SURGE UM NOME E TUDO SE COMPLICA – (Parte I)

Delegacia de Polícia na Barra da Tijuca.

Delegacia de Polícia na Barra da Tijuca.

Damastor já ligava o automóvel para ir para seu apartamento, depois de um dia causticante, abafado e enfumaçado no verão de 45° ao sol, quando ouviu o escrivão gritar o seu nome. Uma irritação surda lhe assomou ao peito. “Não vou atender a mais nada, hoje. Estou cansado, droga!”

Fôra um dia agitado. Três seqüestros e dois assaltos a banco em plena Av Rio Branco, coração comercial do Rio de Janeiro, um às l0 horas e outro às l5 horas. A audácia dos criminosos estava ficando incontrolável e descarada. A polícia não tinha tido nenhum sucesso contra aqueles atentados. E isto não incluía as dezenas de reclamações pequenas, como o caso do marido que surrara a esposa e quase matara o filho mais velho a pancadas; a empregada doméstica, que se aproveitou da saída dos patrões para trabalhar e com ajuda de seu cúmplice havia limpado a residência, sumira sem deixar pistas; o roubo de uma criança por uma babá que desapareceu como se engolida pela terra e dois mortos e quatro feridos num acidente por avanço de sinal. A Delegacia estivera em brasas. O dia fora estranho. Havia uma vibração no ar. Uma vibração quase imperceptível, que vez por outra dava a impressão de que se tinha visão dupla de tudo ao redor. Algumas vezes, tontura e a sensação de que não se estava no lugar onde se estava. Damastor sentira isto e comentara com seus companheiros, que confirmaram também terem notado isto. Damastor desejava ardentemente chegar a casa, tomar um banho e relaxar.

O escrivão tornou a chamar pelo Detetive. Damastor respirou fundo, desligou o carro e foi atender.

— O que é? Meu expediente acabou… — disse de mau humor.

— É um telefonema de Angra dos Reis — informou o escrivão.

O detetive apanhou o aparelho com má vontade, mas ao ouvir a voz de Karina sua disposição modificou-se radicalmente. Ele gostava daquela repórter. Além de muito bonita, ela tinha um comportamento de lealdade e companheirismo para com ele que o cativava. Ajudara-o a desvendar quatro casos complicados e em dois deles, quando o detetive estivera com todos desconfiando de sua honestidade, ela se mantivera firme a seu lado. Arriscara-se muito várias vezes para lhe dar informações preciosas. Damastor sentia que tinha uma grande dívida de gratidão para com ela.

— Damastor falando. Quem… Karina?! O que é, Karina? Novidade?

Ele permaneceu ouvindo o longo relato de sua amiga sobre o acidente na ilha da milionária Milena Forcis. Aquilo era horrivelmente interessante. Um jacaré não atacava assim, de graça. Seria necessário que tivesse ninho por perto ou fosse fêmea. E encarar cães adestrados e furiosos era menos provável ainda. No entanto, a moça era taxativa quanto à espécie de bicho: jacaré.

— Eu queria pedir-lhe que viesse para cá — concluiu Karina. — Milena deu parte do acontecido ao Delegado Gerião Azevedo e você sabe que aquele crápula não é flor que se cheire. Temo que tente enrolar o assun­to a fim de levar vantagem de algum modo…

— Não vejo como, minha amiga, mas com ele tudo é possível — disse o detetive pensativo. — De qualquer modo a ilha fica totalmente fora da área de jurisdição desta delegacia. Não posso estar aí oficialmente, compreende?

— Eu sei — disse Karina. — Mas você vem como convidado de Milena. O pau-mandado não poderá reclamar.

— E a Dra. Milena sabe que está-me convidando?

— Sim, sabe. Eu falei com ela sobre o motivo por que o quero aqui.

— Tudo bem. Só que não vou chegar aí hoje.

— Por que não?

A Rodovia Presidente Dutra no Rio de Janeiro. Sempre com tráfego intenso.

A Rodovia Presidente Dutra no Rio de Janeiro. Sempre com tráfego intenso.

— São quase l7h. Daqui até aí vou levar umas três horas. Você  sabe que o trânsito na Presidente Dutra é de lascar. Não acho que encontre transporte para a ilha, quando chegar a Angra.

— Não, você não virá de automóvel. Aguarde um momento.

E Karina deixou o telefone e conversou com Milena. Explicou-lhe o que queria. A milionária chamou o piloto do helicóptero pelo telefone e lhe ordenou que fosse buscar Damastor. Karina informou que havia um campo de futebol próximo à Delegacia. O piloto poderia descer lá, onde o Detetive estaria esperando. Voltou, então, ao aparelho e combinou o encontro com Damastor.

