Capítulo X (Última Parte) Fílio Entra em Ação.

 

O salão pegava fogo. Droga à vontade. O encontro era para dali a pouco.

O salão pegava fogo. Droga à vontade. O encontro era para dali a pouco.

                  A repórter deu boa-noite a todos e se retirou para seus aposentos. Seu andar chamou a atenção de Ivaldo, mas este não comentou. Ela parecia estar dura, andava como uma sonâmbula.

                   — Vocês ouviram bem o que ela disse? — indagou Ivaldo.

                   — Parece que a ouvi dizer alguma coisa sobre um assassinato… — falou Karina, sem muita certeza.

                   — Eu ouvi algo assim também — disse Milena, preocupada.

                   — Tamara —, chamou Ludmila — você estava perto dela. O que foi…

                   — Eu não estava prestando atenção a ela — respondeu Tamara. — Porém quando me virei para olhá-la, ela estava com uma expressão esquisita. Parecia estar ausente… olhos perdidos no vazio.

                   — Isto aqui está paranormal demais para o meu gosto — disse Ivaldo com um suspiro. Acho que já extrapolamos nossa competência de trabalho, parceiro. Vamos embora? Está tarde e vamos chegar em casa…

                   — Eu gostaria que vocês dormissem aqui — cortou Milena, — Não temos armas na ilha e eu temo a volta da fera. Com vocês aqui eu acredito que todos nos sentiremos mais seguros, não é, pessoal?

                   — Eu concordo com a Dra. Milena — disse Argos. — No iate também a gente não possui armas e se o jacaré voltasse seríamos praticamente inú­teis para lidar com ele.

                   — Eu não posso ficar — disse Ivaldo. Amanhã cedo tenho de es­tar na delegacia. Tenho duas diligências…

                   — Isto não é problema — rebateu Milena. — O meu helicóptero o le­vará lá em menos de trinta minutos. Fiquem, por favor.

                   Os detetives se entreolharam. Ivaldo mais que Damastor estava muito cansado e doido para se jogar na cama, mas a moça estava certa. Sem armas e sem nunca terem enfrentado uma situação nem mesmo parecida, eles estariam em apuros se o jacaré retornasse. Os cães eram uma proteção duvidosa. As quarenta e cinco com balas dundum eram bem mais eficientes, prin­cipalmente nas mãos de atiradores peritos, como era o caso deles.

                   — Tudo bem — concordou Damastor. — Só preciso de ligar para o plan­tão da delegacia para avisar sobre o nosso paradeiro. Mas há um detalhe que é preciso que saibam. Nós podemos ser chamados de repente e, aí, vamos precisar que o piloto esteja pronto para nos levar.

                   — Sem problema — respondeu o piloto, até então apenas expectador.

                   — Está tudo resolvido — disse Milena, contente. — Seus quartos são suítes. Encontrarão pijamas à disposição. Usem-nos. Se quiserem comer al­guma coisa, Téia poderá providenciar o que desejarem. Não se acanhem em pedir o que quiserem, por favor.

                   — Téia? — estranhou Damastor.

                   — Sim — disse Milena. — É como eu chamo Adréa. Aliás, ela é mais conhecida pela alcunha… Por que pergunta?

                   — Desculpe-me fazer-lhe esta pergunta, mas a senhora a tem consi­go desde quando? — inquiriu Damastor.

                   — Faz tempo — disse, evasiva, a milionária.

                   — Mais precisamente desde quando? — insistiu o detetive olhando a milionária com aquele olhar penetrante. Milena não conseguiu fugir-lhe e a contragosto informou.

                   — Desde há uns dois anos.

                   — Isto é muito curioso… — comentou Damastor.

                   — Por que? — quis saber Ivaldo.

                   — Há exatamente dois anos e uns três meses atrás uma mulher, cujo apelido era Téia, foi dada como assassinada. Morava no morro de São Car­los. Não ficamos sabendo nada mais a respeito dela, só que parece que teve um filho que desapareceu ainda muito novo… estava, se não me engano, com quatro… talvez cinco meses. Na época houve um cochicho de que o filho era de um figurão de nossa sociedade. Eu trabalhava na Delegacia daquele Distrito e fui encarregado da investigação. Quando estava começan­do a descobrir pistas que indicavam que o caso era bem mais complexo do que um simples assassinato passional, conforme o caso fora apresentado à Justiça, fui transferido. O caso foi abafado e Téia e seu filho ficaram, que eu saiba, nos anais dos esquecidos.

                   — Você acha que minha Téia seja aquela do morro? — perguntou Milena com um sorriso no rosto.

                   — Não, não. Apenas acho que é muita coincidência…

                   — Pois é isto mesmo. Téia não tem filhos e me veio com uma boa indicação — informou a milionária com uma expressão de alívio, Damastor, embora não deixasse transparecer nada, não acreditou na história. Intimamente resolveu averiguar as origens da tal Téia. Se lhe perguntassem o que o levava à desconfiança, não saberia responder senão dizendo que era o seu sexto sentido que ficara em alerta. Ele nunca se dera por satisfeito com o caso, principalmente porque sua transferência acontecera de modo sujo. Por pouco não foi exonerado e perdeu sua classificação para Inspetor. Estava próximo demais de descobrir a verdade. Já descobrira pistas que implicavam Kantor Antratos no crime. E tivera o depoimento de pessoas confiáveis que confirmaram a existência de um filho de Téia. Só que a criança sumira quatro meses após o nascimento. Téia andara ameaçando denunciar alguém muito poderoso e após uma bebedeira em que falara demais, amanhecera degolada. A morte, contudo, pelo IML, acontecera por overdose. Aquela discrepância pusera Damastor atrás da verda­de com muita sede e isto lhe custara muito caro. Agora, novamente estava às voltas com gente cuja causa mortis havia sido alterada no IML.

