (porque sem leite) e amargo, como o velho gosta. Sentou-se, pitou e bebeu em silêncio. Então, quando finalmente se acalmou, voltou-se para mim e falou.

— Home, sabe qui véi gosta de vim aqui?

— Mesmo?! Não parece. Você some e não manda dizer onde se meteu.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar ou desabafar.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar ou desabafar.

— É qui a vida, num sabe, anda danada de aperriada pra quem é pobre. Vancê e sua muié ainda tem ai os caraminguá da aposentadoria. Mas e véi? Véi num tem nada. Só minha hortinha e argumas pranta cum qui faço mesinha pra curá desde dô de amô inté unha incravada.

— Eu nem isto tenho. Também, se tivesse, não saberia fazer mesinhas como as suas.

— Mió pra véi, né não? Um concorrente a menos, ora.

— Verdade. Mas notei que você chegou pondo fogo pelos chifres. Por que?

— Qui merda é essa de dizê qui Orozimbo tem chifre, sô? — E ele me lançou um olhar assassino. Eu ri. Adorava cutucar meu amigo. Ele era gasolina pura. Riscou fósforo a menos de um metro e ele pegava fogo. Fazia eu me lembrar dos tempos idos de meus 20 anos… Mais

UM CASO DE RELAÇÃO COMPLEXA

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Grand Cânion - Arizona, EUA.

Grand Cânion – Arizona, EUA.

Nós nos relacionamentos de vários modos e com vários objetos. Quando se fala de “relacionamento” as pessoas tendem a subentender este termo na dicotomia homem-mulher. Não é isto. No caso em questão, meu relacionamento complexo diz respeito ao Espiritismo. Há muito tempo, tanto que já nem mais me lembro de quando comecei este relacionamento, acho que foi em 1970, eu tinha 30 anos e entrei no Espiritismo meio de través, como se dizia na minha terra, pela porta da Umbanda. Eu estava-me separando de um casamento idiota, que levara a efeito por pura birra contra minha mãe, e já me envolvia aos trambolhões com outro relacionamento que iria me dar grandes amarguras, três filhos e tremendas dores de cabeça. Ele me lançaria num desafio terrível, tanto quanto como andar de olhos vendados sobre um fio de náilon suspenso entre os cânions dos desertos norte-americanos. Mais

A ILHA DE PARGOS – CAPÍTULO IX – A FORÇA OCULTA – PARTE I

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CAPÍTULO IX – A FORÇA OCULTA (Parte I)

O Cão No Rastro da Raposa

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor entrou no Instituto Médico Legal. Eram as nove e o sol estava esquentando o dia. A rua estava, como sempre, esfumaçada e barulhen­ta. O tráfego era um dos piores e os oitizeiros enfumaçados e sujos de fuligem enfeavam mais ainda o aspecto sujo e abandonado da Mem de Sá.

           — Pois não, senhor? — atendeu o recepcionista.

           — Sou o detetive Damastor. O doutor Hélios está?

           — Sim, senhor.

           — Poderia falar com ele, agora?

           — Sim, senhor. Siga o corredor e desça as escadas. Ele está lá, na morgue. Siga o seu nariz. Mais

A ILHA DE PARGOS – CAP. VIII – CRESCE A INTRIGA – PARTE 3

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Capítulo VIII (Parte 3) –  Terror na Ilha de Milena

 

O luxo sobre águas.

O luxo sobre águas.

O iate chegou na hora. O Dr. Khamal Adib Tanatratos foi chamado pelo serviço de som. Ergueu-se e se dirigiu ao píer. Logo depois foi o nome de Ludmila que se ouviu nos alto-falantes. A repórter levantou-se.

             — Somos nós — disse ela. — Vamos!

             Tamara e Karina seguiram-na.

             — O convidado convida onze e o dono da festa bota doze para fora ­- disse Karina, cética.

             — Milena Forcis é fina demais para isto — respondeu Ludmila otimista.

             — É, mas colocou você e Mara para fora do carro do noivo sem maiores considerações – disse Karina.

             — Aquela foi uma situação excêntrica. Acho que qualquer uma de nós teria feito a mesma coisa, no lugar dela — rebateu Ludmila.

             Subiram ao luxuoso iate. Foram recebidos pelo impecável comandan­te, que fez as apresentações delas com o psiquiatra e as acomodou no con­vés. Depois mandou servir-lhes suco de frutas gelado e pôs-se em viagem.

             O Dr. Khamal era homem bonito, pele clara, rosada, corpo forte e peludo. Tinha olhos caramelados, rosto quadrado, queixo forte e cavanha­que muito bem cuidado. Aparentava uns quarenta e cinco anos.

             — As senhoritas são amigas de Milena? — iniciou ele.

             — Não. Na verdade, nós não nos conhecemos pessoalmente —  respon­deu Karina pelas demais.

             — Não?! — surpreendeu-se o médico. — Então, como se explica e que estejam no iate dela? Desculpem a curiosidade, mas Milena é muito seleti­va com as pessoas.

             — Tudo bem, eu explico — disse Ludmila. E contou porque estavam ali.

             — Ah, então a senhorita também deseja fazer uma sessão hipnótica. Posso saber qual o motivo? — perguntou Khamal.

             — Prefiro apreciar a paisagem, doutor — fugiu Ludmila — Tudo a seu tempo, sim?

             O psiquiatra sorriu.

             — Tem razão. Mas deixe-me preveni-la de duas coisas importantes. A primeira é que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. A segunda, só faço hipnose em casos especiais.

             — Quando conversarmos sobre o meu problema, o senhor decidirá – disse Ludmila sorrindo. 0 médico assentiu, olhando-a nos olhos.

             — 0 senhor é psiquiatra de Milena Forcis? — quis saber Karina.

             — Não, senhorita. Fizemos alguns simpósios juntos. Ela é Psicóloga. E é muito competente – respondeu o médico.

             Tamara pediu licença, distanciou-se do grupo e iniciou uma boni­ta seqüência de Wushu. 0 médico observou-a interessado por alguns ins­tantes.

             — Ela tem excelente equilíbrio. Com o balanço do iate não é fácil fazer o que faz — comentou o médico.

             — É — concordou Ludmila. — Tamara escolhe sempre condições desfavoráveis para treinar sua arte marcial. 0 senhor não acreditaria se eu lhe dissesse que ela faz aquela seqüência saltando sobre as pontas de estacas finca­das no solo, a três metros de altura. E gosta de praticar à noite, quan­do chove e venta forte.

             — Sem iluminação? — admirou-se Khamal.

             — Sim. A sensibilidade perceptiva e sensorial dela é muito desenvolvida.

             — Por que necessita de tão intenso treinamento? É excelente para o equi­líbrio psicomotor, é claro. Mas por que deseja ir além dos limites natu­rais? Por acaso pretende ser uma monja Shao-lin?

             — Ginástica é como uma droga, sabe? As doses vão sempre num crescendo… sempre o ginasta quer um pouco mais — disse Karina. — Nossa amiga é uma dependente… eu acho.

             Todos riram.

             — Vocês também praticam arte marcial? — quis saber Khamal.

             — Sim — disse Ludmila. — Também somos… dependentes.

             — Sei… Fiz judô há muito tempo, quando era mais jovem — disse o médico de olhos fitos em Tamara. — Hoje, gosto mais da natação e da pesca submarina.

             E o médico falou da fauna marinha, suas excentricidades, os perigos ocultos nos corais de arrecifes e o fascínio que exercem sobre os a­feitos ao esporte. A viagem tornou-se amena. A conversa, cativante e interessante. Botafogo e Icaraí passaram sem serem notadas pelos convida­dos no iate. Tamara terminou seus exercícios e veio juntar-se ao grupo.

*   *   *

             Mara e Milena, após o desjejum, desceram para a prainha sossegada e paradisíaca. A água estava deliciosa. Mara, contudo, olhava ressabiada para as pedras e as moitas à beira-mar. Milena observou sua cautela.

             — Procurando o jacaré? — perguntou a milionária.

             — Sim. Não é companhia para dentro d’água — respondeu Mara.

             – Não se preocupe. Eles não costumam ficar na ilha. Às vezes aparecem, mas logo voltam aos manguezais no continente. A chuva os arrasta para o mar e eles vêm dar com os costados nas ilhas da baía. Mas aqui eles são muito raros. Em três anos, desde que comprei a ilha, só vi dois. E um deles foi o que você pôs a correr. Por sinal, o mais avantajado que já surgiu por estas bandas. Assisti à captura de alguns deles em outras ilhas, mas nenhum chegava à metade do de ontem.

             Mara decidiu-se e mergulhou junto com Milena. Nadaram por um bom tempo. A água era translúcida e temperada. O vento estava quase parado e o sol iluminava preguiçosamente toda a Angra dos Reis, não ardendo na pele. As duas fizeram nado síncrono e deram muitos passos de balé aquático. Não foi preciso que falassem uma com a outra. Simplesmente começaram a nadar em sintonia. O sol começou finalmente a aquecer a areia da praia e elas voltaram para a terra e se estenderam sobre as toalhas.

