E ainda não sou religioso carola de modo algum.

Eu ainda não sou religioso de modo algum. Ainda voto repugnância a toda Religião Exotérica.

Sempre fui avesso a religiões. E sempre creditei isto à Religião Católica Apostólica Romana porque, lá pelos idos de 1950, quando queriam me fazer padre, tive de enfrentar padres sádicos, que abusavam do uso da palmatória e dos castigos físicos os mais perversos que pudessem imaginar. Por exemplo: deixar o “postulante” 24 horas em total jejum, só bebendo água e ao final obrigá-lo a tomar um prato de sopa a colherinha de café, de pé na cabeceira da mesa e tendo somente o tempo em que durava a comilança deles. Tão logo o último se levantava da mesa, o prato era retirado da frente do infeliz e ele era mandado rezar ajoelhado sobre grãos de milho duro, com contrição ao nosso “bondoso” Senhor Jesus Cristo. E foi por causa disto que votei um ódio profundo a esse cara f.d.p. que tinha vindo criar uma maldita religião para a qual tudo era pecado. Ora, eu herdei de meu pai um gosto inarredável por mulheres. Desde cedo, que eu me lembre desde meus 12 anos, que já olhava gulosamente para as pernas das garotas imaginando coisas que arrepiaria de horror os terríveis carrascos de batina preta se pudessem ouvir meus desejos “pecaminosos”. Só não me atrevia a uma investida porque minha mãe me tinha castrado quando eu contava apenas 10 anos e levei uma sova danada tanto dela quanto de meu pai porque ela interpretou uma cena que viu de modo errado. E por mais que eu protestasse inocência fui considerado culpado e apanhei de tamancadas e cinto de couro como escravo fugido. Além da surra desalmada, ainda tive de ouvir coisas do tipo “Tarado! imagina como vão reagir as mães se souberem o que você fez com sua própria irmã. Você está proibido de se aproximar das garotas, ouviu? Se fizer isto e nós soubermos, seu pai e eu, aí sim, você vai ver o que é surra!” E eu não tinha feito nada, senão defender minha mana de um garoto vizinho que peguei machucando minha irmã. Ele se mandou quando me viu e eu fiquei na rabuda.

E me danei.

Dois de meus filhos. Eu tenho verdadeira adoração por eles. Sou um pai babacão, pode?

Dois de meus filhos. Eu tenho verdadeira adoração por eles. Sou um pai babão, pode?

A partir daqueles dias tomei horror a meninas. Ficava todo trêmulo quando uma delas se aproximava de mim, no colégio. A boca ficava seca, meu corpo tremia tanto que eu tinha a impressão de que ia cair. Eu evitava ao máximo permanecer em lugares onde houvesse garotas. Até hoje eu não sei abordar uma mulher. Sou um tímido por trauma, não por caráter. Mesmo assim, andei de rolo com tantas que é de assombrar…

E este trauma eu creditei ao tal Jesus. Meus pais eram Católicos Apostólicos Romanos praticantes e isto foi mais um motivo para eu odiar o Cristo. Além do mais, desde minha mais tenra idade, talvez desde meus cinco anos, pois sempre fui um questionador de tudo o que via e não entendia, eu detestava os ritos da Igreja Católica. Aquele negócio de senta, levanta, ajoelha, reza, levanta, senta, torna a levantar e assim por diante até o fim do tempo de tortura que durava a missas era um horror para mim, mesmo eu tendo somente cinco ou seis anos. Observando as igrejas, muito cedo fiquei intrigado com algo que me revirava as entranhas: por que o tal Jesus era adorado sempre dependurado e morto numa cruz? Por que diabos eu tinha a obrigação de adorar um morto? Aquilo era muito feio, repulsivo. A gente devia adorar um Deus Vivo, não um deus morto. Para que ele servia, se era um cadáver? 

Eu sempre repudiei esta imagem, desde minha mais tenra idade.

Eu sempre repudiei esta imagem, desde minha mais tenra idade.