                        — Bom — disse Ivaldo — eu quero um bife bem passado e muito suculento, com dois ovos, bacon e cerveja gelada.

                   Milena riu. — Está mesmo com todo este apetite? — perguntou admirada.

                   — A tensão sempre me abre o apetite — disse Ivaldo jovialmente. ­— E esperar o retorno do tal jacaré assassino é muito tensionante, mormente quando não se é do IBAMA — brincou ele.

                   A menção do bicho fez Milena ficar séria.

                   — Tem razão — disse ela.— Falarei com Téia para que providencie o que pediu. Se desejar mais alguma coisa, peça a ela. O senhor também, detetive Damastor. Estejam à vontade. Agora, se me dão licença, também vou-me recolher. Eu… eu tive um dia cheio.

                   — Todos tivemos — murmurou Damastor olhando a moça afastar-se.

                   — Vem comigo? — perguntou Ivaldo.

                   — Para…?

                   — À cozinha. Estou morrendo de fome — respondeu o seu parceiro.

                   — Não. Prefiro ir para a suite e tomar uma ducha. Preciso urgen­temente de uma.

                   Luis o conduziu à suíte enquanto Ivaldo descia à cozinha para fazer o seu repasto. Ía aproveitar para bater um papo com a tal de Téia. Podia ser que colhesse algo interessante, quem sabe?

*   *   *

                   — Tem de parecer vingança de traficantes, entende, Fílio? Consiga um grupo bem armado. Lá no “VERMELHO E PRETO” é fácil. Lá, o “Cicatriz” arregimentou o pessoal que queria. Mas é bom ir em alerta. O ambi­ente é da pesada. Ofereça mil reais para cada um dos que quiserem topar a parada. Eles fazem tudo por dinheiro, mas tome cuidado. São garotos perigosos.

                   — Eu me garanto — disse Fílio com pouco caso.

                   — Sei que sim, mas é bom prevenir — disse Fratelli.

                   — É ação cinematográfica? — perguntou o assecla.

                   — Sim. O maior estardalhaço possível — respondeu Fratelli.

                   — Levo o Cícno?

                   — Não. E se disfarce ao máximo. Não pode deixar qualquer pista a não ser aquelas que indiquem traficantes, entendido?

                   — Sim.

                   — Fique escuro. Sua pele branca, no VERMELHO E PRETO, não é bem-vinda.

                   — Sem problemas. Trinta minutos sob a luz solar artificial e tu­do resolvido. Lentes de contato, peruca e fico a rigor.

                   — Quantos pretende recrutar?

                   — Dois motoristas… quatro atiradores… Seis. Vamos precisar de uma camioneta envenenada, automóvel que corra muito, cinco AR-l5 e uma submetralhadora, O fuzil com mira telescópica e silencioso é meu. Eu não vou com o grupo. Quero um quarto no edifício “LA PLACE”… Aqui — e Fílio apontou um prédio no mapa da cidade aberto sobre a mesa entre ambos. — O quarto ideal fica neste apartamento aqui…

                   — Esqueça — cortou Fratelli. — Não podemos ter esse quarto. Trata-se de um prédio familiar e o apartamento onde está o quarto que você escolheu é de uma família de classe média bem conceituada. Não temos nenhum tempo para comprá-lo ou agir de modo a afastar de lá a família em questão. O seu pessoal deverá agir conforme já programamos, mas você terá de mudar sua posição. Estive estudando a área e acho que descobri um modo muito bom. Veja…

                   E Enrico Fratelli passou a expor toda a estratégia de ação para o seu assecla. Ao final de umas duas horas Fílio deixava o apartamento e seguia para casa. Morava na Lagoa Rodrigo de Freitas em local muito privilegiado quanto à vista. Sua casa não era grande, mas era muito bem cuidada e localizada. Fílio não tinha parceira. Quando queria alguém, pagava. Mas, ultimamente, com medo da AIDS, fixara encontro com uma garota só. Ela lhe era fiel e ele sempre que podia esforçava-se para satisfazê-la a fim de que não desse vôo fora de seu ninho. Com a AIDS solta e matando à granel, o melhor era ter uma parceira fixa. Quando entrou em casa a moça estava lá, esperando. Já aprontara bebidas e fritara ovos — o homem gostava de ovos fritos com batata palha. A moça tinha tudo preparado. Fílio contrariou-se. Naquela noite ele não podia entregar-se aos prazeres do corpo. Tinha de estar muito firme no dia seguinte e quando começavam não paravam antes de o sol clarear.

                   Nanete saltou-lhe ao pescoço e lhe pregou um demorado beijo de pura concupiscência. Ele não foi caloroso como costumava ser e a moça notou-lhe a frieza.

                   — O que há? — estranhou ela.

                   — Não é um dia muito bom para o que você está querendo — respondeu ele.

