A aldeia de Bryan era como esta, mas tinha uma centena de casas a mais.

A aldeia de Bryan era como esta, mas tinha uma centena de casas a mais.

O dia na aldeia de Bryan foi de festa e muita alegria. Todos procuravam ser atenciosos com o esperto Issa que, com uma artimanha genial, tinha derrotado os aguerridos germanos. Issa não se fez de rogado. Dançou e bebeu vinho com os celtas e suas jovens raparigas, mas dispensou delicadamente todas as que para ele se insinuavam. A mesma coisa não fizeram seus dois discípulos celtas, que se entregaram de corpo e alma à luxúria do momento. Primus aproximou-se do Mestre e lhe tocou o ombro, cochichando-lhe no ouvido:

— Os celtas se entregam à orgia sem peias. Tu vais permitir isso?

Issa voltou-se para seu discípulo romano e perguntou, sério:

— Por acaso, Primus, consegues fazer que a parreira dê frutos antes do tempo?

— Claro que não. Mas…

— Então, esperemos que eles amadureçam. Até lá, que brinquem como crianças que são.

A estilosa casa do chefe Bryan.

A estilosa casa do chefe Bryan.

Era a noite e a festa ainda continuava, mas Issa chamou seus prosélitos e com eles se afastou da aldeia. Não foram de volta para a mata, mas sim para dentro da cabana que lhes tinha sido reservada pelo chefe Bryan, cuja alegria estava no auge e o respeito pelo feiticeiro e sábio de terras longínquas encontrava-se no auge.

— Sentai-vos e serenai vossos espíritos — pediu Issa, atiçando o fogo numa lareira rústica. Os celtas Atonchau e Luprécio estavam zonzos pelo vinho e riam alto, cambaleando os corpos abraçados. Trocavam carícias íntimas e beijavam-se na boca. Issa estendeu a mão sobre suas cabeças e instantaneamente os dois se viram livres dos eflúvios do álcool. Olharam-se censurosos e se separaram, abaixando os olhos envergonhados.

O Rei dos Reis ensinava com simplicidade e com exemplos.

O Rei dos Reis ensinava com simplicidade e com exemplos.

— De hoje em diante não mais sereis seres ambíguos, meus irmãos. Para meu ministério não pode haver pessoas ambíguas quanto ao sexo a que pertencem. Vós, ambos, sereis homens, com todos os atributos de homens e com vossos comportamentos bem definidos como homens. Vossa condição nesta encarnação está por mim apagada aqui e agora. O que fizestes e o que fostes deve ser banido de vossas mentes e de vossas lembranças. É um sacrifício que caberá a vós somente. Não vos aliviarei desta tarefa.

Os três discípulos de Issa se entreolharam e Atonchau pigarreou, baixando a cabeça envergonhado. A mesma coisa fez Luprécio, afastando-se de seu companheiro.

— A Sabedoria, meus filhos, clama incessantemente pelo Bom Senso e este só lhe pode responder se tem visão para enxergar quando a pessoa não se encontra em sonância com seus irmãos. Os vícios da carne são poderosos, eu o sei, pois muitos deles têm raízes em um carma passado. No entanto, o desafio que deve enfrentar aqueles que possuem tais raízes pregressas em seu ser mortal de hoje é sobrepor-se a elas; é extirpá-las sem que reste a mínima radícula em sua condição atual. Sofrerá? Sim, mas não a dor física e sim a dor moral e a dor emocional, as quais não ferem o físico, mas voltam-se como acúleos contra o verdadeiro Espírito. A luta, pois, é espiritual e, não, física, mortal. É neste campo que acontece o verdadeiro combate do Homem, meus filhos. Viste, hoje, como os desafios vulgares, da carne, da vaidade e da ignorância, tudo isto tolo, vil e passageiro, pode ser ludibriado pelo espírito esclarecido. Eu não me rebaixei ao nível do orgulho tolo e vulgar. Preferi mostrar a todos os que têm olhos de ver que o verdadeiro Espírito está acima de tolices e vulgaridades impróprias para ele. O orgulho, a vaidade e a ignorância do campeão dos germanos desabaram diante de mim, não porque eu tenha feito algo para que tal acontecesse, mas apenas porque deixei que sua impertinência se voltasse contra eles mesmos.

O Prazer Coital é a mais mortal armadilha contra o Espírito. Infelizmente, ela se encontra no nosso próprio corpo.

O Prazer Coital é a mais mortal armadilha contra o Espírito. Infelizmente, ela se encontra no nosso próprio corpo.

