CAPÍTULO IX – A FORÇA OCULTA (Parte I)

O Cão No Rastro da Raposa

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor era um perdigueiro na caça.

Damastor entrou no Instituto Médico Legal. Eram as nove e o sol estava esquentando o dia. A rua estava, como sempre, esfumaçada e barulhen­ta. O tráfego era um dos piores e os oitizeiros enfumaçados e sujos de fuligem enfeavam mais ainda o aspecto sujo e abandonado da Mem de Sá.

           — Pois não, senhor? — atendeu o recepcionista.

           — Sou o detetive Damastor. O doutor Hélios está?

           — Sim, senhor.

           — Poderia falar com ele, agora?

           — Sim, senhor. Siga o corredor e desça as escadas. Ele está lá, na morgue. Siga o seu nariz.

           Damastor fez o que o homem lhe indicara. Sim, era seguir o nariz. Ele lhe trazia o odor do formol e da carne putrefata. Sob aquele odor a­cre havia outro indistinto. Damastor reprimiu a repulsa e penetrou no am­biente artificialmente iluminado da morgue. Três homens estavam lá. Um debruçava-se sobre um corpo aberto e com as vísceras dentro de uma bandeja ao lado. O detetive foi até ele exibindo seu distintivo aos outros dois para que não lhe barrassem o caminho.

           — Dr. Hélios?

           — Sem levantar a cabeça de cima do corpo o legista respondeu:

           — Sou eu. O que deseja?

           — Falar-lhe.

           — Espere um pouco. Já termino aqui.

           Damastor afastou-se sentindo o estômago embrulhado. O odor era desagradabilíssimo para ele que não estava acostumado.

           — Aceita um cafezinho? — ofereceu outro médico que examinava o cadáver de uma loura, introduzindo-lhe um tubo na vagina. Aquilo pareceu demasiado imoral aos olhos do detetive.

           — Não, obrigado. Sou capaz de pôr as tripas pela boca, se tentar engolir qualquer coisa agora.

           — A gente se acostuma. Em uma semana a gente almoça bife sangren­to ao lado do cadáver que se abre — disse o homem, sorrindo.

           Damastor olhou-o com repugnância e preferiu subir para esperar pelo médico em local menos mórbido. Quarenta e cinco minutos depois o Dr. Hélios chegava.

           — Bem, aqui estou. O que quer de mim?

           — Meu nome é Damastor. Conheço seu primo, o detetive Ivaldo e foi por ele que soube do senhor.

           — Ah, sei. Como vai aquele cabeça dura? — e o médico indicou uma cadeira para Damastor sentando-se também.

           — Com ela cada vez mais dura, doutor. Mas ele pensa um bocado. E parece que o senhor lhe fornece a munição para isto.

           — Eu? Como assim? — espantou-se o médico legista. Ele era um mulato simpático, rosto ovalado, um pouco mais gordo do que gostaria. Uma calva acentuada já se fazia presente e seus cabelos crespos estavam pintados com alguns mais apressados que os demais. Usava grosso óculos de grau e respirava pela boca aberta.

           — O senhor lhe dá informações muito boas… como aquela do gás carbônico nos garotos encontrados no Guandu.

           — Como…? Ah! Lembrei. Ele lhe contou isto, é?

           — Sim. E me fez ficar interessado no caso.

           — Por que, detetive? Os garotos eram seus conhecidos?

           — Não. Mas Arthur era. A família dele, também. Hoje, Arthur é um vegetal no hospital e sua família está morta. Mulher, filho e filha morreram de modo terrível. Torturados e estuprados. E começo a aceitar a hipótese de seu primo: quem despachou os garotos e a mulher e trans­formou meu parceiro num vegetal também acabou com os rapazes que o se­nhor necropsiou. Eu quero pegar o desgraçado.

           Damastor transfigurou-se. Ao concluir o que dizia tinha a face congestionada, os olhos arregalados, as veias do pescoço saltadas e o corpo trêmulo, O soco que deu no tampo da mesa jogou o cinzeiro no so­lo. O legista ficou a mirá-lo friamente.