             — Você nada muito bem disse Milena. — Onde aprendeu a nadar assim?

             — Fui campeã de balé aquático pelo Flamengo — respondeu a repór­ter satisfeita.

             — Interessante — comentou a milionária. — Também eu fiz balé a­quático nos Estados Unidos. Competi várias vezes e cheguei a ter algumas medalhas pela Universidade de Harvard.

             — Gente fina é outra coisa — brincou Mara sorrindo. Depois acrescentou: — Isto aqui é muito gostoso.

             — É. Eu gosto muito. Apaixonei-me no primeiro dia e não sosse­guei enquanto não comprei a ilha.

             — De quem era ela, antes de você a comprar?

             — De Anteu Kamuratti. Mas ele não costumava usá-la. Vivia abandonada. O chalé estava muito maltratado. Mesmo assim, aquele pão-duro não queria desfazer-se dela. Paguei o suficiente para adquirir três ilhas semelhantes a esta.

             — E por que fez isto?

             — Porque quando quero algo, não arredo pé até conseguir — disse Milena sorrindo. Depois, mudando de assunto, perguntou:

             — Diga-me, Mara, você sempre teve esse… esse poder?

             — Que poder? — surpreendeu-se a repórter.

             — O de… nem sei como chamar a isso. O poder de pressentir o perigo e… e de dominar os animais.

             — Sinceramente, não sei. Só vim descobri-lo há pouco tempo. Ago­ra, aqui, em sua ilha, foi a primeira vez que ele se manifestou sem que eu tivesse plena consciência. Isto me deixa apreensiva.

             — Não, não, isto é ótimo. Você mostra que temos poderes mentais ainda insuspeitados pela humanidade normal. Você é o exemplo vivo de que nossas faculdades psíquicas têm muito ainda a evoluir. Veja, Mara, ainda não atingimos nossa perfeição nem na forma física, nem no aproveitamento total de nossas potencialidades psicológicas. Temos dois cérebros, mas ainda que vivendo 120 anos em plena produtividade intelectual e social, a gente não logra usar a metade da potência de um destes cérebros. Por que isto acontece? A Ciência não sabe. Todos temos um aparelho neurológico super-equipado, mas ele morre sem que nós o utilizemos. A Natureza é pródiga até o esbanjamento de tanta perfeição. Por que? Esta pergunta atormenta a mente privilegiada de centenas de cientistas em todo o mundo. Você ter ficado inconsciente pode ser porque sua estrutura psicofísica não está pronta para a explosão desse poder paranormal. Mas se ele já se manifesta, então, talvez o próprio processo da manifestação acelere sua maturação, de modo que, em algum tempo, você poderá exercer esse poder maravilhoso naturalmente. Veja, os Kirlian descobriram uma aura de saúde em volta de todo ser vivo na Terra. Provaram sem sombra de dúvida que irradiamos luzes nu­ma freqüência acima da perceptível. Com isto, provaram que realmente existe uma dimensão além daquela que podemos perceber e acima do que os aparelhos científicos têm podido desvendar até nossos dias. E se existe esta dimensão, deve existir uma espécie de matéria mais sutil do que a que estamos acostumados a estudar. Mais sutil que a matéria em ponto crítico, a que mais longe no estudo da matéria a Ciência já alcançou. E como é a realidade nesta dimensão, Mara? Você já especulou sobre isto? Esta matéria, sutil como é ou deve ser, interpenetra até nossos átomos. Veja, se um gás pode ser modificado pela mínima descarga elétrica, o que pode acontecer com a matéria mais sutil do que o gás quando atingida pelas descargas elétricas de nossos cérebros, quando pensamos? Isto quer dizer ser possível que a expansão desta matéria… sua vibração ou como seja que se deseje nomear sua reação às ondas eletromagnéticas do pensamento, pode distender-se a uma distância muito grande e pode ser captada por cérebros de pessoas privilegiadas como você. Mesmo um sáurio deve emitir ondas cere­brais, pois ele possui um. Talvez você tenha captado subliminarmente as vibrações cerebrais do jacaré e tenha compreendido suas intenções a nosso respeito, naquela hora. Para ele, éramos alimento.

             — Uma hipótese cientificamente aceitável, mas muito desagradável para mim — disse Mara pessimista. — A perspectiva futura que vejo é muito incômoda.

             — Ora, por que? — Milena sentou-se e passou protetor solar no copo.

             — Porque me antevejo uma cobaia cercada de cientistas avidamente curiosos em me estudar e experimentar. Não sou rato de laboratório nem a idéia de ser tratada como um me agrada.

             — Tome, passe em você também — e Milena deu a Mara o líquido per­fumado. A moça sentou-se e se entregou ao trabalho com prazer.

             — A sua hipótese tem uma falha — disse Mara, devolvendo a garrafinha do protetor solar à sua dona.

             — Qual? — perguntou Milena curiosa.

             — Qual? Ora, onde se enquadra Pargos, nela? A tal ilha existiu. Um repórter, chamado Sísifo, viveu nela e deixou algumas reportagens interessantes. Entre elas, falou de como a menina Letícia chegou à ilha. E foi exatamente do modo como eu vejo no meu pesadelo recorrente, como você o chama. Eu sinto que de algum modo aquele bebê sou eu. Isto não se enqua­dra em sua hipótese.

             — Não, ainda não. Mas este detalhe pode ser apenas um ângulo que percebemos aparentemente desconectado porque não temos uma teoria abran­gente. Se a gente se dedicar a estudar o fenômeno cientificamente, quem sabe possamos encontrar os elos de ligação?

             — Que tal a hipótese da transmigração da alma? — disse Mara, estudando atentamente a reação de Milena.

             — Você não crê nisto, não é? — reagiu a milionária, cética.

             — Bem, há algum tempo atrás eu riria da idéia. Agora, já me inclino favoravelmente a ela.

             — Eu prefiro ficar no terreno científico — disse Milena. — É muito mais seguro.

             — Mas você é contra esta crença? — insistiu Mara.

             — Não. Na verdade, como psicóloga, estou aberta a todas as possibilidades. A crença na transmigração da alma é tão velha quanto o ser humano na Terra. Talvez tenha sólidas razões para existir, apesar de o catolicismo e o evangelismo moverem acirrada luta contra ela. Sei que nos Estados Unidos da América do Norte muitos médicos de renome se dedicam à pesquisa séria deste assunto. Mas a Ciência ainda se mantém tímida, reticente quanto a ele. Eu também. Gosto de ter bases sólidas, pés no chão.

             — Eu compreendo, eu compreendo — disse Mara lembrando-se dos cães e do motorista do táxi.

             — Enquanto o psiquiatra não chega, quer fazer uma experiência? ­— indagou Milena muito séria.

             — Que experiência? — inquietou-se Mara.

             — Vamos para cima daquela pedra, lá — e a milionária apontou pa­ra um pedregulho que sobressaia das águas esverdeadas da baia, a uns vinte metros de onde estavam. — De lá de cima podemos ver os peixes na água que é muito clara. Que tal você se concentrar neles e dar ordens mentais para verificarmos se estou certa no que suponho? Por exemplo: mande mentalmente que formem um triângulo… ou que se posicionem uns sobre os outros e nadem em círculos. Ou, até mesmo, que nadem de barriga para cima. Que tal?

             — Eu não sei… — hesitou Mara olhando alternativamente de sua a­miga para a pedra. — Acho que podemos estar mexendo com algo que não co­nhecemos. Temo por mim, pra falar a verdade.

             — Ora, Mara, o máximo que pode acontecer é uma dor de cabeça passageira. E isto se você se concentrar de verdade. Vamos! Não custa experimentar. Veja, o ambiente é calmo. Estamos só nós duas. Você não vai ter momento mais propício que este… E então? — Milena estava realmente dis­posta a tentar e Mara se via acuada. Ela olhou para a pedra. Ficava próximo e a fundura ali não ia a três metros.

             — Vamos, eu gostaria de ver você tentar — insistiu a milionária. Hesitante, Mara concordou. As duas atiraram-se na água e nadaram até a pedra. Foi relativamente fácil subir na rocha. Mara olhou para a água e viu os peixes lá em baixo. Olhou para a sua amiga com vontade de dizer que não se sentia animada, mas Milena já marcava um lugar na pedra de onde era fácil concentrar-se olhando a água.

             — Aqui, sente aqui — disse a milionária. — Fique com a coluna reta, corpo relaxado, deixe a paz do ambiente penetrar em você.

