Como se Formam o “Indivíduo” e o “Caráter”?

Só bons conseguem me ler. Os demais, ficam à margem da estrada...

Só bons conseguem me ler. Os demais, ficam à margem da estrada…

Já comentamos sobre a formação da Pessoa. Agora, vamos comentar, mesmo que não tão profundamente quanto seria desejável, a formação do Indivíduo em cada um de nós.

A fim de respaldar nossas colocações, vamos fazer uma visita a Carl Gustav Jung e sua teoria dos Arquétipos. Na visão deste grande Psicólogo suíço, nós trazemos conosco, quando nascemos, uma herança psicológica juntamente com aquela já conhecida, fisiológica. Estas duas heranças são os determinantes fundamentais de nossos estilos de comportamento e dão a tônica para o modo como experienciamos a realidade. Ele dizia que “exatamente como sucede com o corpo humano, que representa um verdadeiro museu de órgãos, cada qual com sua longa história evolutiva, a mesma coisa se deve esperar que aconteça também com a Mente, uma organização análoga àquela do corpo. A Mente jamais poderia ser algo sem história, sem um continuum evolutivo, em situação oposta ao corpo, no qual a história existe”.

Eu estou devendo a continuação de Sua História, mas não quer dizer que não vá continuar. Afinal, Ele é meu Irmão predileto.

Eu estou devendo a continuação de Sua História, mas não quer dizer que não vá continuar. Afinal, Ele é meu Irmão predileto.

Segundo Jung, toda a produção Mental de qualquer pessoa integra o que ele denominou de Inconsciente Coletivo. Este Inconsciente Coletivo não contém produções passageiras, tolas, fúteis, mas sim aquelas aquisições mentais que são compartilhadas por um grupo de pessoas durante muito tempo. Assim, imagens como Deus, Pai, Mãe etc… são comuns a todas as culturas humanas e integram o Inconsciente Coletivo como Arquétipos. Estes Arquétipos são comuns a toda a humanidade e seu conjunto é como o ar que é igual em qualquer lugar da Terra.

Esta idéia de Jung casa-se perfeitamente com aquela de Chomsky sobre a Gramática Universal. A língua falada e compartilhada por uma comunidade humana – uma tribo, um Município, um Estado ou um País, possui arquétipos que são dispositivos de aquisição da linguagem e comuns àquela comunidade específica. É devido a estes dispositivos arquetípicos de aquisição da linguagem falada, que o ser humano avança no desenvolvimento de sua comunicação verbal. Quando uma língua se deteriora, como aconteceu com o Latim, outra começa a se formar, como aconteceu com a língua portuguesa. Esta, no Brasil, deteriora-se rapidamente, mas os dispositivos básicos e arquetípicos da linguagem não poderão ser alterados e a nova língua que da nossa que está morrendo irá nascer, tenderá a ser mais prática e fluídica. É por esta capacidade arquetípica de se reestruturar sempre tendo como centro fulcral os dispositivos arquetípicos de aquisição, compreensão e emissão da linguagem falada, que nós nos fazemos evoluir em inteligência.

Pensar é o melhor divertimento que possuímos.

Pensar é o melhor divertimento que possuímos.

Assim como os dispositivos arquetípicos de aquisição de linguagem são incorruptíveis, também assim é a formação da herança psicológica das predisposições para a formação da Identidade. Todo ser humano nasce já com esta herança e ela é perfeita, visto que é arquetípica. Muitos acreditam que tal tendência é fruto da influência dos astros (planetas e constelações). Não nos interessa este tipo de abordagem, aqui. De modo geral, a Psicologia define caráter como “conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo”. Só que na Psicologia Sincrônica Ressonante, o caráter vai além de traços adquiridos numa existência. Vem desde a filogenia humana e progride e se aprimora e se aperfeiçoa com o surgir e o desaparecer das civilizações. Vincula-se profundamente com a formação da Identidade do Indivíduo e lhe empresta características psicológicas, emocionais e comportamentais específicas, que o tornam único em um grupo de indivíduos.

As crianças pensam muito e criam muito.

As crianças pensam muito e criam muito.

Na formação da linguagem na criança, os estímulos dos vocábulos pronunciados pelos adultos são como o “gatilho” que aciona os dispositivos arquetípicos de aquisição da linguagem para que a criança ponha em ação suas tendências inatas para a fala, também assim os estímulos gerados na interação dos adultos com a criança põem em ação os arquétipos geratrizes da Identidade do Indivíduo.

Nenhuma Identidade é moldada a partir do exterior. Ela se estrutura de conformidade com as tendências inatas caracterológicas daquele pequeno ser humano e a estrutura de seu corpo diz claramente que a Identidade que irá desenvolver tenderá para tais ou quais atividades sociais.

Uma vez que temos o Caráter como uma estrutura transpessoal, arquetípica, perfeita para o Ser Humano, aprimorada por ele mesmo durante sua Evolução, não faz sentido falar de alguém de mau caráter. O que ocorre é a pessoa com má formação de sua Identidade Social, a famosa Personalidade tão falada e divulgada. Na Psicologia Sincrônica Ressonante não se usa o vocábulo Personalidade porque ele é vago e sem significado. Tanto assim que se pode falar de “um time de personalidade”, um “cão de personalidade”, um bairro “de personalidade”; uma “roupa de personalidade” etc… O vocábulo personalidade tem a seguinte origem etmológica:

Per = por; sonus = SOM; dade = sufixo que agrega a significação de “qualidade” ao vocábulo a que se junta para formar outro vocábulo. Assim, fealdade = o que tem a qualidade de feio; maldade = o que tem a qualidade de mal e assim por diante. Então, Personalidade é um vocábulo que significa o que tem a qualidade do som. Isto quer dizer que qualquer coisa que possa emitir um som tem personalidade.