                   — E por que não? — A moça olhou-o com um misto de decepção e raiva.

                   — Primeiro, deixe-me entrar.

                   Ele foi direto sentar-se. Colocou a moça sobre as pernas e lhe acariciou as costas enquanto falava.

                   — Escute, Nanete, amanhã tenho um trabalho muito delicado para fazer. Vou precisar estar bem descansado e despreocupado. E aqui é que você entra. Não faça cenas. Não crie caso. Preciso estar com meus nervos acalmados, absolutamente tranqüilos. Você vai dormir no outro quarto e eu no meu. Está certo?

                   — Não. Estou pegando fogo. Passei o dia pensando em nós na cama. Não vou conseguir dormir, sinto muito.

                   — Use um consolo…

                   — Nunca. Eu quero carne viva. Aquilo só quando a gente está satisfeita e quer brincar. Como brincadeira, só serve se é você quem coloca e manipula. Eu, não tem graça.

                   Nanete era filha de um almirante da Marinha, um dos que tinha acesso a segredos muito importantes para o País. Era alguém que devia ser mantida sob guarda. Não era conveniente contrariá-la. Mas era brincar com fogo mantê-la como amante. Ela não podia desconfiar de nada sobre as atividades de Fílio, principalmente as daquelas de amanhã.

                   — Está bem, mas não vamos exagerar como costumamos fazer. São oito e vinte e cinco. Às 11 horas, o mais tardar, a gente pára. Combinado?

                   — Se eu estiver satisfeita… — brincou ela.

                   — Vai estar, vai estar, eu prometo.

                   Uma hora depois os dois, suados, enrolavam-se furiosamente entre os lençóis e Fílio já achava que não seria ele quem iria querer parar o encontro. Nanete gritava pela sexta vez num gozo demorado. Fílio mergulhou a cabeça entre as roliças coxas da moça e começou o cunnilingus. Ela não teve quase nenhum tempo entre o orgasmo e a estimulação a boca, mas aquilo não era problema. Nanete adorava permanecer no máximo de sua excitação. Desta vez, o gozo demorou muito e quando veio não foi ex­plosivo, mas num crescendo delicioso. A moça sentiu-se afundar entre re­lâmpagos de luzes coloridas e quase desfaleceu. Fílio virou-a de bruços e com cuidado lhe penetrou por trás. Nanete não resistiu e se deixou possuir com languidez. O homem meteu-lhe a mão por entre as coxas e lhe mastur­bou com esmero o clitóris. A moça sentiu-se afundar num mar de prazer e voltou ao gozo com toda a intensidade. Ele também gozou e os dois desabaram sobre a cama, satisfeitos. Nanete permaneceu sonolenta e sem qual­quer vontade de se erguer. Fílio, porém, levantou-se após um tempo e foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha e se meteu sob a lâmpada de bronzear. Uma hora depois estava com a pele amorenada, escura. Como usava o cabelo louro cortado à prussiana, foi muito fácil raspar a cabeça e colar nela uma peruca de cabelos crespos e longos, trançados em pequenas tran­ças com laços coloridos nas pontas. Lentes de contato pretas e tintura nos cílios e supercílios, jaqueta de couro com muito fecho-eclair bri­lhante, botas de saltos de sola, o indefectível jeans preto, correntes e medalhões no pescoço, o canivete automático no bolso, uma carteira de cigarros com alguns baseados e cinco papelotes da branquinha e Fílio julgou-se pronto para ir ao inferninho indicado pelo seu chefe. Aprovou-se, antes de sair, diante do espelho e desceu cuidadosamente para evitar despertar a sonolenta amante. Meteu-se no velho opala preto e pôs-se a caminho.

                   Naquela noite o VERMELHO E PRETO estava lotado como ficava bem poucos dias. A agitação era acima do normal. Havia uma batalha marcada para a meia-noite entre a turma do inferninho e a do “CAVEIRA DANADA”, do Méi­er. Correntes, navalhas, nun-chacos, soco inglês, tudo que era arma peri­gosa abundava no salão. A expectativa da guerra aumentava a adrenalina e punha todo mundo muito sensível. As duas mulatas entraram ressabiadas. Ambas sentiram quase de imediato o perigo no ar. As vozes estavam mais agu­das e todos falavam apressadamente e com mais palavrões do que era o nor­mal ali.

                   — Eles não vieram — falou Ivete, junto ao ouvido da colega e olhando para todos os lados. — Vamos ficar?

                   — Vamos — disse a outra decidida. — Talvez eles cheguem mais tarde.

                   — Mas, Lucélia, vai sobrar porrada pra todo lado — protestou Ivete. — Eu não acho que a gente deva ficar aqui. Não sem proteção.

                   — Se eles não chegarem antes do encontro das gangues a gente ra­pa fora. Agora, fica fria. Vamos! — e Lucélia embarafustou-se pelo meio da massa humana arrastando a contrariada e atemorizada Ivete pela mão.

                   — Vamos ficar naquele lado do balcão. Foi onde eles nos encontraram naquele dia. Se vierem, eu creio que virão direto para lá.

                   As duas conseguiram dois lugares junto ao balcão, após alguns empurrões e xingamentos dos mal-encarados fregueses da espelunca, e pediram duas canecas de chope.

                   — E aí, Pancho — exclamou Lucélia, — deram notícias?