             Mara suspirou e se deixou conduzir. No entanto, em seu íntimo e lá no mais profundo de sua Mente algo soava como um alarma. Ela não sa­beria dizer o que fosse, mas sentia que não deviam fazer a tal experiência. No entanto, como dizer isto à amiga? Como explicar que peixinhos e mar calmo poderiam ser perigosos? Impossível. De mais a mais, com base em quê ela poderia alegar perigo, se é que algum pudesse existir? Havia o tal jacaré, mas não era crível que ele aparecesse ali, em torno daquela pedra de águas calmas, claras, salgadas e ondulantes. Mara suspirou e se deixou conduzir pela amiga. Sentou-se na posição do lótus, fechou os o­lhos e fez três inspirações profundas. Fixou um ponto mentalmente entre os sobrolhos e se deixou absorver por ele. Não sabia dizer quanto tempo ficou assim. De repente seus olhos abriram e ela fixou o mar lá adiante, embora lutasse intimamente para não o fazer. Algo, porém, muito mais forte que ela impunha-lhe que o fizesse. Era como se outro ser dentro de seu Ser fosse capaz de a dominar. Uma sensação forte de impotência e uma horrível resignação invadiu-lhe a própria alma. Ela era ela e, contudo, não era ela. Aquilo era estranho e aterrorizante, embora Mara não pudesse definir bem como aquele sentimento se revelava dentro de si. Sua consciência foi apagando como num sonho…

             A uns trezentos metros de onde estavam a água se agitou. Era para lá que Mara olhava fixamente, rosto duro, feições contraídas e estranhamente envelhecidas. Na água surgiu uma elevação, uma corcova como se um casco gigante se movesse a grande velocidade sob a água clara do mar sereno. A corcova d’água vinha direto para a pedra. Milena olhou para a amiga, intrigada. Notou-lhe o olhar fixado algures e o acompanhou. Viu a corcova que avançava.

             — O que está fazendo? — perguntou a milionária, voz tensa. Aquilo podia não ser nada, apenas uma marola, mas como explicar uma coisa assim, se só acontecia num ponto bem definido do mar? E como explicar a velocidade com que avançava diretamente para a pedra onde estavam? Milena sentiu-se tensa e uma estranha sensação de perigo alertou-lhe o sub­consciente.

             — Mara — chamou ela algo gritado — concentre-se nos peixinhos… – E seus olhos fixaram a corcova d’água. Aquilo se aproximava rápido.

             — Mara! — quase gritou Milena, apreensiva e com o coração acelerado. — Mara, pare! Não traga nada perigoso para cá. Mara! MARA! PAREE!

             Milena gritou em pânico. A corcova d’água estava a menos de cem metros e o volume já se igualava á altura da pedra onde se encontravam. Desesperada, Milena considerou a possibilidade de nadar até a prainha, mas achou que jamais conseguiria chegar lá antes que a coisa atingisse a pedra. Avançou para a amiga cuja face estava encovada, pele como de palha velha e olhos injetados e tentou sacudi-la pelos ombros. Mal tocou o seu corpo, contudo, e deu um grito. A pele de Mara queimava como brasa. Seus dedos saíram como chamuscados e ardendo muito. Milena recuou assustada e o seu pé escorregou. Ela desequilibrou-se e agitou os braços no ar desesperadamente antes de mergulhar dentro da água fria. “Meu Deus!” pensou ela debatendo-se para ficar de pé. — “Vou morrer! Aquilo vai-me pegar!” — E este pensamento deu-lhe a força necessária de que precisava para vencer a resistência da água. Ela ficou de pé. Jogou-se para a pedra, mas fra­cassou por duas vezes. “Preciso ter calma” — dizia de si para consigo a pobre milionária desamparada — “Meu Deus, eu preciso ter calma”‘ – E ela tornou a se jogar sobre a pedra escorregando as mãos no limo e não conseguindo firmar-se. A corcova d’água estava a uns dez metros e avançava direto para ela. “Não quero morrer”‘ quase gritou Milena lutando ferozmen­te para subir na pedra. Seus braços estavam arranhados e sangravam, mas finalmente ela conseguiu aferrar-se numa reentrância da pedra e içar­-se para cima. Gritando sem controle, Milena pedia em desespero:

             – MARA, PÁRA, PELO AMOR DE DEUS, PÁRA! A COISA ESTÁ SOBRE NÓS… MEU DEUS, O QUE É AQUILO?

             A corcova finalmente chegou. Era tão alta que banhou a pedra envolvendo as mulheres. Mara, curiosamente, não se abalou, mas Milena teve de lutar muito para não ser puxada de sobre a pedra. Um grito quase inu­mano escapou da garganta da milionária. A coisa passou entre a pedra e o canal num semicírculo e voltou para de onde tinha surgido. Milena, olhos arregalados, entreviu sob as águas algo cinzento e enorme, de uma potência tão grande que por segundos ela teve a impressão de que aquilo ia arras­tar a pedra atrás de si. Mas não arrastou. Sem voz, Milena, coração ain­da em disparada, ficou observando a corcova d’água se afastar velozmente tal como havia chegado. Lá, no mesmo ponto onde surgira, a corcova se desfez. O mar voltou a serenar. Milena soltou um longo suspiro. Nem acredita­va que ainda estivesse ali, viva. Foi quando um gemido a trouxe de volta à dura realidade. Voltou-se e viu o corpo da amiga cambalear e pender em direção à água. Correu para ela e a sustentou a tempo de impedir que despencasse para o mar. Procurando controlar seu nervosismo, Milena chamou:

             — Mara! Mara, acorde! Pode-me ouvir?

             O corpo da moça estava tão frio que parecia ter saído de dentro de uma geladeira e Milena lembrou-se de que há pouco ele literalmente havia queimado sua mão.

             “Fantástico!” — murmurou a milionária. — “Que poderes desconhecidos tem esta moça?”

             Mara abriu os olhos, bocejou e se espreguiçou.

             — Você está bem? – perguntou Milena apreensiva e ainda cheia de medo, lançando olhares de desconfiança para o mar tranqüilo.

             — Eu… Eu acho que adormeci — balbuciou Mara, sonolenta. — Desculpe-me. Eu vou tentar de novo.

             — Não! – quase gritou Milena. — Não é preciso. Acho melhor a gente voltar. O iate deve aportar em poucos minutos. Vamo-nos preparar para receber sua amiga e o psiquiatra, sim?

             Enquanto falava, Milena olhava desconfiada e apreensiva para as tranqüilas e esverdeadas águas da baía. Nenhum sinal da corcova. A água estava calma e as marolas de sempre lançaram reflexos prateados para o ar. De qualquer modo, Milena ainda tinha bem viva em sua memória aque­la coisa cinzenta capaz de nadar com uma velocidade impressionante sob a água. Temia secretamente que aquilo voltasse.

             — Desculpe eu ter dormido — pediu Mara, constrangida.

             — Ora, acontece — respondeu Milena sempre olhando desconfiada para o mar, lá onde a coisa descomunal e cinzenta sumira. “Será que aquilo vai voltar quando estivermos na água?” perguntava-se inquieta, mas tentando aparentar calma. Pelo que podia observar, Mara nem desconfiava do perigo que ambas tinham passado há pouco. A dúvida a inquietava, embora, é claro, tivesse a certeza de que tinham de nadar. Não havia como sair dali sem nadar e não havia como nadar sem ter de mergulhar no mar. Não fôra uma boa idéia a sua. Mara estava com razão, quando dissera que talvez elas estivessem mexendo com algo que não podiam controlar. Mas a­té onde a repórter tinha consciência do que lhe acontecia? Naquele momento parecia-lhe que a moça era totalmente ignorante a respeito.

             — Saltamos?

             Milena encarou o mar. Estava com medo, mas tinha plena consciên­cia de que a responsabilidade fora toda sua. Tinha de assumi-la.

             — Saltamos? — insistiu Mara.

             — Sim! — E Milena atirou-se com ímpeto na água, saindo com vigo­rosas braçadas. Parecia-lhe que a coisa estava em seus calcanhares e na­dou tão fortemente que estava já na prainha quando Mara ainda se encon­trava a meio caminho. Quando a repórter saiu da água perguntou sorrindo para a sua anfitriã:

             — Era competição? Você devia ter-me prevenido.

             — Não, não, nada disto. Eu… eu só queria estirar o corpo. Não foi nada agradável ficar sentada lá, sem fazer nada a não ser olhar as águas… — e Milena mais uma vez mirou o mar. Estava calmo e ela se sentiu aliviada.

             — Não funcionou, não foi? Eu temia isto. A coisa me vem de supetão. Eu não tenho controle sobre ela.

             Milena permaneceu de pé, enxugando os cabelos com a toalha e fitando disfarçadamente o ponto onde aquilo havia sumido. “Que diabo de negócio era aquele? Onde se esconde, agora? Será que é um habitante natural do mar despertado pela força mental de Mara, ou será que foi algo que a moça criou inconscientemente? A última hipótese não era plausível ao seu julgamento, e Milena sacudiu a cabeça com descrença. Criar de onde? Com o quê? Partenogênese já era difícil de engolir; aquela criação do nada, en­tão, nem se fala. Mara percebeu o insistente olhar de Milena para as se­renas águas do mar e franziu o sobrolho. Teria acontecido algo de que não tomara consciência?

             — O que é? Por que olha tão insistentemente para as águas do mar?

             — O que? Oh, nada, nada mesmo… quer dizer, eu pensava em que espécie de vida há sob estas águas… . O mar é sempre uma incógnita, não é?

