CAP. X (Parte II)  – Desmontando a Armadilha do Delegado

Fenômenos estranhos começam a acontecer na ilha paradisíaca de Milena.

Fenômenos estranhos começam a acontecer na ilha paradisíaca de Milena.

— O senhor está insinuando que eu… — Milena sentiu a raiva tomar conta de si.

— Não, não. Estou apenas fazendo uma suposição plausível. Desculpe se a irrito, mas é minha obrigação, compreende?

— Com base em quê o senhor supõe tal coisa, Delegado? — E Damastor aproximou-se do grupo acompanhado por Ivaldo.

— Não se intrometa, rapaz. Você está fora de sua jurisdição. Posso saber o que está fazendo aqui?

— Vim ver uma amiga — respondeu Damastor, olhando fixamente para o Delegado. Este tentou sustentar o olhar, mas não conseguiu.

— Eu o convidei – disse incisiva a milionária. — Não é proibido, eu acho.

— Não, não é — concordou o delegado disfarçando a raiva. — Só é curio­so que tenha vindo fazer uma visita a uma hora destas e num momento como este.

— Eu diria mesmo que é suspeito — insinuou um dos outros detetives de Azevedo.

Ivaldo postou-se diante do colega e lhe pousou a mão sobre o om­bro.

— Quer repetir o que disse? — e fez pressão sobre o músculo trapézio. O homem curvou-se e fez uma careta de dor. Olhou para Ivaldo e este meneou negativamente a cabeça, negando-lhe o direito de reclamar da dor a que o submetia.

— Desculpe — pediu o homem entredentes. — Eu não quis dizer isto.

— Mas disse. E eu não gosto que insinuem nada a meu respeito sem provas concretas, colega. Tem alguma?

— Não, não — e o homem tentou safar-se da garra que lhe apertava desapiedadamente, o músculo.

— Então, fique de boca fechada — recomendou  Ivaldo fuzilando o colega com os olhos.

— Que está fazendo, detetive? — inquiriu Azevedo irritado.

— Nada. Apenas converso com o nosso… amigo. Não é proibido, é? — E Ivaldo deu tapinhas amigáveis no peito do homem, afastando-se. Azevedo olhou fixamente para o seu subordinado, mas ele desviou os olhos e disfarçou a dor que ainda sentia.

— O senhor não nos respondeu, Delegado — provocou Damastor.

— Respondi a quê? — perguntou o homem suando em bicas.

— À pergunta que fiz quanto à sua suposição sobre o jacaré ser uma cria da ilha. Em que se baseia para tecer tal suspeita?

— Já disse que não é suspeita. É… uma observação. Apenas isto.

— Oh, uma observação. Interessante. Mas o que o levou a tal coisa, podemos saber?

— Ora, o tamanho da fera — respondeu o Delegado de mau humor.

— Ah, supomos que o senhor viu o bicho, pois não?

— Você está-me questionando, detetive?

— Não é só ele, delegado — disse Milena. — Somos todos nós. Afinal, sua suspeita põe a mim numa situação desagradável.

— E nós não gostamos disto — disse Argos com um olhar ameaçador.

— Um jacaré natural não atinge a um tamanho destes… — começou o Delegado, mas foi interrompido por Damastor.

— Oh, a que tamanho o senhor se refere, Delegado?

— Diabos, não estou gostando de sua atitude, homem — disse Azeve­do aborrecido.

— Nem nós da sua, Delegado — respondeu Karina, — Sabemos que o senhor não é um homem limpo. Cuidado com o que intenta fazer.

— Isto é uma ameaça? — quase gritou Azevedo. — Se é, você se coloca em situação delicada, moça. Estou numa diligência e posso dar-lhe voz de prisão.

— Com base em quê? — perguntou Ivaldo.

— Não é de sua conta, rapaz. Não se intrometa — rugiu Azevedo.

— Podemos testemunhar contra o senhor, Delegado. O senhor está levantando suspeita e ameaçando de modo antiético a uma pessoa sem ter nenhuma prova que sustente sua acusação — disse Ivaldo avançando um passo e fazendo com que o Delegado, involuntariamente, recuasse outro.

— Quem disse que não tenho?

— Não apresentou nada até agora — rebateu Ivaldo, firme.

— Eu disse que suponho que o jacaré foi criado na ilha. Eu não a­firmei nada. E supor não é crime. É nosso dever. Todos os ângulos da questão têm de ser averiguados — falou o delegado nervosamente.