Um dia me atrevi a dizer a meu pai o que eu sentia e ele me olhou espantado. Então, abaixando-se, me disse: “Os padres são sádicos, filho. É por isto que eles adoram o Senhor morto e, não, vivo”. Ele me explicou o que era ser sádico, e isto só me complicou mais ainda. Se os padres eram sádicos, então o Jesus era um coitado, pois tinham sido os padres lá de sua terra que o tinham intrigado com os romanos e feito que aqueles malvados o crucificassem. E se ele era um coitado, por que é que eu tinha de adorá-lo? Eu não concordava com aquilo. E concordava menos ainda quando, na tal sexta-feira da paixão, um cristo de barro, todo “ensangüentado”, morto, cheio de cicatrizes e com aquela coroa de espinhos horrível em sua cabeça,  era colocado na nave da Igreja para que os fiéis lhe beijassem os pés. Eu tinha horror e nojo daquele ritual. Via aquelas velhas caquéticas, com as cabeças cobertas por um véu preto, rodando um rosário nas mãos trêmulas, encarquilhadas e murmurando as eternas Ave-Marias, ajoelharem-se e babarem aqueles pés de barro que eu, que vinha atrás delas todas, tinha de também beijar. Mas nem morto! Eu colocava minha mão sobre os repugnantes pés de barro e beijava as costas de minha mão. Jamais dei um beijo no pé de uma estátua representando um cadáver nojento. Sabia que se fosse apanhado naquele “pecado” ia apanhar feito cachorro de rua, mas preferia correr o risco a beijar a baba das velhotas.

Eis a caixinha de pó de arroz cachemire bouquet.

Eis a caixinha de pó de arroz cachemire bouquet.

O mais curioso é que eu nunca me livrei do tal Jesus. Ele, em meu íntimo, me fascinava. No entanto, nunca soube a razão, jamais tolerei ler o que dizem que seus apóstolos escreveram sobre ele, no mínimo 70 anos depois de sua suposta morte na cruz romana. Aquele Jesus me era falso e incompreensível. Mesmo assim, por toda minha longa vida eu sempre estive às voltas com aquele homem estranho, que eu repudiava e que, mesmo assim, me fascinava. Mas continuei avesso às religiões até que, um dia, me vi às voltas com a entidade conhecida como Exu Tranca Ruas. Ele e eu batemos de frente. Era o dia primeiro do ano de 1958 e o lugar uma casa de veraneio na Ilha de Paquetá. Meu pai morava ali. Eu estava lá para passar o ano novo. O dia primeiro de janeiro amanhecera frio, mesmo assim, eu despertara cedo, às 6 horas, e fôra para a praia. Tomei um copo de uísque e me joguei na água gelada do mar. Vi uma caixinha de pó da Cachemire Bouquet boiando sobre as águas. Peguei-a, abri e cheirei o pó. Depois, agitei-a no ar para uma senhora que eu sabia era de Umbanda. E lhe gritei: “Olha só! Tem um idiota jogando pó dentro d’água!” A mulher me olhou assustada e gritou nervosa: “Não faça isto! Isso aí é de Mãe Iemanjá. Você não deve tocar na oferenda dela. Ela não gosta!” Eu soltei uma gargalhada e joguei a caixinha de pó por sobre o ombro, gritando bem alto: “Toma, Iemanjá, passa isso aí na cara pra ver se fica mais bonita!”. E tudo rodou. O mar rodou. O céu rodou. A praia rodou. Um rodamoinho fortíssimo me arrastou para dentro d’água e eu me senti afundando num vórtice que girava violentamente…

Exu Tranca-Ruas não tem tridente, não usa chapéu, não tem capa nem esses adereços bobos. É um espírito bonito, sério e que não aceita brincadeiras.

Exu Tranca-Ruas não tem tridente, não usa chapéu, não tem capa nem esses adereços bobos. É um espírito bonito, sério e que não aceita brincadeiras.

Caí esparramado no chão de uma gruta azul. Isto mesmo, a gruta era toda azul. De pé diante de mim estava um homem bonito. Alto, forte, muito forte, trajando uma camiseta branca e uma calça preta. Cabelos negros e muito bem penteados. Tinha uma barba muito bem tratada que terminava numa barbicha em ponta, no mento. Sua face tinha uma expressão dura e seus olhos negros como a noite me olhavam como punhais. Foi assim meu primeiro encontro com Seu Tranca Ruas das Almas. Não vou adiante porque já narrei aqui no blog esta história fantástica.

