Ele era pacífico e confiava em sua Vontade para fazer que sua Fé fosse produtiva.

Ele era pacífico e confiava em sua Vontade para fazer que sua Fé fosse produtiva.

A estátua de cinzas espantou e amedrontou os presentes. O Mago estrangeiro não tinha sido páreo para o Druida Allan. Um pesado silêncio se fez e todos os olhos estavam pregados na estátua em que pensavam eles Issa se tinha transformado. Mas um homem abriu passagem silenciosamente entre os circunstantes e veio colocar-se ao lado de Allan, que o olhou e sorriu, matreiro. Issa avançou e se colocou à vista de todos. Houve um recuo dos presentes, tomados por um susto maior do que aquele que tinham sofrido ao ver o estrangeiro ter-se transformado em cinzas.

— Por que ficais aí, olhando algo sem qualquer significado? Isto são cinzas — e Issa deu um tapa na estátua, que se desfez e sumiu no ar soprada pela brisa noturna. Allan avançou e abraçou o Mago estrangeiro com uma sonora gargalhada. Ambos, rindo, se dirigiram ao espantado Bryan que recuou dois passos, olhos esbugalhados de susto e sem compreender como é que Allan estivesse rindo ao lado de “sua vítima”.

— Nem tudo é aquilo que parece, chefe Bryan — disse Allan, ficando novamente sério. — Issa não é Mago como eu. É infinitamente superior a qualquer Druida Celta. Ele é quem É, se me entende. E se curou, alimentou, dessedentou e libertou os germanos, então, que eles sigam de volta para sua aldeia e dêem o recado de Issa a seus comandantes.

Os druidas eram sábios e espertos.

Os druidas eram sábios e espertos.

Allan ainda sob o espanto de que tinha sido tomado, retrucou, sério.

— Amanhã receberei uma comitiva da aldeia germânica de Armínio. Podem acreditar, não virão com nenhuma condição aceitável. Já os conheço e também conheço muito bem o rei deles. É sanguinário. Quer mulheres e escravos. Virá com imposições que não poderemos aceitar.

Issa avançou e pousou a mão esquerda no ombro de Allan, que o olhou com o cenho franzido.

— Não te pedirei que tenhas fé, chefe celta, pois a fé sem a Vontade não vale nada. Mas enfrenta os enviados com tua Vontade Determinação. Olha nos olhos dele com convicção e o convence de que não será nada proveitoso para eles uma guerra entre vós. Com toda certeza haverá muitas mortes de ambos os lados, não é?

— Certo, Issa — concordou Allan, ainda com o corpo tenso pelo toque em seu ombro.

— Bom, se posso sugerir — disse Issa, descansemos. A viagem foi longa e…

— Podeis descansar, depois de vos alimentardes, mas minha aldeia tem de se preparar para o confronto e o tempo é exíguo. Para nós, a noite será longa — cortou Allan, rodando nos calcanhares e começando a se dirigir em passos lentos para sua casa. Os germanos permaneceram de pé, ainda espantados por tudo o que tinham assistido, mas Bellovesus avançou até eles e os chamou para o seguirem. Foi aos cavalos e lhes deu as montarias em que tinham chegado. Além disto, um alforje com provisões para a viagem e as lanças e espadas que lhes tinham sido tomadas.

— Ide! Ide, antes que eu me arrependa do que estou fazendo.

Ato contínuo ele aplicou estralejantes palmadas nas ancas das montarias fazendo que arrancassem de susto e quase derrubassem seus cavaleiros. Os três germanos sumiram na escuridão.

Já na casa de Allan, Issa sentado no solo pigarreou para chamar a atenção, pois havia muita balbúrdia entre os presentes. Todos falavam ao mesmo tempo sobre o iminente confronto. O pigarro de Issa fez que os presentes se calassem e se voltassem para ele.

— Estais por demais agitados. Não creio que tenhais motivo sério para tanto — falou o hebreu, levando à boca um bocado de uvas frescas, mastigando-as com prazer.