— Concordo plenamente, delegado — falou Damastor. — Mas no presente caso o senhor está supondo muito. Por exemplo: o senhor está supondo o peso do animal. Pelo peso, supõe o tamanho. Por estas suposições chega a uma terceira: o bicho só pode ter este tamanho suposto se for criado em cativeiro na ilha. Para isto, com o consentimento da dona desta. A partir daí, supõe que a dona da ilha é irresponsável o suficiente para deixar o animal solto na ilha, embora sabendo que recebe pessoas aqui, como visi­tantes. Dra. Milena é conhecidíssima pelas suas festas nesta ilha. Nes­ta cadeia de suposições, convenhamos, o Dr. Delegado vai chegar ao absurdo de supor que a Dra. Milena Forcis, uma das mais respeitadas e conhecidas socialites desta cidade maravilhosa, é uma doente psicopata e se compraz em colocar seus amigos como comida de seu bichinho de estimação.

— Você está doido — protestou o Delegado agastado. — Eu jamais estive nesta linha de raciocínio.

— Oh, claro que não, claro que não. Todos aqui sabemos que o se­nhor é um Delegado zeloso e só escorregaria para tantas suposições capa­zes de trazer aborrecimentos desnecessários para uma pessoa respeitadíssima por mero descuido. No entanto, o Dr. Delegado esquece que a Dra. Milena tem amigos poderosíssimos e, depois de se safar facilmente dos aborrecimentos que o senhor lhe teria arranjado — por descuido, frisemos — poderia conseguir-lhe uma transferência para… digamos, São João de Meriti. A Delegacia de lá, o senhor é conhecedor, é muito incômoda para policiais e certamente seria um constrangimento ter de mudar-se para um lugar tão…tão violento e mortal, não é? — Damastor sorria, mas só nos lábios. O seu olhar era gélido como um iceberg. O Delegado engoliu em seco.

— Acho que está havendo um exagero proposital de sua parte, Damastor. Sei que você não gosta de mim, por isto está pintando as coisas des­te modo tão… tão trágico. Eu só procuro cumprir meu trabalho com zelo e cuidado. Acho que até a Doutora concorda em que estou no meu direito…

— Não, não, errado, meu caro Delegado — cortou Damastor. — A Dra. espera que o senhor lhe mostre onde o animal poderia estar sendo criado. Certamente que o se­nhor não seria tão estúpido a ponto de achar que ela o criava à solta, correndo inclusive o risco de ser a próxima vítima da fera. Isto sem contar, é claro, que seus tripulantes e o próprio comandante do Iate da Doutora já deveriam ter sofrido pelo menos um ataque do bichinho de estimação assassino. Assim, tem de ter um local específico para a criação do animal. E tem de ter alguém que cuidava dele, é lógico. A Dra. Milena é que não se daria a tal trabalho, pois não?

— É claro que não — enfatizou a milionária que estava adorando o modo como Damastor colocava o gorducho safado em maus lençóis.

— Eu não conheço a ilha e não posso… — começou o Delegado.

— Errado — cortou Karina. — Nós todas andamos com o senhor pela ilha toda e a mostramos em todos os recantos. O Comandante Argos nos acompanhou e pode confirmar isto. O senhor não pode negar que viu tudo nesta ilha, Dr. Delegado.

— Bem… quer dizer… eu não estava predisposto a notar um local assim. Buscava ver a fera…

— Ora, Dr. Delegado, um cercado com água dentro de um tanque muito grande para caber o jacaré de suas suposições teria de ser notado mesmo que a pessoa não estivesse prevenida para isto. E como o senhor acaba de dizer que procura cumprir com o seu trabalho de modo zeloso e cuidadoso, indagaria naturalmente para que serviria o criadouro… É, ou não é?

Azevedo ficou mudo e se sentindo incômodo dentro das calças.

— Bem, sabemos que seria assim — disse Damastor pelo Delegado. ­— Agora, diga-nos, Dr. Delegado: o senhor viu algo ao menos parecido com um criadouro… fosse de que espécie fosse, aqui na ilha?

O Delegado Azevedo levou algum tempo para menear negativamente a cabeça.

— Ótimo. Não viu, Eu pergunto aos seus dois detetives: senhores, talvez tenha passado despercebido ao nosso Delegado um criadouro ou algo parecido. Assim, eu lhes pergunto: algum dos senhores chegou a ver qualquer coisa parecida com um criadouro?

— Só o canil onde estão os cães — disse um deles.

— Certo. E como está comprovado que o jacaré e os cães não se dão muito bem, então, ali não era possível guardar e criar um jacaré, estou certo?