             Milena apanhou a toalha na areia e seu bronzeador e convidou a desconfiada repórter que, agora, também mirava escrutadoramente as tranqüilas águas verde-azuladas da baía mais bela das Américas.

             — Vamos? — convidou.

             — O que você quer dizer com isto? — indagou Mara, desconfiada.

             — Apenas um comentário que geralmente me faço quando olho as águas serenas do mar, onde quer que eu me encontre. Vamos embora.

             A milionária pôs-se a caminho seguida de Mara que a olhava ainda intri­gada. Subiram a estrada rústica, calçada de pedras brutas que facilitavam a íngreme ascensão por entre o verde brilhante das folhas das grandes ár­vores e dos arbustos sempre úmidos. Muitos pássaros cantavam entre as fo­lhagens e os insetos zumbiam numa sinfonia entorpecente. As cigarras pre­nunciavam o calor carioca com o seu trilar contínuo e monótono. Em silên­cio, as duas mulheres passaram ao lado noroeste da ilhota. Mara, não sabia definir a razão, sentia-se tensa e apreensiva. Qualquer coisa dentro dela incitava-a a ir embora dali o mais depressa possível. A mata, que devia ser agradável, dava-lhe a impressão de algo oprimente. Estava irritada e esta sensação desagradável crescia dentro dela sem razão nenhuma. Tinha de lutar muito para não solicitar que o iate a levasse de volta para a mari­na. Chegaram ao píer a tempo de assistir a embarcação manobrando para atracar. Quando, finalmente, atracou, três passageiros desceram e se encami­nharam para elas.

             — Sua amiga trouxe companhia — disse Milena sem olhar para Mara.

             — São Karina e Tamara. Só não faço idéia do porque as convidou…

             — Por mim, não tem problema. E por você? — Milena olhou para a repórter. O tom de voz da moça parecia aborrecido e pôde observar que a fi­sionomia dela também estava carregada.

             — Não se preocupe. O Chalé é grande e, se são suas amigas, são bem-vindas — disse Milena tentando aliviar a preocupação de Mara pela falha da companheira que convidara.

             — É que eu não gostaria que as outras participassem da sessão — falou Mara à guisa de explicação.

             — É só dizer isto ao Dr. Khamal — explicou Milena sorrindo. — Ele tomará as precauções necessárias. Afinal, é um profissional competente.

             — É…  você tem razão — concordou Mara notando que a outra a ob­servava atentamente. Respirou fundo e tratou de descontrair-se mostrando um sorriso simpático.

             — Milena… — disse Mara.

             — Hum?

             — Muito obrigada.

             — Não há do que agradecer, minha cara. Você é que me revelou um aspecto da vida que ainda não conheço. Eu sou quem lhe agradece o favor de tê-lo trazido a mim. Venha, vamos receber nossos amigos.

             As moças se encaminharam ao encontro do grupo que já se punha a andar em sua direção. Mara fez a apresentação de suas colegas e Milena cumprimentou carinhosamente seu velho amigo Khamal, apresentando-o, por sua vez, a Mara. A moça gostou do médico logo de saída. Este, por sua vez, também sentiu-se agradavelmente atraído pela sua futura paciente. O gru­po encaminhou-se para o chalé. Mara, agora, dava-se conta que todo o es­tranho aborrecimento que a havia acometido momentos antes desaparecera. O magnetismo de Khamal lhe fazia bem. Enquanto Karina e Tamara papagueavam com Milena sobre as belezas do lugar, Mara entabulou conversa com o médico, que lhe ofereceu naturalmente o braço, aceito sem restrições pela bela repórter.

             — O senhor tem um sobrenome sui generis — disse Mara ao simpático doutor.

             — Como assim? — perguntou ele surpreso.

             — Tanatratos. É… é  um tanto mórbido,  não  acha?

             — Não. Era o sobrenome de meu pai, que Deus o tenha — disse o médico.

             — Bem, Tanatratos lembra Tanatus… Morte. — Comentou Mara.

             — Oh, isso? — E Khamal sorriu. — Pois fique sabendo que é um so­brenome tradicional na Grécia, minha cara. Meu pai foi um nobre grego.

             — Oh, que surpresa! Isto pode dar uma bela reportagem — disse a moça.

             — Não, não. Os Tanatratos já estão praticamente extintos. Que eu saiba restamos eu e uma parenta longínqua que nunca conheci e que vive lá pelas ilhas da Grécia. Sou apenas um psiquiatra entre os milhares que vivem no nosso Brasil. Não tenho qualquer projeção social para atrair a atenção de repórteres como você e suas amigas. De meu ponto de vista, um trabalho sobre mim só lançaria você em situação desconfortável ante seu redator chefe…

             Mara sorriu. Tanatratos demonstrava claramente que não entendia nada de jornais.

             — Depois de nossa sessão de hipnose vamos cuidar disto. Eu lhe mostro se não é assunto para uma reportagem, a sua descendência. E, acredite, isto vai-lhe tirar do ostracismo, doutor.

             Ambos deram uma gargalhada. Entre chistes e risos, o grupo chegou ao chalé, muito admirado pelas recém-chegadas. Milena deixou-os aos cui­dados de Téia e foi, com Mara, tomar um chuveiro e se livrar do sal.

             Luis e Andréia trataram de colocar as visitas à vontade. Serviram-lhes sucos de maracujá bem gelado e biscoitos com patê e ovos de codorna a fim de que pudessem aguardar pelo almoço, um dourado a escabeche, geralmente servido lá pelas três da tarde.

             A conversa estava muito animada quando as duas retornaram. Khamal gostou do que viu. Mara vestia um short de Milena e mostrava um corpo de­licioso sob a blusa leve e sem soutiens. A moça tinha um modo suave de pisar o chão que dava a impressão de que não andava, mas deslizava sobre o piso.

             — Vejo que já se entrosou com as moças — disse Milena pondo uma azeitona na boca.

             — O Dr. Khamal é excelente companhia. Aprendemos muito sobre a vida submarina durante a viagem até aqui — informou Ludmila.

             — E eu aprendi muito sobre Shao-lin do Norte com a jovem Karina ­— disse o médico.

             — Bom, então, que tal você conversar com a sua paciente? Eu não sei se esta é a melhor hora, pois são quase 11, mas ela está ansiosa — informou Milena.

             — Para o que ela quer não há horário. Por mim, tudo bem. Onde é que podemos…

             — Na biblioteca que tenho lá em cima. Há dois excelentes divãs, caso necessitem disto — disse Milena sentando-se entre as repórteres.

             Khamal levantou-se.

             — Está bem — disse. — Vamos, senhorita Mara?

             — Por favor, chame-me simplesmente Mara, sim? — pediu a repórter.

             — Como quiser. Vamos, então, Mara? — e Khamal sorria um sorriso cativante. Mara sentiu o coração bater mais forte e compreendeu que não era devido à experiência que estava prestes a viver. Era o médico. Ela se sen­tia fortemente atraída por ele. Era a primeira vez que tal coisa aconte­cia e Mara estava num gostoso misto de excitação e vergonha. Sentia-se uma adolescente diante do seu primeiro namorado. E, para falar a verdade, era a primeira vez que vivia aquela emoção. “Gostaria que não fosse casa­do” pensou a moça levantando-se. “É a primeira coisa que vou procurar descobrir depois da sessão. Gostaria de namorá-lo. Será minha primeira vez e vou gostar disto.”

             — Eu também vou – disse Ludmila pondo-se de pé. — Pode ser, não é doutor?

             — Se Mara não se opuser…

             Mara bem gostaria de dizer que se opunha, mas não o fez.

             — Não, eu não me oponho. Combinamos isto, antes.

             — Então, venha também. Com licença das outras moças — e Khamal se dirigiu para a escada.

             — A gente não pode assistir? — pediu Karina expectante.

             — Não, senhorita — respondeu Khamal, voltando-se para Karina. — A senhorita Ludmila só estará presente porque as duas já haviam combinado isto, antes. Sinto muito. Podemos ir?

             Os três subiram as escadas e se dirigiram para a bem arejada e iluminada biblioteca. Os janelões em vidro fumê permitiam uma belíssima vista da ilha e do mar.

             O trio tomou assento. O médico numa cadeira giroflex e as moças numa poltrona, cada uma.

             — Bem, antes de iniciar eu gostaria de ouvir as razões das senhoritas para tentar a hipnose e a regressão. Quem quer começar?

             — Eu começo — disse Mara. Ato contínuo passou a narrar seu pesadelo, suas pesquisas, suas descobertas sobre Pargos, a opinião de sua a­nalista, a suspeição de um fenômeno espírita e a hipótese aventada por Milena. Quando acabou, foi a vez de Ludmila. O Dr. Khamal ouviu-as sem interromper nem uma vez sequer. Quando as moças acabaram suas histórias, Khamal levantou-se e foi até uma das janelas, abrindo-a e ficando em si­lêncio, olhando a bela vista que de lá descortinava.

