Capítulo VIII (Parte II) – Planejando a Derrocada do Brasil 

Desde há muito tempo aqui se trama a derrocada do Brasil.

Desde há muito tempo aqui se trama a derrocada do Brasil.

             Vinte horas. Quatro homens entraram no escritório de Kamuratti. O banqueiro convidou-os a sentar. Pelos trajes e pelos modos podia-se inferir que eram ricos e poderosos.

             — Senhores — disse Kamuratti quando todos estavam sentados. — Meu tempo é exíguo. Sugiro começarmos pelo nosso interesse mais imediato. Se­nhor Deputado Laércio, como vão os esforços para as privatizações? O se­nhor é o líder do Governo na Câmara. Então, deve ter muito a nos contar.

             — E tenho, Senhor Kamuratti. Tudo corre dentro dos conformes. Apesar das oposições, temos conseguido comprar muita colaboração, se me entende. Nas últimas privatizações, ganhamos trinta bilhões de dólares, pa­gamos em moedas podres quatro bilhões e duzentos milhões e em dinheiro bom somente um bilhão e oitocentos  milhões.

             — Isto eu sei. Aliás, todos sabem. A televisão anda noticiando insistentemente o assunto. Como estamos quanto ao petróleo, as telecomunicações, o subsolo e a Amazônia? Isto é vital, compreende, senhor Deputado? Nossa… Organização não quer saber de falhas nestes negócios. Os monopólios têm de ser quebrados. A navegação de cabotagem tem de ser aprovada, de preferência com um mínimo de restrições, por motivos óbvios. E a Amazônia tem de ser aberta para nossas empresas de exploração de madeira e minérios.

             — O senhor deve compreender que a luta é dura, muito dura. E é muito perigosa, também. De qualquer modo, a balança está a nosso favor. A chantagem está-nos favorecendo e Kantor Antratos é um ótimo colaborador. Ele tem demonstrado que pode seqüestrar quem resolver que deve e a polí­cia é inútil, até porque seus comandantes estão na folha de pagamento do facínora. Uma insinuação quanto ao seqüestro de um familiar… um filho ou uma filha… enfim, a gente sempre consegue quebrar algumas resistên­cias mais fracas, porém nem por isto menos importantes. Alguns líderes do povo é que realmente nos dão trabalho. Uns mais perigosos já foram neutralizados e há dois, na Amazônia, que logo anularemos. Eu me refiro aos padres e freiras, principalmente estrangeiras que…

             — Não gosto do método que usam — cortou Kamuratti. — Dos quatro, o tal de Francisco Mendes virou mártir. É o de que menos precisamos: márti­res. Desmoralizem! Façam com que percam a credibilidade. Enxovalhem suas memórias e distorçam suas ações e palavras. Enfim, lancem-nos no descrédito total, mas não os matem. A eliminação pura e simples só nos traz problema maior.

             — Sabemos disto, Sr. Kamuratti, mas nosso problema maior é o tem­po. Não dispomos de muito.

             — Só apelem para a eliminação física em último caso, eu insisto. E quanto ao tempo, dá-se um jeito. Agora, outro problema prioritário: a Itava­le do Rio Doce. O que têm a me dizer dela? Quando será privatizada?

             — Esta é uma privatização muito polêmica. É uma companhia de fama internacional e sabidamente não dá prejuízos, ao contrário, não só dá lucro, como ajuda substancialmente a Região Norte e Nordeste em seu desenvolvimento social. Temos de ir com muito cuidado. Os progressos não são o que desejávamos, mas de grão em grão…

             — Senhores — disse Kamuratti olhando o relógio de ouro no pulso — é preciso incendiar a polêmica sobre a educação, a moradia e a alimentação. Educação, eis o calcanhar de Aquiles com que temos de nos preocupar. Este país não pode ter Educação de qualidade. Jamais, compreendem? Povo educado é povo complicado para nós. Isto que aí está é ótimo para nossos planos. Sabotar a Educação, comprar as consciências dos políticos para que sempre impeçam qualquer movimento no sentido de colocar o Brasil em pé de igualdade com países onde a Educação é prioritária é nosso objetivo número um. O número dois é a Saúde Pública. Nunca devemos deixar que esta área de interesse comunitário nacional brasileiro saia da UTI, como a Imprensa vive dizendo. Concomitantemente, é preciso anular os esforços no sentido de concretizar-se qualquer benefício para o povo. Não gostei de ouvir que o PMDB anda com a idéia de lançar uma tal de Bolsa Família. Nada disto! Seria um tiro em nossos pés, entendem?