O acicate da carne, que vos parece impossível de ser vencido, é como o trio do orgulho, da vaidade e da ignorância que venci com bom-humor e sorrindo. Isto só faz quem domina a Sabedoria, um dom que se desenvolve no Espírito através do Conhecimento, uma arte de aprendizagem que se restringe à alma mortal, à aprendizagem e ao passageiro. No entanto, sem o Conhecimento, a Sabedoria não poderia agir e se mostrar como a verdadeira guia dos homens na terra. O Conhecimento é inerentemente mutável e se encontra em constante transformação. Mas a Sabedoria é perene, serena e quieta, pois é dela o privilégio de dispor do que o Conhecimento amealha em sua inquietude.

Aos homens de bem e Conhecimento é que a Sabedoria clama constantemente; é a esta classe de homens e a seus filhos que ela dirige sua voz, ouvida apenas no Espírito. E para que tomeis consciência desta voz que clama no deserto de vossas consciências mortais, tereis de voltar para vosso interior toda a vossa atenção; tereis de silenciar vossos pensamentos inquietos e cheios de energia emocional vulgar e dispersiva; tereis de viverdes em paz convosco mesmo, acima e além do acicate do Carma, pois este não deve jamais vencer o Espírito que batalha para trilhar a senda estreita que leva à Casa de nosso Pai e às suas muitas moradas. Se tiverdes a coragem de manter vossa luta até o final de vossa vida mortal, então, certamente vencereis o combate e ganhareis uma das moradas gozosas que a Casa de Nosso Pai tem para vos ofertar. Mas se vos deixais cair nos prazeres vulgares e passageiros da carne, crede em mim, ganhareis moradas más, de dores, vergonha e arrependimento. E tereis de refazer todo o caminho percorrido e vivenciar de novo todas as provas em que tiverdes sido reprovados. Pois eu vos digo com certeza que a Justiça do nosso Pai não tem falhas. Em Sua Excelsa Casa não entra quem tenha uma só mancha, por menor que seja, em suas vestes. E os vícios da carne são manchas avistadas de longe, meus filhos.

O prazer carnal é restrito ao homem e à mulher. Só a estes dois sexos ele foi destinado. Quando acontece haver desvios como os que vivenciastes até hoje, é que cometestes erros  estúpidos e animalescos em vossas vidas pregressas e aqueles erros, adstritos ao prazer do conúbio, terminou por desviar-vos e a todos que deles abusaram, da evolução sadia e certa. Então, sois obrigados a trilhar um longo caminho para retornar à senda sadia da Evolução e este desvio pode, bem, atrasar-vos de modo definitivo e deixar-vos para trás enquanto os felizes vencedores da Vida na Carne seguem adiante.

— Mestre — cortou Luprécio — podeis ser mais específicos? Eu estou confuso…

— Pois não. Tu, por exemplo, em vidas passadas foste mau, muito mau. Não apenas no sentimento, mas e principalmente na ação. Gostavas de humilhar os que vencias em combate pondo-os de quatro e servindo-te de teu membro viril como aguilhão para penetrar-lhe os ânus e não somente humilhá-los como, ainda, feri-los. Muitos morreram em razão de tuas ações degradantes. E desenvolveste o gosto pelo prazer de ver o sofrimento do outro. Então, passaste a cometer as mesmas ações com as mulheres que te caíam nas mãos. Mas elas, por serem receptivas pela própria natureza, logo desenvolviam o gosto pelo prazer desviado e, com isto, tornavam-se praticantes ativas do prazer transviado. Com isto, meus filhos, estimulavam de modo absolutamente errado, os centros de forças cósmicas que entre os budhistas são conhecidos como Chakra Mûladhara e chakra Svadhisthana. Tais chakras não conferem aos que os estimulam erradamente boas intenções nem bons sentimentos. Daí que são pessoas tendentes à traição, à mentira, à maldade e à ferinidade.

— O que são chakras? — Perguntou Primus, totalmente atento ao que ouvia.