Os dois detetives assentiram com um aceno de cabeça.

— Então, está definitivamente descartada esta hipótese para nosso diligente Delegado. Todos aceitamos isto ou… alguma objeção?

Ninguém se pronunciou.

— E o Dr. Delegado, o que nos diz?

— Estou de acordo — falou, após pigarrear, Azevedo.

— Ótimo. Alguma coisa mais que o Dr. Delegado queira colocar para que discutamos em conjunto?

— Não — disse Azevedo agastado.

— Muito bem. O Dr. Azevedo comprovou para nós que é um homem democrático. Só um espírito elevado suportaria com este estoicismo o ter a sua suposição dissecada como foi. Este é o trabalho de um bom policial. Ele tem a obrigação de suportar antipatias. Ele tem a obrigação de ser o advogado do Diabo e, assim, mostrar os ângulos mais obscuros do assunto que deve pesquisar. Tivemos, do Dr. Azevedo, uma demonstração brilhante de como um bom Delegado age, não se incomodando com as irritações que sua tarefa desperta nos não iniciados na difícil arte da polí­cia. Ele visa a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade. E se assim não fosse, qual seria a serventia da polícia para o Juiz, que deve julgar com base nas provas irrefutáveis que o policial lhe traz?

Damastor ficou em silêncio. Todos o olharam admirados e confu­sos. O que estaria ele querendo fazer? Quem respirou aliviado foi o Dr. Azevedo. Damastor o tirava de uma situação constrangedora e o transformava de vilão em herói. Ainda não entendia bem por que o fazia, mas sentia-se agradecido por isto. Ergueu a cabeça, seu olhar voltou a brilhar e seu corpo endireitou-se. Abriu um largo sorriso de satisfação e aper­tou a mão do Detetive, num súbito arroubo de euforia.

— Obrigado, Damastor, obrigado. Você foi brilhante. Realmente, a nossa profissão nos obriga a ser o Advogado do Diabo, mas a gente sem­pre espera a compreensão do público. Pena que isto não aconteça. É necessário que alguém de visão o explique com a clareza com que aqui tudo foi mostrado. Doutora, queira aceitar nossas escusas pela… pelo… o que quero dizer, é que só agimos dentro da mais lídima boa fé.

— Está bem. Dr. Gerião Azevedo, eu acho que compreendo. Eu estou meio envergonhada de ter pensado mal do senhor, queira desculpar, sim?

— Oh, tudo bem, tudo muito bem. Eu e meus rapazes compreendemos tudo, pode deixar. Agora, se nos dão licença, vamos embora e amanhã, acho que pela manhã mesmo, já lhe informo sobre os resultados da perícia. Quero que fique convicta da diligência da polícia nestes assuntos.

O Delegado apertou efusivamente a mão de cada um dos presentes, retirando-se como se fosse um rei. Estava muito satisfeito. Afinal de contas o bobão do detetive tinha-lhe feito um grande favor. Pintando-o, como pintara, com as cores de um herói diante de uma das mais sofisticadas damas da sociedade, dava-lhe um trunfo para usar quando tivesse de se defender de acusações incômodas que amiúde a imprensa lhe fazia. Isto vinha a calhar. O testemunho daquela mulher quanto a sua honestidade e probidade no zelo pelo trabalho o ajudaria e muito. Que tolo tinha sido ao pensar em se aproveitar da situação para tentar uma chantagem. Aquilo é que fora um ganho de verdade. E o melhor é que quem lhe proporcionara aquele trunfo fora justamente o detetive que mais lhe dava dor de cabeça. Ele desancara até mesmo aquela chata da Karina, uma reporterzinha em quem gostaria de meter umas azeitonas no tique-taque para que fosse desta pros quintos dos infernos. A abelhuda já o colocara em maus lençóis com suas reportagens fajutas.

A porta se fechou às costas do Delegado e de seus detetives e a repórter Karina se voltou disposta a brigar, para o detetive Damastor.

— O que diacho pensa que fez? — inquiriu ela, beligerante. — Co­locou aquele crápula como um exemplo de profissional. Mudou de lado, é? Virou a casaca, foi? Vamos, explique-se!

— Hei, calma, garota, calma. Eu tinha de fazer o que fiz. Você esqueceu que eu sou um detetive e ele é um Delegado? Esqueceu de que eu estou na cena de um crime em atitude suspeita, é? Eu estraçalhei o plano dele — e graças ao meu companheiro, Ivaldo, que foi quem me alertou pa­ra o que ele podia fazer — e o humilhei diante de todos.