                   O barman olhou para elas enquanto enchia quatro canecas de chope ao mesmo tempo. Reconheceu-as logo, pois eram freguesas assíduas.

                   — Sim — gritou-lhes, — eles ligaram ontem. Estão lá pras bandas de Sertãozinho, em São Paulo. Não me perguntem fazendo o quê. Não disse­ram nada.

                   — Então eles não vão vir aqui, hoje. Vamos embora? — E Ivete já se punha de pé para sair, mas Lucélia fê-la sentar-se de novo.

                   — A gente não vai a lugar nenhum, porra! Vamos ficar. A pancada­ria vai ser lá fora. Quando começar, pulamos pro lado do Pancho. A turma respeita ele e não vai fazer nada com quem estiver a seu lado.

                   — Eu prefiro me mandar. Isto aqui está cheirando a meganha. Não quero que meu pai vá-me buscar lá na delegacia. Ia ser uma sova dos dia­bos, você conhece o meu coroa — protestou a relutante Ivete.

                   — Fica fria, já disse! — exclamou aborrecida Lucélia. — Não vou para casa, não. Minha mãe está com o nego dela e meu pai tá de porre em algum boteco sem-vergonha por aí. O que é que eu ia fazer lá na maloca? Va­mos tomar nosso chope sossegadas. Quando for mais tarde, dependendo de como vai ficar a coisa, a gente resolve. Eu até trepo com o Pancho só para ele nos deixar ficar lá nos fundos. Agora, vê se te acalma, tá legal?

                   — Mas eu ainda acho que é rabuda… — hesitou Ivete.- Ainda estou mais pra rapar fora.

                   — Tá cum cagaço, neguinha? Eu seguro a barra pra vocês. Deixa comigo.

                   O homem era uma montanha de músculos e parecia tão alto quanto o Corcovado. O cabelo encarapinhado, cortado à moda dos moicanos, estava colorido de verde. Trajava uma jaqueta de couro surrada, uma calça jeans e tênis de marca. Nos pulsos, duas pulseiras de couro com muitos botões de metal rigorosamente polidos. Nas pulseiras, em cada uma, dois pequenos e afiados punhais triangulares. O homem todo impressionava pela aparência selvagem, mas os olhos negros como uma noite sem lua e de olhar duro como rocha era o que mais impressionava. Naquele momento ele ria e o riso mostrava dentes alvos e muito bem feitos numa boca de lábios grossos e expressão luxuriosa.

                   — Sai fora, Coice-de-Mula — disse Ivete, tirando o braço do ne­gro de cima de seus ombros.

                   — Pega leve, neguinha — disse, meloso, o homenzarrão. — Não tem ninguém aqui melhor pras gatas do que eu, pode olhar em volta.

                   — Nós não queremos ninguém — rebateu Ivete, firme, tornando a se furtar ao braço do homem.

                   Um cara esquisito encostou no balcão perto deles. O cabelo trançado, as sobrancelhas espessas e muito negras e a roupa espalhafatosa o punham em destaque. Coice-de-Mula olhou de cenho franzido para o tipo esquisito. Não era do pedaço. Ele conhecia quase toda a freguesia do lugar e podia afirmar com certeza que aquele sujeito era um “alemão”. Ob­servou que as duas amigas também olhavam interessadas para o estranho e não gostou.

                   — Vocês duas conhecem o preá, ali? — perguntou curioso.

                   — Não. Nunca vimos o cara por aqui, antes — respondeu Lucélia.

                   Coice-de-Mula afastou dois outros tipos menos avantajados e se postou ao lado do recém-chegado.

                   — Tá fazendo o que, aqui, “alemão”? — rosnou o negro.

                   O homem o olhou sem beligerância. Parecia não estar a fim de briga. Também não deu mostra de estar impressionado com o Maciste de ébano.

                   — Vim tomar um trago. Bebe comigo? — convidou desembaraçadamente.

                   Ao invés de responder, Coice-de-Mula cravou um canivete ao lado da mão do homem moreno, quase trespassando o balcão com a lâmina. A mão do estranho nem tremeu. Permaneceu parada onde estava, mas Coice-de-Mula não pareceu atentar para o detalhe.

                   — Não bebo com “alemães”. Não gosto de alemães. E você é um alemão, cara. Por isto, eu não gosto de você. – E Coice-de-Mula quase colou o rosto no do estranho.

                   — Isto é muito mau — disse Fílio, calmamente. — Eu gostei de você e ia-lhe propor um negócio de mil reais por duas… talvez uma hora de ação.

                   — Eu não gosto de dinheiro de “alemães”, cara — tornou a provocar o negro. Sua enorme boca estava quase colada à face de Fílio. A raiva já começava a inundar o facínora, mas ele se controlou.

                   — Eu não sou “alemão” — rebateu o Fílio, frisando bem as palavras.

                   — Então, qual é o teu grupo, cara? — rosnou Coice-de-Mula.

                   — Eu não tenho grupo. Estou só — respondeu Fílio, afastando-se pra encarar os olhos ameaçadores do homem.

                   — Pior. Tu é “alemão” de fora, cara. Tu tá morto! — E Coice-de-Mula saltou para trás empunhando um canivete. Abriu-se uma clareira como num passe de mágica. Fílio pôs-se de pé, contrariado. O que menos desejava naquele momento era uma briga. Mas antes que pudesse dizer ou fazer o que quer que fosse, Coice-de-Mula já gritava a plenos pulmões:

                   — Aí, moçada! Temos um olheiro dos CAVEIRAS entre nós. O que a gente faz com ele?