             — Moças — disse ele, após um grande silêncio em que parecia es­tar querendo organizar seus pensamentos. — não sei se o problema de am­bas seja da esfera da Terapia de Vidas Passadas. No pesadelo recorrente de Mara  há grandes e importantes símbolos pertencentes àquela área do Ser Humano a que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. É sabido por todo terapeuta que o símbolo por excelência da área emocional humana e a á­gua. O mar, então, é o símbolo arquetípico primeiro deste manancial que é o Inconsciente Coletivo. A jamanta… a arraia que ela percebe sob o barco é mandálica. A criança dentro de um cesto abandonada sobre as águas é universal. Três mil anos antes de Moisés, na desconhecida cida­de de Uruk, festejava-se o lendário herói Guilgamesh. Entre as muitas e muitas versões sobre este herói, que se acredita ter existido e ser anterior a Uruk, há uma que o cita como tendo sido recolhido de sobre as á­guas do mar. Suspeita-se que o mito de Moisés tem fundamentação numa có­pia daquele, tão antigo que se perde nas brumas do tempo. O fogo como elemento purificador da alma, saindo de dentro d’água tem um significado mítico universal. É a transmutação dos baixos sentimentos em sentimentos e emoções altruísticas e humanitárias. A ilha também é mandálica, pois que geralmente toda ilha é redonda ou arredondada. Mas tem a significação da solidão do ser que evolui para a sua Individualização ou a sua Personalização, como quer Jung. Enfim, o sonho ou pesadelo de Mara é muito rico e muito cheio de símbolos arquetípicos difíceis de interpretar, a menos que se faça o seu acompanhamento psicoterapêutico há anos. A simbologia ar­quetípica não surge aleatoriamente. Tem muito a ver com a situação psicoafetiva evolutiva do indivíduo.

             — Mas Dr. Khamal — protestou Ludmila.— A ilha de Pargos corres­ponde exatamente ao sonho de Mara e às minhas visões. Como se explica isto?

             — Senhorita — disse Khamal —, tenho navegado muito pelos oceanos e tenho visitado quase todas as ilhas da terra. Jamais ouvi qualquer men­ção à Ilha de Pargos. Pelo menos, não na latitude e longitude citadas. O local ali é somente de águas. Conheço bem o Pacífico.

             — No entanto o repórter Sísifo esteve lá e escreveu sobre a ilha — contestou Mara.

             — Sim, e isto me deixa com uma interrogação. Os atacamenhos existiram no Chile. Eram um povo de pastores, mas estão extintos há muitos e muitos séculos. Quanto aos míticos atlantes… Bem, particularmente eu não acredito em Atlântida. Talvez sejam gregos antigos que aportaram por aquelas bandas… Talvez numa ilha que já afundou… eu não sei. De qualquer modo, a existência das tais reportagens é um mistério. Eu não posso ligar os pesadelos de Mara e as suas visões, Ludmila, à misteriosa ilha descrita pelo colega de profissão de vocês duas. Mas uma civilização de­saparecida criou, também, moldes arquetípicos em costumes, em lendas e particularmente em religião. É possível — notem que não estou afirmando —, é possível que Mara, assim como você, tenha lido algo a respeito ou… ou de algum modo, tenha tido contato com a história daquele povo. A impres­são que isto lhe causou pode ter suscitado a força psíquica capaz de possibilitar a realidade arquetípica daquela civilização desaparecida através dos pesadelos. Estes, de certo modo, têm a ver com os fenômenos internos do processo de Personalização de Mara. A recorrência pode-se dever a que o Ser transpessoal de sua colega ainda está-se debatendo no árduo processo de crescimento… de individualização. Daí porque ela é representada como uma criança abandonada sobre o mar e dentro de um cesto… Uma semideusa, como todo indivíduo mítico com lenda semelhante, inclusive o tão fa­moso Moisés. Este símbolo corresponde, aliás, ao arcano nove, o Ermitão, no baralho Tarô. A criança sofre pela Luz do Sol. O Sol, como se sabe, é o símbolo de Deus e sua Luz quer dizer redenção, crescimento, que nunca acontece sem sofrimento. Todo crescimento implica a dor de um renascimento. Daí porque Mara é uma criança que, embora bebê, é sábia. O velho Ermi­tão no Ser que cresce… Estão-me entendendo?

             — Acho que sim… — responderam as moças titubeantes e se entreolhando.

             — Bem, o pescador… Gaditano, segundo o tal repórter, não é? O pescador Gaditano também representa a prudência do Ermitão. É solitário, é forte e é cauteloso. Talvez que simbolize pura e simplesmente a parte da personalidade de Mara que deve reagir para que a criança que está morrendo queimada pelo Sol possa nascer novamente… sobreviver… Em outras palavras, esta parte do sonho bem pode significar que Mara precisará ter muita prudência e muita cautela diante das situações de vida ainda desconhecidas para ela e que lhe trarão experiência e maturidade perante a aspereza e a rudeza do interagir humano. É neste vulcão que se cresce, que se deixa a inocência e o apego primitivo à dependência para se ser sozinho e sábio o suficiente para manter a própria vida e a daqueles que por sua vez dependem de nós porque os geramos. Estão-me entendendo?

             Enquanto o Dr. Khamal explanava suas idéias sobre o pesadelo re­corrente de Mara e as visões quadridimensionais de Ludmila, Milena con­vidava suas hóspedas a visitarem a pequena, mas agradável ilha. Principiou pelos arredores do chalé, mostrando-lhes a boa localização dele sobre a pedra. Depois de discutirem a arquitetura arrojada da construção, desceram para o mirante, um local descampado, doze metros abaixo do chalé e uns vinte e cinco acima do mar. A descida até lá era íngreme e muito arborizada, principalmente por arbustos e espinheiros. Entre a mata rala e natural do local, Milena mandara plantar mogno e outras plantas raras como o pau rosa e alguns cedros. As ibiunas foram plantadas pelo antigo dono e estavam grandes o suficiente para dar uma sombra muito densa e gos­tosa. O grupo desceu alegremente. No platô artificial elas pararam para admirar a vista tanto do mar lá embaixo, quanto de outras duas ilhotas a menos de uma milha de onde estavam.

             — Você é uma pessoa totalmente diferente da imagem que eu fazia a seu respeito — disse Karina a Milena, sentada no rústico banco feito de um tronco caído e ao abrigo do sol sob a sombra de enorme e copado ingazeiro.

             — E qual era a imagem que você fazia de mim? — perguntou divertida a milionária, sentando-se a seu lado. Tamara se encaminhara até a borda do mirante e se deliciava com a vista e a brisa.

             — Bem… eu a imaginava uma pessoa superficial. Uma… irresponsável filhinha do papai, sabe? Aquela cabecinha de vento fanática pelo aplauso nas passarelas e fissurada nas noitadas regadas a vinho e a…se­xo sem compromisso.

             Milena soltou uma gostosa gargalhada.

             — Eu gosto do modo franco que você usa para dizer as coisas — falou entre risos. Algumas amigas “não-me-toques” que eu conheço diriam que você é demasiado rude, mas eu não acho isto. Sua franqueza me diz que se trata de pessoa firme e até confiável.

             — Por que o até?  — estranhou a repórter.

             — Porque aprendi a duras penas que repórter e polícia são profis­sionais em quem não se deve confiar.

             — Eu acrescentaria também os advogados — disse Tamara aproximan­do-se das duas.

             — Nisso vocês têm razão — concordou Karina.

             — Eu sei que tenho. Quando meu noivo e eu…

             Milena parou o que ia dizer e olhou em volta. Alguma coisa muda­ra no ar. Uma mudança sutil, quase imperceptível. A atmosfera ficara densa, pesada. A milionária sentiu os pelos na pele arrepiarem-se e um tremor involuntário lhe sacudiu o corpo. Sem se controlar ela cruzou os braços alisando os músculos como se querendo aquecer-se.

             — O que foi? — surpreendeu-se Tamara.

             — Não perceberam? Algo mudou… Eu não sei bem o quê, mas o ambiente… o ar…  eu sinto como se tivesse havido uma… uma densificação. Não sentem a mesma coisa?

             As repórteres pararam para prestar atenção ao lugar. Sim, qual­quer coisa havia mudado no ambiente. Não era algo visível ou palpável. Era somente sensível. Karina, olhar perdido no vazio, foi a primeira a de­tectar um sinal da estranha alteração na atmosfera do local.

             — Os pássaros e os insetos pararam de fazer ruído… — murmurou.

             — É. É isso! — concordou Milena. — A mata está silenciosa demais e foi de repente.

             — A luz do sol ficou mais mortiça ou é impressão minha? — perguntou Tamara, olhando em volta.

             — Não… Bem, ficou sim. Mas vejam, sobe uma tênue névoa do mar e envolve a ilha exclamou Milena, surpresa.

             Sim. Uma estranha névoa subia do mar e da terra, como o rocio da manhã, só que em hora muito imprópria — vinte para o meio-dia. — Um frio úmido fez que as moças tremessem.

