Como Jesus falou com o Pai enquanto estava no escuro, sobre o topo de um morro que se acreditava assombrado pelo diabo? Ninguém sabe.

Pacífico, sim. Covarde, jamais.

Um mês se passara desde que Yehoshua impedira que seus dois irmãos fossem mortos pelos mongóis nômades. Agora, ele viajava em companhia de seus três discípulos. Iam numa carroça, puxada por quatro belos cavalos, direto para uma das aldeias mais violentas entre os celtas e que ficava próxima do território dominado pelos germanos, outro povo guerreiro e conquistador. Uma batalha sangrenta estava a ponto de se estabelecer entre os dois povos. A manhã era fria e uma bruma preguiçosa se estendia por entre as grandes árvores de copas altas e densas. Issa cantava baixinho enquanto se entretinha em trançar uma corda com finos fios de lã de carneiro. Olhando-o trabalhar absorto naquela tarefa cansativa e meticulosa, Primus e Atonchau cochichavam sobre o desperdício de tempo de Issa. O Mestre, que não os ouvia, cantarolava sua canção em idioma desconhecido pelos dois.

Primus ainda tinha em si o treinamento romano e lhe era difícil safar-se dele.

Primus ainda tinha em si o treinamento romano e lhe era difícil safar-se dele.

— Primus — chamou Atonchau, espicaçando sua montaria para se aproximar do romano. — por que Issa aceitou o convite da Druidesa para vir até a aldeia de Bryan? Todos sabemos que ele é sanguinário e vive arranjando encrenca com os outros. Duas vezes nós tivemos de lutar contra seus ferozes guerreiros. Ele veio numa missão de rapina. Queria nossas mulheres virgens para transformá-las em escravas e vendê-las a outros povos.

— Vosso povo também não faz isto? — Perguntou Primus, sustando o trote do cavalo para que Atonchau o alcançasse.

— Bem… É um costume de todas as tribos celtas, mas o que tem isto haver com nossa viagem? Sabes bem que Luprécio e eu não mais pertencemos à aldeia…

— Certo que não. Mas pertenceis à raça humana e, segundo nos ensina Issa, devemos defender todos os membros desta raça, independentemente de tribo, aldeia ou nação. Eu ainda tenho em mim certa repulsa por tribos primitivas como as vossas, mas fiz um juramento de seguir aquele homem e a estou cumprindo. Ele é diferente de todos quantos conheci.

— Besteira! Concordo que devemos defender os que são de nossa aldeia, de nossa tribo, de nossa nação. Mas os outros que se defendam quando necessário, ora. E quanto à tua repulsa, acredita, ela é totalmente correspondida pelos celtas. Nós, também, não gostamos de romanos.

— Ainda não entendeste que somos todos filhos de um Único Pai? É por isto, por acreditar nisto, que eu luto por tolerar vossa gente de costumes bárbaros e estranhos.

Atonchau deu uma cusparada de desprezo.

— Olha, Primus, nenhum celta morre de amores pelos romanos, mas não é disto que quero falar. Tenho ouvido Issa sobre esse Pai misterioso e estranho que, diz ele, é o Criador de tudo e de todos. Tenho-o ouvido discorrer sobre as Leis do tal Pai. Mas Issa não nos disse quem são as esposas d’Ele. Para ser o Pai de todos os homens, ele tem de possuir um harém enorme. Onde se escondem suas concubinas?

— Se não aceitas os ensinamentos de Issa, por que ainda estás conosco?

— Porque o Espírito de Atonchau sentiu o chamamento — ouviram a voz de Issa, cuja carroça se tinha colocado ao lado dos dois cavaleiros. Não é esse corpo que tu vês, Primus, que reage ao chamamento, mas o Espírito que o habita e cuja vontade está além dos desejos fracos e carnais do corpo.

— Mesmo ele sendo… — e Primus indicou com o polegar o seu companheiro de viagem.

Para Yehoshua, vícios carnais impostos por um pesado carma corretivo.

Para Yehoshua, vícios carnais impostos por um pesado carma corretivo.