— Tu não fazes idéia de quem é o germano que vamos enfrentar — disse Allan, sentando-se e encarando seu visitante.

Issa continuou saboreando as uvas e só quando as deglutiu foi que olhou nos olhos do chefe. Um pesado silêncio se fizera e todos os celtas, inclusive os companheiros de Issa, estavam expectantes sobre o que ele ia fazer. O jovem hebreu passeou os olhos pelas faces tensas e com um gesto de mão convidou a todos a se sentarem ao redor da fogueira no meio da pequena sala. Sem dizer nada, um a um todos se sentaram.

Eis o gigante Golias, como é mostrado em filmes atualmente.

Eis o gigante Golias, como é mostrado em filmes atualmente.

— Entre meu povo — começou Issa — há uma lenda que diz que houve, há muito tempo, um jovem franzino, um pastor de ovelhas, que se viu numa situação terrível. O povo hebreu estava em guerra contra o povo Filisteu.  Os dois exércitos estavam acampados em dois montes, um diante do outro. A batalha previa uma carnificina horrível para ambos os lados. Então, no amanhecer do dia crucial, um gigante filisteu por nome Golias, talvez com o corpo mais avantajado em músculos e força física ao de Bellovesus, vosso campeão, saiu todo paramentado com sua armadura e gritou, bem alto: “Por que viestes vós, dispostos a nos dar combate? Acaso não sou eu filisteu  e vós servos de Saul, vosso rei? Eu proponho: escolhei dentre vós um homem, um combatente, que ele venha bater-se comigo só por só. Se esse vosso campeão puder pelejar comigo e me tirar a vida, seremos nós vossos escravos e não pelejaremos contra vós e nosso exército não vos dará combate. Porém se eu o levar debaixo, e o matar, vós sereis nossos escravos, e ficar-nos-eis sujeitos. Eu, aqui e agora, insulto os esquadrões de Israel. Dai-me um homem vosso e que ele saia a se bater comigo só por só”.

O povo hebreu entrou em pânico. E pediu mais tempo para escolher um campeão, embora soubessem que não havia entre eles um único homem sequer que pudesse enfrentar aquela montanha humana. Por quarenta dias o filisteu veio desafiar, pela manhã, um campeão hebreu, mas Saul sempre pedia mais tempo e se desesperava porque não havia entre seu povo um único guerreiro que desejasse bater-se sozinho contra o gigante filisteu.

Havia no campo, um homem chamado Isai que tinha quatro filhos: Eliab, o primogênito; Abinadab, o do meio, Sama o quarto e David, o quinto. David era o mais jovem e o mais franzino dentre os filhos de Isai.

Já no quadragésimo dia de desafio, Isai, sem saber o que acontecia no campo de guerra, mandou que David, seu caçula, fosse até lá e levasse um efi (= 40 k) de farinha e dez pães para seus irmãos. O garoto assim fez e quando chegou ao campo ouviu o desafio do gigante filisteu. Os que estavam com David, tão logo Golias lançou o desafio, fugiram e deixaram o jovem garoto sozinho. O rapaz procurou alguém que lhe informasse do que se tratava aquele desafio e soube que Golias, há quarenta dias, lançava o desafio sem que ninguém do exército de Saul aceitasse o suicídio. E também lhe disseram que Saul havia prometido encher o vencedor com grandes riquezas e lhe dar por esposa sua filha, além de isentar a casa de seu pai de tributos em Israel. David pensou um pouco e falou para os que estavam perto: “que se dará a quem matar esse filisteu e tirar o opróbrio de Israel? Quem é pois este filisteu incircuncidado, que insultou o exército do Deus vivo?”