             — Isto é inusitado — disse Karina. — É comum, aqui?

             — Nunca vi tal coisa acontecer, antes. E nesta época do ano, me­nos ainda – informou Milena.

             — 0 que será que está acontecendo? — a voz de Milena demonstrava certa apreensão. Ela se recordara do acontecido no mar e o medo voltou a lhe esfriar o coração. Pensou em Mara. Estaria ela já hipnotizada? Kari­na observava a milionária e notou-lhe a tensão. Pôs-se em alerta. Não sabia por quê, mas sentia perigo iminente no ar.

             — Antes… alguma vez… você presenciou algum fenômeno inusita­do aqui, na sua ilha? — indagou suspeitosa a repórter.

             — Não… Quer dizer… — Milena hesitou.

             — O que é? 0 que aconteceu? — inquiriu Karina curiosa.

             — Eu presenciei dois fenômenos esqui…

             Milena parou de chofre. Um horrível bocejo chegou até elas. Algo como um exalar de ar por uma garganta enorme. A milionária empalideceu e levou a mão ao coração.

             — Meu Deus, não é possível! — exclamou ela, assustada e pálida.

             — O que… O que é? — perguntou Karina perplexa e olhando para o lugar onde se fixava os olhos da sua anfitriã. Não viu nada. Tamara tam­bém escrutava a mata sem notar nada de anormal. Aquele estranho ruído parecia-lhe muito conhecido, mas não conseguia identificá-lo de pronto.

             — Que barulho horrível foi esse…? — perguntou num murmúrio a mulata.

             — 0 jacaré… — disse Milena num fio de voz.

             — 0 quê? jacaré…? — Karina olhou em volta. Agora estava com medo de verdade. A neblina adensara-se e ela quase não conseguia ver o ca­minho pelo qual haviam descido até ali.

             — Ele está por aqui. Pode-nos atacar… disse Milena, tensa e chorosa. — Ah, meu Deus, como eu queria que a Mara estivesse aqui.

             — Mara?! — estranhou Tamara. — O que a Mara tem com isto? Confes­so que não estou entendendo nada.

             Alguma coisa muito pesada arrastou-se pelo chão, a uns oito me­tros de onde elas estavam. Karina olhou apreensiva para lá e a mesma coi­sa fizeram as outras duas.

             — Sua ilha tem jacarés? — perguntou Tamara espantada e assustada.

             — Não. Esse aí é um inquilino indesejável que apareceu ontem, a­qui na minha ilha. Pensei que tivesse ido embora…

             — Eu espero que não esteja com fome. A gente não tem muita opção, aqui — disse Karina preocupada.

             — Jacarés não sobem em árvores, mas nós, sim — falou Tamara pondo-se de pé e acenando com a mão para que as outras a seguissem. A coisa lá no mato voltou a bocejar e arrastou-se em direção às mulheres.

             — É hora de bancarmos a chita de Tarzan — e Karina empurrou Milena para os primeiros galhos de uma árvore.

             — Vá para o mais alto que puder — comandou. Ato contínuo ela também subiu, seguida de Tamara que se movia agilmente. Encarapitadas a qua­se cinco metros de altura, elas esperaram, corações disparados. Não podi­am ver o chão, tal era a densidade da neblina. Lá do mato vinha o barulho de algo pesado arrastando-se sobre galhos e folhas secas…

 * * *

             Toda Rio de Janeiro sentiu algo estranho na atmosfera. Os que estavam dentro de ônibus tiveram a impressão de que o ar tremera por um ou dois segundos. As coisas pareceram ter centenas de bordas: as cabeças das pessoas, os bancos à frente, a rua por onde trafegava o ônibus. A mesma coisa aconteceu com os que dirigiam seus veículos próprios.

Kamuratti estava no alto da Torre onde se encontrava seu escritório e olhava pela janela para a Praia da Urca. Súbito a vista se lhe escureceu e tudo pareceu flutuar entre uma realidade e outra; entre um mundo e outro. Foi uma experiência estarrecedora, mas rapidíssima. O Morro da Urca por décimo de segundo pareceu ter duas silhuetas. Tudo aconteceu no limiar da percepção consciente. Mas Kamuratti estava certo de que por um tempo curtíssimo ele vivenciara uma experiência extraordinária: estivera entre dois mundos. Aturdido deu alguns passos pelo grande escritório, mão direita na testa, sem poder apreender bem o que havia acontecido. Então, algo chocou-se com a vidraça da janela. O banqueiro voltou-se rápido a tempo de ver uma pomba-rola caindo. Correu para lá e abriu a janela. Levou uma baforada de ar quente no rosto que o fez recuar. Assustado, correu a fechar novamente a janela e olhou para baixo. Vários carros se tinham chocado bem diante da entrada do Túnel Novo. Uma grande confusão se formara no local. Buzinas nervosas, apitos trilados…

Kamuratti arregalou os olhos. “A Ressonância de Schumann!” exclamou de si para consigo. Sua pulsação é muito rápida, imperceptível, algo em torno de 7,83 pulsos por segundo… A reunião… O ritual… Será que provocamos algum abalo fora do controle científico?”

Kamuratti correu a ligar a TV e logo ouviu, pasmo, o repórter anunciar: “Atenção! Um fenômeno inexplicável acontece agora, na Cidade Maravilhosa. A temperatura subiu de repente e passa dos 45º. Aves caem mortas, pois o calor parece abrasador. As pessoas relatam uma tontura repentina. Motoristas que se acidentaram também alegam que tiveram a sensação de estar em duas ou mais dimensões de tempo-espaço. Vários acidentes de trânsito tornam caótico trafegar pelo Rio de Janeiro neste momento. Agora mesmo, eu tenho a impressão de que há duas temperaturas ao mesmo tempo, na atmosfera. Simultaneamente sinto calor e frio intenso. Não sei como explicar tal coisa espantosa. Voltaremos em breve com o Dr…”

Kamuratti desligou a TV e se sentou, aturdido. “Não pode ser. Nós não mexemos com fenômenos naturais… O que deu errado na reunião?”

HAITIANOS EM GOIÁS

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"O quê? Fui parar nesse blog?! Mas como?"

“O quê? Fui parar nesse blog?! Mas como? Quem falou pro danado sobre a Cachoeira Dourada? Eu quero que esse assunto fique esquecido, diabo!”

Ouço, às 7:15 h, que aqui perto, em uma cidadezinha que se tornou quase bairro da capital, conhecida como Aparecida de Goiânia, há uma colônia de 8.000 haitianos e que, diariamente, chegam por aquelas plagas a média de 10 a 15 novos  esperançosos em busca de paz e trabalho.

Ora, Aparecida de Goiânia é des-governada por Maguito Vilela, um ex-Zé Ninguém que, apadrinhado de Iris Resende, terminou por ser primeiramente eleito Prefeito de Goiânia, depois Governador, quando fez merda de montão, inclusive esculhambou a Companhia de Eletricidade do Estado, a CELG. De tal modo foi a roubalheira e a desorganização e desadministração na Empresa, que Maguito teve de vendê-la para conseguir tapar os rombos do PMDB e quadrilheiros. Apurou quase um bilhão de dólares (1997), o que realmente não somente daria para tampar os rombos causados pelos eternos roubos políticos, crônicos no Brasil, como, ainda, daria para realizar muitas obras boas em Saúde Pública e Educação, visto que naqueles idos, a população do Município não ultrapassava um milhão de habitantes. Nem chegava a tanto. Mas, como SEMPRE acontece neste “brasil” de coitadinhos, o dinheiro sumiu não se sabe como. O próprio Maguito (com um nome destes…) declara até hoje não fazer idéia de para onde foi tanto dinheiro (só não explica é como conseguiu aumentar subitamente suas posses e adquirir fazendas, mas isto é outra história).  Mais

TAPA NO PÉ DO OUVIDO (Parodiando Lá No Pé da Serra)

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Fiz uma mutreta linda que muito dinheiro ela ia-me dar,

Ganhei uma Presidência e uma Nação pra enganar,

Tudo estava muito belo, era uma beleza pro meu PTzão,

Me chamavam de “o cara” e até o Obama foi na enganação.

 

                Viajei o mundo inteiro

                E levei no beiço inglês e alemão,

                Chutei o FMI

                Pus daqui pra fora  

                E até fui muito aplaudidão.

                Só não disse pros Zé Nings

                Qui aquela façanha

                Era enganação.

                Aumentei dívida interna,

                E deixei o buraco

                Pr’outra ocasião.

 

Satisfeito enriquei

 e até  do meu moleque eu fiz um Barão,

Dei a ele uma gleba

Que foi uma danação.

O meu filho ficou rico

E já se mandou pra fora da nação

E eu fiquei para ajeitar

O bando que sugava nosso

Petrolão.

 

               Terminou meu tempo e glória

                Tive de sair de lá do Planaltão,

                Como aquilo me doeu,

                 Meu Deus era como uma ingratidão,

                 Me joguei de corpo e alma

                 Nos braços do povo

                 Qual se fosse herói,

                Mal sabiam os desgraçados

                Que o destino deles estava mal traçado.