— Isso é vício da carne, não do Espírito e nosso Pai se interessa pelo Espírito, não pela Carne. Esta fenece e apodrece. Já o Espírito é imortal e não possui sexo. Todo Espírito é uma forma assexuada, meus irmãos. Tal e qual é o Pai. Além do mais, quando alguém nasce com este vício há uma razão de ser no seu Carma. Uma razão muito pesada, muito grave. O Espirito submetido a tal provação tem um desafio terrível em seu futuro. Por isto pessoas com tais vícios não devem ser discriminadas, mas ajudadas a viver e conviver em vossas sociedades, desde que aprendam os limites de seus vícios a fim de não atingir e ofender os costumes da comunidade em que se encontram inseridos. Este vício deve ser passageiro e isto só vai depender de o Espírito em provação se impor sobre defeitos carmáticos dominantes, o que não lhe será fácil. Mas a luta foi ele mesmo que estabeleceu para si por razões que só a ele compete conhecer e enfrentar. Aos demais, como tu e eu, cabe aceitar a pessoa, respeitar seus limites e ensiná-la a também respeitar nossos limites, pois no mundo encarnado tais exigências são essenciais para a organização social humana. Vós não deveis julgar vosso próximo, pois não sois perfeitos. Quando no mundo de nosso Pai e tendo o Espirito vencido o desafio cármico, tal vício não mais existe.

— Mas, Issa — disse Primus, aproveitando a oportunidade para tirar dúvidas que o atormentavam desde que passara a viver na companhia do Mestre hebreu. — se o Espírito se curva aos vícios da carne, não é ele fraco e indigno de nosso… nosso Pai?

Yehoshua sorriu olhando significativamente para seu discípulo romano. Este compreendeu aquele sorriso e corou até às raízes dos cabelos.

— Ainda hesitas em aceitá-l’O como teu pai, Primus? Em verdade, meu irmão, eu te digo que ages como uma criança birrenta que grita para seu genitor: “tu não és meu pai!” No entanto eu te digo: os pais humanos nunca levam em consideração as birras de seus filhos. Sabem que são tolas e passageiras. E para nenhum pai humano o filho pequeno é indigno. Se é assim entre os homens, quanto mais o será para o Verdadeiro, Aquele que está em tudo e em todos?

— Às vezes tu me confundes, Issa — disse Primus passando a mão pelos cabelos. — Dizes que Ele está em tudo e em todos. Mas eu não O sinto em mim nem O vejo em lugar nenhum.

As pessoas apenas enxergam a árvore, não o Deus que há nela. Em tudo, até na pedra, o Pai se encontra.

As pessoas apenas enxergam a árvore, não o Deus que há nela. Em tudo, até na pedra, o Pai se encontra.

— É porque tu O procuras com os olhos da carne e estes não têm condições de enxergá-lo, pois mesmo sendo Ele a carne na Terra, esta é um desafio que Ele em ti tem de encarar para se tornar uma unidade independente do Todo, mesmo continuando a ser o Todo. Sei que o que digo confunde, mas apenas aos que ainda não sabem pensar sobre a Verdade da Criação e de seus objetivos. Busca o Pai no silêncio de teu Ser e tu O encontrarás.

— Eu não posso escrutinar meu próprio ser. Então, como vou fazer isto?

— Teu Ser não é teu corpo, Primus. Teu Ser está além de tuas vísceras. Olha para teus pensamentos. Ouve tuas palavras. Vê tuas ações. Observa tuas reações emocionais. Coteja tudo isto diante da Lei Máxima de nosso Pai que nos manda Praticar o Amor acima de tudo. Se em tudo o que sair de ti houver Amor, então, tu O estás encontrando em teu íntimo. E não precisas de ver Seu Corpo, pois Ele é todo o Infinito e tua visão carnal não pode abarcar Sua Infinita Totalidade.

A cegueira humana torna vil as Leis que cria e sua aplicação, injusta.

A cegueira humana torna vil as Leis que cria e sua aplicação, injusta.