                   — MATA O SACANA! — foi o grito uníssono.

                   Em torno dos dois ho­mens formou-se um grupo compacto. Aquilo preocupou Fílio. Ele lutava mui­to bem. Era mestre em Crav-Magah e faixa preta de Tae-kwon-do, mas não tinha a pretensão de enfrentar aquela turba enfurecida. Era o mesmo que cometer suicídio. Por isto tratou de pular para cima do balcão e de braços aber­tos e mãos espalmadas gritou bem alto para poder ser ouvido.

                   — Não é nada disto, irmãos. Eu não sou dos Caveiras. Vim aqui pa­ra contratar seis homens bons de briga e dispostos. Me disseram que este, era o melhor lugar para o que eu quero.

                   Quando acabou de falar notou que um pesado silêncio se fizera entre os circunstantes. Tão pesado e tão silencioso que era possível a ele ouvir o vôo de um mosquito. Alguma coisa o pôs em alerta. Os olhos em volta não eram nada amistosos. De repente alguém estourou um flash. E de novo. E outra vez. Ele estava sendo fotografado, mas por que? De onde es­tava não era possível localizar o fotógrafo. Sabia que estava no meio do populacho, mas não podia discernir bem sua face, mesmo porque estava com a vista ofuscada pelo espoucar da luz. Então, alguém gritou.

                   — Quem te falou de nós? — era “Baratinha” que vinha abrindo cami­nho por entre os circunstantes hostis. Fílio fixou os olhos nele. Era jo­vem, embora fosse grande. Imberbe, denotava que ainda era um garoto. E o garoto parou próximo ao balcão e pôs as mãos na cintura.

                   — E então, perdeu a língua? — provocou.

                   — Foi um amigo meu — respondeu Fílio procurando gravar de memória a fisionomia do rapazinho.

                   — E esse amigo tem nome, xará? — perguntou Coice-de-Mula.

                   Fílio notou que uma agitação começava a fazer balançar a mole que o cercava. “Que diabo”, pensou ele, “não estou gostando disto”.

                   — Como é que é, xará, o teu amigo tem ou não tem nome? — insis­tiu o homenzarrão.

                    “É o que vai morrer primeiro se houver ataque”, pensou o facínora. “Parece ser uma espécie de chefe. Se morre primeiro vai causar hesitação suficiente para me dar uma oportunidade de tentar chegar até à porta.”

                   — Sim, tem — respondeu Fílio medindo a distância até à saída.

                   — E qual é? — perguntou “Baratinha”.

                   — Cicatriz.

                   Aquele nome causou forte reação. Um murmúrio se elevou de entre o populacho. Fílio ficou mais apreensivo. Pensou que não tinha sido uma boa idéia citar o nome do outro. “O que diabo o Cicatriz aprontou aqui?”

                   — E onde está o “Cicatriz”? — A pergunta veio de dentro da multi­dão. Fílio olhou na direção de onde viera aquela voz e viu um jovem alto, musculoso e de andar bamboleante que veio juntar-se ao “Baratinha”. Era de cor bem clara, cabelos lisos acobreados e olhos azuis aguados. O sorriso era displicente, como que caísse da boca de lábios finos e cruéis. “Um matador”, rotulou Fílio.

                   — Eu não sei. Não trabalhamos juntos. A última vez que me encontrei com ele foi há coisa de quinze dias… eu acho. Penso que viajou para fora do país — respondeu o facínora com segurança. Ele estudou os rostos carrancudos que o miravam ameaçadores e avaliou o efeito de sua mentira. Havia dúvida nos olhos daqueles que estavam mais próximos dele. E nos olhos das duas jovens, havia ódio. O que pretendia Fratelli ao mandá-lo justo àquele lugar? Que fosse morto? Por que? Será que o tal trabalho era somente um pretexto para empurrá-lo para aquele antro? Se fosse e ele escapasse…

                   — Você quer seis de nós, não é, Alemão?

                   Era o homenzarrão e sorria de modo enigmático.

                   — Sim. E pagarei bem.

                   O negrão abriu mais o sorriso.

                   — E então? Vamos conversar? — pediu Fílio.

                   — E… O que devemos fazer? — perguntou o homem sempre sorrindo.

                   — Bem…”eu apago este sorriso se você se meter a besta, ‘seo’ sacana” preciso que dois sejam excelentes motoristas. Pode conseguir isto para mim?

                   Fílio estava consciente de que não conseguiria escapulir dali assim facilmente. Mas se o negro decidira conversar, havia alguma esperança de tudo se resolver a contento.

                   — Tudo bem, cara — disse Coice-de-Mula. — Minhoca, Lombriga, Es­peto, Sapão, Pé-de-Cabra e eu, Coice-de-Mula, vamos com você.

                   — Quem dirige? — perguntou Fílio.

                   — Todos dirigimos, cara.

                   — Então, está tudo muito bem — disse Fílio aliviado. — Vamos to­mar um trago e conversar.

                   O facínora desceu do balcão e se aproximou de Coice-de-Mula com a mão estendida. O negro, contudo, explodiu numa gargalhada de deboche.