             Apertem o Governo. O atual presidente é um empecilho com o qual nós não contávamos. A bancada dos senhores deve lutar para que os juros continuem sufocando o comércio e a indústria. Amenizarei a tensão fazendo a televisão fabricar heróis. Fórmula Um à vontade. Futebol à granel. Vôlei, basquete, futevôlei e quantas mais besteiras desta espécie existam. Carnaval e trio elétrico até fora de hora, tudo é válido para entorpecer as massas. Minhas empresas cuidarão disto. “Pou­co pão e muito circo”, esse tem de ser o lema. Manteremos a massa estúpida no ópio da ilusão. Não nos interessa a rebelião, agora. Primeiro temos de colocar as mãos nas riquezas deste país fabuloso. A Argentina já es­tá quase esfacelada. Todos os seus esforços nós fizemos fracassar. Agora, Cavallo caiu. Ela será totalmente nossa em breve. Temos uma candidata ideal para colocar no Governo Argentino. Chama-se Cristina. No devido tempo todos a conhecerão. O México também está na mira da nossa Irmandade e as gangues serão incrementadas até se tornarem uma praga temida mesmo pela Camorra. As gangues de lá têm gente nossa nos comandos. A África está toda em nossas mãos e logo faremos que aquele povinho fedorento seja exterminado. Ensinaremos aos idiotas neo-nazistas como é que se faz uma limpeza étnica. E agora, ouçam bem: quando derrubarmos o Brasil, a América do Sul cai. Ele é o mais forte e é o mais rico. Nós, de nossa Nahashilla já adquirimos o direito sobre ele em quase toda a sua totalidade. O que ainda não nos pertence, pertencerá. Questão de ajustes financeiros na Grande NAHASH. Agora, senhores, quero saber quanto à estratégia a médio prazo. Quem me informa?

             O mais careca, mais baixo, mais gordo e mais míope entre os quatro figurões da política nacional falou.

             — Bom, como foi planejado, incrementamos a formação dos grupos dos “Sem Terra”. Demorou um pouco devido aos brasileiros interiora­nos, ainda Jecas Tatus. Mas aos poucos conseguimos arregimentá-los e formamos grupos que se tornam significativos. Mas temo que treiná-los em técnicas de guerrilhas…

             — Cuidado — disse Kamuratti. — A reforma agrária de modo nenhum, mas de modo nenhum mesmo, eu enfatizo, pode-se deixar concretizar. Tem de ser mantida como uma bandeira, mas apenas como isto: uma bandeira pa­ra iludir e alimentar a ilusão dos trouxas. A bancada dos Campistas, na Câmara, está trabalhando firme neste assunto, mas eu exijo a cooperação dos senhores para eles. O Partido dos Trabalhadores tem tendências altamente dissonantes com nossos objetivos e guerrilha faz parte dos sonhos destes desvairados. É preciso vigiar seus líderes de perto. Não são trouxas e visam, de certo modo, o mesmo objetivo que nós: querem o país totalmente para seus líderes e não se pode deixar que isto aconteça. E os líderes deles, os cabeças mesmo, não estão aqui.

             — Não acontecerá, fique descansado. O Governo desapropria as fazendas produtivas, forçado pela massa bem liderada; assenta as famíli­as dos miseráveis, mas nossa bancada não vai permitir que dê a eles os implementos agrícolas para trabalharem a terra. Não terão os grãos para o plantio e se quiserem comprá-los, fá-lo-ão nas mesmas condições impostas para os grandes fazendeiros: empréstimos com juros altos. Logo, logo eles estarão desanimados e descrentes e serão forçados a vender os lo­tes que ganharam. Nosso pessoal compra tudo, legalmente e a preços irri­sórios. As terras boas serão nossas, fique descansado. Com algum dinhei­ro nos bolsos os “Sem Terra” irão para as cidades grandes, como Rio de Janeiro e São Paulo. Vão engrossar as favelas. Não custará muito e estarão trabalhando para algum assecla de nossos homens no crime organizado.

