"Os nossos dilemas são maiores que os do cidadão comum".

“Os nossos dilemas são maiores que os dos cidadãos comuns”.

A Criança e seu delicado sistema de maturação psicofísica

 A criança, e a PSICANÁLISE tanto quanto a PSICOLOGIA assim ensinam, na formação da sua Identidade Individual baseia-se fundamentalmente nos modelos que seus genitores lhes oferecem no que toca ao comportamento sexual de gênero e social que distinguem o homem da mulher. As crianças precisam fundamentalmente destes modelos e os seres mais indicados para lhos dar são seus genitores. É assim que de genitores os adultos passam a pais.

Há Modelos e Modelos.

 Não existe nenhum meio que possibilite aos citadinos não viverem em íntima dependência dos processos dinâmicos sociais, mercadológicos e políticos. Assim, na vida de um casal a quantidade de dilemas que são restritos a eles dois, como, por exemplo, o dilema de decidir se viajam de férias ou se guardam o dinheiro para a aquisição da casa própria, é cada vez menor.

A vida socializada, globalizada e neoliberalizada esmaga e tritura, na expressão da palavra, o viver a dois.

O consumismo é a base da vida em sociedade.

O consumismo é a base da vida em sociedade.

O Mercado – senhor da Globalização – impõe que todos sejamos consumistas. E quanto mais inseridos estejamos na voracidade do consumismo, melhor é para esta entidade cruel.

Quem, nas cidades “civilizadas”, pode, atualmente, viver sem eletricidade? Ou sem água encanada? Sem o lixeiro para recolher o lixo? Sem uma máquina de lavar? Sem um micro-ondas, uma panela elétrica, uma churrasqueira ou um grill? Sem uma TV de LED 3D? Ou um automóvel último modelo? Ou um apartamento ou casa mobiliada com o que há de melhor que o dinheiro do casal pode adquirir? Sem um computador, preferentemente com 3D? Sem a competição acirrada com o vizinho para demonstrar que possui tanto poder aquisitivo quanto ele? Sem pelo menos um cartão de crédito? Sem um “I-phone” ou similar? Sem o e-mail? Sem o Google? Sem o “watsap”? Sem a “logação” compulsiva?

Apartamentos de luxo com piscina privativa.

Apartamentos de luxo com piscina privativa.

Há uma infinidade de “facilidades” oferecidas pelo Mercado que terminam por se tornar uma obrigação adquirir, caso contrário a Pessoa se sente humilhada e diminuída diante das outras. E para cumprir com esta “obrigação” os membros do casal têm de buscar trabalhar mais e mais, dia e noite, em casa ou em empresas. O tempo do casal é totalmente tomado pelo Mercado. Muitas vezes, nas famílias das classes C e D, este tempo é investido na batalha pelo mínimo necessário para viver – a alimentação e o aluguel de uma moradia modesta. Já nas famílias da Classe A, as pessoas se perdem na busca pelo supérfluo, através do qual se sentem valorizadas. Muitas perdem o sentido de valor de si mesmas porque são quem são e passam a se valorizar pelo que possuem de excelente e de causar inveja nos outros.

As crianças das classes sociais mais abastadas, A e B, terminam por serem relegadas aos cuidados de uma babá, à internação, ou a uma escola de tempo integral. Isto as distancia de algo que lhes é, do ponto de vista psicológico, indispensável e absolutamente necessário: a convivência com seus genitores e pais.

Por que?

1º) Porque é indispensável à criança “introjetar” os modelos parentais que só a convivência junto com seus genitores-pais pode ensejar. O menino necessita do modelo paterno, masculino, para formar uma Identidade também masculina. Do mesmo modo, a menina necessita do modelo materno, feminino, para formar uma Identidade também feminina.

2º) Ambos, meninos e meninas, necessitam sentir que são pertencentes a seus genitores-pais e, não, a uma estranha contratada para cuidar deles; ou a um lugar sem o calor acarinhante que só os pais podem oferecer, como é o caso da escola de tempo integral ou do internato.

3º) Ambos, meninos e meninas, precisam sentir-se seguros ao lado daqueles de cujas presenças confortantes tinham “consciência” desde mesmo quando ainda eram feto. Proteção é uma necessidade fundamental de todo ser humano. Segurança, também. Ambas estas necessidades são intrínsecas à ontogenia humana. Nenhuma instituição particular oferecerá às crianças aquela profunda sensação de proteção e segurança de que necessitam para a estruturação de uma Identidade Individual forte, distensa e, principalmente, otimista.

4º) Ambos, meninos e meninas, precisam se perceber aceitos sem restrições. A aceitação é outra necessidade fundamental da Natureza Humana. E isto a criança só pode encontrar ao lado daqueles que a amam com toda a força de seus corações. Em se sentindo amadas, aprendem a também amar e disto, deste sentimento, nossa humanidade anda carente.

O sonho dourado das famílias classe A - jato particular.

O sonho dourado das famílias classe A – jato particular.