                   — Fica frio, cara – trovejou ele. — Você ainda não me convenceu, não. Primeiro tem de provar que pode nos comandar. A gente não obedece a otários, xará, tá sacando?

                   Fílio parou e colocou as mãos na cintura. Previa arruaça grossa.

                   — E… E o que devo fazer para provar que posso comandar vo­cês todos?

                   — Tem de vencer um de nós num combate a mãos limpas — disse Coi­ce-de-Mula sarcástico.

                   — Não vim aqui para lutar — furtou-se Fílio. — Não é preciso.

                   — Tá amarelando, é? — zombou Coice-de-Mula. — Tudo bem, eu me­to medo, sei disso. Mas vou-lhe dar uma chance. Espeto!

                   Um rapaz esguio e de musculatura rija, pele clara e cabelos crespos, ombros fortes e largos e deltóides muito desenvolvidos se aproximou do negrão.

                   — Espeto — disse Coice-de-Mula, — o Trancinha ali tá convidando você pra dançar. Mostra a ele porque é que você tem este apelido.

                   O jovem mulato abriu um riso largo. Sem pressa, a sua mão diri­giu-se ao cós das calças, às costas, de onde sacou um fino e longo pu­nhal que atravessou entre os dentes. Com andar bamboleante encaminhou-­se para Fílio, apelidado de Trancinha pelo descomunal Coice-de-Mula. O auxiliar de Enrico Fratelli posicionou-se para barrar o ataque. Não sa­bia o que esperar e olhava fixamente o rosto do jovem, não ligando a mínima para o molho de chaves que o rapaz jogava para o alto e aparava com a mesma mão. Entrevia sorrisos nos rostos próximos, mas tentava sacar o estilo de luta do homem que andava tão displicentemente em sua direção. De repente o molho de chaves escapou da mão do jovem e caiu ao chão fa­zendo um barulho característico. Fílio olhou para as chaves. Foi tudo muito rápido. Os olhos fixaram-se no metal no chão apenas por segundos, mas o suficiente para que ele recebesse o calcanhar do pé direito do jovem relaxado bem no meio da testa. O movimento de Fílio foi mais automático que consciente, graças ao intenso treinamento na modalidade de luta dos soldados hebreus — o Crav-magah. Ele recuou a cabeça a tempo de evitar que o pé atingisse em cheio o seu frontal. Mas teve o nariz que­brado. A dor lhe fez encher os olhos de água, porém ele, mesmo sem po­der enxergar direito, saltou para o lado erguendo os braços em defesa. Ainda via tudo nublado quando um relâmpago de aço riscou o ar em direção ao seu peito. As mãos moveram-se com rapidez e tocaram algo duro, mas seus dedos não conseguiram fecharem-se no pulso do atacante. Contudo, a defesa funcionou e o relâmpago desapareceu como por encanto. No segundo seguinte algo atingiu-lhe os tornozelos com inaudita violência e ele se viu jogado para o alto, caindo de costas no chão úmido. Mal seu corpo aterrissou e ele rodopiou sobre si mesmo. Evitou com isto outra vez o calcanhar maldoso que descia fulminante sobre seu peito.  Fílio pôs-se de pé rapidamente, mas não o suficiente para evitar que dois pés acertassem em cheio o seu peito. Ele foi atirado de costas de encontro ao balcão e a pancada fez com que soltasse o ar dos pulmões com violência. Não teve tempo de se refazer, pois o punhal faiscou ao lado de seu pescoço, buscando a veia jugular. Seu braço ergueu-se como o bote de uma cobra e as costas de sua mão chocaram-se com o frio metal, afastando-o de seu alvo mortal. Num átimo ele viu uma cabeça vindo direto para o seu rosto. Se houvesse o choque certamente ele teria várias fraturas a lamentar, mas Fílio era um lutador admirável. Rodopiou sobre si mesmo evitando o choque, ao mesmo tempo em que seu punho vinha num arco com toda a violência buscando a nuca do agressor. Não obteve êxito. Seu braço socou no vazio. O jovem saltou de costas com o corpo num arco perfeito. Fílio compreendeu, finalmente, que lutava contra um exímio capoeirista e um homem que manejava o punhal como poucos. O rapaz rodopiou à sua fren­te, ora subindo, ora descendo, mas sempre aproximando-se com incrível e mortal precisão. Não era fácil prever de onde viria o ataque, pois o jovem subia e descia com rapidez impressionante. Seu corpo rodopiava velozmente e isto desorientava o oponente. Foi assim que mais uma vez o corta-capim pegou Fílio desprevenido e o lançou para o ar como um boneco des­conjuntado. Entre rodopios e defesas automáticas, ele foi obriga­do a se defender sempre por um fio da morte brilhante que relampagueava, faiscava e zunia com uma incrível velocidade ora buscando o pescoço, ora visando o coração, ora tentando acertar o baixo-ventre. Fílio tentava i­nutilmente pegar o braço, ou a perna de seu agressor, mas ele era de uma rapidez impressionante. Uma bênção pegou-o em cheio no peito e lhe roubou o fôlego, lançando-o sobre a multidão. Esta abriu um vácuo e Fílio caiu, rodando sobre a própria cabeça, sem poder respirar. Ainda estava deitado ao solo, os braços abertos em cruz, quando viu o relâmpago de aço vir direto para sua garganta. O corpo do jovem descia do alto sobre ele, pés apontando para o teto. Um mergulho fulminante. Fílio mal teve tempo para virar-se de lado quando a ponta da arma letal tocou o solo de pedra. Sem dar tempo a que o jovem terminasse de aterrar o pé esquerdo de Fílio su­biu vindo acertar as costelas do rapaz, desequilibrando-o. Ele caiu de mal jeito e pela primeira vez perdeu o ritmo do jogo da capoeira. Procurando tempo para respirar, já que a pancada do pé de Fílio lhe tirara todo o ar do pulmão, o jovem atacou. E cometeu seu primeiro e único erro. O ataque foi direto, sem voltas nem rodopios desorientadores. O punhal foi lançado em linha reta diretamente ao coração de Fílio. Mas este movimen­to o facínora sabia como sustar. Sua mão saltou como a cabeça da casca­vel no bote mortal e seus dedos ferraram-se no punho do agressor. Simul­taneamente o homem jogou-se de costas puxando o rapaz para cima de si ao mesmo tempo em que seus pés se lançavam para cima, acertando em cheio o queixo do jovem. A pancada tonteou o capoeirista que, quando pôde perce­ber a situação já estava com o adversário às suas costas e o punhal afun­dando em sua garganta. Imobilizado numa chave de pernas, o rapaz não podia mover-se e ouviu a voz irada do homem ao ouvido.