Depois de mais dois ou três acontecimentos sobrenaturais, terminei indo parar na Umbanda. E por doze anos fui cambono de um “caboco” maravilhoso e poderoso. Apresentava-se como Caboco Itaquarussu. Mas nunca consegui ir além do que via os cabocos e pretos velhos fazerem. Nenhum deles me esclarecia nada, embora eu os cobrisse de perguntas. Formei-me em Psicologia, fui clinicar e me afastei do Centro Espírita Caboclo Itaquarussu, em Bento Ribeiro. Enedina, seu “cavalo”, morreu. O centro fechou. O filho da Enedina entrou para o Evangelismo. E esta etapa de minha vida fechou.

Adoro mais a Natureza do que as pessoas. E quanto mais velho fico, mais me repudiam as pessoas.

Adoro mais a Natureza do que as pessoas. E quanto mais velho fico, mais me repudiam as pessoas.

O tempo correu e eu vivi aventuras e perigos que dariam uma enciclopédia narrar. E freqüentei muitas “Ordens Esotéricas” e aprendi muito com elas, mas nenhuma me satisfazia a curiosidade. E como toda seita, tinham regulamentos e rituais que eu julguei fúteis e necessários apenas ao engrandecimento do Ego de seus praticantes. Agora, estou em 2014 e nunca deixei de ser espírita, embora também nunca tenha aceitado a obediência absoluta aos rituais de Umbanda ou de qualquer seita “ocultista” que freqüentei. Não sou homem de seguir, como cavalo no cabresto, religião nenhuma. Sou de questionar, perguntar, querer saber todos os porquês possíveis. Se não consigo, eu me afasto. Esta rebeldia sempre foi característica de minha Identidade Individual. Sou absolutamente Iconoclasta. Em tudo. Mas, apesar disto, dediquei quase toda a vida a pesquisar, ler, inquirir e procurar algo que me dissesse claramente quem tinha sido o tal Jesus de Nazaré. Li vários livros. Fascinei-me por alguns deles. Fiquei impressionado com outros. Mas em todos havia algo que faltava ou era falho. Habituei-me a conversar com um Jesus imaginário e passei a repetir com muita convicção uma de suas sentenças da qual gosto muito: “Meu Reino não é deste mundo”. E notei, com o decorrer do tempo, que minhas ansiedades e decepções pelas coisas e problemas humanos estavam arrefecendo dentro de mim. E também me percebi me distanciando emocional e psicologicamente cada vez mais das pessoas. Elas passavam, devagar, mas firmemente, a se tornarem insuportáveis. Então, uma noite, neste ano de 2014, dei-me conta de estar num sonho estranho. Eu estava no tempo de Jesus e seu nome não era este, mas Yehoshua. E comecei a escrever aqueles sonhos e neles fui conhecendo alguém que me fascinava. Finalmente desconfiei que não estava sonhando, mas fazendo um desprendimento que ainda não entendo, e viajando para o passado longínquo. Então, comecei a escrever aqueles “sonhos” fantásticos.

Um tombo da bicicleta a 35 km abriu uma vala em minha canela que expôs o osso. Demorou para sarar.

Um tombo da bicicleta a 35 km/h abriu uma vala em minha canela que expôs o osso. Demorou para sarar. Nesta foto 4 dos 9  pontos se romperam quando eu subi uma escada.

Mas me sobreveio um aborrecimento intenso e eu abandonei o blog. Perdi totalmente o interesse nele. Também vieram acidentes que me fizeram ficar de molho durante muitos dias. E uma intervenção cirúrgica espiritual que me livrou de uma hérnia de hiato e me manteve por trinta dias no estaleiro. Seguiu-se a aposentadoria definitiva de minha parceira, despedida do emprego por trampolinagem do Governador Marconi Perillo, que vem aproveitando os desmandos da Dilma para tratar de apagar os rastros de seus próprios desmandos no Estado.