Compreende, Primus, que há uma luta constante entre os apelos e desejos carnais, intrínsecos à carne, à sua condição de um ser da Terra, e os anseios de liberdade plena do Espírito que se encontra aprisionado por ela a fim de aprender sobre os conceitos de Certo e Errado, de Bem e Mal, de Correto e Incorreto, de Bom e Ruim, de Moral e Imoral, de Ético e Anti-Ético e de Verdadeiro e Falso. A Evolução do Homem o levará, num futuro muito distante, a assumir tarefas onde tais conceitos terão de ser muito bem conhecidos, pois o que deverá criar e gerir não poderá possuir defeitos.

Primus calou-se e seu olhar se perdeu na estrada à frente. Tudo o que acabava de ouvir o confundiam e o tornavam angustiado. Ele estava meditativo e se recordando de sua vida e de suas ações enquanto militar romano. O que acabara de ouvir mais dúvidas lhe tinham suscitado do que certezas lhe tinham dado e este modo de agir e falar de Issa sempre o desesperavam.

A Culpa acicata a alma e tortura o culpado. A Culpa é um juízo da pessoa sobre si mesma.

A Culpa acicata a alma e tortura o culpado. A Culpa é um juízo da pessoa sobre si mesma.

— Primus, os filhos de nosso Pai não devem viver esta vida olhando para os erros do passado e se martirizando por eles — disse Yehoshua, após observar atentamente o íntimo de seu discípulo. — O que alguém fez está feito e não será nesta encarnação que terá tempo de retificar tais erros, portanto, não se deve viver pela culpa e pela auto-acusação. Se mil vezes tu vivesses esta existência, mil vezes incorrerias nos mesmo enganos e nos mesmos erros, compreendes? Todos os homens que vivem inseridos numa época, numa cultura, e está submetido a esta época e a esta cultura terá de agir conforme os ditames da cultura em que se encontra. E ela o induz, com freqüência em enganos e erros e atos censurosos que ele precisa encarar e, não, evitar. Sua carne é educada de conformidade com as crenças, as práticas, os hábitos, as leis da comunidade e os mitos que toda a comunidade aceita como verdadeiras e certas. Não te tortures te julgando e te acusando, pois o Pai Celestial, O Único Juiz possível, jamais julga. Crê em mim porque jamais erro ou minto. Então, segue em frente aprimorando tudo em teu Ser e buscando não mais cometer os mesmos erros ou erros semelhantes. A aceitação dos erros como algo bom e sua repetição consciente e volitiva é que denigre a Alma humana e faz de seu Espírito escravo do Mal. Teus esforços para evitar o cometimento dos mesmos erros é que te recompensarão diante da Justiça Amorosa de nosso Pai Celeste. Compreendeste? Todo aquele que, compreendendo o erro em que vinha incorrendo, busca corrigi-lo em si mesmo e evitá-lo no futuro, alijando-o para bem longe de si; todo aquele que assim age limpa seu Carma e não terá necessidade de retornar à vida terrena para purgar seus equívocos.

Atonchau ouvia o diálogo dos dois em silêncio, mas totalmente atento ao que escutava. Fascinava-o o fato de que Issa não lhe condenasse o comportamento homossexual, pelo qual ele e Luprécio tinham sido expulsos da aldeia onde haviam nascido, crescido e pela qual tinham arriscado suas vidas tantas e tantas vezes em combates sangrentos e violentos. E tudo para defender os que, depois, os olhariam com asco e repulsa.

— Issa — perguntou de chofre. — Por que estamos seguindo a Druidesa Alana? O que temos com o assunto que diz respeito às duas aldeias envolvidas nele? Nós já não mais…

— …pertenceis à vossa aldeia? — Cortou Issa, sorrindo e mirando a face de seu interlocutor. — Eu te digo. Temos de cumprir com a Vontade de nosso Pai.

— E qual é a Vontade d’Ele? Tu o sabes?

— Todos sabemos. É só uma questão de bom senso.

— Eu não sei. E tu, Primus, sabes dela?