     

— Chamo a atenção para o fato de que, também no campo, não queremos nenhum movimento revolucionário. Tenho visto pela televisão que nossos homens infiltrados entre os Jecas Tatus os estão ensinando técnicas rudimentares de guerra de guerrilha. Não quero que isto vá em frente. Ainda não é hora para tal movimento, pois isto dará forças ao PT e por detrás desta sigla escondem-se verdadeiras cascavéis. As Forças Armadas ainda não estão de joelhos. Não nos enganemos. Há oficiais ali que podem fazer-nos uma surpresa, como foi o caso de Castello. Naquela época, tudo parecia em nossas mãos. Afobamo-nos e perdemos vinte anos. A Irmandade não quer mais isto. No momento propício a Grande NAHASH nos dará o sinal. Estou relativamente satisfeito com a manobra, mas não quero que a guerrilha seja desenvolvida. Poderia redundar num novo Vietnam. Não temos interesse em que as florestas Amazônica e Atlântica sejam atacadas com agentes químicos e destruídas. Reconheço que o trabalho, de um modo geral, tem sido inteligente e cuidadosamente levado a efeito. Até agora, parabéns. Eu falei nas Forças Armadas. Quem pode-me dar notícia de como anda nosso trabalho lá?

             Foi a vez do homem alto, magérrimo, meio calvo e com sotaque de lusitano, falar.

             — Estão sob perfeito controle. Exército, Marinha e Aeronáutica já perderam o moral dentro de suas tropas. 0 treinamento dos soldados está o mais fraco e relaxado que é possível. A corrupção já atinge as tropas. Os nossos homens lá dentro fazem excelente trabalho. Valeu a pena esperar todo o tempo necessário para que se tornassem oficiais, após os concursos e o estudo nas escolas militares. Agora, fazem excelente trabalho. A Aero­náutica, por exemplo. É a mais corrompida, a mais amoral e a mais enfraquecida dentre as três forças armadas. Indisciplina, desestímulo à naciona­lidade e nenhum incentivo ao patriotismo. Ladrões vivem tranquilamente em suas vilas, à proteção da Polícia. Beberrões, estupradores, enfim, uma excelente laia de mal-feitores convive normalmente com a soldadesca. O Exército está dividido e ainda assustado com a guerra psicológica que lhe movemos transformando o tempo em que sustentou as rédeas do poder em uma terrível ditadura. A moral está baixa entre os oficiais generais, os oficiais superiores e os oficiais subalternos e nós aproveitamos muito bem esta situação. A Marinha é a mais perigosa. Reservada, quieta, ela se mantém em defensiva total. Seria a Arma que melhor poderia enfrentar-nos, mas não tem condições em armamentos. Seus navios são velhos, ultrapassados e o porta-aviões é do tempo da pedra lascada, sem contar que só têm um, pobres miseráveis.  Nós não permitimos que nenhuma verba seja destinada para seu reaparelhamento. O porta-aviões que possui, como eu já disse, é o único e é uma piada. Tão velho que navega de muletas.

             Risos de escárnio entre os presentes.

             — Ótimo, senhor Senador, muito bom mesmo. Assim como David derrotou os filisteus ajudado pelo Deus Eterno, também nós venceremos os gentios de agora. Contudo, precisamos não de armas e sim de astúcia. Procurem atentar para o soldo. Manipulem o soldo, entende? Isto fará com que percam tempo. Saberemos como aproveitar o que eles perderem. Agora, gostaria de ouvir so­bre o que estamos fazendo para trazer nosso homem, Ferdinand Köller, ao poder novamente.

             — Por enquanto, nada, Senhor Kamuratti — informou o mais elegante dos quatro. — Achamos que o momento psicológico não é propício. 0 atual Presidente, sem querer, vai preparando o caminho de tal modo que nosso homem retornará como herói, nos braços do povo. 0 mesmo povo que lhe impôs o “impeachment” vergonhoso e o desmoralizou diante do mundo. Pretendemos que o atual Pre­sidente seja reeleito. Terá mais tempo para consolidar, com a nossa ajuda, é claro, a desestruturação da nação e levar o povo a um desespero ótimo para nossos planos. Os esforços dele só nos trarão benefícios, pois entortaremos tudo o que desejar fazer de bom para a Nação. Trabalhamos para que nosso homem retorne liderando uma revolução. Os nossos aliados nas forças armadas ajudarão nisto. Na condição de herói nacional será mais fácil tomar o poder e ter o apoio dos imbecis. Imporá a ditadura sem ter quem a ele se oponha e sempre acobertado pela bandeira da democracia. Ele, antes de sair, abriu-nos as portas que os militares nos tinham fechado. Quando voltar, colocará os tronos para que nos sentemos permanentemente sobre esta terra prometida.