David vence Golias

David vence Golias

E novamente lhe foi dito o que Saul prometia ao vencedor. David foi repreendido por seu irmão por estar-se intrometendo em assuntos de homens. Mas o garoto, vendo a covardia em que o exército de seu povo se mostrava, e compreendendo que estavam numa situação desesperadora, orou em silêncio ao Pai Celestial e decidido foi ter com o rei Saul. Diante dele se ofereceu para ir dar combate ao filisteu. Incrédulo, Saul mediu o pequenino David sem poder dar crença no que ele dizia, que era que podia vencer o gigante. Durante um tempo os dois pelejaram, o rei com sua dúvida, David com sua certeza. Então, diante do argumento de David de que Saul não tinha fé suficiente no Pai Celestial, o rei, ainda hesitante, lhe deu autorização para ir aceitar e enfrentar o gigante inimigo. Todos tremiam diante do absurdo daquele enfrentamento, mas o garoto se encaminhou para o local do combate recusando espadas, escudos, lanças e arcos e flechas. Levava apenas sua funda de atirar pedras. O gigante filisteu, quando viu David, dobou-se de rir e escarneceu dele por um longo tempo. Até que, instigado e provocado pelo anão hebreu, decidiu-se e se preparou para massacrá-lo com um só de seus pés. Ele ergueu seu escudo e levantou sua pesadíssima lança de ferro. Mas David, agachando-se, apanhou uma pedra, colocou-a dentro da funda e girou a arma sobre a cabeça até quando ela começou a zunir, tal era a velocidade com que girava. Mirando a testa do gigante, David soltou a pedra quando Golias dava o primeiro passo em sua direção. A pontaria foi certeira. A pedra arrebentou o osso da testa do gigante e se cravou fundo em seu cérebro. Golias revirou os olhos, parou de chofre e caiu para a frente, de cara no solo. Estava morto e o combate entre os exércitos não aconteceu. Centenas de vidas hebraicas foram poupadas porque uma criança tinha tido a Vontade e a Fé em ação através de si.

Fez-se silêncio e Issa passeou o olhar em cada uma das faces ali presentes. Em todas viu dúvida, embora ninguém ousasse desmenti-lo ou colocar sua história em questionamento.

— Vejo que não me credes. Talvez penseis que tento iludir-vos para vos dar um pouco de sossego, pois vejo que vossos corações estão descompassados de angústia. Então, eu aceito a posição de David diante do filisteu e tomo para mim a responsabilidade de desafiar o campeão dos germanos de Armínio. Se eu o vencer, a batalha não mais acontecerá e ambas as tribos, a vossa e a dele, se comprometerão em nunca mais derramar sangue uma da outra.

Bellovesus era orgulhoso e arrogante.

Bellovesus era orgulhoso e arrogante.

Um pesado silêncio se fez. Bellovesus, então, se adiantou e se postou diante de Issa.

— Tu terás de me vencer primeiro, para que possas convencer meu povo a te aceitar como seu campeão, em vez de a mim.

Issa pôs-se de pé e encarou o gigante celta, cujos olhos faiscavam de orgulho ferido. Por um tempo os dois se encararam em silêncio. Então, Issa falou.

— Ouve, ó celta, nada é mais tolo que o orgulho e nada cega mais um homem que ele. Tu me insultas porque julgas que eu insultei-te a ti e a teu povo. Então, façamos o seguinte: Allan, vosso Druida, te transformará em uma estátua de cinzas como fez a mim. Se saíres dela ileso como eu fiz, então, combateremos. Mostra-nos a tua Fé e a tua Vontade de vencer e encara este desafio.

Os olhos do celta voltaram-se para o Druida Allan, que se punha de pé olhando-o fixamente. Então, abaixando a cabeça, o gigante celta falou em voz baixa.

— Está bem. Que tu sejas nosso campeão.

O chefe Bryan se levantou e ergueu a mão para chamar a atenção dos presentes. Então, voltando-se para o jovem hebreu, falou com voz decidida.

— Issa, Magia não será permitida por mim. O campeão deles, certamente, virá combater homem contra homem, não mago contra homem. Nossa honra de celta não pode aceitar nenhuma vantagem tua sobre ele.

