Meu mais fiel companheiro de toda hora.

Meu mais fiel companheiro de toda hora.

Orozimbo estava sentado ao meu lado, assistindo o Bom-Dia Brasil, na TV Globo. Ele,quando adoeço, se planta aqui em casa e vez que outra me enche com suas beberagens. Lembra-me muito meu avô paterno e isto aumenta meu apêgo a ele. E eis que entra no ar o comentarista Alexandre Garcia descendo o malho no mau ensino da Língua Portuguesa e da Matemática nas escolas de primeiro grau. Orozimbo olhou-me de esguelha por um momento, mas como eu não disse nada, ele também se conteve. Então, quando o Jornal terminou, ele pediu seu café amargo, saiu de casa, acendeu seu pito, sentou-se em seu toco e permaneceu calado, pitando. Eu fui fazer minha obrigação matinal, conforme orientado pelo “Preto Velho” Pai Tomé, que, descobri, trata-se de um Nirmanakaya que cismou comigo e se elegeu meu Mentor Espiritual.

Há uma semana estou neste estado.

Há uma semana estou neste estado (dremerson,site.med.br).

Uma gripe de intensidade espantosa me derrubou. Dor de cabeça intensa, olhos lacrimejantes, dores por todas as juntas do corpo, coriza altamente incômoda, tosse, espirros, arrepios, febre, garganta inflamada e uma fraqueza que faz que eu sinta meu corpo como se pesasse um Pão de Açúcar. Alimento-me forçando tudo o que posso, pois a falta de apetite é total. Alguns passos pela casa e logo caio de cama. Ando zonzo e se subo dois degraus de uma escada tenho de me segurar em algo senão caio. Mesmo assim, irritado com esta situação inusitada, teimei e troquei três lâmpadas florescentes por três de led. Por pouco não caí do alto da escada, mas venci o desafio. Levei aquela bronca de meu amigo que, quando soube de como eu estive a ponto de sofrer um acidente, danou comigo. Não tenho equilíbrio se não estiver bem firme no solo ou me segurando em alguma coisa. Nunca me senti tão fraco, cruz credo!

Eis o senhor todo-poderoso das mentes da juventude atual.

Eis o senhor todo-poderoso das mentes da juventude atual.

Fiz um copo de chá de hortelã e fui-me sentar a seu lado. É bom, quando se é idoso, ter alguém que nos possa fazer companhia. A distância entre nós, idosos, e os jovens aumenta a cada ano. As bugigangas eletrônicas que os fascinam nós jogamos fora com desprezo e indiferença. Ai-fone, Ai-ped, Ai-porra, Ai-merda, Ai-que-diabo! Tudo isto é lixo pra nós. Eu mesmo não tenho paciência de ficar cutucando o celular Sansumg que comprei num impulso idiota há dois anos. Até hoje não aprendi a mexer no desgraçadinho. E pouco se me dá. Afinal, no meu tempo, telefone era para se falar através dele e receber a voz de quem estivesse do outro lado. Agora, telefone é um faz tudo, um tremendo dedo-duro. Se não se tem cuidado coloca-se a cara pra levar bolacha, como se dizia muito antigamente entre a malandragem do Velho Rio de Janeiro.

Orozimbo me olhou, tirou o cachimbo da boca, bateu a cinza no piso de cerâmica e tornou a colocar fumo novo. Acendeu, baforou e finalmente falou.

— Vancê tá perto de ir pro otro lado, né não, home?

— Estou, é? — E olhei para ele com uma interrogação nos olhos. Afinal, estou ao lado de um velho mandingueiro, que joga os búzios com mestria e pode até descer em corpo etérico aos mundos ditos infernais sem ser incomodado pelas almas penadas.

O Furioso em ação.

“Eu não sou peste! E não sou filho d’uma égua, diabo! Sou corrupto sim, mas isso aí, não!”

— E apois num é? Premero, cai derrotado com uma gripezinha de nada. Adispois, ove um home da TV falá o qui vancê vem iscrevendo em seu brogue há munto tempo sobre a burrice qui impera nas iscola e fica calado. Ove as notiça sobre os pulititica e num diz um “A”. Deixô de iscrevê sobre os peste fios dumas éguas. Véi tá istranhando vancê, home. De verdade.

“Meu reino não é deste mundo. Não mais” disse eu, rindo. 

— E teus fios? E tuas muié? Afiná tu teve uma renca delas, num foi?

— Filhos? Todos estão criados. Todos estão em seus caminhos tal e qual tinha de ser. Todos seguem na mesma direção que eu: o buraco do cemitério. Não vejo nenhuma razão para me preocupar com eles. Dei aos meus filhos o que um pai lhes pode dar: um modelo de homem másculo, honesto e valente diante dos desafios da vida. E um por um, todos eles seguem este exemplo como quem lê uma cartilha. Nada me é mais gratificante que isto. Cumpri, para com eles, minha obrigação de homem: ser Pai de verdade. E fui. A figura de Pai que eu plantei dentro deles frutificou e, hoje, eles mesmos são pais valorosos, iguais aos quais é muito difícil de se encontrar. De certo modo, eu me prolongo além de mim mesmo através deles. Quanto à renca de mulheres, bom, fui macho e fui homem para cada uma delas. Homem, não um arremedo de homem, como há por aí lamentavelmente. Até para com as que me maltrataram além do limite da resistência, eu fui exemplo de homem. Hoje, elas me respeitam e gostam de mim. Muitas já se foram desta para melhor, mas tenho a certeza de que nunca dirão um til negativo a meu respeito lá onde estiverem, o que julgo será bom para quando chegar minha vez de ser julgado.