— Desta parte eu gostei — disse Argos com um sorriso.

— E eu também — confirmou Milena.

— Pois então?  Eu o humilhei e diante de seus dois subalternos. O homem é vingativo e não iria ficar quieto. Certamente procuraria me atingir e eu estou vulnerável, você sabe disto. Eu precisava erguer uma cor­tina de fumaça diante dos olhos deles. Nada melhor que reerguer sua auto-imagem destruída por mim mesmo.

— Hum… — fez Karina ainda não de todo convencida.

— Eu acho que o detetive tem toda a razão — apoiou Milena. — E aproveito para pedir desculpa pela minha mentirinha… a de que eu o havia convidado, lembra-se? Eu notei que os senhores e ele não eram bons amigos.

— E não somos. Ele não gosta nem de mim, nem de nossas amigas a­qui presentes: Karina e Ludmila. Elas e eu damos muita dor de cabeça ao patrão dele.

— E quem é o patrão dele? — indagou Milena.

— O contraventor Kantor Antratos — disse Ludmila.

— Oh! — surpreendeu-se Milena. — E o senhor, detetive, acha tam­bém que é esse homem quem manda no Delegado de Angra?

— Não acho. É. E o Delegado, apesar da tacanhice em outras áreas, é muito esperto e ainda não foi caçado como devia. Aqui, ele está a salvo, para azar de Angra. Aquele delegado dá asas ao crime, Dra. Milena, e mais cedo ou mais tarde os senhores ricaços e donos de mansões neste re­canto paradisíaco do Rio de Janeiro vão ter muitas contrariedades. Acredite, espero que consiga ficar fora disto, mas eu duvido.

— Ahn… E o que o senhor pode fazer em nosso caso, detetive?

— Nada. O Delegado tomou as medidas corretas. No entanto, eu não entendi duas coisas. A primeira, por que o Dr. Khamal deixou as moças em transe e saiu? A segunda: por que ele foi diretamente para aquele lado? A ilha tem quatro sendas. A menor, mais íngreme e menos atrativa, pelo que a senhora nos contou, é justamente, aquela que ele escolheu. Por que?

— E há mais uma pergunta sem resposta — completou Ivaldo. — Como é que ele não ouviu a algazarra de vocês? Notei que daqui de dentro foi possível escutar os gritos não tão altos dos homens do delegado lá onde o jacaré estava. Como não ouvir três mulheres gritando a plenos pulmões?

— Esta é a pergunta que mais nos intriga — disse Karina. — Era impossível que não houvesse ouvido.

— Existe luz, lá fora, agora? São oito horas da noite…

— Estamos no horário em que o sol deita-se mais tarde, detetive. Ainda há luz solar, mas muito, muito fraca. Por que pergunta? — quis saber Milena.

— É que eu gostaria de solicitar às três amigas que estiveram lá fora com o jacaré que voltassem para lá, agora, e gritassem como o fize­ram antes. É possível?

— Bem… Tenho luz elétrica por toda a ilha. Posso mandar acender os postos que iluminam aquele setor — informou Milena.

As três moças entreolharam-se com muito pouca disposição para fazer o que era pedido.

— Ora, por que… — ia indagar Karina, mas Ivaldo a cortou.

— Eu vou com as senhoritas para prevenir qualquer surpresa — e segurou o cabo da sua 45. A arma serenou um pouco as mulheres.

— Mas por que não podemos deixar tudo para amanhã? — quis saber Tamara. Ela ainda não estava de todo convencida em ir lá àquele lugar de novo.

— Por que amanhã vocês já estarão mais descansadas e com menos adrenalina. A gritaria não seria convincente. Além do mais, o desânimo deverá ser bem maior, eu creio — disse Ivaldo com um sorriso convidativo.

As três amigas se entreolharam e terminaram por assentir com movimentos afirmativos de cabeça.

— Ótimo! – disse Ivaldo. —  Então, vamos!

E os quatro puseram-se a caminho. Todos os demais entraram no chalé.

— Argos nos disse que o Dr. Khamal pediu que todos fossem para a cozinha, não é? — perguntou Damastor. ­

— Sim — confirmou o comandante.

— Então, podemos ir até lá?

— Pois não. É por aqui — disse Luis pondo-se à frente. Desceram dois lances de escadas que levavam à espaçosa e muito envidraçada cozinha. Nada era rústico. Tudo do bom e do melhor e no estilo americano.

— Fechem as janelas — pediu Damastor a Luis e Andréa. Os dois obedeceram ao detetive.