— Eu vos digo, por minha honra, que não haverá magia nenhuma. Se aceitarem vosso desafio, eu enfrentarei o campeão dele como um simples homem. E crede em mim, pois não sou de dizer mentiras.

Os celtas se entreolharam sem saber o que dizer. Então, com um aceno de cabeça, o chefe Bryan concordou com a proposta de Issa. Talvez fosse a única maneira de evitar que sua tribo fosse massacrada.

À noite, todos dormiam, Primus se aproximou cuidadosamente de Issa e lhe tocou o ombro. Issa abriu os olhos e o mirou, com uma pergunta muda no olhar.

— Estou preocupado contigo. Não és o tal David e eu conheço bem os germanos de Armínio. Eles são terríveis. Embora fôssemos em maior número, não conseguimos derrotá-los. Lutam como feras e tu, ainda que sendo hábil com o bastão, não creio que possas vencer o campeão deles. Se até os celtas estão receosos…

— Vai dormir, Primus. Eu te garanto que não haverá luta nenhuma. Eu vencerei. E não porque vá contar com a ajuda de nosso Pai Celestial, mas porque sei pensar, tenho Vontade e Fé. Boa-noite.

E Issa se virou para o lado e adormeceu. Primus permaneceu ali, pensando: “Em quem ele tem fé? Se não vai orar ao tal Pai, quem o socorrerá no apuro?”

Cedo, a comitiva de germanos chegou ao acampamento. Era um grupo de 12 guerreiros totalmente armados e com expressão de desprezo nas faces. Foram recebidos por Bryan, que, sem maiores delongas, fez a proposta da disputa entre os dois campeões. Se o campeão que representasse os celtas vencesse, a luta não aconteceria e Armínio não atacaria mais a aldeia celta. A discussão se acalorou. Os germanos estavam decididos e não queriam aceitar nenhum desafio. A proposta deles era a rendição total dos celtas para que livrassem crianças, idosos e homens inválidos do massacre. Os adultos e as jovens seriam levadas como escravos e escravas. Issa entrou na casa do chefe Bryan quando a discussão estava acalorada. Ao vê-lo os germanos se calaram e interrogaram com o olhar ao chefe diante deles.

— Esse é Issa, nosso campeão — disse o celta sem delongas. Os germanos mediram com os olhos o jovem hebreu e se entreolharam, com espanto. Então, quase em uníssono, estouraram numa gargalhada escandalosa. Apontando para o jovem hebreu, escarneceram dele, mas o jovem ergueu a mão pedindo silêncio e quando conseguiu que os mal-educados guerreiros se calassem, falou.

— Sois arrogantes assim mesmo, ou escondeis vosso medo por detrás desta lamentável crise de hilaridade?

Como se movido por uma mola o mais mal-encarado e mais forte dos germanos pôs-se de pé num salto, sacando sua temível espada de lâmina larga e bem afiada.

— Como queres que te mate, atrevido? Com um só golpe posso decapitar-te, agora.

— E mostrarás aos celtas o quão covarde são os germanos, pois não tenho qualquer arma em mãos e não pegarei em nenhuma que me seja dada agora. É meu elã que vós vos mostreis tal e qual sois: frouxos, medrosos e covardes. Por isso só e mais nada é que a tudo respondeis com vossas armas.

Os olhos do germano faiscaram, mas antes que fizesse qualquer movimento, o mais baixo e não menos forte e  agressivo ergueu a mão. Todos os olhares se voltaram para ele.

— O desafio está aceito em nome de nosso rei. Qual será a arma que vais escolher, estranho?

— Sem armas.

— A mãos limpas, então?

— Não. Vosso campeão e eu não nos tocaremos.

— E como pretendeis combater? — Perguntou o germano, olhando desconcertado para seus companheiros.

— Com uma corda.

— Um… Um cabo de guerra?! — Espantou-se o germano.

— Exatamente.

— Aquele que fizer o oponente cair e ser arrastado pelo chão, vencerá? É isto o que nos propões?!