                   — Se eu não precisasse de você, eu o mataria agora, patife.

                   Ato contínuo o homem pôs-se de pé, obrigando Espeto a erguer-se puxando-o pelos cabelos e sempre mantendo o punhal com a lâmina funda em sua garganta. Então, com um safanão no ombro do rapaz, Fílio obrigou-o a se voltar de frente para ele e lhe aplicou um violento “upper-cut” que o lançou desacordado aos pés de Coice-de-Mula. Havia um silêncio pesado e todos o olhavam, agora, com certo respeito. Só o negrão o olhou com des­dém.

                   — Foi a primeira vez que Espeto perdeu uma luta justa — falou o homenzarrão, meneando negativamente a cabeça.

                   — Justa uma ova!— gritou furibundo, Fílio. — Ele estava armado e eu, de mãos limpas.

                   — Assim é que é justo, cara — debochou Coice-de-Mula e acrescentou: — Tudo bem, você ganhou os homens que veio buscar. Mas tem uma condição.

                   — Outra? Você não acha que está exagerando, não? — o mau humor já o dominava, irritado pela luta desigual que tivera de enfrentar.

                   — Fica frio, xará. A condição é: pagamento adiantado.

                   — Não.

                   — Sem homens.

                   — Foda-se!

                   E Fílio virou-se para sair. Três mulatos se puseram como barreira diante dele, mas seu o pé acertou o saco escrotal de um deles e a navalha da mão esquerda afundou o pomo de adão de outro. Quase simultaneamente um empi-uchi deslocou o maxilar do terceiro. Os três homens desabaram com gemidos abafados. Tudo resolvido em segundos. Furioso e descon­trolado, Fílio estava disposto a abrir caminho matando se preciso fosse. A sua paciência, normalmente pouca, esgotara-se de todo. Estava resolvido a ir procurar ajuda em outro local. Aquele não lhe agradava nem um pouco.

                   — Trancinha! — trovejou Coice-de-Mula.

                   — Sem papo! — Gritou-lhe Fílio sem se voltar e distribuindo generosamente seikens, shutôs e empis a torto e a direito, abrindo caminho rapidamente por entre os aturdidos expectadores. Ele sabia que a surpresa era passageira e só duraria poucos segundos. Tinha de aproveitar para che­gar até à porta de saída. Se a turbamulta se enfurecesse e se atirasse sobre ele antes de chegar ao seu destino…

                   — TRANCINHA! — gritou o irado homenzarrão.

                   — Não torra! — respondeu, por sua vez, Fílio nocauteando mais um.

                   — Eu mandei parar, ‘seo’ desgraçado! — trovejou Coice-de-Mula.

                   — Não temos mais nada a conversar! — bradou Fílio acertando o queixo de um coitado que estava totalmente desprevenido. Ele caiu feito saco vazio.

                   — Pára aí, PORRRAAAA! — E Coice-de-Mula bateu palmas. Várias pis­tolas surgiram em mãos nervosas, mas todos sabiam que atirar era acertar em companheiros deles mesmos. Fílio, finalmente, atingiu a porta. Virou-se e viu mais de trinta armas apontadas em sua direção. Avaliou suas chan­ces e viu que eram boas. Um tiroteio só mataria gente dali. Ele escaparia, com certeza.

                   — O que você quer? — gritou para Coice-de-Mula.

                   — Por que não quer pagar adiantado? — perguntou o deus de ébano.

                   — Uma questão de princípios — respondeu Fílio. — Ninguém paga por mercadoria que ainda não recebeu.

                   — Venha, vamos conversar — convidou Coice-de-Mula.

                   — Não — negou-se Fílio, receando voltar à posição indefensável de onde acabara de sair a troco de alguns maxilares fraturados. — Você e eu conversaremos no meu carro, se quiser e não amarelar por ter de estar só comigo — provocou.