— Aqui estavam o comandante Argos, vocês dois, e Clóvis, não era? —Indagou Damastor. Todos assentiram com um aceno de cabeça, curiosos pe­lo modo como o detetive se comportava.

— O que faziam?

— O comandante e eu verificávamos o forno de microondas, que parece queimado — informou Luis. Andréa preparava a massa para fazer lasanha e Clóvis lia o Jornal sentado aí perto de onde o senhor está.

— Ah, sei… — e Damastor ficou uns momentos a olhar em volta. Depois pediu: — Podem ficar onde estavam anteriormente?

Foi atendido de pronto. Todos estavam curiosos.

— As janelas, como estavam?

— Abertas, com exceção daquela que dá para o embarcadouro — respondeu Luis. Os outros confirmaram com as cabeças.

— Bom, não havia muito barulho aqui, suponho.

— Não, não havia — confirmou Argos. — Estava como está agora…

— Hum-hum… — fez Damastor andando lentamente pela espaçosa cozinha. Ele observava atentamente a disposição dos móveis e os janelões. A distribuição era muito bem feita e mesmo que se falasse em tom de voz médio-baixo e houvesse panelas fervendo era possível ser-se ouvido perfei­tamente.

— Tinha algum fogo aceso? Alguma coisa no fogão? — perguntou.

— Não — disse Andréa. — Ainda não.

— Então podiam conversar baixo que todos ouviam, não era?

— Era.

— Ludmila, Mara — chamou o detetive. — Por favor, subam para o escritório onde estavam na companhia do Dr. Khamal, sim?

— Por que?

— Fiquem lá. Depois me relatem o que ouviram e viram, sim?

As duas amigas se entreolharam e relutantemente acederam em subir à biblioteca.

Damastor deu tempo para que as duas chegassem ao local e voltou-se para os demais.

— Muito bem, vocês devem estar curiosos em saber o que pretendo. A verdade é que desejo reorganizar a situação o mais próximo possível daquela que vocês viveram quando do trágico acidente. É necessário que não tenhamos qualquer dúvida de que…

Não completou a frase. Uma tremenda gritaria chegou até eles e a voz de Milena era bem audível. Ela dizia: JA-CA-RÉ!

 Todos se ergueram num pulo. Luis correu para as escadas e Andréa, pálida, levou as mãos à boca para sufocar um grito de medo.

— Parem! — ordenou Damastor. — Não há jacarés. Elas estão apenas fazendo o que lhes pedi.

— Mas parece tão  real…—  disse Andréa, em dúvida. Os gritos eram de puro terror.

Mara e Ludmila também ouviram a gritaria e se precipitaram para a janela. Não dava para ver o lugar donde as três moças estavam gritando, porém ouviam-nas como se estivessem a menos de dois metros da janela.

— Santo Deus! — exclamou Ludmila. — O Jacaré voltou! Vamos, Mara.Precisamos ajudar…

Ludmila precipitou-se para a porta, mas Mara permaneceu à janela. De onde estava Ludmila não podia ver-lhe o sorriso de escárnio no rosto e o brilho malévolo no olhar.

— Não! Pare aí mesmo. Não há nenhum jacaré. Elas estão no chão e somente gritam.

Ludmila parou de chofre, cenho franzido. Vagarosamente retornou à janela.

— Como pode saber disto? Como pode ver onde elas estão?

— Eu não vejo, mas sei que é assim — disse Mara, voltando-se par evitar que Ludmila lhe visse o rosto. — Venha, vamos descer. O detetive quer falar conosco sobre sua… experiência.

E Mara encaminhou-se para a porta acompanhada de perto pela intrigada amiga. Encontraram os outros já na sala.

— Senhores — disse Damastor, — todos ouvimos perfeitamente a gritaria das moças lá fora. Elas reeditaram os gritos o mais próximo possível da altura em que gritaram quando anteviam o desastre. A pergunta a­gora é: por que, desta vez, todos ouvimos e no momento da morte do Dou­tor Khamal Adib Tanatratus ninguém ouviu nada?

Dois tripulantes do iate entraram esbaforidos na sala. Damastor os acalmou e foi ao aparelho de som e, após voltar a fita que deixara a­li, gravando, pô-la a tocar. Os gritos e as advertências gritadas pelas moças ali estavam, palavra a palavra. Um silêncio constrangedor envolveu a todos.

— Como acabamos de ouvir — falou Damastor, — é impossível não se escutar uma pessoa gritando lá embaixo. O Dr Khamal tem de ter ouvido o alarido de Milena, Karina e Tamara. No entanto, foi assim mesmo ao encontro da morte. Por que? Apenas duas pessoas podem-nos dar a resposta: Mara e Ludmila.