Estou em 2015, dia 12 de junho. Ante-ontem fui dormir cansado devido à malhação na Academia. Não é nada, não é nada, são duas horas puxadas, pois tenho andado me sentindo muito enfraquecido e a dor na coluna tem-me irritado sobremodo. E decidi que não vou morrer assim, entregue ao “ai, ui, oh, tudo dói, meu Deus!”. Não suporto a idéia de terminar meus dias estendido numa cama de hospital, pior: numa UTI (Última Turma de Indigente). Então, tratei de colocar o esqueleto para trabalhar e os músculos, com ele. Por isto, fui dormir cansado, pois 74 anos bem vividos e bem batidos no lombo pesam muito. Mas assim que apaguei, logo me veio aquela sensação de estar flutuando e de repente, eis-me diante de uma paisagem que conheço há tempos – um riacho sob as frondes verdes de grandes árvores. Pedras, muitas pedras no leito do riozinho e duas delas, arredondadas, que eu conheço bem. Ouvi alguém se aproximando e olho para a senda que desce pela margem esquerda do riacho, para quem está sentado de frente para a corrente. É Yehoshua. Ele chega até a “sua” pedra, abaixa-se com as mãos em concha e lava a face. Passa as mãos molhadas pelos cabelos, levanta-se e se espreguiça. Senta-se na pedra, desembrulha um pequeno pacote enrolado em pano limpo e de lá retira algumas frutas que se põe a comer. Eu o observo atentamente. Ele come cantarolando baixinho. Quando termina o repasto novamente lava as mãos e volta a se sentar. E aí acontece algo que me causa grande susto. Ele olhou direto para onde eu devia estar, pois não sinto corpo nem nada em mim. É como num sonho que a gente vê tudo, menos à gente mesmo.

— E então, escriba, o que me tens a dizer?

— Falas comigo?! — Perguntei, espantado.

— E tem mais alguém aqui? — Respondeu-me ele, olhando em volta com expressão jocosa.

— Como podes tu me vês? Eu não tenho corpo… Estou sonhando…

— Não, isto nunca foi sonho. Tu querias saber de mim e o querias de todo teu coração. Tu me procuraste por muitos anos, teimosamente, sem descanso. Então, eu te trouxe até aqui para que visses o que sempre quiseste ver.

— E… E por que fizeste isto? — Eu falava com ele na segunda pessoa, mas não notara esta incrível intimidade.

— Já disse. Tu me procuraste. Querias sabe como eu fui realmente, quando estive entre vós, humanos e meus irmãos. Então, decidi que visses tudo o que jamais foi dito a meu respeito. Sabia que naturalmente tu relatarias sem medo, tudo o que estás vendo. Mas paraste de escrever. Por que?

— Bom, eu perdi o interesse… Já não tenho mais aquele elã de escrever, sabes?

— Não. Não sei. Estou há três mil anos antes de ti.

— Mas até onde sei, és o senhor do Mundo e do Espaço-Tempo. Então, podes perfeitamente conhecer de mim até mais que eu mesmo.

Ele riu um riso divertido.

— Tens razão. Eu o sou. E também eu o sei. Mas quero ouvir de ti.

— Por que, se o sabes?

— Porque tu me dirás até onde te conheces de verdade. É fácil conhecer os outros, mas não é nada fácil a gente conhecer a si mesmo. Então, fala.

Fiquei mudo. E confuso. Ao tentar responder percebi que estava mais desorientado comigo mesmo do que jamais havia desconfiado. Yehoshua sorriu, olhando-me diretamente onde seriam os meus olhos, se eu os tivesse ali.

— Por que não falas nada?

— Porque estou confuso. Não consigo ver algo muito claro, em mim. Sei apenas que estou magoado… raivoso com o que julgo ser uma grande ingratidão de pessoas a quem ajudei.

— Julgas?!

— Sim.

— Mas eu disse: “Não julgueis para não serdes julgados”. E tu repetes isto muitas vezes em teus escritos e em voz alta para nossos irmãos em teu tempo. Ainda assim, tu julgas teus irmãos?

Senti vergonha e fiquei muito incomodado.

— Perdeste a voz?

— É que… não me sinto bem comigo mesmo e isto é muito incômodo. O mal-estar… a mágoa… o aborrecimento… enfim, esta emoção altamente incômoda parece-me que se volta contra mim mesmo e, por isto, busco encontrar sua razão de ser em mim, se me entendes.

— Sinceridade. Gosto disto em ti. E sei que tu terminas por perdoar os que te magoam e até já voltaste a ajudar àqueles que te causaram raiva. Isto também é bom. Só não é bom que sintas mágoa. Esta emoção enegrece o Espírito e o torna pesado. Tive de trazer-te aqui à força, sabias?

— Não. Por que o fizeste?