           — É… O senhor está cheio de ódio contra o suposto assassino e isto não lhe faz bem, sabia? Seu coração pode traí-lo e se tornar um aliado de seu desconhecido inimigo.

           Damastor curvou a cabeça, fechou os olhos e inspirou fundo.

           — Desculpe — disse, deixando o ar sair num sopro. — Mas eu só vou descansar quando pegar o assassino. E para isto preciso de sua ajuda… Da ajuda de quem puder ajudar-me. Estou no escuro, compreende?

           Hélios mordeu os lábios. Já vira muito aquele estado de ânimo. Já vira muitos colegas daquele detetive deprimidos e cheios de raiva e sabia o que corroia a alma daquele ali. Tinha-lhes dó. O que será que os fazia não jogarem a toalha? Eles eram assim: morriam se preciso fosse, mas não desistiam da perseguição. Por que?

           — Bem, não sei o que o senhor espera de mim, mas se eu puder ajudar…

           — Pode sim, doutor — cortou o detetive. — Diga-me, qual a sua hipótese para a morte por asfixia por gás carbônico daqueles garotos?

           — Eu não tenho nenhuma. Lamento, detetive.

           — Pois pense um pouco, agora. Crie uma. Como pode alguém afogar-se num rio e morrer com asfixia por gás carbônico?

           — Não ganho para supor ou especular. Ganho para mostrar os fa­tos à luz da Ciência Médica, meu amigo.

           — Porra, doutor — explodiu o detetive. — Por que se esquiva? À luz da Ciência o senhor tem de ter notado outros indícios… Por exem­plo, a asfixia por gás causa dor, não causa?

           O médico recostou-se na cadeira e tamborilou os dedos curtos e grossos sobre o tampo da mesa, olhando fixamente para o detetive antes de responder.

           — Sim, tem razão. A morte sempre dói, exceto quando é súbita.

           — Um indivíduo que esteja morrendo asfixiado debate-se, não?

           — Sim.

           — Então, eu lhe pergunto: naqueles corpos havia hematomas…cor­tes… enfim, algum sinal de que os rapazes tenham-se debatido…?

           Hélios fitou o vazio, cenho franzido no esforço de recordar. Sim, o detetive tinha razão. Um afogado debate-se, mas a água não oferece re­sistência… Fez um esforço de memória e reviu cada um dos cadáveres dos rapazes sobre as mesas de necropsia.

           — Sim…sim… — murmurou baixinho.

           — O quê? O que está dizendo? Fale alto, homem! — desesperou-se o detetive.

           — As mãos de um deles… Elas tinham cortes à altura das falangetas. Como se ele, ao desfalecer, estivesse agarrado com força numa… numa tela de arame ou algo semelhante.

           — Ótimo, ótimo, continue! — encorajou Damastor pondo-se na beira da cadeira em que sentava.

           — Eles todos tinham contusões nos corpos e nas cabeças, como se tivessem batido contra alguma coisa dura — falou o médico.

           — Uma surra? Alguém lhes deu uma surra? É isto, doutor?

           — Não, não correspondiam a contusões traumáticas devidas a uma surra. Eram machucados como quando se bate com a cabeça ou os membros em algo sólido. E mais, as unhas de um deles tinha tinta esmalte sob elas. Era como se ele tivesse arranhado uma pintura metálica. Venha, eu lhe mostro minhas anotações na ficha microfilmada.

           — Por que suas anotações não foram consideradas no laudo? O se­nhor deixou claro que aqueles rapazes também foram assassinados e não foi por afogamento. Eles foram sufocados em algum lugar e lançados n’água, depois. Isto não consta dos laudos. Por que?

           — Estas respostas eu não posso lhe dar. Mandaram que eu me calasse e… e não complicasse as coisas.

           — Quem?

           — Também não sei dizer. Apenas recebi o recado.

