Aonde ele chegava era cercado por crianças e mulheres. A elas, Issa ou Yehoshua dava toda atenção e carinho..

Aonde ele chegava era cercado por crianças e mulheres. A elas, Issa ou Yehoshua dava toda atenção e carinho.

O dia amanheceu claro e frio. Mas Issa já se havia retirado bem cedo da cabana cedida por Bryan e Allan o procurava sem êxito. Ninguém sabia dizer para onde fôra, nem mesmo seus discípulos, os celtas Atonchau e Luprécio, ou o romano Primus. Era desejo de Bryan fazer uma homenagem ao feiticeiro de um povo distante, mas suas intenções foram frustradas. Issa só retornou no dia seguinte, exatamente à segunda hora (oito horas no nosso tempo). Encontrou a tribo atarefada nos afazeres da limpeza da vila, cheia de restos dos festejos dos dias anteriores.

— Issa! — Gritou Atonchau, o primeiro a enxergar o Mestre — Todos te procuramos. Onde estavas que não te encontramos?

— Com o rei Armínio, dos germanos — respondeu o Mestre acariciando a cabeça loira de um menino que correu para ele e se abraçou às suas pernas.

— O quê?! — Exclamou, espantado e arregalando os olhos, Bryan que correra para perto dos dois tão logo ouvira a exclamação de Atonchau. — Tu vens da aldeia do germano?! E inteiro? Como conseguiste este milagre? Certamente ele te odeia mais que tudo, visto que humilhaste seu campeão!

Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem a seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai.

Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem a seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai e do bem-viver.

— Um homem muitas vezes conquista uma imagem que não lhe faz jus — disse Issa, sorrindo. — Armínio, o rei dos germanos, é um homem de honra e é justo. Ele me recebeu sem agressividade e com curiosidade, pois pensava que eu pertencia à tua aldeia, chefe Bryan. Mas eu desfiz aquela sua impressão. Fiz-lhe entender que eu não pertenço a aldeia de ninguém, nem a nenhum povo em particular, mas a todos os povos e a todas as aldeias. Disse-lhe que era por isto que eu ia a ele sem guarda armada e despojado de armas de quaisquer espécies. Como um rei bom e justo, ele mandou que me servissem como o campeão de sabedoria que eu demonstrara ser. E ficamos amigos. Agora, podeis oferecer-me um desjejum? Tenho fome.

Ignorando a expressão de total pasmo dos que o cercavam, Issa tomou nos braços uma linda menininha de não mais que cinco anos e lhe deu um estralejante beijo na bochecha rosada. A criança abriu um sorriso franco e o mirou nos olhos, toda feliz.

— Quem dera que os homens conservassem a inocência das crianças durante toda a sua vida e a juntassem com a sabedoria da velhice. Se isto fosse possível, eu não teria de ter descido até este mundo — disse Issa, devolvendo a menina aos braços de sua mãe.

Levado pelo braço por Allan, o Mestre se encaminhou para a casa do chefe Bryan onde lhe serviram farta refeição, sem carne de espécie nenhuma, pois já sabiam que Issa não se alimentava de cadáveres, como ele mesmo dissera. Quando o Mestre, satisfeito, lavou as mãos na terrina com água que a cuidadosa esposa do chefe lhe colocara ao lado, Allan falou.

— Sei que o momento não é propício, pois acabas de te alimentar e todos queremos um momento de sossego depois de comermos. Mas ouvi de teu discípulo Primus, o romano, coisas interessantes sobre teus conceitos a respeito da Sabedoria. E há pouco disseste algo que me espicaçou mais ainda a curiosidade. Podemos, então, falar sobre teus ensinamentos?

— Como bem o disseste, gostaria de uma pequena pausa. Mas que se faça tua vontade, amigo. Vamos lá para fora, pois gosto de estar em contato com a criação de nosso Pai Celestial. A brisa livre que sopra por todo lado, o farfalhar das folhas, o canto dos pássaros, as luzes do entardecer, o brilho sereno da Lua no céu da noite, o riso das crianças… Tudo isto é uma riqueza que o homem não consegue prender próximo a si e mesmo tendo-a constantemente ao seu redor, não pode retê-la consigo senão na lembrança. E quando velhos e cansados, lembram-se de tudo isto com nostalgia. No entanto, tais riquezas estão sempre se reciclando, sempre se renovando, sempre presente na vida de qualquer um. Só que o homem, na medida em que vive e cresce e luta e mergulha na ilusão, perde a sensibilidade para estas belezas tão sutis como as asas da borboleta.

— Tu nos toca com tuas palavas — disse Bryan, reverente.

— Que bom! Sinal de que ainda tendes coração…

Uma árvore centenária de Carvalho ("Shishkin DozVDubLesu 114" por Ivan Shishkin - http://lj.rossia.org/users/john_petrov/163152.html. Licenciado sob Domínio público, via Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Shishkin_DozVDubLesu_114.jpg#/media/File:Shishkin_DozVDubLesu_114.jpg)

Um Carvalho centenário (“Shishkin DozVDubLesu 114” por Ivan Shishkin – http://lj.rossia.org/users/john_petrov/). Licenciado sob Domínio público, via Wikimedia Commons.