— Tudo bem, vou para lá. Ah, vou levar um companheiro, tudo bem?

— Sem problema. O chalé cabe todos e muito mais — brincou Karina.

Damastor desligou e foi ao rádio. Enviou uma mensagem a Ivaldo em caráter de urgência. Não demorou mais que vinte minutos e o companheiro chegou. Vinha com ar preocupado e muito suado. A cabine da velha camioneta “camburão” era um forno.

— O que houve? — perguntou.

— Quer dar um passeio de helicóptero? — perguntou Damastor olhando com expressão crítica para o companheiro.

— Vamos aonde? — indagou Ivaldo preocupado. Temia ter de ser engajado numa patrulha sobre o morro da Mangueira. A coisa lá estava feia. Havia tiroteio desde as l5h e os helicópteros da polícia já tinham tido quatro baixas graves. Os meliantes usavam AR-l5 com mira telescópica.

A ilha de Milena Fórcis tinha muita mata densa e verdejante..

A ilha de Milena Fórcis tinha muita mata densa e verdejante..

— Vamos esticar até a ilha particular da milionária Milena Forcis, lá em Angra. Que tal, gostou?

— Hummm… Depende. O que houve lá? — desconfiou Ivaldo.

— Parece que um jacaré aprontou uma — disse Damastor encaminhando-se para a porta da Delegacia.

— Jacaré? Que negócio é esse? Algum marginal novo no pedaço?

— Não. Jacaré de verdade. Ele devorou o famoso psiquiatra Dr. Khamal. Pelo menos foi o que a Karina me disse — informou Damastor.

— Caramba! A milionária tinha um bicho desses na ilha, é? Se ti­nha, arranjou encrenca da grossa. Ricaços têm cada gosto… — comentou Ivaldo.

— Bem, sem querer você me deu o modo pelo qual o patife do Delegado Gerião Azevedo pode tentar enrolar a milionária — falou Damastor. — A minha amiga tem toda razão de estar temerosa.

— Do que você está falando? E para onde estamos indo?­ — Gritou Ivaldo correndo para acompanhar seu parceiro.

— Estamos indo para o campo de pelada aqui atrás. Lá o helicópte­ro da milionária virá apanhar-nos. No caminho eu lhe explico tudo.

— Hei, eu não estou preparado para…

 — Está bom. Ninguém vai notar sua catinga. Afinal de contas, o personagem do momento é o jacaré. Vamos!

E Damastor pôs-se a caminho seguido pelo resmunguento companheiro.

— Espero que sua amiga não esteja querendo que nós prendamos o tal jacaré. Não somos do IBAMA, ela sabe disto? — ironizou Ivaldo.

— Não é isso. Karina quer que nós assistamos ao trabalho do Delegado Azevedo. Ele nos conhece de velhas guerras e não tentará armar ne­nhuma para cima da milionária se estivermos presentes lá. Pelo menos é o que minha amiga pensa.

— Hummm… — fez Ivaldo, cético.

Damastor não comentou nada diante do pessimismo do parceiro. Ele também achava que a presença de ambos não inibiria o Delegado se ele re­solvesse criar problemas para a milionária. Chegaram ao campo em silên­cio e só esperaram por mais vinte minutos. O aparelho desceu levantando uma nuvem de poeira, o que muito contrariou Ivaldo, cuja roupa suada ficou ensopada de pó.

— Estou um boneco de lama — disse, quando se acomodaram no aparelho.

 — Não vão notar — comentou com pouco caso o colega.

Grand, NC 22017, versione VIP, com 6 lugares. Modelo da aeronave de Milena.

Grand, NC 22017, versione VIP, com 6 lugares. Modelo da aeronave de Milena.

