Psicologia não é complicado. É o estudo do óbvio. Este, sim, é complexo.

Psicologia não é complicado. É o estudo do óbvio. Este, sim, é complexo.

Os Dilemas Pessoais e a Identidade Individual Como Meio de Fuga

Vamos deixar bem claro o que se deve entender por Pessoa e por Indivíduo.

Pessoa é aquilo em que a Educação, a Instrução, o Mercado, a Política, o Ambiente e a Religião nos transformam. A Pessoa vive e sobrevive no oceano de ondas dilemáticas que o atiram de um para outro lado sem qualquer piedade.

"Eu sou uma pessoa centrada no que faço". Ele está certo. Mas devia ser um Indivíduo na profissão que adotou.

“Eu sou uma pessoa centrada no que faço”. Ele está certo. Mas devia ser um Indivíduo na profissão que adotou.

Indivíduo é a entidade que nós mesmos formamos em nós, em nosso íntimo, desde quando ainda somos fetos. O indivíduo é único, singular, e não encontra nenhum outro que lhe seja absolutamente igual e é formado a partir dos juízos únicos que a entidade humana faz sobre os estímulos do ambiente social. Estes juízos definem para ela o que lhe agrada e o que lhe desagrada na carga estimulativa que chegam à Pessoa e pela qual esta muitas vezes se mostra interessadíssima. O Indivíduo seleciona o que aceita e o que rejeita nas preferências da Pessoa e o faz segundo sua índole, seu caráter, sua herança cultural genética. Não se admire de eu falar de herança cultural genética. A Ciência há muito já comprovou que nós herdamos geneticamente as tendências fonéticas que nos possibilitam desde muito cedo compreender os significados das palavras e, o que é mais importante, a capacidade de formular palavras com a tenra idade de três anos ou menos. Segundo a Gramática Universal, a criança já nasce com uma gramática em sua cabeça, onde se guardam todas as regras, de todas as línguas, uma enorme quantidade de conteúdo. Mas a criança transforma esta gramática, na gramática de sua língua de nascença, retirando só o que é necessário para seu uso e aprendizagem e descartando o restante. Assim, embora tenha em si a gramática do inglês, do chinês, do alemão etc…, uma criança que nasce na cultura brasileira onde a língua falada é a portuguesa, possui uma Identidade Individual já embrionária que seleciona este idioma na medida em que seu aparelho auditivo é estimulado pelos sons pronunciados por seus pais e, se os tem, irmãos. É muito bom que o leitor se acostume a este tema, pois ele é muito relevante nestes nossos artigos. Claro que os espíritas verão, aqui, a confirmação inquestionável da ocorrência da reencarnação (ou, para mim, da transmigração da alma), mas não nos interessa enveredar por este ramo.

Uma Pessoa é mais fácil de ser moldada pelo Sistema Social aqui e agora porque ela é fruto da atenção social que nós voltamos para os fenômenos que nos cercam ou nos quais nos vemos inseridos. Esta atenção social polariza ao redor de si todos os nossos cinco sentidos, de modo que a Pessoa é a resultante destes sentidos estimulados por incentivos externos. É porque é fruto do Social que a Pessoa vive para, por e pelo social.

Exemplo de Pregnância.

Exemplo de Pregnância.

Um Indivíduo, ao contrário, não é moldado diretamente a partir da atenção individual que emprestamos aos fenômenos que nos englobam ou que nos despertam o interesse. Esta atenção individual quase sempre acontece em nível subliminar, isto é, em nível de atenção abaixo do limiar de nossa Consciência. Ela quase sempre nos passa despercebida, a não ser que algum componente mínimo (um detalhe) do processo em que estamos metidos ou que estamos vivenciando se torne subitamente pregnante para nossa percepção. Um estímulo pregnante é aquele que se sobressai dentre os demais. Assim, um detalhe pregnante em um estímulo é aquele que se salienta e prende a nossa atenção, fazendo que ela, de subliminar, passe subitamente à consciência presente. Tomemos um exemplo da Psicologia da Gestalt. No conjunto de setas acima, a que está ao contrário das demais Sobressai-se de imediato à atenção de quem olha para o quadrado. Ela é pregnante no conjunto. 