— Quase isto. Não sou adepto do derramamento de sangue. O primeiro que fizer seu oponente cair, vencerá a competição. Estamos acertados?

— Ainda não, pois a última palavra será dada por nosso rei, Armínio. Mas não vos preocupeis. Ele aceitará de bom grado esse desafio idiota. Ao menos nossos guerreiros se divertirão, antes de vos massacrar.

Com um aceno de cabeça o líder do grupo ordenou a retirada. Pasmo, Bryan interrogou Issa com o olhar, mas o jovem hebreu, sorrindo, deu-lhe as costas e se retirou. Com a ajuda de Allan ele não mais foi visto até três dias depois, quando uma gigantesca hoste de germanos, tendo à frente o próprio Armínio, aproximou-se da aldeia é que Issa surgiu, vindo da mata junto com Allan.

Armínio, o temido rei dos germanos.

Armínio, o temido rei dos germanos.

O orgulhoso e arrogante líder dos germanos adentrou a aldeia com o olhar de um conquistador e total desprezo pelos vencidos. Trocou poucas palavras com Bryan, que também o olhava como um tigre faminto olha para uma cabra. Os dois ficaram na casa do chefe da aldeia, apenas em companhia de seus conselheiros e sábios idosos. Depois de duas horas de fabulações, eles saíram e Bryan mandou chamar Issa. Este se apresentou quase imediatamente diante dos dois líderes.

— Então és tu, homem estrangeiro, aquele que vai ser vencido pelo nosso campeão? — Perguntou Armínio, com ar de desprezo no sorriso de mofa.

— Não. Eu vou vencê-lo — respondeu Issa, tranqüilamente.

— Comecemos, então. Meu campeão está comigo e…

— Vamos reafirmar os termos da disputa — cortou Issa com voz alta para ser bem escutado por todos os que estavam ao redor, germanos e celtas. — Ficou acertado que vence a disputa aquele que conseguir fazer seu oponente cair primeiro ao solo. Não foi isto que vos disseram vossos guerreiros?

— Sim, foi. Qual é a dúvida?

— Nenhuma. Quero somente que fique bem claro que vence quem ficar de pé. Não haverá necessidade de o vencedor arrastar o vencido pela terra, humilhando-o mais do que já terá sido, pois ao cair diante do oponente ele jogará por terra a honra da tribo que representa.

Um aceno secundado por um sorriso de mofa foi feito pelo orgulhoso Armínio.

— Uma vez eu tendo vencido — disse Issa, o que fez o germânico soltar uma grande e gostosa risada — vós vos retirareis sem levar nem um grão de pó desta aldeia. E ambos os senhores se comprometem, diante de vossos vassalos e guerreiros, que enquanto vida tiverem, um não atacará nem provocará o outro, seja qual seja a alegação.

Os dois chefes se entreolharam e olharam para a multidão que os observava em expectativa.

— Que assim seja! — rugiu com voz altissonante o germânico. — Eu cumprirei o trato. No entanto, se tu não venceres meu campeão, virás até mim por teus próprios pés para que eu te sangre diante de todos aqui presentes. Concordas?

— Perfeitamente.

— Então, sem delongas, acabemos com isto. Tragam a corda!

Uma corda muito grossa e longa foi colocada no chão diante dos dois chefes. Armínio bateu palmas e um gigante de mais de dois metros de altura saiu de entre os guerreiros e avançou até se colocar na ponta esquerda da corda. Havia um riso de mofa em sua cara barbuda, cheia de cicatrizes e de olhar gélido e penetrante como punhal. Primus sentiu as mãos suarem e olhou angustiado para seu Mestre, mas este se mantinha calmo.

— Comecem! — Gritou o germano, mas Issa levantou a mão.

— O que desejas? Desistir? Agora é tarde. Os termos foram teus — rugiu Armínio, com expressão de zanga na face e apertando fortemente o cabo da perigosa espada na cinta.