           — Entendo… Isto só confirma as suspeitas do Ivaldo. O que o senhor pensa da tinta esmalte sob as unhas do rapaz?

           — Ele era quem não estava drogado, assim, teve mais resistência, lamentavelmente para ele, ao desfalecimento. Nas vascas da morte deve ter unhado com muita força uma parede de ferro… talvez uma porta. As las­cas de tinta cravaram-se fundo entre as unhas e a carne. Normalmente ele não teria agüentado, mas já não tinha sensibilidade, compreende?

           — Qual era a cor da tinta? — perguntou Damastor enquanto lia as telas dos microfilmes.

           — Branca.

           — Branca… E os cortes nas falangetas do outro, não poderiam ser o efeito de uma sessão de tortura?

           — Não. O deslocamento dos ossos e o rompimento das articulações não eram efeitos de instrumentos de tortura. Além do mais, havia fragmentos microscópicos de limalhas de ferro galvanizado, do tipo usado na feitura de telas de arame. Como você leu no microfilme que lhe mostrei, eu acho que o rapaz desfaleceu quando estava segurando uma tela de ma­lha fina. O corpo caiu e ficou dependurado pelos dedos. O que intriga é que, para ter as articulações dilaceradas daquele modo, o indivíduo fi­cou dependurado pelos dedos e balançando e… e se torcendo. Isto, após o desfalecimento.

           — E o terceiro rapaz…?

           — Morto pela ingestão de cianeto que foi adicionado à cerveja.

           — Obrigado, doutor. O senhor ajudou muito. Ah, faça-me um favor sim? Se chegarem corpos cujos laudos sejam mandado silenciar, passe-os, por favor, a nós, Ivaldo e eu. Creio que o senhor receberá, ainda, ou­tros presuntos iguais àqueles.

           — Farei o possível — disse o legista. — Não gosto disto. Escamotear a verdade é sempre indício de que uns poucos estão-se dando bem em detrimento de muitos. E infalivelmente, os poucos privilegiados são ti­ranos e criminosos.

           Damastor levantou-se e apertou a mão do legista. Estava satisfeito. Conquistara um colaborador de peso. Retirou-se com a cabeça fervilhando de perguntas sem respostas.

*   *   *

           Em um calmo e discreto casarão do Alto da Boa Vista, cercado por altos muros e oculto entre árvores seculares e trepadeiras floridas es­trategicamente distribuídas de modo a dificultar ao máximo a visão da imponente construção senhorial, vinte e um luxuosíssimos automóveis, todos pretos e com vidros escuros, chegavam a intervalos regulares. Estaciona­vam ao longo das aléias arborizadas e de dentro deles invariavelmente saíam três pessoas fora o motorista. Homens e mulheres trajavam preto. Sem al­gazarra e sem euforia dirigiam-se para a mansão. No amplo salão de recepção, ricamente ornada com tapetes orientais e quadros raros, tomavam as­sento aos pares e conversavam em romance, em voz baixa. Às dez horas chegou o carro do líder daquele grupo tão seleto e tão discreto. Ele e sua senhorial companheira entraram na recepção. Os murmúrios das conversas silenciaram e os que estavam sentados se levantaram.

           — Shalom! — cumprimentou o senhor Kamuratti.

           — Shalom! — responderam em coro os presentes. Ordenadamente, to­dos se dispuseram em fileira, formando um corredor que terminava em duas enormes portas brancas com o signo de Salomão em azul marinho escuro e inserido em um círculo dourado pintado nelas. Os Kamuratti percorreram o corredor humano em passos lentos, cerimoniosos.

           — O nosso trabalho é lento e secular — recitava o casal e era repetido por todos os presentes em voz alta, — como lento e secular é o passar do tempo. — E todos repetiram a frase.