—Ainda não, mas creio que saberei quando lá chegarmos.

— Muito bem dito, Primus. Como eu costumo dizer, não se deve apressar o rio.

Os três se calaram e Issa voltou à sua corda. No final da tarde daquele dia finalmente enxergaram a aldeia. O Sol já esmaecia sua luz e o lusco-fusco do entardecer tomava toda a terra quando a pequena comitiva deu entrada ali. Foram cercados por celtas curiosos, principalmente por crianças. Os homens traziam lanças e espadas e os olhavam desconfiados. Alana desceu de sua carroça e foi abraçada pelo Druida Allan, alto, barba branca longa e olhar de punhal acerado, que se fixaram de imediato em Issa.

— Não conheço aquele jovem, mas ele tem uma aura fantástica ao redor de si. Quem é ele?

— Alana se voltou para Issa e lhe estendeu a mão. Quando este desceu da carroça e se aproximou ela o apresentou a Allan.

— Não és celta nem romano, mas viajas na companhia de celtas e romano. Por que? — Perguntou Allan, mergulhando seu olhar perspicaz nos olhos caramelados de Yehoshua.

— Porque sou irmão de todos os homens, inclusive vosso — foi a resposta desconcertante do jovem hebreu.

Allan permaneceu mirando nos olhos de Issa. Depois, em silêncio, voltou-se para Alana e pegando-a pela mão encaminhou-se para sua casa, sem se incomodar com os demais. Yehoshua passeou os olhos ao redor e viu que quase toda aldeia os olhava com olhares desconfiados. Um círculo de pessoas claramente hostis se formava e adensava ao redor dos três desarmados companheiros.

— Por que nos temeis? — E sua voz soou forte, sobressaltando os que os rodeavam. — Por acaso vedes ameaça em algum de nós? Não portamos armas nem nada que vos possa ameaçar. Então, por que razão nos olhais com olhares de desconfiança e raiva? Do que tendes tanto medo?

Yehoshua sabia que dizer a um celta que ele tinha medo mexia profundamente com seus brios. Mesmo que estivesse com medo, um celta jamais o admitiria diante de um estranho e possível adversário.

Um homem forte como um touro e com mais de dois metros de altura avançou de entre os que os rodeavam e parou diante de Yehoshua. Tinha uma carranca de poucos amigos e seus olhos se fixaram nos olhos plácidos do jovem hebreu. Fedia a gordura e suor.

— Por que tu nos insultas dizendo que temos medo de vós? — Trovejou o guerreiro, cujo nome, Bellovesus, era temido entre as demais tribos celtas.

— Porque vejo que tendes o medo em vossos corações — respondeu Issa, com voz calma, mas alta para todos ouvirem. — Mesmo que não o admitais, vossa atitude beligerante dize-o bem do quão temerosos estais. E não somos ameaça a ninguém daqui. Não nos recebeis como geralmente os celtas o fazem a visitantes. Temos fome e sede e não nos ofereceis nenhum alimento com que satisfaçamos nosso apetite nem nenhum líquido com que saciarmos nossa sede. Estamos cansados e não nos ofereceis um lugar onde descansarmos de nossa jornada. Então, se isto não é por medo, é por quê?

Uma mulher se adiantou aos demais e se aproximou de Issa com a mão estendida.

— Perdoa-nos, estranho. Estás certo. Há medo em todos nós. Estamos na iminência de ataque por parte de gente aguerrida e perigosa, integrante do reino do rei Armínio, o vencedor de três legiões romanas, na batalha travada na floresta de Teutoburgo. Armínio é um querusco que nos tem como inimigos também. Há duas gerações, nossa aldeia era poderosa e invadiu algumas aldeias sob o domínio do querusco. Ele, agora, quer invadir-nos e nos fazer de escravos. Mas tu e teus companheiros não pertenceis aos que nos ameaçam. Então, vinde comigo para minha casa e eu vos darei a hospitalidade celta de que nos cobrais com toda a razão.