— Quê?! — espantou-se Ludmila.

— Nós estávamos sob hipnose — protestou Mara.

— Sim, esta é a verdade. Pelo menos a que temos até agora. Entretanto, Luis, Andréa e Argos estavam na cozinha. Tinham as janelas abertas e não se encontravam em transe hipnótico. Então, como é possível que na­da tenham ouvido?

Os empregados ficaram incomodados diante do olhar penetrante do detetive que os fixava.

— E o pessoal do iate? — falou tibiamente Andréa. — Eles, também, não parece terem ouvido nada. E a distância não é tanta assim…

— É verdade. Mais um enigma, não e? — concordou Damastor. E vol­tando-se para Mara:

— Você, suponho, foi a primeira a ser hipnotizada, não foi?

— Sim, fui eu sim — confirmou a repórter. — Eu era a principal interessada e fui quem se ofereceu primeiro.

— Então, a pergunta que tenho a fazer é para Ludmila. O que aconteceu lá em cima, Ludi? Enquanto o Dr. Khamal hipnotizava Mara, o que vo­cê observou?

Todas as atenções voltaram-se para Ludmila. A ruiva procurou concentrar-se. O raciocínio de Damastor estava correto. Se alguém podia ter alguma explicação era ela. Mas por mais que se esforçasse não conseguia a recordação de nada. Sua mente estava estranhamente vazia. Uma escuridão e uma sensação de vácuo muito incômoda era só o que conseguia com todo o esforço que fazia. Uma escuridão tenebrosa e uma horrível sensação de perigo iminente. Um perigo terrível, que ameaçava não somente a ela ou ao professor médico, mas a toda a humanidade. Esquisito, aquilo. De al­gum lugar lhe veio um nome estranho: Jean de Gisors.

— E então, Ludmila? — insistiu Damastor.

— Eu não me lembro de nada. Apenas me vem um nome de alguém que não conheço e de quem nunca ouvi falar — disse a ruiva, levando as mãos à cabeça.

— E que nome é esse? — perguntou Damastor curioso.

— É um nome francês… Jean de Gisors.

— Onde o ouviu? Por acaso o Dr. Khamal lhes falou sobre esta pessoa?

— Não sei. Eu não lembro de nada do que tenha acontecido lá em cima.

— Por acaso, Dra. Milena ou alguém, antes do encontro de vocês e o Dr. Khamal, falou sobre este senhor… Jean… Como é mesmo o nome?

— Jean de Gisors. Mas eu já disse: nunca antes ouvi este nome.

— Ele lhe surgiu agora…? — estranhou o detetive.

— Sim — disse Ludmila convicta.

 A porta foi aberta e todos, Ivaldo, Milena, Karina e Tamara entraram.

— E então — foi logo perguntando Milena, — vocês nos ouviram?

— Todos ouvimos tudo muito bem — respondeu Damastor secundado por acenos constrangidos de cabeça. Até a tripulação do iate as ouviu. Dois deles vieram correndo até aqui — e o detetive apontou para os que haviam acudido aos gritos das moças. Os recém-chegados se entreolharam.

— Então, — resumiu Argos o pensamento dos recém-chegados — como é que nenhum de nós ouviu nada, antes? Essa pergunta que vocês estão-se fa­zendo, nós a estamos escrutinando agora mesmo. Suas vozes foram até gravadas pelo detetive. A fita está aí para quem quiser ouvir. Mas os sons só nos chegaram desta vez. Por que?

A pergunta foi feita ao detetive.

— Eu não seis — disse Damastor. — Ao todo, vocês eram quinze, con­tando com a tripulação do iate. É pouco provável que houvesse um complô de silêncio entre todos. É impossível que todos desejassem a morte de um indivíduo conhecido apenas de uns poucos. Assim, somos forçados a admitir que algo inusitado e totalmente anormal ocorreu aqui, hoje. Mas o que?

A pergunta ficou ecoando no espaço e nos ouvidos de todos. Cada qual foi sentando, olhos e ouvidos pregados no detetive.

— Ludmila — continuou Damastor — não pode responder sobre o que aconteceu lá na biblioteca enquanto estava em companhia do doutor e de Ma­ra.

— É verdade – confirmou a ruiva. Eu sinto apenas um terrível vazio e uma esquisita sensação de perigo iminente… Um perigo que não é só para mim, mas que parece ameaçar a todos que estão aqui nesta sala.