           — Avançaremos passo a passo — e o coro voltou a entoar a sentença — mas jamais retrocederemos — e novamente o coro se fez ouvir. — Pois so­mos o Messias prometido. Os povos da Terra terão de se curvar a nós, porque nosso é o Deus Único, que nos protege e nos dá, desde o princípio, toda a Terra como legado. A vingança de nosso Pai cairá como mão de ferro sobre nossos inimigos assim no presente como no passado, até que reconheçam a nossa Israel como o Rei dos Reis. Para isto temos trabalhado. Para isto trabalhamos. E para isto trabalharemos até o final dos tempos.

           As falas do casal Kamuratti eram repetidas solenemente e a uma só voz, formando um coro impressionante.

           Ao chegarem diante das grandes portas fizeram soar a pesada aldabra de prata por três vezes. Elas foram abertas por um homem idoso e de longas barbas brancas, separadas ao meio como convém a um venerável do templo. O homem vestia longa túnica preta com tarjas douradas nas mangas e descendo da gola ao longo do corpo. A barra da túnica também era  tarjada em dourado e no pei­to havia desenhos cabalísticos imponentes. Nas costas, o homem trazia uma serpente emplumada que se curvava em círculo e mordia o próprio rabo. Quando o velho guardião apareceu, todas as cabeças se curvaram e nenhum olhar se fixou nele, exceto os dos Kamuratti que não se curvaram. O velho retirou-se e até que ficasse fora totalmente de vista, ninguém ousou erguer a cabeça e fitar o local.

           O vasto salão de reuniões era todo decorado em ouro, azul e bran­co. Ocupando quase toda a extensão do enorme recinto, uma linda mesa de reunião ovalada com sessenta e oito cadeiras de altos espaldares, numeradas a partir do zero, todas elas com assentos em veludo amarelo-ouro. Lucilla Kamuratti ocupou a cadeira número um, próxima à porta de entrada, na cabeceira inferior da grande mesa, toda em carvalho. Cada casal que entrava separava-se. As mulheres se encaminhavam para a esquerda do móvel, considerando-se como centro divisor a cadei­ra zero, mais alta que as outras, no extremo oposto e para a qual se encaminhou o Sr. Kamuratti. Os homens encaminharam-se para o lado direito da longa e bem trabalhada mesa, permanecendo todos de pé, ao lado das cadeiras, até que o Presidente falasse.

           — Senhores membros desta NAHASHILLAH a sessão está aberta. Quei­ram tomar seus lugares.

           Como um só corpo todos obedeceram e assentaram-se. Então, após lançar um olhar de contentamento sobre eles, o Sr. Kamuratti finalmente sentou-se.