Os quatro acompanharam a mulher através da aldeia, mas no meio do caminho Yehoshua viu três homens em petição de miséria. Estavam amarrados a uma viga na horizontal, o que os obrigava a permanecerem de joelhos. Só que estavam ajoelhados sobre escolhos pontiagudos que os feriam e os faziam sangrar. Suas faces macilentas diziam do tempo de sofrimento naquela condição terrível. Talvez não dormissem há duas ou três noites e o cansaço os fazia respirar com dificuldade. Amarrados pelos pulsos, seus troncos pendiam para a frente e eles nem forças mais possuíam para gritar ou gemer. Lutavam apenas por um pouco de ar nos pulmões, o que o peso do corpo e os músculos cansados não lhes permitiam ter.

Yehoshua apartou-se do grupo e se dirigiu aos prisioneiros, para surpresa da mulher e de quantos os seguiam. Ele se ajoelhou junto aos sentenciados e com as mãos limpou cuidadosamente os escolhos pontiagudos, deixando a terra fofa limpa. Então, com muito cuidado colocou os joelhos dos prisioneiros no solo limpo. Eles caretearam de dor, mas olharam agradecidos e com olhos cheios de lágrimas para o estranho homem que os atendia com infinito carinho. Yehoshua pôs-se de pé e a passos firmes se dirigiu a um dos guerreiros e antes que este pudesse reagir tomou-lhe da cinta a pesada espada. Com ela nas mãos dirigiu-se para os presos, mas o celta gigantesco se interpôs entre ele e os prisioneiros.

Os guerreiros celtas nunca se separavam de suas armas, mesmo em tempos de paz.

Os guerreiros celtas nunca se separavam de suas armas, mesmo em tempos de paz.

— O que pensas que vais fazer, estrangeiro? Esses homens são nossos inimigos e foram sentenciados à morte. Não deves interferir com nossas Leis ou tu também terminarás como eles.

Os olhos ferozes do celta fuzilavam o atrevido judeu, que lhe devolveu o olhar com outro, de fogo puro. As duas forças espirituais se enfrentaram por longos segundos, mas o gigante celta abaixou o olhar para o solo e se afastou, dando passagem a Yehoshua. Este, foi até os prisioneiros e lhes cortou as amarras dos pulsos. Eles caíram com as faces sobre as pedras agudas, ferindo-se no tórax e nos rostos. Yehoshua amparou um a um e fazendo que passassem um dos braços sobre seus fortes ombros, levou-os até um banco rústico junto a uma das casas, onde os fez deitarem-se. Então, voltou-se para a mulher e lhe pediu água. Ela hesitou e passeou o olhar pelas faces dos que assistiam, pasmos, ao atrevimento do estranho homem.

— O… O que pretendes fazer, estranho? — Perguntou a mulher, aproximando-se e observando os prisioneiros exaustos, que respiravam com dificuldade. A cor macilenta, o vazio nos olhos, tudo indicava que a morte não demoraria a cair sobre eles.

— Traz-me água, mulher, e não percas tempo com perguntas tolas — ordenou Yehoshua e sua voz imperiosa e trovejante assustou não somente a mulher, mas também a todos os que presenciavam sua ação totalmente desconcertante. Num susto, a mulher correu para dentro de casa e retornou com uma vasilha cheia de água. Yehoshua tomou-a de suas mãos e elevou-a ao alto, orando em voz forte:

Ele orava assim, em êxtase e todo entregue Àquele que não tem nome. Quando orava, Ele era um com Seu Pai.

Ele orava assim, em êxtase e todo entregue Àquele que não tem nome. Quando orava, Ele era um com Seu Pai.

“Meu Pai, peço-vos que vos apiedeis destes três pobres irmãos meus. Eles não são totalmente responsáveis pelos seus erros e mais culpados são os que os enviaram para o combate sangrento e inútil entre irmãos. Que esta água contenha Tua Piedade e Tua Sentença. Se meus pequenos irmãos carnais forem culpados e merecedores de morte tão impiedosa, que a cura não se faça ao ingerirem esta água. Saberei que Tua Graça não foi colocada nela. Mas se julgares que meus três pequeninos irmãos não são merecedores de arcar com os crimes de todos os outros, então, que esta água cure-os e lhes devolva a saúde”.