— Bem, — disse Ivaldo — o perigo existe e é bem concreto. Tem uma boca com muitos dentes afiados e nós o chamamos de jacaré.

— Não, não — negou Ludmila, meneando vigorosamente a cabeça em negativa. — Eu não me refiro ao jacaré. É algo… algo… diferente.

— Pode explicar melhor, Ludi? — pediu Mara com o coração aos pu­los. — Veio-lhe súbito a recordação do pesadelo.

— Eu não sei… Não sei como dizer isto, entende?

— Diga-nos, Ludmila. O perigo que sente iminente sobre nós tem relação com o nome que você recordou? — perguntou Damastor.

— Não… quer dizer… Acho que sim… Sim, parece que sim… Sinto que de algum modo… Meu Deus, estou tão confusa… – e a ruiva sentou-se visivelmente pálida.

— De que nome vocês estão falando? — indagou Milena.

Jean de Gisors. A Dra. já o ouviu alguma vez? — perguntou Damastor.

— Não. Nunca. Quem é ele?

— Não sabemos. Ludmila recordou-se dele subitamente, quando se esforçava para se lembrar do que aconteceu lá em cima, entre ela, Khamal e Mara.

— E não lembra de onde conheceu ou… ouviu este nome? — estra­nhou a milionária.

— Eu não lembro porque jamais o ouvi antes de hoje — disse Ludmila com convicção.

— Então… como é que ele lhe veio a mente? — indagou Milena.

— Não sei. Só sei que ele surgiu dentro de minha cabeça a partir do nada. Simplesmente surgiu, compreendem?

— Não. Eu, não — disse Milena sinceramente cética.

— Talvez Mara, que é repórter social, possa-nos ajudar — sugeriu Karina. — Você conhece ou já ouviu falar de algum Jean de Gisors, Mara?

— Eu… Não sei, gente, não sei mesmo — tartamudeou a repórter. Pode ser que seja algum colunável francês, quem sabe?

— Se é, por que a associação? — perguntou Tamara.

— Que associação? — quis saber Argos.

— A associação com a sensação de perigo iminente — respondeu Ta­mara. — Eu não gostei de saber que há mais algum perigo além do jacaré. Ele foi dose de elefante, convenhamos.

— Mara — chamou Damastor, — O que você recorda de antes da hipnose? Quero dizer, o que conversaram… se conversaram?

— Bem, disto eu acho que lembro bem. O Dr. Khamal tentou mostrar­-nos que nosso problema tinha uma explicação bem aqui-e-agora…

— E podemos saber que problema é esse — perguntou Damastor.

— Não. Sinto muito, mas é pessoal — disse a repórter taxativa.

— Bem, não fiz a pergunta por curiosidade — explicou Damastor. — É que talvez o problema de vocês tenha alguma relação com os acontecimentos insólitos de hoje.

Milena empalidecem. De repente recordou-se dos incidentes havi­dos com ela e Mara.

— Talvez Damastor tenha razão, Mara — disse a milionária.

— Eu acho que não. De qualquer modo, não estou disposta a falar de meu problema em público — disse a repórter na defensiva.

— Tudo bem — apaziguou o detetive. — O que vocês conversaram? A senhorita pode dizer-nos?

— Como eu disse, ele tentou convencer-nos de que nosso problema podia perfeitamente ser visto pela Psicologia Jungeana.

— E o que ele desejava com isto?

— Evitar que nós nos submetêssemos à hipnose. Ele nos disse que mesmo que qualquer uma recordasse fato que pudesse ser suposto tratar-se de algo acontecido numa vida passada, isto não teria valor científico porque nossas mentes estavam contaminadas por notícias que tínha­mos lido a respeito de algum assunto específico.

— E nesta conversa ele, por acaso, mencionou o nome Jean de Gisors? Recorda-se, Mara?

— Não. Não mencionou não. Tenho absoluta certeza.

— Quando você se preparou para ser submetida à hipnose… notou algo diferente no Dr. Khamal… ou no ambiente? Pode-se esforçar para ver se se lembra?

Mara ficou em silêncio tentando trazer à mente o máximo de re­cordação que lhe fosse possível. Mas nada lhe veio à mente. Apenas os olhos firmes do Dr. Khamal e sua voz monótona murmurando qualquer coisa de que não podia lembrar.

— Não, sinto muito — disse Mara após um longo tempo.

— Que pena — lamentou o detetive.

— Eu… eu estou lembrando de um número — falou Ludmila.

— E qual é esse numero, Ludmila? — interessou-se Damastor.