— Hum-hum, nisto aí vancê tá certo. Mas véi ainda num tá acostumado cum vancê se calá diante dos disacerto qui vige no mundo todo. Inté o tempo ficô doido, né não?

— E você sabe melhor que eu a razão de o tempo ter enlouquecido, meu velho. Não se faça de tonto.

Ele virou-se para a grama, lá abaixo de nossa varanda, e permaneceu calado. Dava a impressão de estar olhando além da grama, além do chão.

Isto virou frenesi pelo mundo todo. Eu vou morrer sem aprovar tal desvio.

Isto virou frenesi pelo mundo todo. Eu vou morrer sem aprovar tal desvio (Foto do UOL).

— Vancê tá certo, home. Os tempo são chegado. Mas as gente num percebeu isto. Não ainda. Mas logo, logo, vão percebê. Só qui será tarde demais, né mermo? Os dia tão mais curtos e as noite tombém. As pessoa tão perdida, correndo pra todo lado e num saindo do lugá. A temperatura anda subindo e vai subi mais, inté causá bôia na pele dos qui se arriscá sair sem um guarda-sór bem grosso pra se denfedê do sór. A água tá iscassiando e vai iscassiá mais, munto mais. E num é só aqui, não. É em carqué parte desta Terra. Num se tem mais limite em nada e num se sabe mais o qui é Morá ou Imorá; nem o qui é Certo ou Errado. Tombém num se tem mais educação. Todos sujam tudo, mas curpam o Governo, cuma se um guvernante fosse um paizão qui tem a obrigação de saí pur aí limpando a sujidade de seus fios má-educado. As cidade fede a azedo e a chorume de lixo. Quando chove, arre égua! É uma fedentina só. E tudo intope. E as pessoa são arrastada pela enxurrada. Pessoas, carros, casas, tudo. E pru quê? Pela má educação dos disgraçados que só sabem cobrá dos otro, mas num cobra de si mermo. Tudo está imbruiado cuma o diabo, num sabe? As bicha querem casá, cuma se isto fosse possive. E uma multidão de aloprado bate parma pra elas, tadim… Criança traficá droga num é crime, mas é crime adurto fazê a merma coisa. E pur acaso a criança de hoje num será o adurto de amenhã? Entonce, pru qui é qui tem de tê duas medida pra um mermo crime? Foi isto que os pulititica lá na Casa Grande aprovarum, num foi mermo? Criança furá o bucho de um véi, cuma um peste furô o meu, num é crime; mas se um adurto fizé isto, aí sim, é crime. Quá qui é a diferença, vancê sabe? O bucho furado vai sempre duê, ora!

Dei de ombros.

— Tu num vai dizê nada?

Garotos como estes "soldados do Crime Organizado" no Brasil de hoje não merece piedade, mas a morte pura e simples.

Garotos como estes “soldados do Crime Organizado” no Brasil de hoje não merece piedade, mas a morte pura e simples.

— Vou dizer que se uma “criança” dessas aí tentar me atacar com uma faca, um revólver, um cacete ou seja lá que objeto seja, vou deixar o endemoninhado paralítico; vou quebrar sua coluna vertebral para que não mais atente contra outros menos dotados que eu em defesa pessoal. E farei isto sem dó nem piedade e sem culpa na minha consciência. Como você fez, não sabe? Ainda tenho forte dentro de mim o velho ditado de minha terra: “Cana que não serve para engenho a gente corta e joga fora”. E criança que perdeu o rumo da humanidade por desleixo ou abandono dos pais, não é gente. É bicho. E de bicho todos temos o direito de nos defender, a despeito do que possam dizer os emproados defensores dos Direitos Humanos ou os polititicas em seus discursos vazios até mesmo de vergonha. Sabe, Orozimbo, eu ainda acredito que “bandido bom, é bandido morto”. No nosso Brasil, não há alternativa. Aqui, tem de ser a Lei dos Judeus: Dente por dente, olho por olho”. Ou você mata, ou você é morto e vira notícia para os Noticiários. Depois, é solenemente esquecido, pois há outros “candidatos” aos 15 segundos de fama televisiva. A fila é imensa, pois no Brasil morre uma pessoa assassinada a cada trinta minutos. Aqui não há casa de recuperação de marginais, de abandonados pelos pais e pela sociedade. Aqui há UNIVERSIDADES DO CRIME e até os polititicas falam isto aos brados, apenas querendo aparecer na foto, pois fazer algo a respeito nem pensar. Aqui, no Brasil, é no salve-se quem puder. Então, eu vou-me salvar enquanto puder. Meu corpo é o Templo de Meu Deus e a este templo tenho o dever de defender, compreende? Por isto, se uma “criança” tentar me ferir, vai-se danar. Vou fazer como você fez.

— Véi num alejô o peste, nhor não. Só deu um catiripapo de pé nas oiças do disgraçadim. Mas bem qui sua idéia é boa, num sabe? Da próxima, véi vai lembrá do qui vancê dixe…

Ele se calou e eu também. A conversa me deixou um ranço de raiva reprimida de mistura com uma grande amargura porque nunca pude fazer nada do que em meu íntimo sei que faria se tivesse enveredado pela Política. Ou meu país estava entre os primeiros do mundo em Educação, Moral, Civismo e Tecnologia, ou todos estaríamos no fundo do poço de uma guerra sangrenta e furiosa. Mas com certeza não estaríamos neste rame-rame de impotência, leniência e exagero de paciência…

Um cansaço muito grande de mistura com um pranto que não chorei desceu sobre mim. Cansaço e abatimento moral pelo que nossa conversa me despertou. Então, pedi licença ao meu velho companheiro e fui para minha cama. Em pouco tempo dormia…