           — Meus irmãos — iniciou Kamuratti — nossos negócios bancários e latifundiários nesta parte da América vão de vento em popa. As melhores terras da Argentina, do Rio Grande do Sul, Uruguai e Paraguai estão sob nos­so controle e já foram adquiridas por irmãos nossos. As terras compreendidas no triângulo delimitado pelas cidades de San Pedro, no Paraguai; Mbu­rucuyá, na Argentina, e Rosário, no Brasil, já pertencem à Grande NAHASH. Quando seja chegado o momento certo expulsaremos os pagãos de lá e tomaremos conta do que já é nosso. Temos, através da família Kamuratti, o direito de explorar aquelas terras do centro da Terra até as mais altas nuvens no céu. O endividamento dos países citados com o nosso banco vai num crescendo. Nossas manobras de décadas vem, finalmente, dar seus frutos. O maior e mais forte banco estadual deste país de miseráveis e tolos foi arrebentado e, como ele, todos os demais bancos estaduais. Para mantê-los agora, os políticos terão de entregar o comando deles a gente nossa. Ou, então, terão de privatizá­-los, o que vem dar na mesma coisa. Os políticos gananciosos chegaram en­fim a um impasse do qual não têm saída, senão capitular. Farão isto de modo velado, com muita pompa e muitos discursos, o que pouco se nos dá, mas cairão exatamente onde nós queremos e determinamos que caiam: em nossas mãos. Arruinaram com tudo o que o povo honestamente construiu e, agora, a saída vergonhosa, mas adoçada sob o manto da única salvação, é a lenga­-lenga da privatização. Privatizarão tudo, até praças e jardins. As rodo­vias serão somente o começo. Venderão até as cuecas, logicamente do povo e jamais deles – por enquanto — na vã esperança de que as riquezas que amealharam com roubos, fraudes, traições ignóbeis e falcatruas vergonhosas continuarão a lhes pertencer. Estúpidos! São nossos e ainda não tomaram a plena consciência disto. Quando o fizerem será tarde demais. Queridos ir­mãos de luta, o mundo capitula. A América esfacela-se pela droga, pela pobreza e pelas guerras que habilmente mantemos acesas pelos países a fora. Suas leis são ridículas e já não servem para mais nada. A marginalidade e o banditismo têm mais direito que o cidadão honesto comum. Aliás, aqui ficará exatamente como lá. As mulheres se tornam os algozes dos homens e estes, com medo delas, enveredam pelo caminho da depravação sexual. Cidades inteiras americanas é de homossexuais e de prostitutos e prostitutas de todas as espécies. Este país segue-lhe os passos, pois sempre foi um macaco de imitação dos americanos. As Leis da­qui são caricaturas das deles, para a desgraça deste povinho de nada. As fêmeas daqui estão aprendendo rapidamente a usá-las em proveito próprio e logo, logo, os machos daqui também estarão perdidos e aterrados diante de suas fêmeas. Fugirão delas como os seus irmãos do norte o fazem já. E se entregarão ao homossexualismo como único meio de satisfazerem o aguilhão da carne: o sexo. Mas isto também não será refúgio para eles, pois faremos que sejam aprovadas leis, no mundo todo, sancionando o casamento entre homossexuais machos e fêmeas. As riquezas do mundo se concentram em mãos de irmãos de nossa Sociedade. A fome, que faz escravos, espalha-se pelo mundo todo. Vejam o exemplo deste país. Tem fartura tão grande que o grão mais caro não devia custar mais de um centavo. No entanto, milhares morrem de fome por­que nós movemos os cordéis que trazem a carestia e espalham a miséria. O quilo de um centavo passa a custar, freqüentemente, dez mil por cento mais caro. O ouro deles, gota a gota, pinga em nossas algibeiras. E assim será em todo o planeta. Nós somos o povo escolhido pelo nosso Deus Único para governar sobre a Terra. Aprenderão isto e somente terão um pouco de paz quando beijarem os cordéis de nossas sandálias e nos reconhecerem como os seus senhores absolutos.

           Agora, quero-lhes falar do relatório de nosso irmão 31, aqui presente. Ele muito agradou a esta presidência. A Migdal, atuando aqui neste país e na Argentina, tem aumentado o aliciamento de escravas brancas para os bordéis da Inglaterra e da Europa. O centro deste país, mais precisamente a capital de Goiás, é um manancial de mulheres para os prostíbulos da Espanha e de Oriente. O movimento Gay tem sido incrementado ao máximo de modo muito inteligente em todo o mundo, cumprindo, assim, com um de nossos lemas padrões: dominar as pessoas pelos seus vícios. Aqui, as minorias doentes imporão suas vontades à maioria complacente. Ir­mãos, na estúpida Europa os Cristãos já se desnortearam por completo. Sem ética e sem moral, aceitam e festejam a aberrante cerimônia entre desvia­dos de mesmo sexo. Os doentes morais casam e formam… casais (estrondosa risada acompanhada por todos), como se tal coisa pudesse existir. Homossexuais, drogadictos e lésbicas tornam-se os heróis da juventude cristã e músicas indecentes e amoralizantes trazem milhões para as nossas gravadoras. Tocam como sucesso nos rádios e nas televisões e são cantadas por crianças e jo­vens adolescentes cristãos diante de seus pais anestesiados pela ação desestruturadora da bem difundida e tecnicamente bem conduzida “liberdade de expressão” e “liberdade de Imprensa”, irmãs gêmeas na morte da mo­ral cristã. Aliás, o trabalho na imprensa falada, escrita e ouvida é uma obra magistral de nossos irmãos 27, 29 e 32, também aqui presentes entre nós. Eles são os responsáveis por este trabalho para toda a América Lati­na e são um exemplo a ser seguido por todos nós que desejamos a vitória. Ainda assim, meus irmãos, é preciso incrementar mais nossos esforços. Te­mos focos significativos de resistências e não podemos admitir isto.