No entanto, o viver pelo Mercado leva os adultos a se envolverem com o afã de ganhar e ganhar mais e mais, terminando por conduzi-los a arrefecer o Amor que deviam desenvolver no contato com a prole que geraram. Esta, quando nos finais de semana estão próximas, terminam por serem percebidas como “cansativas”, “extenuantes”. Então, para os pais que assim se sentem em relação a seus filhos, nada melhor que os premiar, desde cedo, com uma televisão último modelo, onde programas totalmente inadequados para as suas idades ou, pior, prenhe de conceitos e modelos totalmente impróprios para o desenvolvimento de uma Identidade sadia, são a tônica. Tais programas atendem aos interesses do Mercado e não se incomodam com o que suas mensagens e seus modelos vão acarretar nas Identidades infantis em formação. Ouve-se o diretor de novelas da Rede Globo, Jorge Fernando, dizer em entrevista que “Novela é diversão; é mentirinha. Não é educadora nem pretende isto. Sua meta é divertir”. No entanto, abordando dilemas reais da vida real dentro do que ele chama de “diversão”, as telenovelas transmitem conceitos perigosos, como os temas de sempre: vingança e concupiscência. Não há uma única telenovela que tenha como base algo nobre, bom, de exaltação das qualidades boas das pessoas. E desmentindo a afirmativa de Jorge Fernando, temos inúmeros críticos cultos que falam sobre as tramas novelescas com toda ênfase, chegando, alguns, a ressaltar a “importância da novela como um meio de expor as necessidades, as carências e as misérias de nosso povo. Um verdadeiro instrumento de educação popular”. Então, a novela não é de mentirinha. Ela coloca a cru, em horários impróprios para as Identidades Infantis ainda em estruturação, mensagens perigosas, pois crianças são como aspiradores de pó: introjetam tudo o que sentem, ouvem e vêem. Não somente as crianças introjetam aquelas personagens, mas também os adultos, principalmente os das classes sociais C, D e E. No meio da trama da novela, “de mentirinha” o autor introduz conceitos perigosos, que, tal e qual o falar de baixo nível, cheio de gírias e esquisitices lingüísticas, se gravam bem fundo no subconsciente do telespectador.

Elas aprendem rapidamente e, ainda que não entendam bem o que vêem, gravam profundamente as mensagens que recebem subliminarmente.

Elas aprendem rapidamente e, ainda que não entendam bem o que vêem, gravam profundamente as mensagens que recebem subliminarmente.

A questão novela é um dilema social de alta intensidade que, ao que parece, está sendo absorvido como “um novo meio de comunicação das necessidades, das carências, das revoltas e das misérias de nosso povo”. Muitos pais de família parecem não perceber o dano subliminar que as mensagens contidas nas “novelas de mentirinha” transmitem aos jovens e às crianças. Dano que é introjetado ou internalizado sem censura, como algo “normal”. Algo que, como um vírus, vai atacando e danificando valores sociais e familiares que deviam ser defendidos e preservados para a boa estruturação da Identidade em formação do futuro cidadão ou cidadã brasileiros. Não há, aqui, uma defesa de conceitos e preconceitos arcaizados, mas sim a defesa do cuidado que todo pai e toda mãe devia ter com a estruturação da Identidade Individual de sua prole. Este cuidado poderá, no futuro, livrar os pais de amargas decepções com seus filhos. Até desenhos animados destinados às crianças contêm mensagens subliminares de violência extrema que deviam ser proibidas de circularem nos meios de comunicação. Elas aprendem tudo. Os pais não devem jamais esquecer isto.  

Quando pais envolvidos demais com o Mercado, premiam seus filhos com idade acima dos três anos, com I-phone 5 – 16 gb último modelo; ou um I-pod shuffle, poderoso, também último modelo; ou com um “estrondoso” Dvd Portátil; ou jogos computadorizados onde jogadores de futebol, carros de corrida ou lutadores sangrentos são tão bem feitos que parecem de verdade, não percebe que está tomando uma decisão altamente perigosa para o futuro de sua família e de seu(s) filho(s). O objetivo imediato dos pais diante do dilema

(Ficar com sua prole e lhe dar atenção) X (Ir trabalhar por mais dinheiro)

 geralmente é mantê-los “calmos” e distantes de si. Tais crianças, pela ausência dos seus modelos fundamentais, adotam modelos fabricados pelo Mercado de consumo, como os famosos “meteoros” televisivos (não “astros”, pois a maioria dos que são apresentados como “estrondosos” sucessos são, na verdade, medíocres em tudo).

Filhos assim distanciados de seus pais se desestruturam logo na base de sua formação. Tornam-se estranhos com relação ao que devia ser sua família; e buscam afinidade com outras crianças tão desestruturadas quanto elas. Pior: caem facilmente nas malhas de pedófilos ou quadrilhas que traficam seres humanos para a prostituição internacional.

E é assim que essas crianças, quando sobrevivem, tornam-se adultos “transtornados” psicoemocionalmente; tendem a apresentar distúrbios perigosos, como psicopatias ou sociopatias.