A Pessoa é uma entidade altamente  sensível  aos apelos sociais. Por isto mesmo, a Pessoa vive  sob o choque dos dilemas sociais, dos dilemas religiosos e dos dilemas políticos, entre outros de amplo espectro social.

O Indivíduo é uma entidade altamente insensível aos apelos sociais. É centrado em si, nos valores que foram internalizados pelo ser humano e moldaram o seu caráter a partir dos processos resultantes de seus ajuizamentos sobre eles. O Indivíduo ajuíza novos conceitos sempre os comparando com seu sistema de valores caracterológicos internos e já aceitos, os quais o tornam resistente às mudanças de sua postura interior. Seu fulcro é a felicidade íntima, própria. Ele não se deixa levar pelo supérfluo nem pelo consumismo. Contenta-se com o que possui e não é facilmente fascinado pelo volúvel e transitório. Podemos entender o Indivíduo como a parte hedonista que todos nós guardamos em nosso íntimo.

O Caráter é aquela parte do Indivíduo que não é bem definida pelos estudiosos em geral. Fazem-no sinônimo de gênio, temperamento, índole, tendência especial etc… Não chega a ser o “Eros” psicanalista, mas está bem próximo dele no sentido de que dá total preferência ao Prazer da Paz, do Amor, da Quietude.

Podemos representar Pessoa, Caráter e Indivíduo no esquema abaixo:

Representação da trindade do Ser humano.

Representação da trindade do Ser humano.

Compreendidos estes conceitos, vamos, agora, entender o porquê de a Pessoa, quando acossada pelo Social e seus dilemas, procura o Indivíduo como seu esconderijo.

É voz popular a expressão “fechou-se em ás de copas” quando se quer dizer que alguém se viu acossado em determinada situação em função de uma tomada de decisão impensada e não deseja mais tocar em ou discutir um determinado assunto. E geralmente, quando isto acontece, é porque a Pessoa ou se viu acossada pelas opiniões discordantes da sua, ou se percebeu ameaçada diante de uma tomada de decisão desastrada em um determinado Dilema. Seu mutismo é uma defesa psicológica, mas geralmente atrás desta defesa há uma carga emocional muito forte.

Isto significa que a Pessoa, em estado de Medo ou Ira impotente, retirou-se do Exterior, do Social, e buscou refúgio no seu interior, na área pertencente ao Indivíduo. Acontece, porém, que na maioria das vezes a Pessoa não é aceita pelo Indivíduo. Há um conflito entre estas duas condições da humanidade de um Ser. E este conflito é tanto mais intenso quanto maior seja a inaceitação dos valores pessoais pelo Indivíduo.

Em certa medida, o Indivíduo se torna não somente a consciência da Pessoa, como também seu Juiz e seu Algoz. O choque de valores entre estas duas entidades humanas pode levar a uma intensa reação emocional disfórica, como a reação de medo, a reação de culpa, a reação de raiva, ou revolta, ou impotência etc… e estas reações emocionais têm o poder de desencadear a emissão de comportamentos responsivos inadequados diante dos dilemas sociais que fatalmente surgirão a partir da primeira dissintonia com o ambiente social.

O que digo parece um tanto complexo, principalmente para os leigos em Psicologia. Então, vejamos se aclaro a informação com o seguinte exemplo:

Uma pessoa “A” ouve de um grupo de pessoas B, C, D e E uma opinião altamente desfavorável à pessoa F. Esta pessoa é uma figura conhecida e admirada no meio social onde vive. Dois dias depois, “A” se encontra em meio a um grupo de pessoas G, H, I, J, que tecem comentários elogiosos a “F”. Intempestivamente e sem informar que a opinião que emite não é sua, “A” corta o grupo e emite a opinião altamente desfavorável contra “F”. O motivo deste seu comportamento impulsivo não interessa, agora. O fato é que ao fazer isto, ele leva o grupo a se voltar inflamado contra ele e em defesa de “F”. Em vez de se desculpar e dar a informação que lhe podia safar do apuro, “A” teima em defender a maledicência. A discussão “engrossa” e “A” percebe que “deu mancada”. Não devia ter dito o que disse, mas agora é tarde. Ainda assim, teima em tentar justificar a posição que colocou, e que não é sua, insistindo em manchar a imagem de “F” e quanto mais se debate na tomada de decisão errada, mais fica em posição desfavorável com os elementos do grupo. Sem mais saber o que fazer e já consciente de que agira errado ao tomar a si a defesa de uma opinião que na verdade não era sua, frustrado, raivoso e impotente, opta por se “fechar em ás de copas” e não mais diz nada, embora seja insistentemente instado pelas pessoas do grupo a se explicar.

A Pessoa “A” fugiu para dentro de si mesma. Buscou refúgio no território do Indivíduo “A” e este não a aceitou. Agora, a Pessoa “A” está em conflito sério com o Indivíduo “A”, que é parte de seu Ser. O Indivíduo “A” não aceita o erro crasso cometido pela Pessoa “A” e impõe que retifique seu erro. Mas isto, agora, parece altamente incômodo e impossível à Pessoa “A”. Está gerado um conflito interno que, com o desenrolar das conseqüências da tomada de decisão errada pela Pessoa “A”, poderá intensificar-se em decorrência de uma série de Dilemas que hão de surgir a partir daquele momento inglório, em que “A” fez a escolha por uma tomada de decisão infeliz. E a Pessoa “A” tem todas as possibilidades de vir a se tornar uma cliente de Psicologia Clínica ou, o que é pior, de tratamento psiquiátrico, dependendo da intensidade do Transtorno Emocional que a acometa.

Por que a Pessoa “A” teimou estupidamente em tomar para si uma opinião que denegria alguém que ela nem mesmo conhecia?

A resposta a esta pergunta é muito ampla. Pode, por exemplo, ser devido a que a Pessoa “A” possui uma Auto-Imagem reduzida. Uma Auto-Imagem reduzida é a imagem que a pessoa forma sobre si mesma a partir das opiniões e juízos que os outros emitem a seu respeito.

Quem tem auto-imagem reduzida tende a tomar para si o que pertence a outros e servir-se disto em busca compulsiva por opiniões favoráveis a si e que a façam se perceber engrandecida diante de terceiros.

Esta busca compulsiva por fatos e atos que engrandeçam diante de uma Pessoa sua própria Auto-Imagem é um dos processos que podem levar a constantes tomadas de decisão desastrosas, que sempre redundam em prejuízo para a Pessoa. E a cada fracasso, sua auto-imagem fica menor, mais angustiosa se torna sua situação perante si mesma e este moto contínuo pode desaguar em sérios transtornos para a Pessoa.

Quando algo semelhante acontece é indício de que aquele Ser Humano não tem um Caráter firme, bem formado, bem centrado. O Caráter é a entidade que, no Ser Humano, toma de imediato e intimamente uma decisão acertada, ainda que obrigando a Pessoa “A” a sofrer constrangimento diante dos outros. O Caráter firme imporá imediatamente, tão logo o grupo se volte contra “A”, que este se desculpe e explique que só está falando o que ouviu de outros. Ainda que o grupo censure acremente “A” por seu comportamento intempestivo e irresponsável, a tomada de decisão corretiva forçada pelo Caráter firme de “A” estancará ou reduzirá muito as conseqüências para a formação de Dilemas futuros altamente incômodos.

Creio que com o que disse acima, você pode compreender o quanto os Dilemas são perigosos e cruciais em nossa vida. Nenhum deles deve ser tomado como algo “de somenos”, pois nunca o é. Um Dilema é uma armadilha que a Vida nos coloca em razão de nossa Evolução, quer Pessoal, quer Individual. Não é à-toa que a voz do povo diz com sapiência: Falar é prata, mas calar é ouro.

Vamos parar por aqui porque sei que o leitor tem muito em quê pensar a partir das informações acima.
A gente volta se encontrar em breve.