           Um dos presentes ergueu a mão direita.

           — O irmão 18 tem algo a nos comunicar. Ouçamo-lo, pois.

           — Venerando Navigateur, quero informar que nosso pessoal tem incrementado o aumento das seitas evangélicas entre os cristãos. Atualmente há, neste país, dois mil e trezentos êmulos nossos formando pastores que, por sua vez, são adestrados e adestradores na gula e na usura. Aprenderam rápido a apegar-se a bens e fortunas materiais e o dinheiro é sua meta primeira. Estraçalham com a i­déia do criminoso Jesus, confundindo suas palavras e seus mandamentos. Dizem-se seus adoradores e o confundem com o próprio Deus Inominado. Esta estratégia se tem revelado excelente, pois o poder papal vem-se enfraquecendo a o­lhos vistos. Concomitantemente com isto, os evangélicos são treinados pa­ra induzir a plebe a desenvolver veneração pelo povo que pensam ser o escolhido de Jeová para governar o mundo. A semente desta visão já está bem plantada na mente de cada evangélico. Tacanhos, seguem o nosso evangelismo e a nossa filosofia sem pensar. Já somos os seus senhores e a prova disto é que façamos o que fizermos, nem uma vez entre os gentios uma voz se le­vanta em protesto ou ao menos para criticar. Continuamos a manter sobre a cabeça deles o holocausto judeu como uma pesada culpa de todos e cobramos sem cessar que permaneçam com ela em suas consciências. Faze­mos com que tenham sempre o sentimento de dívida eterna para com os filhos de nossas vítimas. Dívida que passamos de pais para filhos de gentios; de netos para bisnetos deles, de tal modo que todos se sentem devedores, ainda que nascidos quase um século após o grande golpe. E as nossas indústrias cinematográficas sempre tiveram papel importante neste trabalho. Épicos como “OS DEZ MANDAMENTOS”, “MOISÉS”, “SANSÃO E DALILA”, “BEN-HUR” e outros mais modernos como é o caso de “O DIÁRIO DE ANIE FRANK” foram importantes para manter sempre a consciência subliminar de que os gentios devem sempre, desde o começo dos tempos. Filmes que mos­tram sistematicamente os judeus como vítimas do mundo reforçam de modo soberbo a culpa nas tolas e fracas consciências dos gentios. E a culpa é o sentimento que melhor nos ajuda, porque ela quebranta a dignidade e faz covarde aos fortes. No entanto, a estratégia tem mudado. Nossas indústrias cinematográficas têm trabalhado incansavelmente no sentido de tornar a força e a violência os novos mitos endeusados dos cristãos de todo o mundo. Com o devido respeito, ainda so­mos do parecer que nossa comunidade cinematográfica devia empenhar-se em manter histórias épicas onde aquele povo seja mostrado sempre como a vítima das nações e, o que é mais importante, como o protegido número um de nosso Deus Único. É por acreditar nisto que julgamos que esta nossa NAHASHILLAH devia empenhar-se junto à Grande NAHASH no sentido de orientar a comunidade cinematográfica a voltar à produção em massa de filmes onde o sofrimento milenar de uma nação às mãos dos gentios fosse explorado intensamente. Mantendo uns acreditando-se eternos algozes e outros com o sentimento de eternas vítimas, nós os ocupamos entre si e ficamos livres para agir.  Em nome de nossos colaboradores gostaria de pedir que esta petição fosse incluída na ata da presente reunião, assim como nossa sugestão de incrementar entre os evangélicos a idéia de comprarem canais de televisão, por onde eles divulguem suas histerias altamente favoráveis aos nossos interesses.