O helicóptero alçou vôo. Damastor perdeu-se na contemplação das luzes coloridas lá embaixo que indicava um oceano de automóveis coleando ora lentamente ora apressados, como uma gigantesca e interminável cobra vermelho-amarelada. Aquele momento era algo meio mágico. Ele se via desligado da terra, afastado do corre-corre, da tensão, do perigo iminente de um acidente, da barulheira, da fumaceira… Enfim, ele se via longe do inferno em que o homem transformara o viver no solo. “Um dia ainda vou ter dinheiro e tempo para desfrutar dos vôos de asa delta” pensou melancólico. O helicóptero desligava da terra, mas só parcialmente. O barulho das hélices e do rotor mantinha, de certo modo, um cordão umbilical com aquilo lá embaixo. Numa asa delta, não. Depois de lançar-se no ar, o voador somente ouvia o vento na lona e nada mais. O desligamento era total. A pessoa devia sentir-se una com a natureza, como um dia, no passado longínquo, o homem deve ter sentido. “Viver é mágico”, refletiu Damastor. “A gente fica atrás da magia dos contos de fada, passa grande parte do tempo correndo atrás de fórmulas mirabolantes para transformar chumbo em ouro e, no entanto, a verdadeira magia está ali, ao alcance da mão humana.” Voar em asa delta era uma magia. A mesma coisa era navegar num iate. Ou cavalgar num corcel pelo campo, sem nenhuma preocupação que não a de ser um com a alimária e desfrutar a sua força num galope veloz pelo campo. Damastor era bom cavaleiro tanto quanto motoqueiro. Cavalo e moto se pareciam nisto.

O helicóptero guinou para a esquerda e sobrevoou um local escuro. “Ali não tem humanos. Deve ser mato. Não há nem luzes de residências… E o escuro é calmante. Tanto como uma corrida de moto.”

Assim, perdido em pensamentos, o detetive não viu quando chegaram à ilha. A seu lado, Ivaldo dormia. Pousaram nos fundos do chalé, numa área muito bem iluminada e com um círculo amarelo bem vivo desenhado no cimento. Karina e Milena estavam à espera deles. A repórter foi logo informando:

— O Azevedo já desceu para o local do ataque. Levou lanternas e dois asseclas… Ah, desculpem. Milena Forcis, este é Damastor, detetive de primeira grandeza. Milena é uma ricaça sensacional.

Os apresentados sorriram diante do comentário pouco natural e se apertaram as mãos. Milena gostou de imediato daquele forte homem grisalho e de sorriso másculo. Seu aperto de mão era como o de uma torquês, mas e­le soube dosar a força para não machucar. Exalava cheiro de suor, porém não era desagradável. Milena sentiu uma aura de segurança, determinação e força moral como não havia sentido diante do Delegado Azevedo. Este era o contrário. Tinha mão mole, flácida, úmida de um suor que causava arrepio de nojo. Era gordo e de banhas soltas. Suava muito e exalava um odor desagradável, embora usasse bons perfumes franceses. Por baixo da banha, contudo, adivinhava-se muita força física e o homem era surpreendentemente ágil para aquele corpanzil. O que mais incomodava, contudo, era ele não olhar de frente para o seu interlocutor. A vista estava sempre inquieta, fixando vários locais enquanto ele falava com alguém. Já os olhos da­quele detetive eram como aço. Fixavam-se nos da pessoa e pareciam penetrar-lhe até a alma. Aquele homem olhava a vida de frente, fosse ela feia ou bonita.

— Prazer, Dra. Milena — disse Damastor com um sorriso cativante. — Eu tive a ousadia de convidar meu companheiro para vir comigo. Espero não ter cometido nenhuma inconveniência.

Ele acabava de conquistar a milionária. Ela sempre tratara com policiais rudes, grosseiros e interesseiros. Aquele era o primeiro que lhe falava cortesmente.

— Não, não. Karina me contou sobre ambos. É um prazer tê-los co­nosco, embora as circunstâncias não sejam as melhores para um primeiro encontro.

Damastor apresentou Ivaldo e Milena simpatizou também com ele, embora notasse que estava com extremado cansaço. Era bem mais jovem, mas era também muito forte. O rapaz não sorriu. Limitou-se a apertar-lhe a mão com um leve meneio de cabeça e murmurou o nome de modo quase inaudível.

— Ele está muito cansado — disse Damastor. — Normalmente é falador e brincalhão. Queira desculpar a sua antipatia, sim?

— Oh, não, por favor — pediu Milena sorrindo. — Eu noto que seu parceiro está exausto e sinto muito mesmo que ele tenha sido forçado a se envolver neste caso desagradável. Por favor, venham. Tentarei tornar a estada de vocês dois o mais confortável possível.

E a anfitriã pôs-se a subir em direção ao chalé, seguida por todos.

— Você me paga — murmurou Ivaldo próximo ao ouvido de Damastor. O detetive limitou-se a rir.

Na ilha o sol ainda fazia chegar a sua luz. Enquanto a comitiva se dirigia para o chalé o Delegado Azevedo examinava o local da batalha. Viu os pedaços dos cães espalhados pelo terreno revolvido. Mais abaixo, encontrou uma cabeça de Dobermann, dentes arreganhados, olhos vidrados e segu­rando ainda um pedaço de garra de pata de jacaré. O Delegado abaixou-se e examinou aquilo. Era um dedo enorme e com uma unha de meter medo.