— É 1188 – foi a resposta.

— E o que ele significa? — insistiu o detetive animado.

— Não sei. Só me veio como um flash na mente. Mas não o associo a coisa alguma.

— Você costuma jogar? — perguntou Ivaldo.

— Não. Nem na super sena — disse a repórter.

— É tudo muito estranho… — começou a falar Damastor quando Ludmila, para espanto de todos, desatou num choro convulsivo.

— O que foi? — indagou Mara, perplexa e levantando-se para ir socorrer a amiga.

— Não — disse Damastor. — Pode ficar onde está, senhorita.

E o detetive aproximou-se da repórter em crise e lhe puxou a ca­beça para bem junto do ventre musculoso. Todos estavam desconcertados e constrangidos. Ludmila sentiu-se reconfortada como uma criança que desperta de um pesadelo abraçada ao pai. Seu choro foi diminuindo e terminou em alguns soluços. No silêncio que se fizera Damastor falou.

— Sou um detetive de polícia e meu trabalho me obriga a buscar explicações racionais para as coisas e os acontecimentos aparentemente inexplicáveis pela lógica. Mas antes de detetive, sou humano. E como humano eu acredito que entre o céu e a terra há muito mais do que nossos sentidos e nossa razão podem apreender e explicar e nossa inteligência compreender. O meu parceiro e eu lidamos com dois crimes aparentemente desconexos entre si, mas sentimos, ambos, que estão interligados e foram cometidos por in­divíduos iguais… as mesmas pessoas. No horrível acidente acontecido aqui, no entanto, eu sinto que algo… algo fora do controle racional humano interferiu. Lá em cima, meus amigos, havia três mentes voltadas para um só objetivo. Independente deste objetivo, três cérebros geravam forte concentração energética. Não conhecemos o poder de nossas mentes. Sabemos apenas que é espantoso. Quando a NASA lançou o homem à Lua, na tripulação, foi noticiado, havia um sensitivo capaz de se comunicar pela transmissão do pensamento. Constatou-se que ele e o outro que ficara em Cabo Cañaveral con­seguiam se comunicar mais veloz que as ondas de rádio, que levavam entre 8 a l5 segundos para chegarem de lá aqui, na Terra. Isto demonstrou cabalmente que nossos cérebros trabalham com velocidades acima daquela que a luz tem no vácuo. A comunicação entre eles era instantânea. O que o viajante descrevia só era visto entre l2 a l5 segundos depois de ter sido comunicado oralmente. Agora, se nossos cérebros são capazes de gerar tais freqüências energéticas, também podem captá-las. Talvez não tenhamos ainda condições de apreender conscientemente toda a gama de informações que geramos e que recebemos de outras mentes. Mas isto não impede que tais fenômenos ainda paranormais para nós, aconteçam. Com todo este discurso o que desejo é dizer que algo muito especial e acima do corriqueiro aconte­ceu lá em cima. Algo que alterou as condições sensoriais dos que estavam aqui naquele momento. Isto não explica o suicídio voluntário do Dr. Kha­mal… se é que ele agia de vontade própria, mas nos deixa uma outra vi­são sobre o acidente de hoje.

— Se entendi bem — disse Ivaldo — podemos supor que a morte do Dr. Khamal se deu em condições de paranormalidade… É isso?

— Creio que sim — falou Argos. E eu concordo com o detetive.

— Mas o jacaré não era paranormal — retrucou cético Ivaldo.

— Não, talvez não — concordou o detetive Damastor. — Mas ele, podemos supor, foi circunstancial. De algum modo… não sei bem como, o bi­cho foi envolvido na cadeia paranormal de eventos… Quem pode saber?

No silêncio que se seguiu ouviu-se a voz de Mara, muito grave e roufenha. Ela disse, olhos vidrados no espaço:

— Amanhã, em solenidade pública, um homem público, justo e inocente será assassinado. Mas nada será como as aparências indicarão.

Todos a olharam sem compreender o que tinha aquilo que ela acaba­va de falar com o que o detetive Damastor tão brilhantemente expunha.

— O que foi que você disse, Mara? — perguntou Ivaldo aproximando-se da repórter de cenho franzido. — Repita, por favor. Eu não ouvi bem.

Mara suavizou a fisionomia. Seus olhos voltaram a fixar-se nova­mente nas pessoas. Ela olhou para o detetive com ar sonolento.

— Eu não disse nada, mas vou dizer — respondeu. — Estou muito cansada… na verdade, sinto-me exausta. Se me dão licença, vou deitar.