                   — Eu? Amarelar?! Só quando o Diabo tomar a Santa Hóstia, maninho. Vamos lá!

                   Os dois homens saíram. Meia-hora depois, Coice-de-Mula voltou sozinho. Trazia a metade do pagamento que logo distribuiu entre os seus sequazes.

                   — Agora, cada qual vai-se malocar. Não quero ninguém ferido, tão sacando?

                   Todos saíram. Só Coice-de-Mula sabia o que iriam fazer no dia seguinte.

                   Aos poucos cada qual voltou a se interessar no que faziam antes do homem ter aparecido e o inferninho voltou ao normal.

                   — O cara luta um bocado. É  mesmo do grupo do tal de Cicatriz — comentou o barman para as duas moças.

                   — É…  Um sujeito duro de roer  — concordou Lucélia.

                   — Acho que nossos amigos vão ter muito trabalho para lidar com este pessoal — disse Ivete.

                   — A tensão aumentou o consumo da maconha e da coca, Lucélia — observou Ivete, preocupada. —  Acho bom a gente se mandar. Vai correr sangue daqui a pouco. É só um esquenta­do se queimar e o pau quebra. Já conheço este clima…

                   — Não, nada de sair correndo. Temos uma coisa a fazer. Vem comigo

                   — Pra onde?

                   — Vem.

                   E Lucélia mais uma vez arrastou a relutante amiga pela mão. Desta vez ela foi direto para o meio do inferno: o salão. Ali, todos pulavam co­mo endemoninhados. Parecia que cada um queria superar o outro em gritos e acrobacias estrambóticas. Olhos injetados, corpos suados, expressões ani­malescas, eis a fauna subumana que se espremia, saltava, ia de um lado para outro do salão de braços dados e aos xingamentos contra polícia, políticos, pais e mães. Ivete teve o traseiro apalpado mais de uma dezena de vezes, mas não reagiu. Sabia que não adiantava nada, pois quem o fizera era certo estar fora de si e totalmente inconsciente de sua ação. Finalmente a moça descobriu o “Vagalume”. Era um rapaz alto, branco e muito magro. Usava óculos de grau muito forte, cabelos longos e desgrenhados, roupas surradas e sujas, bigode e barbas em desalinho. O apelido era devido a que gostava de fotografar tudo. Há algum tempo atrás estivera de cama com pneumonia e quase morrera. O medo à morte fê-lo parar temporariamente o consumo da coca e da maconha, mas se tornara dependente de anfetaminas. Era conhecido de todos e já fotografara mais da metade deles em situações esdrúxulas, como foi o caso do “Barata”, flagrado sentado no vaso sanitário copulando com a garota Janice, noiva do “Saúva”; ou o caso do “Vaqueiro” que comia na raça o bicha “Luluzinha” em pleno salão, sobre uma mesa que terminou quebrando e jogando os dois no chão onde, entre os gritos de protesto do homossexual, “Vaqueiro” terminou o serviço cercado pela total indiferença dos foliões. O infeliz morreu de AIDS cinco meses depois de o travesti ter-se ido desta para os quintos. “Vagalume” o fotografou em seu último suspiro e fez um impressionante pôster da foto macabra que expôs no salão e sob a qual colocou uma observação chocante: “gostava de cu, mas não da camisinha.” A partir daquele dia noventa por cento da freguesia passou a usar preventivo.

                   — E aí, “Vagalume”, fotografou o Preá? — perguntou Lucélia.

                   — Oi, gatas, tudo em cima? É claro que fotografei. Tenho seis fotos muito boas do sujeitinho — informou o rapaz.

                   — Quando terá as cópias? — perguntou Lucélia novamente.

                   — Vai tomar no cu! — bradou Ivete para um garoto que lhe meteu a mão por baixo da saia e lhe apalpou a vulva.

                   — Eu não tomo, eu como! — gritou-lhe o sujeito desaparecendo no salão.

                   — Vamos embora! — exasperou-se a moça. — Isto aqui não está prestando, droga!

                   — Tá bom, já vamos. Hei, “Vagalume”, posso pedir um favor?

                   — Fale, gata. O que é?

                   — Faz cópias delas pra nós também — pediu Lucélia.

                   — Por que? — estranhou o rapaz.

                   — Tem dois caras que eram amigos do “Barata” que vão pagar bem por elas. A gente divide a grana, que tal?

                   — Tudo bem. Faço as cópias — disse “Vagalume”.

                   As moças se retiraram gritando para o fotógrafo:

                   — Quando Coice-de-Mula voltar vai ter muito que contar pros nos­sos amigos.

                   — Coice-de-Mula só fala o que quer e quando quer — ripostou “Va­galume” sumindo em direção oposta à delas.

                   Lucélia finalmente concordou em se retirar. Faltava meia-hora para o encontro e Ivete tinha razão. O ambiente estava muito explosivo. Na­quele mesmo momento Fílio estava estacionando o seu Opala na vaga da garagem de seu prédio. Nem de leve se lembrava mais de Nanete. No entanto, a moça pegara no sono e dormia placidamente sobre a cama do facínora. Em sua mão estavam tufos do cabelo louro do homem. Ela encontrara aquilo no banheiro e ficara intrigada com o fato. Por que ele cortara o cabelo de­pois do sexo? Algum ritual que ela desconhecia? Adormecera ainda olhando para eles e pensando na razão da tosa.