— Esse aqui morreu lutando — comentou para o detetive a seu lado. — Veja, ainda tem uma das garras do lagartão presa entre os dentes.

O comandante Argos também aproximou-se para ver o espetáculo macabro. Sim, a garra do animal era muito grande. Aquela unha, por si só, era uma arma mortal. “Caramba”, pensou com seus botões, “o bicho deve pesar acima de cem quilos.”

— É, foi um bravo — disse quando o Delegado o fitou. O Comandante Argos estava impressionado com o estrago no local. Com a pouca luz do en­tardecer podia ver sangue por todos os lados, pedaços de pele e muito mato arrancado até pela raiz.

— Eu não fazia idéia de que um jacaré pudesse lutar deste modo — disse o delegado.

— Nem eu. Aliás, jamais soube de um que se comportasse assim — informou Argos.

— Deve ser um bicharoco de tamanho respeitável… Talvez uma fêmea. Sei que elas atacam furiosamente quando sentem o ninho ameaçado. É verdade, não é, comandante?

— Sim… isto é, é o que também tenho ouvido dizer.

— O senhor acredita que esta seja uma fêmea?

— Não posso dizer que sim ou que não.

— Se fôr, então, temos de encontrar o tal ninho.

— Só que à noite não é recomendável. Pelo ruído que todos ouvimos lá do chalé, o bicho fugiu para o mar. Não foi morto pelos cães e parece que voltou. Aqui entre nós, eu não gostaria de enfrentá-lo… ou enfrentá-la.

— Temos armas.

— Eu sei, eu sei. Mas…

— Delegado, aqui! — gritou um dos dois detetives que havia desci­do em direção ao mar.

— O que foi? — e Azevedo desceu até onde estava o seu homem acocorado. Um braço humano, decepado à altura do bíceps, estava no chão cober­to de maribondos e moscas varejeiras.

— Santo Deus! – exclamou Argos. — Deve ser o braço do Dr. Khamal.

— Espante os insetos e recolha a peça — ordenou o delegado fria­mente. — Jorge! — chamou — Você descobriu alguma coisa mais, aí em baixo?

Lá da praia veio a resposta do homem.

— Não, delegado. Eu acho… Espere! Tem alguma coisa aqui.

— O que é? — E o delegado, seguido de Argos e de seu outro detetive, lançou-se terreno abaixo. Encontraram Jorge tentando pescar um pedaço de pano branco de dentro das águas, cada qual pegou uma vara e o ajudou no esforço. Quando finalmente retiraram o pano de dentro das águas salgadas viram tratar-se da perna de uma calça. Presa ainda aos farrapos estava parte da perna e o pé de um homem. O sapato mocassim estava encalhado sobre umas pedras debaixo dos galhos dos arbustos que se debruça­vam sobre o mar. Também o recolheram. Não havia mais nada e a luz estava sumindo rapidamente, dando lugar a uma escuridão inquietante. O quarteto regressou ao chalé. Ao entrarem na ampla e bem mobiliada sala deram com os dois detetives conversando animadamente com as moças. Ambos bebiam um “blood Mary” e estavam bem descontraídos. Azevedo não gostou nem um pou­co do que viu. Milena dirigiu-se a eles.

— Encontrou alguma coisa, delegado?

— Sim — respondeu Azevedo apontando os sacos em poder de seus homens. — Alguns pedaços de um homem. Talvez de seu amigo médico. Vou levar para as análises. As impressões digitais, contudo, poderão confirmar as suspeitas. Sabe, Dra. Milena, não é bom ter um bicho como este que estraçalhou o homem, como animal de estimação.

— O… o quê? — surpreendeu-se Milena.

— Digo que o tal jacaré deve ser cria da ilha, não é? Eu tenho visto alguns perdidos por aqui, mas nenhum deles seria capaz de um tamanho estrago. Teria de ser um animal criado. Sei que muita gente rica… como a senhora, por exemplo, gosta de possuir animais selvagens exóticos como bichos de estimação. Há até quem tenha leões e tigres, pode? Animais selvagens, são selvagens. Não se pode domar suas naturezas brutas. Um jacaré, creio eu, é um dos mais primitivos e mais instintivos que há. Sua ferocidade é notória. Não estou dizendo que a senhora tivesse conhecimento de que esta prática seja condenada até por lei, mas…

O olhar do Delegado não se fixava diretamente em ninguém e enquanto ele falava, passeava displicentemente pela sala, tocando um objeto aqui, pegando outro ali… Terminou diante da espantada milionária, que o olhava com olhar de total espanto.