— Porque quero que continues a ver o que ninguém relatou de mim e até ocultaram o que disto tudo se escreveu, para atender a interesses mesquinhos e vis. Fizeram de mim um abantesma ridículo. Pintaram-me como um fantasma inumano, que passou por entre os homens como algo confuso, ora dizendo uma coisa, ora dizendo o contrário; ora sendo humilde, ora sendo horrivelmente arrogante. Me transformaram em um aleijão que mais desperta temor e confusão, como aconteceu contigo, do que amor e aproximação. E, pior que isto, transformaram-me em algo mais do que ridículo: um ícone religioso; um ser que teria vindo retirar os pecados dos pecadores. Logo eu? Não vim para ser adorado. Vim para corrigir os desvios que tinham colocado nas Leis. Mas os falsos e mentirosos alteraram minha mensagem e me transformaram em um bezerro de ouro. Eu não quero igrejas em meu nome; não quero adoradores, pois eu mesmo disse: “Quando quiseres orar, entra em teu quarto, fecha tua porta e ora em silêncio ao Teu Pai que está no céu e Ele te dará conforme teu merecimento”. Céu, aqui, não significa algum lugar longe do homem, mas seu íntimo, seu interior, pois o corpo humano deve ser o Templo e o Céu do Senhor nosso Deus. Eu não fui o que pintam de mim. Tu vês o que fui de verdade. E tens a coragem de escrever…

— Ora, quem me lê com certeza acha que é apenas mais um conto sobre ti. Ninguém leva aquilo a sério.

— Enganas-te. Há alguns que pensam muito sobre o que escreves. E é este o meu desejo. Que meus irmãos saiam da hipnose do Medo a mim. Homens indignos usam meu nome para dominar e amedrontar seus semelhantes. Ninguém me ama de verdade, mas quase todos ou me temem, ou me detestam, como tu o fizeste por longos anos.

— É verdade… Eu te odiei muito…

— Já te perguntaste a razão de, mesmo me odiando, como dizes, tu jamais teres desistido de mim?

— Não. E se mo perguntas te respondo de imediato: não sei. Há uma força que me impele para ti e nunca soube a razão.

— Culpa.

— O quê??

— Culpa. Tu nunca te afastaste de mim por culpa.

— Ora, não sou homem de cultivar culpas…

— Mas és um espírito acicatado por ela.

— E por que?

— Desde que me pregaste na cruz e me viste parecer morrer ali, tu nunca te perdoaste pelo que fizeste. Eu, porém, nunca te acusei de nada. Até porque não morri ali. Tudo o que escreveram sobre minha “ressurreição” foram invencionices centradas em uma bem urdida trama que tu verás, quando te decidires prosseguir a descrever o que estás vendo.

O susto que tomei é impossível colocar aqui em palavras. Senti que “ia acordar”, mas uma força poderosa me reteve ali. Uma força que se revelou como uma luz azul-dourada que emanava dele e me envolvia. Aquela luz me acalmou e pude falar, mas sentindo o coração disparado.

— Eu… Tu dizes que eu… Não é possível. Eu jamais faria aquilo contigo.

— Verás que fizeste. Mas acalma-te. Não tens nenhuma razão para arrastar essa emoção deletéria ao longo de tuas vidas. Fizeste o que estava determinado que devias fazer. Afinal, como eu disse, “nem uma folha cai do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai”. 

— Dize-me: foi devido àquele ato infame que tenho uma vida encarnada tão dura, hoje?

Ele soltou uma risada divertida, meneando negativamente a cabeça.

— Ora, que pergunta mais tola, meu irmão. Nem fazes idéia de quantas vidas já viveste depois de nosso encontro neste tempo de agora. Não, não. Tu não tens nenhuma dívida comigo, fica sossegado. Tua dívida é com tua própria consciência. És um Espírito que evoluis sob o Raio da Justiça, mas antes dela, sempre empregas a Lei e esta é seca e não aceita amenizações. É por isto que sentes, e muitos assim te dizem, que és um homem do tudo ou nada. Contigo não há meio-termo, ou seja, contigo ainda não há Justiça, apenas a Lei. Usando a terminologia da Umbanda, estás transitando da vibração de Ogum para a vibração de Xangô.

— Conheces a Umbanda?! — Espantei-me tolamente.