             — É, estou de pleno acordo com vocês e é o que defenderemos diante da Grande NAHASH. Senhores, ao que parece tudo está dentro do planeja­do. Eu quero relatório detalhado das atividades, os prognósticos, os pon­tos fracos e as estratégias alternativas para neutralizá-los. Lucilla vai a Israel para o grande sínodo da Grande NAHASH e levará os papéis. A Sociedade precisa ter todos os detalhes. Boa-noite, senhores. Amanhã exa­tamente às 16h de Brasília estaremos creditando os dólares referente aos seus trabalhos nas contas que têm nos paraísos fiscais.

             Todos se puseram de pé respeitosamente, mas não conseguindo ocultar a satisfação que a cobiça lhes dava. Apertaram efusivamente as mãos do Sr. Kamuratti e saíram imponentes. O banqueiro os acompanhou até os elevadores. De­pois que eles iniciaram a descida, Kamuratti murmurou com asco: “porcos traidores, um dia terão o que realmente merecem. São tão inferiores quanto aqueles a quem traem.” Voltou ao escritório e fez uma chamada para Israel. Quando Fratelli chegou, ele estava falando em surmiram, língua que seu assecla não entendia.

             Apoiando-se na bengala, Enrico Fratelli sentou-se e aguardou pacientemente que o seu patrão terminasse a conversa. Finalmente ele acabou.

             — Qual a gravidade da contusão? — perguntou sem preâmbulo.

             — Pouca. Em uma semana estarei recuperado. Em quinze dias estarei bom para outra; cem por cento curado.

             — Concordo em que se exercite, mas exijo que tenha mais cuidado. Agora, quero falar de Fílio e Cícno. Foram inábeis com as duas mulheres; no entanto, você me garantira que eles eram muito bons. Como se explica?

             — Eles são bons, Sr. Kamuratti. Devem ter sido pegados de surpre­sa. Se as mulheres sabem defesa pessoal não há nada de espantar em que tenham sido surpreendidos por elas. Mesmo sendo eles peritos em Crav-magah a surpresa pode pregar peças.

             — Bom, você é quem entende bem destes assuntos. Se diz isto, en­tão vou dar-lhe crédito. No entanto, preciso eliminar um empecilho na Câmara de Deputados do Estado. Sabe que este tipo de serviço eu só o confio a você. Machucado, como está…

             — Posso fazê-lo, não se preocupe.

             — Não, não pode. Desta vez quero ação e muito estardalhaço. Você não está em condições.

             — Não pode aguardar um pouco mais?

             — Não. O momento ideal é depois de amanhã. O alvo vai inaugurar uma estátua em homenagem aos meninos de rua vítimas da violência policial.

             — O senhor está-se referindo ao Deputado Luis Filipe Nettus… É ele?

             — Sim.

             — Mas é o pai do Dr. Luis Filipe — espantou-se Fratelli.

             — Sei disso. Quem pode realizar o trabalho? Tem de parecer vingança de traficantes. Plantaremos documentos comprometedores no escritório e na pasta particular dele, duas horas antes do atentado, por isto ele não pode escapar.

             — Isto vai atingir a família da noiva do Dr. Luis Filipe. Ela é uma milionária e sua família é de políticos de destaque…

             — Também sei disso. Mas a Grande NAHASH já decidiu que esta eliminação é necessária ao apressamento de uns planos que tem a realizar aqui.

             Fratelli estremeceu. Ele já executara muitas pessoas por ordem daquela organização. No entanto, não tinha a menor idéia de como era ela, onde tinha sua sede e quem eram seus membros. Sabia apenas que o todo pode­roso Senhor Kamuratti tremia quando o telefone verde tocava. Só a Grande NAHASH chamava por ele. Embora não tivesse provas, ele sabia que a orga­nização tinha assassinos em várias partes do mundo. Homens tão decididos e tão bons ou melhores que ele na arte de matar.

             — Bem, eu entregaria a ação ao Fílio. Ele é muito bom nestas ma­nobras — disse Fratelli.

             — Então faça isto. Agora, pode ir.

             Fratelli saiu. Kamuratti tomou um drinque antes de ir para casa.