— Não. Vê, há duas pedras neste espaço. Proponho que seu campeão fique de pé naquela lá — e Issa apontou para a pedra a uns quinze metros de onde se encontrava. — Eu fico de pé nesta que está ali — e ele indicou outra pedra, mais baixa que a outra e mais próxima dele. — Quem de nós dois fizer seu oponente cair primeiro, será o vencedor.

— Que seja! Comecem! — gritou impaciente o arrogante Armínio.

Os dois homens subiram nas pedras, cada qual segurando um lado da grande corda. De pé, esperaram a ordem de começar. Armínio, com ar de mofa, espalmou a mão diante do corpo e fez uma reverência de mofa para Bryan, cedendo a ele o direito de ordenar o início da competição. O celta suava. A diferença entre os dois contendores era enorme. Issa, ainda que fosse alto e forte, parecia uma criança diante do enorme germano que o olhava com olhar de lobo faminto.

“Fiz uma besteira da qual vou-me arrepender pelo resto de minha vida” pensou o líder celta, erguendo a mão para dar o sinal. Naquele momento, o germano deu violento puxão na corda com a intenção de pegar Issa descuidado e jogá-lo ao solo. Mas foi surpreendido quando seu oponente cravou os pés nus sobra a rocha e lhe resistiu ao puxão. No entanto, o germano sentiu que derrubaria facilmente o atrevido estranho, mesmo que fosse um mago. A magia, estava acertado, não seria usada e isto lhe facilitava enormemente a vitória. 

O braço do celta desceu rápido, mas não houve nenhuma ordem falada. O germano firmou-se na pedra e se preparou. A corda foi retesada e ele novamente deu forte puxão na corda e… Caiu de costas e com as pernas e braços abertos, esparramando-se na terra batida. Um grande OOOOHHHH!  ergueu-se de entre a multidão. O campeão germano tinha caído logo no primeiro puxão.

— Não vale! — Urrou Armínio, descendo em direção aos dois campeões e apontando um dedo acusador para Issa. — Ele soltou a corda! Ele perdeu!

— Não! — Gritou Issa, espantando a todos com a altura e potência de sua voz. — O trato era que venceria quem fizesse o outro cair. Não se disse que a corda não podia ser solta. Não se acordou que um dos dois teria de derrubar o outro empregando a força bruta. Eu venci. Fiz que meu oponente caísse primeiro.

Uma grande balbúrdia se formou e os germanos sacaram das espadas prontos para a luta. Mas novamente a voz estentórea de Issa se vez ouvir sobre todos.

— Não é crível que o rei dos germanos não tenha honra! Ele, de quem se diz venceu as legiões romanas, não honra a palavra dada? Que líder é esse que não sabe ser digno diante de seus guerreiros? Como poderá liderá-los se não honra a palavra empenhada? Credes no Valhala, em Odin e Tîwaz. Então, respondei-me: como sereis recebidos por vosso Deus se sois desonrosos no campo da Honra?

Um silêncio súbito caiu sobre a aldeia e se uma mosca voasse ali seu vôo seria ouvido. Todas as cabeças se voltaram para olhar para Armínio que, pegado de surpresa, ficou um momento sem saber o que dizer. Então, um ancião altivo, conselheiro do Rei Armínio, adiantou-se e falou com voz clara.

— Nosso rei tem honra e nosso povo, dignidade. O estranho ganhou a disputa porque ela foi acertada nos termos em que ele a colocou. Nós, empolgados, não percebemos sua esperteza, mas isto não é desculpa para não honrarmos a palavra dada. O Rei Armínio deve ordenar a retirada e cumprir com o trato feito.

Por um momento a tensão reinou ali, mas estufando o peito, Armínio falou bem alto.

— O trato será cumprido. Nós não atacaremos a aldeia celta, nem eles nos provocarão até o final da vida de nós dois, eu e Bryan. Retirada, agora!

À noite a aldeia celta estava em festa entre muita bebida e cânticos de alegria. Procuraram o grande vitorioso, mas ele não foi encontrado em nenhum lugar ali dentro…