Nas famílias das classes C, D e E a luta é tão-só pela sobrevivência. Os de Classe C tentam por todos os meios imitar os de Classe B e terminam por piorar mais ainda a situação desesperadora em que colocam sua prole. Já os de classe D e E integram o grupo onde a dureza da vida limita a capacidade amorosa e coloca em primeiro lugar a sobrevivência. A prole é largada nas ruas, ao “Deus-dará”. E se tornam fáceis vítimas da prostituição infantil ou do Crime Organizado. Estes agrupamentos humanos (não constituem propriamente famílias, na maioria dos casos) são conhecidos “tecnicamente” pelo designativo “família disfuncional”. Nelas abundam a má conduta dos adultos para com as crianças; sobejam os exemplos de pedofilia levada a efeito até mesmo pelos próprios genitores.

Crianças que crescem em famílias disfuncionais introjetam este modelo como normal. Tornam-se desviantes da condição de humanidade. Seus dilemas são cruciantes, desesperantes e, pior, terminam por também se tornar um dilema terrível em muitas famílias, quando, por exemplo, matam algum de seus membros em assalto estúpido, geralmente movido ou pela necessidade da droga, ou instigado por perversos traficantes.

Não estou mergulhando, senão de passagem, na visão Sociológica da Sociedade Humana Moderna. Faço-o tão só para despertar a atenção dos que me lêem para uma realidade que é profundamente participante de suas vidas, ainda que pensem que não. E como acredito que já alcancei meu objetivo, vamos voltar para o quesito DILEMA. Vejamos a pirâmide em que podemos agrupar as principais origens de dilemas que acicatam nossas vidas.

Esta Pirâmide de Dilemas é somente uma sugestão, pois você pode encontrar muitas outras áreas de classes de dilemas para inserir nela.

Esta Pirâmide de Dilemas é somente uma sugestão, pois você pode encontrar muitas outras áreas de classes de dilemas para inserir nela.

No Grupo dos Dilemas da Relação do Casal compreendem-se, entre outros:

  1. os relativos às diferenças de gênios;
  2. os relativos à luta pela dominação dentro do grupo familiar;
  3. os relativos à disputa entre os Egos dos pares do casal;
  4. os relativos ao comportamento sexual coital;
  5. os relativos à perda do interesse sexual coital;
  6. os relativos às “descobertas” dos defeitos intoleráveis no outro;
  7. os relativos à capacidade de renúncia em prol do bem comum;
  8. os relativos à capacidade de tolerância da agressividade do outro;
  9. os relativos à capacidade de agir com paciência diante da irascividade do parceiro ou da parceira;
  10. os relativos às diferenças de preferências e gostos de cada par.

No Grupo dos Dilemas da Prole compreendem-se, entre outros:

  1. os relativos à disputa de poder entre irmãos;
  2. os relativos às diferenças de tipos de Identidade em formação;
  3. os relativos às preferências individuais;
  4. os relativos à luta pela dominação no grupo;
  5. os relativos à timidez ou fragilidade física de um dos irmãos;
  6. os relativos à agressividade exagerada de um dos filhos;
  7. os relativos à dificuldade de aprendizagem;
  8. os relativos à tendência ao isolamento;
  9. os relativos aos interesses sexuais precoces;
  10. os relativos à dificuldade de interação social;
  11. os relativos às amizades;
  12. os relativos às páginas de relacionamento, ao “whatsup” e outros.

No Grupo dos Dilemas da Subsistência Familiar compreendem-se, entre outros:

  1. os relativos ao pagamento das taxas e impostos públicos da moradia;
  2. os relativos à alimentação do grupo familiar;
  3. os relativos à aquisição/manutenção do carro próprio;
  4. os relativos aos cuidados com a saúde dos membros do grupo familiar;
  5. os relativos a diversões, viagens e passeios;
  6. os relativos a crediários, empréstimos bancários cartão de crédito e cheque especial;
  7. os relativos à troca de móveis e demais bens da residência;
  8. os relativos à dedicação à unidade familiar;
  9. os relativos a conflitos intra-grupal familiar;
  10. os relativos a apelos externos tentadores e outros.

Embora pareça que citei um número assombroso de dilemas do Grupo Familiar, na verdade fiz um pequeno apanhado dos numerosos e imprevisíveis dilemas que podem surgir numa família. Deixei de fora, por exemplo, os conflitos irreparáveis entre os cabeças do grupo, quando eles se encaminham para a separação. Esta situação é por demais traumática para todo o grupo familiar e creio que deve merecer uma abordagem à parte.

Como você pode verificar, não há como viver em nossa sociedade dita civilizada sem um número incalculável de Dilemas. E todos os dilemas são desafios que exigem tomadas de decisão as mais acertadas possíveis, visto que, sem exceção, todas elas terão como conseqüências futuras novos dilemas cujas raízes estão fixadas nos momentos de decisão em que a pessoa teve de optar. Se não o fez corretamente, então, com certeza amargará decepções, angústias, culpas, inseguranças, depressão, tristeza, apatia, perda de interesse pela vida e outros resultados desastrosos para sua saúde física, emocional e psicológica.

A gente volta a se encontrar em breve. O assunto é vasto e você verá que ele vai-lhe dar muita sustentação para se conhecer melhor e se compreender ante suas angústias, suas inseguranças, seus choques emocionais “incompreensíveis”.