           O orador sentou-se. Muitas cabeças assentiram com meneios de a­provação. Kamuratti olhou-os a todos e falou.

           — A petição foi aprovada pela maioria. Que seja registrada em a­ta. Agora, meus irmãos, quero pôr-lhes a par de um projeto muito secreto que estamos desenvolvendo em nosso núcleo, em Israel. Pesquisas arqueológicas descobriram nas grutas do Mar Morto alguns pergaminhos absolutamente espantosos. Estudos com o carbono 14 indicam a idade acima de sessen­ta mil anos para eles. Como foram parar naquelas grutas, ainda é misté­rio. Eles foram retirados em sigilo pelos nossos irmãos da Grande NAHASH e levados para estudo. Após anos de acurados esforços, alguns trechos já foram desvendados. É uma escrita totalmente desconhecida da Arqueologia. Dos trechos já traduzidos, se infere que há uma força natural que, uma vez domada, pode tornar-se um gênio poderosíssimo a serviço da nação que a tenha dominado. Os míticos atlantes — parece que foram os autores e escritores dos pergaminhos — ao que tudo indica, conseguiram a tremenda proeza de aprisionar esta força natural, mas não devem ter sabido servirem-se dela. Parece que ela ganhou consciência própria, absorveu qualidades más do povo e contribuiu fortemente para o fim daquela humanidade. Sus­peita-se, contudo, que aquela entidade não retornou ao seu estado natural. De algum modo sobreviveu no meio humano. A sacerdotisa Lucilla esta­rá embarcando dentro de dois dias para Israel. Soubemos que mais alguns dados importantes foram obtidos e têm interesse significativo para as nossas pesquisas sobre a vida eterna em corpo físico. Somos os mais pre­parados para usufruir desta ventura. Acreditamos que nossa comunidade será uma das 12 escolhidas para a vida eterna e o gozo das riquezas terrestres. O Paraíso voltará às nossas mãos.

           Kamuratti fez um silêncio estratégico para que as suas palavras pudessem calar fundo nas consciências dos ali presentes. Observou os rostos e viu os olhos brilhantes de expectativa e satisfação. Orgulhou-se e rejubilou-se intimamente. Sentia-se um verdadeiro Deus e gostava de exercer o fascínio que sempre exercia naquela assistência. Principalmente sabendo que eram todos indivíduos destacados dentro da Grande NAHASH. Pes­soas poderosas no mundo dos negócios; águias de garras afiadas na divina arte de ganhar dinheiro. E, no entanto, ele as dominava. Curvavam-se a ele, o Navigateur da NAHASHILLA para a América Latina. Pensou em Anteu, o seu filho. Ele precisava ainda de muito treinamento e de muita persuasão para poder ser apresentado à comunidade. Kamuratti sonhava conseguir co­locá-lo como o futuro Navigateur da NAHASHILLA para a América do Norte e o Canadá. Era outra das mais poderosas. Mas o rapaz era rebelde. O Sr. Kamuratti nunca tivera oportunidade de lhe apresentar a NAHASHILLA nem de lhe falar dos grandes planos milenares que a Grande NAHASH vinha defendendo e pondo em prática através do tempo. Agora, tudo estava caminhando para a consuma­ção. Talvez até o final do terceiro milênio toda a grande estratégia estivesse finalmente concluída. Então, eles, vivos ainda graças às pesqui­sas que eram desenvolvidas sob o maior sigilo na sede, em Israel, veriam finalmente o dia do Juízo Final dos gentios. Quem não se curvasse definitivamente seria varrido da face da terra. Mesmo muitos nas tribos de Ju­dá sofreriam a morte, pois era sabido que eles se rebelariam e fariam coro com os Goyns. Azar deles. O silêncio já se fazia sentir e Kamuratti resolveu sair de seu devaneio e falar.

           — As atas de nossas reuniões serão levadas por Lucilla para a sede da Grande NAHASH. As petições serão analisadas e…

           — Grande Navigateur, gostaria de dar uma comunicação à comunidade.