— Centros de forças com raízes localizadas em vossas colunas espinhais, cujas bocas se abrem como pequenos discos na superfície de vossos corpos físicos. Não são visíveis porque a matéria em que existem vós não podeis ver com os olhos da carne, mas somente com os olhos espirituais. O Chakra Mûladhara tem relação direta com vossos instintos mais baixos e vossas reações emocionais mais impulsivas, violentas e animais. O prazer, nele, é uma energia bruta, voltada para a dor e o sofrimento. É a radícula do Amor que um dia devereis experienciar em sua forma mais bela e mais pura. Já o chakra Svadhisthana tem sua boca sobre vossos genitais e é responsável por toda a vossa energia relativa ao prazer, qualquer prazer, mais com mais afinidade com o prazer do ato conubial. Este prazer rude, grosseiro, chega até aqui vindo do chakra Mûladhara, daí que vosso ato conubial geralmente tem muito de violência e grosseria. Poucos são os que ultrapassam estes dois chakras e estimulam o chakra Manipura, cuja boca se abre um pouco abaixo de vosso umbigo. Este chakra, meus filhos, é a verdadeira encruzilhada que tendes de vencer, pois só quando vós o ultrapassais é que podeis ascender ao vestíbulo da Casa de Meu Pai. E este vestíbulo vós também o tendes em vós no chakra Anahata, ou Chakra do Coração. Pelo centro de força deste chakra chegam dos céus as forças do Amor Puro, quase divino, que fará que compreendais a razão de terdes a obrigação de vos amardes uns aos outros como irmãos que sois. Eu vos esclarecerei mais, muito mais, sobre a importância dos chakras para vossa ascensão espiritual. Sem este conhecimento dificilmente conseguireis avançar na Escada de Jacó.

— Que escada é esta?

Issa sorriu e disse que falaria dela no devido tempo. Retomando seus ensinamentos, continuou.

— Eu vos digo e deveis meditar sobre o que ouvis: melhor é ter a Sabedoria do que todas as riquezas de mais subido valor na terra. E tudo o que julgais apetecível com a Sabedoria não se pode igualar nem mesmo comparar. Ela habita no bom conselho e se acha presente nos pensamentos judiciosos retos e certos. Mas não podeis tê-los se vos comprazerdes em mirar para fora de vós mesmos; para as tentações do mundo e da carne. Escutei-me com atenção: toda a beleza que podeis verdadeiramente enxergar é aquela que vossas ações, vossas palavras e vossos pensamentos plantaram em vossos corações. O coração humano é o Jardim do Éden, o Verdadeiro. O Éden foi o primeiro jardim que o Criador colocou na Terra, mas não em um lugar específico do mundo que podeis ver e tocar, mas sim no vosso íntimo, pois ao Criador, nosso Pai, o mundo não interessa senão como uma escola onde Seus filhos devem estudar, aprender e se desafiarem para descobrir o quão forte se tornaram frente às ilusões, ao Mâyâ traidor.

Descobri vosso Pai dentro de vós mesmos, pois é aí que Ele está constantemente. E chegareis a Ele vencendo os vícios carnais e as tentações do mundo do Mâyâ, a Ilusão. Mas nunca façais como os fariseus de minha terra natal, que se fecham em crenças vãs e leis fúteis, que não regulam senão a má vida que ditam aos outros e a si mesmos. Fariseus são pessoas que adotam um partido político que tem leis fúteis e ilusórias, que mais levam ao erro do que à Verdadeira Vida. Crêem-se os Santos, quando, na verdade, não passam de demônios iludidos por seu próprio orgulho e sua própria ganância pelos bens carnais. Estes estão condenados pelo meu Pai e sofrerão durante muitos séculos a cegueira em que vivem hoje.

Não julgueis os celtas que, neste momento, se entregam, sob os eflúvios do álcool, aos comportamentos mais bestiais. Basta-lhes que suas consciências lhes acicatem a alma. É ela, a consciência, a juíza implacável do homem e eles, a duras penas, aprenderão o erro, compreenderão a verdade e retificarão seus caminhos. Assim deve ser com todas as raças humanas sobre a Terra.

Agora, deixai-me que desejo repousar. É longa a noite e desejo passá-la em sonhos bem-aventurados.

E dizendo isto, Issa buscou seu leito feito de palha e um lençol sobre elas. Estendeu-se a fio comprido, fechou os olhos e logo dormia a sono solto.

Quietos, meditativos, com os pensamentos dando volta em suas cabeças, seus discípulos viram o dia clarear sem pregar os olhos. Primus revirava uma sentença de seu Mestre na mente: “Nem uma folha cai do galho de uma árvore que não seja pela Vontade de Meu Pai que está no Céu”. Então, pensava ele, não era pela Vontade do Pai que os homens fornicavam no erro e no vício? Por que o Pai desejava isto, se o Mestre não aprovava nada daquilo? Estaria o Filho contra a Vontade de Seu Pai? O romano decidiu que na primeiro oportunidade questionaria seu Mestre a respeito deste dilema.