Issa encaminhou-se para o frondoso carvalho cuja copa parecia querer cobrir toda a aldeia e de onde o visgo pendia abundante. Ali, Issa sentou-se em um rústico banco de madeira e aguardou que todos tomassem assento diante de si. Não somente Allan e Bryan, mas todos os anciãos e muitos guerreiros e mulheres correram para ouvir suas palavras. Ele passeou os olhos sobre aquela gente e sentiu imensa ternura por todos. Seus olhos se umedeceram, mas o Mestre não desviou o olhar. Chamou para si três crianças que lhe estavam próximas e tomando duas delas, duas meninas, colocou-as no colo. Então, alisando seus cabelos falou.

— Olhai para elas, meus irmãos. Em primeiro lugar, são confiantes, coisa que vós, adultos, já não mais são. A confiança é necessária e imprescindível no relacionamento humano. Mesmo entre reis adversários, um deve confiar no outro, na sua dignidade e em sua capacidade de aceitar decidir as querelas através do diálogo, pois foi para tanto que nosso Pai Celestial vos concedeu o dom da palavra e da compreensão.

Em segundo lugar, as crianças são simples e se contentam com a simplicidade. Se quiserdes ser felizes, procedei com a simplicidade da criança, ainda que não vos sejais permitido dispensar vosso conhecimento das situações e dos dilemas em que vos encontrais. Sejais simples de coração e de palavras; sejais simples de intenções e de ações sem, contudo, serdes estúpidos e incautos. A vida que viveis na Terra não foi feita de flores e bem-aventuranças, mas de desafios constantes, de perigos sempre iminentes, de armadilhas que deveis estar prontos a evitar sem, contudo, vos irritardes contra elas. Estas crianças, quando brincando encontram o escorpião, não se apavoram nem se desarvoram, mas simplesmente o enxotam de onde estão e voltam às suas atividades lúdicas. Se encontram um buraco, não entram em pânico, mas evitam permanecer perto dele a fim de não se machucarem. Sejais como as crianças, que vendo o perigo e o desafio, tanto quanto lhes seja possível evitam-no para não perder a alegria de viver.

Valorizai as coisas simples da vida e, não, o ouro e as riquezas. Estas, só são riquezas diante da cobiça que nasce, cresce e é alimentada nos vossos corações e nos vossos sistemas sociais. Em verdade, em verdade, eu vos digo que uma pedra preciosa não passa disso: uma pedra. Ela jamais saberá que é preciosa, senão apenas em vossas mentes desvairadas. Eu vos pergunto: tendo sede e fome e encontrando diante de vosso caminho um prato de comida e um punhado de pedras preciosas, a que escolheis?

— Logicamente à comida em primeiro lugar — disse, entre risos, Bryan. — Depois, então, a gente recolhe as pedras preciosas.

Todos riram e concordaram com ele com acenos de cabeça. Mas Issa ergueu a mão pedindo silêncio e se dirigindo ao chefe, perguntou:

— Estais na estrada e vossa caminhada é longa. A senda é íngreme e cheia de obstáculos, como sói acontecer por aqui por estas terras. Não será uma grande estupidez sobrecarregar-vos com o peso das pedras que não valem mais que pedras? Quem vos garante que encontrareis água para saciar vossa sede intensificada pelo esforço para carregar pedras a mais em vossa bagagem? Como eu disse, uma criança não levaria as pedras, mas escolheria a água sem hesitação. Por que vós escolheis as pedras?

Murmúrios se ergueram dentre os ouvintes que, agora, já eram quase todos os membros da aldeia.

— E não poderia eu levar as pedras e a água também? — Indagou um jovem guerreiro.

— E por que aumentar vosso fardo com o peso de pedras inúteis? Pois, como eu vos disse, as pedras preciosas são apenas pedras. O valor que lhes é atribuído vem tão-só da ganância e da inferioridade das almas mortais de certos homens que precisam de tais valores ilusórios para conseguirem se julgar superiores aos outros. Quanto mais frágeis se percebam diante de seus semelhantes, mais se apegam a ilusões que as crianças, como estas duas aqui, dispensam sem qualquer hesitação.

— Ora, um punhado de pedras preciosas que apenas pode encher minha mão não me sobrecarregaria, Issa. Eu as levaria facilmente…

Sem dizer nada, Issa se pôs de pé e tomou de um escolho que enchia sua palma. Chamou o jovem guerreiro e pediu que ele segurasse o escolho. Depois, pediu que este estendesse o braço para o lado e só o descesse quando recebesse ordem para isto. Sem entender bem o que desejava o jovem hebreu, o orgulhoso guerreiro obedeceu, rindo um riso de escárnio. Issa retornou ao seu lugar e retomou a palavra.