           — Fale, irmão 33 — autorizou Kamuratti, particularmen­te generoso naquela noite.

           — Irmãos — falou o 33, que tinha cabelos grisalhos, era baixo e um tanto gordinho, usava óculos de fundo de garrafa e tinha o sestro puxar a gravata borboleta para o lado direito e sendo, por isto mesmo, obrigado a consertá-la a todo momento. — Compete a mim e ao grupo que co­mando a seleção e captação das crias cristãs que devem doar seus órgãos para as nossas experiências de transplante e de pesquisa na longevidade. Nosso trabalho ia bem, até que alguns pagãos rebeldes e ainda não catequizados pelo grupo de nosso irmão vinte e um, se interpuseram em nosso caminho. Então, para evitarmos complicações desnecessárias e impróprias, optamos por desmontar as crias cristãs aqui mesmo, em lugar muito bem seguro, e fazer a remessa das peças acondicionadas em um excelente recep­tor — o tubarão. Algumas remessas piloto já foram feitas e o sucesso foi total. Necessitamos, agora, que nossa NAHASHILLA nos dê cobertura. Precisamos que uma campanha seja deflagrada de modo a se fazer acreditar que o povo judeu está-se interessando no consumo da carne de tuba­rão. A Grande NAHASH deverá colocar nossos irmãos na Terra Santa para aparecerem de tal modo que dê a impressão de que toda a nação judaica real­mente está unânime nesta preferência. O nordeste brasileiro tem tido sé­rios problemas com este predador, o tubarão. Nossa frota de pescadores será recebida naquelas paragens como heróis e não haverá resistência à cap­tura dos espécimes de que precisamos nos tamanhos necessários aos acondi­cionamentos.

           Novamente houve uma onda de movimentos aprovadores de cabeça.

           — Lucilla se empenhará pessoalmente neste esforço, irmão — afiançou Kamuratti. — Mas sabemos todos que é muito delicada a exploração do povo judeu em nossas manobras. Como o resto do mundo, a maioria esmagado­ra daquela nação de teimosos não nos aprova há milênios. Um dos rebeldes, o mais ter­rível inimigo que tivemos, ainda que tendo sido crucificado e sua história sido atacada durante estes dois milênios, passou à posteridade como o Fi­lho de Deus. Causa-nos aborrecimentos até hoje. Também não foi boa para a nossa causa a dispersão daquela gente pelos outros países por tanto tem­po. As diversas culturas pagãs com as quais se misturaram tiveram efeitos demasiado dispersivos sobre o modo de pensar, educar as crianças e lidar com a mulher, naquele meio. Claro está, que reverteremos isto, mas vai requerer mais tempo do que era a pretensão inicial. Hoje, é mais difícil e delicado controlar o povo judeu. Creio, irmãos, que está próximo o dia em que se quebrará a regra milenar que afirma que judeu não mata judeu. Nós estamos na iminência de agir para que este comportamento não se mantenha. Estamos estudando a manobra, que é delicada. Con­tudo, eu lhe afianço que Lucilla fará empenho pessoal na sua proposição. E quando impusermos ao mundo a nossa Israel como o verdadeiro Messias de todas as nações, então os povos compreenderão que sempre estivemos com a razão. Aí, fi­nalmente, desagravamos, de uma vez por todas, o insulto cristão para com a nossa Israel, a única e verdadeira. Varreremos da face da Terra o nome daquele miserável baderneiro e criminoso vulgar que os ignorantes adoram como O Filho de Deus.

           A uma só voz todos gritaram erguendo o punho fechado ao alto:

           — Abaixo o homem Jesus, o criminoso crucificado, mas ainda não morto. Que o poder de Israel finalmente prevaleça sobre sua memória vergonhosa para os verdadeiros filhos de Ra.

           As taças de cristal, todas com vinho tinto, foram emborcadas so­bre a mesa e todos se retiraram solenemente enquanto o líquido vermelho pingava da alvíssima toalha sobre o piso de mármore do faustoso salão.