Boquiabertos os celtas se entreolharam e num impulso instintivo olharam para cima, como se querendo ver o tal Pai a quem o estranho acabava de apelar. Então, voltaram a mirar, pasmos, o que Yehoshua fazia. Ele, com muito cuidado e muito carinho, colocou a borda da vasilha nos lábios do primeiro homem que, com muita dificuldade bebeu alguns goles. Fez a mesma coisa com os outros dois. Então, pôs-se de pé, abriu os braços e voltando o rosto para o alto orou em silêncio uma longa prece. Enquanto ele orava, os três homens se recuperavam. E, pasmos e assustados, todos viram uma luz diáfana descer da escuridão da noite e banhar Yehoshua e seus três protegidos. A luz brilhou por alguns minutos, enquanto durou o restante da prece do Rei dos Reis e, então, quando ela desapareceu, os três germanos estavam totalmente sãos. Assustados, também eles olhavam para o alto e temerosa e respeitosamente para o estranho homem de pé, diante deles.

Yehoshua baixou a face e com grande alegria abraçou um a um dos três espantados e temerosos germanos.

— Nosso Pai vos perdoou os erros cometidos. Podeis retornar à vossa tribo e não mais tomai da espada para matar vossos irmãos. E dizei ao vosso rei o que aqui vistes e do Poder do Pai celestial que vos devolveu a vida, para que Ele seja louvado e conhecido entre todos os homens. Ide em paz…

— NÃO! Ninguém dá ordens em minha aldeia! Os prisioneiros permanecem entre nós e voltarão a ser amarrados. E tu, intrometido, também serás amarrado junto, já que te irmanaste a eles contra nós.

O grito veio de um homem que beirava os quarenta anos, forte e altivo, o Guerreiro e Chefe Bryan que, alertado por outro guerreiro da tribo, deixou sua casa, onde se reunia com Alana, e em companhia de Allan, o Druida, encaminhara-se apressadamente para o centro da aldeia, onde assistiu, impassível, os últimos acontecimentos espantosos. Com um gesto imperioso ele ordenou a cinco guerreiros que amarrassem os dois germanos e o intrometido, mas os guerreiros recuaram dois passos, assustados. Tinham medo do estranho cujo misterioso Pai dera a vida e a saúde de volta aos presos e cobrira a todos com uma luz misteriosa.

Fuzilando seus guerreiros com um olhar de raiva, o Druida Allan avançou até perto de Yehoshua. Parado diante do tranqüilo estrangeiro, ele meteu a mão dentro de uma bolsa que trazia a tira-colo e de lá sacou um pó azulado que lançou sobre Yehoshua, orando em uma língua estranha. Uma nuvem cinza-claro envolveu o jovem hebreu e se adensou até torná-lo invisível aos olhos dos que assistiam trêmulos, à luta entre o estranho e o Poderoso Druida da aldeia. Aos poucos a névoa cinzenta foi-se desfazendo e, para total susto de Primus e seus dois companheiros, de pé estava uma estátua de cinzas, imóvel e sem vidas. Aquela estátua era o que sobrara do altaneiro Issa…

(continua)

NOTA: Havia orações sem conclusão na versão anterior. Eu as corrigi e faço a reblogagem do texto para os que acompanham a saga de Issa possa compreender o texto. Peço desculpas. Estou envolvido num trabalho complexo e longo, palestras, para serem publicadas no YOUTUBE, sobre Teosofia, Ocultismo e Espiritismo, tudo de mistura com a Psicologia. Um desafio que só compreendi o quão grande e difícil é depois que iniciei a elaboração das projeções e dos textos, quase todos livres, sem um roteiro para seguir. Não vou falar para “doutores” nestes temas, mas para pessoas leigas que desejam ardentemente contar com informações claras e simples. Que Issa me ajude.