— Ele riu divertido e me disse:

— Eu sou o Senhor de todas as religiões, de todas as seitas, de todas as crenças. Sei tudo e de tudo. Sei que também conheces muito sobre os ensinamentos Teosóficos, mas falei da Umbanda de propósito, pois sei que no teu íntimo tens grande amor pelas entidades de luz que trabalham ali sob a capa de Caboclos, Pretos Velhos e Exus. Viveste muitas vidas, depois de nosso encontro, sempre sob a vibração de Ogum. És filho do Oitavo Raio, pouco conhecido entre os estudiosos teosofistas e ocultistas. Este raio rege o dia de domingo e foi em um domingo que vieste à Luz Material sob a forma humana que tens agora. Teu Elohim é Yahel e teu Arcanjo é Samael. Por isto sempre foste um guerreiro na vida emocional, mas um Cientista na vida Mental. Em ti, a forma para o Alto é incontrolável. No princípio, com a espada e o escudo, tu travaste muitas batalhas memoráveis, sempre pugnando pela parte que a ti parecia ser a mais justa. Vieram as guerras mais cruentas e mais terríficas e tu estiveste no meio delas, desorientado quanto às suas verdadeiras razões políticas, mas sempre determinado a defender o que julgavas ser o certo. E como sofreste por isto… Depois, deixaste de lado as armas e passaste a lutar com a palavra justa em defesa dos mais fracos. Muitas vezes pagaste caro por tuas convicções firmes. Tu me seguias e não tinhas consciência disto. Hoje, na vida em que te encontras, repugna-te a menor idéia de ferir outrem, seja com a palavra, seja com tuas mãos, que aprendeste a transformar em armas mortais. A exceção é quando tu descobres as vilanias de teus semelhantes. Vilanias que lhes corrompem os próprios Espíritos. Aí, tu te enfureces e fazes todas as acusações possíveis, com verdadeira raiva deles. Um desafio do Carma que venceste galhardamente quando, tendo todas as facilidades para enveredares pelos caminhos da corrupção, do assassinato e da vilania, tu te negaste peremptoriamente a isto. Mas sendo um Espírito da Lei, passaste a pensar: “Se eu, que não tive nenhuma base familiar nem amparo emocional para tanto, fui capaz de resistir à tentação, por que eles, que nasceram bem e tiveram todas as facilidades, não resistem? Não é porque são fracos, mas sim porque são pusilânimes em seus próprios Espíritos”. Há um erro neste teu juízo, porquanto esqueces que a Vida de um irmão nosso, em uma determinada época, é composta das resultantes de suas ações em muitas outras vidas, das quais eles, como tu, não têm consciência. Tu deste um passo firme na transição de uma Era para Outra, mais próxima da Justiça de nosso Pai Celestial. Tua mágoa, eu ta esclareço, não é contra terceiros, mas contra ti mesmo porque no teu íntimo tu te julgas errado. E és o pior juiz de ti próprio. Isto tem de mudar, mas para tanto, só depende de tua força, de tua determinação. Sair da Lei para a Justiça, reconheço, é árduo. Mas estou certo que vencerás. Não diz a mitologia da Umbanda que Ogum tem raiva de Xangô porque este, com um artifício, lhe roubou a coroa e Oxum, a mulher amada com quem ele era casado? Tu deves saber o significado oculto diste mito, não é?

Fiquei calado e ele respeitou meu silêncio. Eu ainda estava em choque pelo que tinha acabado de ouvir. Não é nada fácil ouvir do torturado que nós fomos a causa de suas dores e sua morte.

— Escuta, perdoa-te porque eu já te perdoei há muito tempo. Não me agrada de modo algum que te tortures por algo que tinhas de fazer. Não poderias evitá-lo, compreendes? Nós, meu Pai e Eu, assim o queríamos. E te escolhemos porque sempre foste um Espírito forte, determinado e capaz. Tu e Judas Iscariotes. Fostes, ambos, os pilares em que ancorei a barca de meus mais dolorosos tormentos.

— Não foi em Pôncio Pilatos e em Caifás? Afinal, foram eles que te mandaram crucificar.

— Pilatos faria isto a qualquer um com facilidade, mais até se se tratasse de um judeu. Desprezava a todos os que não podiam trazer-lhe alguma vantagem política. Era um homem totalmente voltado para as coisas materiais. Não foi escolhido por nós, mas estava no tempo e na posição de Poder quando desci entre os homens. Pilatos foi instrumento de pessoas piores que ele, até porque se diziam sacerdotes de meu Pai. Entre estes estão Caifás e Anás. Digamos que a trama foi tecida para aquele momento porque Pilatos e os sacerdotes tinham todas as qualidades negativas para realizar o ato de que necessitávamos. Eles haviam construído o momento que nós não podíamos perder.