— Vós, homens adultos, vos agarrais à ilusão como se esta vos pudesse salvar de dificuldades. As pedras preciosas, assim como o ouro ou a prata, somente vos sobrecarregam com preocupações e medos. Uma criança que, tendo um brinquedo, sofre um susto com ele, não mais o deseja e evita tê-lo perto de si. Mas vós, ao contrário, apegai-vos à ilusão com quanto mais força quanto maior seja o perigo que aquilo vos traga de parte de vossos semelhantes que partilham convosco da mesma ilusão. E, para preservar o que julgais ser vosso, entrais em guerra e cometeis a barbaridade de tirar a vida a vossos irmãos. No entanto, ó insensatos e vis egoístas, todos vós morrereis e virareis pó. Mas as tais riquezas pelas quais vós matastes e até fostes mortos, continuarão sobre a terra, abandonada ao pó, até que outros estúpidos corram a tomá-las como suas. Até quando o homem persistirá nesta estupidez? Até quando não compreenderá que nada daqui realmente lhes pertence senão por empréstimo? Não amealheis riquezas exteriores, pois estas nunca vos pertencerão verdadeiramente. Amealheis as riquezas interiores da Bondade, da Caridade, do Perdão e da Harmonia, de par com a Alegria de fazer bem a todos quanto puderdes ajudar. Isto sim, é a verdadeira riqueza que o homem traz dentro de si e que, porque não está à vista numa forma sólida e palpável, não é valorizada. Mas em verdade, em verdade, vos digo: aos olhos do Pai Eterno só estas preciosidades são verdadeiras riquezas e só para elas Ele tem olhos.

— Como minha aldeia poderia viver sem ter riquezas, Issa? Como comerciar com outros povos se não temos o que lhes oferecer em troca de suas mercadorias, das quais nós necessitamos?

A pergunta de Bryan fez que dezenas de cabeças assentissem com acenos e uma balbúrdia se ergueu da platéia. Mas Issa novamente ergueu a mão pedindo silêncio. E voltou a falar.

— Eu vos digo agora o que direi ao meu povo dentro de alguns anos: “Dai ao rei o que é do rei e ao vosso Pai o que é de vosso Pai”. Com isto quero dizer que tendes o direito de trabalhar e receber em troca coisas que todos julgam de valor. Assim como recebeis isto, trocai isto sem hesitação pelo que precisais para vossas vidas, mas apenas e tão somente pelo que verdadeiramente necessitais para viverdes felizes. Ganhai vosso pão de cada dia dia a dia, sem vos preocupardes demasiadamente com o futuro, pois este vos é selado sempre. Vós, escolhidos para ser o chefe do clã, tendes a obrigação de planejar o bem-estar e a segurança de vossos concidadãos, mas não deveis exagerar no desejo pela opulência. Guardai o grão para os tempos de escassez, assim como guardai a riqueza material na medida exata do que vades precisar em tempos de grande necessidade. Mas jamais desejeis ter tanta riqueza que se tivésseis o direito de delas gozar em vidas futuras, em uma dúzia de encarnações não poderíeis dissipá-las. Ao contrário, empregai estas efemeridades ilusórias para o bem-estar de todos e, não, apenas de alguns escolhidos por vós, pois este procedimento só alimenta a corrupção de valores morais e éticos, além de danar vossas Almas Imortais, quando daqui partirdes. O pranto chorado depois do desastre não conserta o que foi quebrado nem faz cessar a dor resultante da fratura…

— Issa! — gritou o jovem guerreiro ao qual todos tinham esquecido. — Quando vais mandar que abaixe meu braço? Ele já está doendo…

Todas as cabeças se voltaram para o rapaz, que se inclinava para o lado oposto ao braço estendido, num esforço para mantê-lo estendido.

— Como? Tu, agora, sentes o peso de um escolho tão desprezível? — Perguntou Issa e acrescentou: — Vês, agora, que algumas pedras, quando levadas morro acima, bem podem aumentar o cansaço e o desconforto. Esse escolho, segurado por pouco tempo, parece insignificante, mas se sustentado por tempo demasiado torna-se um grande incômodo e, então, desejais livrar-vos dele. Assim é com as falsas riquezas terrenas. Quanto a ti, jovem estulto, podes descer o braço e faze com o escolho o que te der vontade.

O guerreiro desceu o braço e lançou para longe o escolho, passando a friccionar o membro dolorido.

— Filhos meus, não vivais a vossa vida de olho no futuro. Ele vos é interdito e é construído por vós, aqui e agora. O que fizerdes agora, ressonará no vosso dia de amanhã, portanto, não sejais leviano com o que fizerdes e o que disserdes hoje. E agora, ide-vos e meditai no que eu vos disse, pois há muito o que pensar em minhas palavras.

E dizendo isto Issa se levantou e se encaminhou para a floresta, seguido por seus três discípulos. Allan gritou-lhe:

— Aonde vais?

— Conversar com meu Pai. É conversando com ele que eu oro. Até amanhã!

E sumiu na mata.