 

Coloquei uma velhota de muito maus bofes lá no meu lugar,

E pensei que por detrás dela eu ia governar,

Mas a peste me traiu e se destrambelhou só fazendo besteira,

E soltou a tal P.F. que com o tal Moro veio nos caçar.

 

                Agora o mundo inteiro

                Está muito doido pra me apedrejar,

                E meus velhos cumpãeiros,

                Puseram para mofar,

                Nossa Petrobrás fez água

                E o Renato Duque foi pro beleléu,

                Até o meu tesoureiro,

                Qu’era muito arteiro

                Perdeu o chapéu.

A ILHA DE PARGOS – CAPÍTULO VIII – CRESCE A INTRIGA

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Capítulo VIII (Parte II) – Planejando a Derrocada do Brasil 

Desde há muito tempo aqui se trama a derrocada do Brasil.

Desde há muito tempo aqui se trama a derrocada do Brasil.

             Vinte horas. Quatro homens entraram no escritório de Kamuratti. O banqueiro convidou-os a sentar. Pelos trajes e pelos modos podia-se inferir que eram ricos e poderosos.

             — Senhores — disse Kamuratti quando todos estavam sentados. — Meu tempo é exíguo. Sugiro começarmos pelo nosso interesse mais imediato. Se­nhor Deputado Laércio, como vão os esforços para as privatizações? O se­nhor é o líder do Governo na Câmara. Então, deve ter muito a nos contar.

             — E tenho, Senhor Kamuratti. Tudo corre dentro dos conformes. Apesar das oposições, temos conseguido comprar muita colaboração, se me entende. Nas últimas privatizações, ganhamos trinta bilhões de dólares, pa­gamos em moedas podres quatro bilhões e duzentos milhões e em dinheiro bom somente um bilhão e oitocentos  milhões.

             — Isto eu sei. Aliás, todos sabem. A televisão anda noticiando insistentemente o assunto. Como estamos quanto ao petróleo, as telecomunicações, o subsolo e a Amazônia? Isto é vital, compreende, senhor Deputado? Nossa… Organização não quer saber de falhas nestes negócios. Os monopólios têm de ser quebrados. A navegação de cabotagem tem de ser aprovada, de preferência com um mínimo de restrições, por motivos óbvios. E a Amazônia tem de ser aberta para nossas empresas de exploração de madeira e minérios.

             — O senhor deve compreender que a luta é dura, muito dura. E é muito perigosa, também. De qualquer modo, a balança está a nosso favor. A chantagem está-nos favorecendo e Kantor Antratos é um ótimo colaborador. Ele tem demonstrado que pode seqüestrar quem resolver que deve e a polí­cia é inútil, até porque seus comandantes estão na folha de pagamento do facínora. Uma insinuação quanto ao seqüestro de um familiar… um filho ou uma filha… enfim, a gente sempre consegue quebrar algumas resistên­cias mais fracas, porém nem por isto menos importantes. Alguns líderes do povo é que realmente nos dão trabalho. Uns mais perigosos já foram neutralizados e há dois, na Amazônia, que logo anularemos. Eu me refiro aos padres e freiras, principalmente estrangeiras que…

             — Não gosto do método que usam — cortou Kamuratti. — Dos quatro, o tal de Francisco Mendes virou mártir. É o de que menos precisamos: márti­res. Desmoralizem! Façam com que percam a credibilidade. Enxovalhem suas memórias e distorçam suas ações e palavras. Enfim, lancem-nos no descrédito total, mas não os matem. A eliminação pura e simples só nos traz problema maior.

             — Sabemos disto, Sr. Kamuratti, mas nosso problema maior é o tem­po. Não dispomos de muito.

             — Só apelem para a eliminação física em último caso, eu insisto. E quanto ao tempo, dá-se um jeito. Agora, outro problema prioritário: a Itava­le do Rio Doce. O que têm a me dizer dela? Quando será privatizada?

             — Esta é uma privatização muito polêmica. É uma companhia de fama internacional e sabidamente não dá prejuízos, ao contrário, não só dá lucro, como ajuda substancialmente a Região Norte e Nordeste em seu desenvolvimento social. Temos de ir com muito cuidado. Os progressos não são o que desejávamos, mas de grão em grão…

             — Senhores — disse Kamuratti olhando o relógio de ouro no pulso — é preciso incendiar a polêmica sobre a educação, a moradia e a alimentação. Educação, eis o calcanhar de Aquiles com que temos de nos preocupar. Este país não pode ter Educação de qualidade. Jamais, compreendem? Povo educado é povo complicado para nós. Isto que aí está é ótimo para nossos planos. Sabotar a Educação, comprar as consciências dos políticos para que sempre impeçam qualquer movimento no sentido de colocar o Brasil em pé de igualdade com países onde a Educação é prioritária é nosso objetivo número um. O número dois é a Saúde Pública. Nunca devemos deixar que esta área de interesse comunitário nacional brasileiro saia da UTI, como a Imprensa vive dizendo. Concomitantemente, é preciso anular os esforços no sentido de concretizar-se qualquer benefício para o povo. Não gostei de ouvir que o PMDB anda com a idéia de lançar uma tal de Bolsa Família. Nada disto! Seria um tiro em nossos pés, entendem?

             Apertem o Governo. O atual presidente é um empecilho com o qual nós não contávamos. A bancada dos senhores deve lutar para que os juros continuem sufocando o comércio e a indústria. Amenizarei a tensão fazendo a televisão fabricar heróis. Fórmula Um à vontade. Futebol à granel. Vôlei, basquete, futevôlei e quantas mais besteiras desta espécie existam. Carnaval e trio elétrico até fora de hora, tudo é válido para entorpecer as massas. Minhas empresas cuidarão disto. “Pou­co pão e muito circo”, esse tem de ser o lema. Manteremos a massa estúpida no ópio da ilusão. Não nos interessa a rebelião, agora. Primeiro temos de colocar as mãos nas riquezas deste país fabuloso. A Argentina já es­tá quase esfacelada. Todos os seus esforços nós fizemos fracassar. Agora, Cavallo caiu. Ela será totalmente nossa em breve. Temos uma candidata ideal para colocar no Governo Argentino. Chama-se Cristina. No devido tempo todos a conhecerão. O México também está na mira da nossa Irmandade e as gangues serão incrementadas até se tornarem uma praga temida mesmo pela Camorra. As gangues de lá têm gente nossa nos comandos. A África está toda em nossas mãos e logo faremos que aquele povinho fedorento seja exterminado. Ensinaremos aos idiotas neo-nazistas como é que se faz uma limpeza étnica. E agora, ouçam bem: quando derrubarmos o Brasil, a América do Sul cai. Ele é o mais forte e é o mais rico. Nós, de nossa Nahashilla já adquirimos o direito sobre ele em quase toda a sua totalidade. O que ainda não nos pertence, pertencerá. Questão de ajustes financeiros na Grande NAHASH. Agora, senhores, quero saber quanto à estratégia a médio prazo. Quem me informa?

             O mais careca, mais baixo, mais gordo e mais míope entre os quatro figurões da política nacional falou.

             — Bom, como foi planejado, incrementamos a formação dos grupos dos “Sem Terra”. Demorou um pouco devido aos brasileiros interiora­nos, ainda Jecas Tatus. Mas aos poucos conseguimos arregimentá-los e formamos grupos que se tornam significativos. Mas temo que treiná-los em técnicas de guerrilhas…

             — Cuidado — disse Kamuratti. — A reforma agrária de modo nenhum, mas de modo nenhum mesmo, eu enfatizo, pode-se deixar concretizar. Tem de ser mantida como uma bandeira, mas apenas como isto: uma bandeira pa­ra iludir e alimentar a ilusão dos trouxas. A bancada dos Campistas, na Câmara, está trabalhando firme neste assunto, mas eu exijo a cooperação dos senhores para eles. O Partido dos Trabalhadores tem tendências altamente dissonantes com nossos objetivos e guerrilha faz parte dos sonhos destes desvairados. É preciso vigiar seus líderes de perto. Não são trouxas e visam, de certo modo, o mesmo objetivo que nós: querem o país totalmente para seus líderes e não se pode deixar que isto aconteça. E os líderes deles, os cabeças mesmo, não estão aqui.

             — Não acontecerá, fique descansado. O Governo desapropria as fazendas produtivas, forçado pela massa bem liderada; assenta as famíli­as dos miseráveis, mas nossa bancada não vai permitir que dê a eles os implementos agrícolas para trabalharem a terra. Não terão os grãos para o plantio e se quiserem comprá-los, fá-lo-ão nas mesmas condições impostas para os grandes fazendeiros: empréstimos com juros altos. Logo, logo eles estarão desanimados e descrentes e serão forçados a vender os lo­tes que ganharam. Nosso pessoal compra tudo, legalmente e a preços irri­sórios. As terras boas serão nossas, fique descansado. Com algum dinhei­ro nos bolsos os “Sem Terra” irão para as cidades grandes, como Rio de Janeiro e São Paulo. Vão engrossar as favelas. Não custará muito e estarão trabalhando para algum assecla de nossos homens no crime organizado.