 — Eu te ouço e creio em ti, embora tuas palavras tenham causado uma grande comoção em mim. Sempre me disseram, os adivinhos de meu tempo, que fui um guerreiro feroz e muitas vezes cruel. Já até me disseram que eu sou perseguido por uma grande quantidade de espíritos de judeus aos quais causei não somente prejuízos materiais, mas também a morte sob condições dolorosas e miseráveis. É certo que meu fascínio pelas armas brancas, punhais, espadas e coisas semelhantes, sempre me intrigou. Não gosto das armas de meu tempo, as armas de fogo, mas sinto forte atração pelas armas do passado, principalmente pela espada. Vem dos tempos em que fui romano, todo este fascínio, ou vem de muito antes?

— Vem de muito, muito antes — respondeu-me ele com meio sorriso na face.

— De quando?

— Tu és um espírito… digamos assim, adulto. Nasceste há 4 manvantaras. E sabes a duração de um manvantara, não sabes?

— Sei. Quatro bilhões e trezentos e vinte milhões de anos lunares, segundo os ensinamentos bramânicos. Mas sou tão velho assim?

— Velho?! Tu te julgas velho? Então o que pensas de mim, que já vivi nove manvantaras, antes de chegar aonde cheguei? A duração do Tempo Cósmico é inapreensível para as pobres mentes materiais, meu irmão. Tu te assustas com minha idade, mas é porque tudo compreendes segundo a percepção dupla tempo-espaço. Ao pensares no Tempo, imediatamente pensas em seu pseudo complemento, o Espaço. No entanto, esta relação só existe na terceira dimensão. O Tempo não se vincula ao Espaço. Este, é perene, passivo, sem movimento. Já o Tempo é ativo, também perene e se movimenta em todas as direções. Mas seu movimento está sempre contido dentro do passivo Espaço. Compreendes?

— Mais ou menos…

— Sei que irás pensar a respeito. Não é difícil para Espíritos como o teu.

— Aprendi que um manvantara compreende a duração da vida de um Manu, entidade criada por Brahma para especificamente dar origem aos mundos e aos sistemas estelares e planetários. Aprendi que durante um manvantara tudo tem existência na terceira dimensão, mas findo este período, morto o Manu que o regia, no caso do sistema solar, tudo desaparece: sol, planetas e tudo o mais que há dentro deste sistema. A Galáxia continua como é. Então, decorrido o pralaya de duração igual ao de um manvantara, um novo Manu é criado e este se entrega à tarefa de construir novo sistema estelar. No caso do Sol, pode-se dizer que ele se entregaria à reconstrução de um novo sistema Solar, mas com aspectos mais sutis e mais evoluídos, graças ao que sua criação anterior viveu, aprendeu e desenvolveu no manvantara findo.

— Brahma não cria Manus. Manus são espíritos imensamente evoluídos, não necessariamente humanos, que “adormecem” durante uma noite pralayca e é trazido ao despertamento pelo Criador. Quando desperta, o Manu traz em si o conhecimento de todos os sistemas que existiram no manvantara anterior, mas tal e qual os humanos, ele não se recorda do que viveu anteriormente à noite da morte pralayca. E quando se atira à imensa tarefa de construir um sistema estelar com seus respectivos sistemas planetários, fá-lo dentro dos limites dos Conhecimentos que adquiriu na sua existência passada… Compreendes-me?

— Perfeitamente. E o que me dizes esclarece muitas dúvidas que eu tinha a respeito deste assunto.

— Excelente. Agora, volta à tua vida no tempo em que te encontras. E retoma as escritas. Não te incomodes com a reação dos que te lêem. Quando o pescador lança a rede, não sabe que tipo de peixe vai pescar, nem mesmo se ela trará algum peixe. Mesmo assim, ele continua lançando sua rede até que tenha peixes suficientes para suas necessidades. Tu és meu pescador no teu tempo. Vai, pesca e me traz o pescado que conseguires.

Tudo sumiu de repente e eu despertei meio grogue em meu quarto. Levei algum tempo para me recordar daquela viagem estranha e, agora, pelo sim pelo não, escrevo a estranha viagem que vivenciei.

Ah, sim, não sou paranóico nem esquizofrênico. É bom que esclareça isto.