     

— Chamo a atenção para o fato de que, também no campo, não queremos nenhum movimento revolucionário. Tenho visto pela televisão que nossos homens infiltrados entre os Jecas Tatus os estão ensinando técnicas rudimentares de guerra de guerrilha. Não quero que isto vá em frente. Ainda não é hora para tal movimento, pois isto dará forças ao PT e por detrás desta sigla escondem-se verdadeiras cascavéis. As Forças Armadas ainda não estão de joelhos. Não nos enganemos. Há oficiais ali que podem fazer-nos uma surpresa, como foi o caso de Castello. Naquela época, tudo parecia em nossas mãos. Afobamo-nos e perdemos vinte anos. A Irmandade não quer mais isto. No momento propício a Grande NAHASH nos dará o sinal. Estou relativamente satisfeito com a manobra, mas não quero que a guerrilha seja desenvolvida. Poderia redundar num novo Vietnam. Não temos interesse em que as florestas Amazônica e Atlântica sejam atacadas com agentes químicos e destruídas. Reconheço que o trabalho, de um modo geral, tem sido inteligente e cuidadosamente levado a efeito. Até agora, parabéns. Eu falei nas Forças Armadas. Quem pode-me dar notícia de como anda nosso trabalho lá?

             Foi a vez do homem alto, magérrimo, meio calvo e com sotaque de lusitano, falar.

             — Estão sob perfeito controle. Exército, Marinha e Aeronáutica já perderam o moral dentro de suas tropas. 0 treinamento dos soldados está o mais fraco e relaxado que é possível. A corrupção já atinge as tropas. Os nossos homens lá dentro fazem excelente trabalho. Valeu a pena esperar todo o tempo necessário para que se tornassem oficiais, após os concursos e o estudo nas escolas militares. Agora, fazem excelente trabalho. A Aero­náutica, por exemplo. É a mais corrompida, a mais amoral e a mais enfraquecida dentre as três forças armadas. Indisciplina, desestímulo à naciona­lidade e nenhum incentivo ao patriotismo. Ladrões vivem tranquilamente em suas vilas, à proteção da Polícia. Beberrões, estupradores, enfim, uma excelente laia de mal-feitores convive normalmente com a soldadesca. O Exército está dividido e ainda assustado com a guerra psicológica que lhe movemos transformando o tempo em que sustentou as rédeas do poder em uma terrível ditadura. A moral está baixa entre os oficiais generais, os oficiais superiores e os oficiais subalternos e nós aproveitamos muito bem esta situação. A Marinha é a mais perigosa. Reservada, quieta, ela se mantém em defensiva total. Seria a Arma que melhor poderia enfrentar-nos, mas não tem condições em armamentos. Seus navios são velhos, ultrapassados e o porta-aviões é do tempo da pedra lascada, sem contar que só têm um, pobres miseráveis.  Nós não permitimos que nenhuma verba seja destinada para seu reaparelhamento. O porta-aviões que possui, como eu já disse, é o único e é uma piada. Tão velho que navega de muletas.

             Risos de escárnio entre os presentes.

             — Ótimo, senhor Senador, muito bom mesmo. Assim como David derrotou os filisteus ajudado pelo Deus Eterno, também nós venceremos os gentios de agora. Contudo, precisamos não de armas e sim de astúcia. Procurem atentar para o soldo. Manipulem o soldo, entende? Isto fará com que percam tempo. Saberemos como aproveitar o que eles perderem. Agora, gostaria de ouvir so­bre o que estamos fazendo para trazer nosso homem, Ferdinand Köller, ao poder novamente.

             — Por enquanto, nada, Senhor Kamuratti — informou o mais elegante dos quatro. — Achamos que o momento psicológico não é propício. 0 atual Presidente, sem querer, vai preparando o caminho de tal modo que nosso homem retornará como herói, nos braços do povo. 0 mesmo povo que lhe impôs o “impeachment” vergonhoso e o desmoralizou diante do mundo. Pretendemos que o atual Pre­sidente seja reeleito. Terá mais tempo para consolidar, com a nossa ajuda, é claro, a desestruturação da nação e levar o povo a um desespero ótimo para nossos planos. Os esforços dele só nos trarão benefícios, pois entortaremos tudo o que desejar fazer de bom para a Nação. Trabalhamos para que nosso homem retorne liderando uma revolução. Os nossos aliados nas forças armadas ajudarão nisto. Na condição de herói nacional será mais fácil tomar o poder e ter o apoio dos imbecis. Imporá a ditadura sem ter quem a ele se oponha e sempre acobertado pela bandeira da democracia. Ele, antes de sair, abriu-nos as portas que os militares nos tinham fechado. Quando voltar, colocará os tronos para que nos sentemos permanentemente sobre esta terra prometida.

             — É, estou de pleno acordo com vocês e é o que defenderemos diante da Grande NAHASH. Senhores, ao que parece tudo está dentro do planeja­do. Eu quero relatório detalhado das atividades, os prognósticos, os pon­tos fracos e as estratégias alternativas para neutralizá-los. Lucilla vai a Israel para o grande sínodo da Grande NAHASH e levará os papéis. A Sociedade precisa ter todos os detalhes. Boa-noite, senhores. Amanhã exa­tamente às 16h de Brasília estaremos creditando os dólares referente aos seus trabalhos nas contas que têm nos paraísos fiscais.

             Todos se puseram de pé respeitosamente, mas não conseguindo ocultar a satisfação que a cobiça lhes dava. Apertaram efusivamente as mãos do Sr. Kamuratti e saíram imponentes. O banqueiro os acompanhou até os elevadores. De­pois que eles iniciaram a descida, Kamuratti murmurou com asco: “porcos traidores, um dia terão o que realmente merecem. São tão inferiores quanto aqueles a quem traem.” Voltou ao escritório e fez uma chamada para Israel. Quando Fratelli chegou, ele estava falando em surmiram, língua que seu assecla não entendia.

             Apoiando-se na bengala, Enrico Fratelli sentou-se e aguardou pacientemente que o seu patrão terminasse a conversa. Finalmente ele acabou.

             — Qual a gravidade da contusão? — perguntou sem preâmbulo.

             — Pouca. Em uma semana estarei recuperado. Em quinze dias estarei bom para outra; cem por cento curado.

             — Concordo em que se exercite, mas exijo que tenha mais cuidado. Agora, quero falar de Fílio e Cícno. Foram inábeis com as duas mulheres; no entanto, você me garantira que eles eram muito bons. Como se explica?

             — Eles são bons, Sr. Kamuratti. Devem ter sido pegados de surpre­sa. Se as mulheres sabem defesa pessoal não há nada de espantar em que tenham sido surpreendidos por elas. Mesmo sendo eles peritos em Crav-magah a surpresa pode pregar peças.

             — Bom, você é quem entende bem destes assuntos. Se diz isto, en­tão vou dar-lhe crédito. No entanto, preciso eliminar um empecilho na Câmara de Deputados do Estado. Sabe que este tipo de serviço eu só o confio a você. Machucado, como está…

             — Posso fazê-lo, não se preocupe.

             — Não, não pode. Desta vez quero ação e muito estardalhaço. Você não está em condições.

             — Não pode aguardar um pouco mais?

             — Não. O momento ideal é depois de amanhã. O alvo vai inaugurar uma estátua em homenagem aos meninos de rua vítimas da violência policial.

             — O senhor está-se referindo ao Deputado Luis Filipe Nettus… É ele?

             — Sim.

             — Mas é o pai do Dr. Luis Filipe — espantou-se Fratelli.

             — Sei disso. Quem pode realizar o trabalho? Tem de parecer vingança de traficantes. Plantaremos documentos comprometedores no escritório e na pasta particular dele, duas horas antes do atentado, por isto ele não pode escapar.

             — Isto vai atingir a família da noiva do Dr. Luis Filipe. Ela é uma milionária e sua família é de políticos de destaque…

             — Também sei disso. Mas a Grande NAHASH já decidiu que esta eliminação é necessária ao apressamento de uns planos que tem a realizar aqui.

             Fratelli estremeceu. Ele já executara muitas pessoas por ordem daquela organização. No entanto, não tinha a menor idéia de como era ela, onde tinha sua sede e quem eram seus membros. Sabia apenas que o todo pode­roso Senhor Kamuratti tremia quando o telefone verde tocava. Só a Grande NAHASH chamava por ele. Embora não tivesse provas, ele sabia que a orga­nização tinha assassinos em várias partes do mundo. Homens tão decididos e tão bons ou melhores que ele na arte de matar.

             — Bem, eu entregaria a ação ao Fílio. Ele é muito bom nestas ma­nobras — disse Fratelli.

             — Então faça isto. Agora, pode ir.

             Fratelli saiu. Kamuratti tomou um drinque antes de ir para casa.

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