Na formação da Identidade Individual predominam os traços caracterológicos determinados para sua formação segundo o ambiente social e geográfico em que a pessoa nasce.

Dúvida e ansiedade.

Dúvida e ansiedade surge em quem não ressona com sua Identidade.

Uma vez entendido isto, podemos compreender a razão de alguém apresentar às vezes comportamentos aparentemente conflitantes e desconcertantes. Enquanto Pessoa, alguém pode perfeitamente comportar-se de conformidade com a Pessoa que nela se desenvolveu para que se adequasse aos ambientes complexos sociais. Mas se em determinado ambiente os objetivos ou as metas traçadas pelo grupo ou por alguma autoridade se choca com sua Identidade, esta reage com firme posição contrária àquilo. E é dificílimo fazer que o Indivíduo abra mão de sua posição, em que pese todo o grupo de Pessoas ao seu redor tente dissuadi-lo apresentando-lhe argumentos com os quais discorda frontalmente.

A partir de um impasse destes alguns Dilemas podem surgir para o Indivíduo. Dilemas que podem colocá-lo em choque com pessoas importantes, autoridades, por exemplo, o que o obrigará a entrar de cabeça em choques para os quais tem de encontrar tomadas de decisão que, muitas vezes, são-lhe materialmente e socialmente prejudiciais, mas que, de seu ponto de vista, o ponto de vista de sua Identidade, estão corretas e lhe satisfazem as necessidades caracterológicas de firmeza, determinação, defesa de si mesmo etc…

Então, quando você se vir diante de um dilema gerado por sua atitude conflituosa com o que é a opção da maioria, tenha a certeza de que sua Identidade Individual está entrando em ação para se defender contra algo que ela não aceita de modo algum. Não enverede pela senda da Psicanálise, colocando a responsabilidade sobre “imagens paternas e maternas” internalizadas etc e tal. Estes conflitos ficam restritos às patologias graves, que tiram a Pessoa do contato com a realidade.

Alta ansiedade ou forte Estado de Angústia geralmente tem seu fulcro em situações dilemáticas em que repentinamente sua Identidade entrou em total choque com sua Pessoa. Esta, tende facilmente a aceitar o Social a fim de evitar conflitos. É capaz de buscar “silenciar a consciência” para evitar choques aos quais teme. Muitos políticos se deixam levar pela corrupção exatamente porque percebem o ambiente em que se introduziram altamente ameaçador para suas Pessoas. Optam por calar em si suas Identidades, que certamente tentam tenazmente impor-se à fraqueza de suas Pessoas. Quando, como acontece agora, a Polícia lhes mostra que não estão a salvo da Lei, pode-se imaginar o vendaval de emoções angustiosas que os avassalam. Você, também, por viver muito mais pela Pessoa e não pela Identidade – até porque não sabe de sua existência – com muita freqüência entra em estado de ansiedade, o que é muito desagradável. Esta, tende a distorcer os fatos e isto o induz fatalmente a tomadas de decisões que só fazem surgir mais dilemas angustiosos a requererem novas tomadas de decisões cada vez mais complexas e mais “ameaçadoras” para sua percepção exterior.

Tomemos, agora, Alfred Adler como base para ampliarmos a compreensão desta parte da Psicologia Sincrônica Ressonante. Adler diz que toda pessoa é um sistema que integra sistemas sociais mais amplos. Ele também afirma, e eu concordo plenamente com sua óptica, que o homem, uma vez que nasce, já tem a capacidade de produzir eventos, influenciar no ambiente e ser a origem de eventos importantes para o Social. E cita como exemplo as criações, os inventos, dos quais, em nossa atualidade cibernética, há exemplos saindo pelas bordas de nossas vidas. Adler também diz que o indivíduo sadio é aquele que quer ser o “senhor de seu destino”. Evidentemente que ele acertou em cheio, embora não defendesse o que eu defendo em minha teoria.

É de Adler a genial “sacada” sobre a importância dos objetivos que estimulam uma Pessoa à ação. Ele afirma que “a luta pelo objetivo sempre toma a forma de um movimento a partir de uma situação relativa menos para uma situação relativa mais. Ou seja: a Pessoa parte de um sentimento de inferioridade para um objetivo de superioridade.

Deixando de lado a teoria, observe a si mesmo e verifique que o que acima é dito é muito fácil de se constatar em nós próprios. Adler fala de objetivos de sucesso como a meta visada pelas Pessoas. E não errou. Todos, de um ou de outro modo, buscamos obter o sucesso seja em qual seja o empreendimento em que estejamos interessados ou envolvidos.

Nos anos 70 este cartaz estava em todas as esquinas das cidades brasileiras. Sucesso com tabaco???

Nos anos 70 este cartaz estava em todas as esquinas das cidades brasileiras. Sucesso com tabaco???

Mas o campo em que surgem as oportunidades de “sucesso” é o Social e este campo, principalmente em nossos dias, é por demais caleidoscópico. Ou seja, ele muda quase que diariamente. Estímulos e mais estímulos nos são colocados diante dos olhos e a Propaganda e o Marketing se empenham furiosamente em transformar aqueles estímulos em uma necessidade premente para todas as Pessoas. Assim, desde que ligamos a TV ou saímos de casa para ir a algum lugar, somos bombardeados por estímulos de “sucesso” que nem sempre o são. Por exemplo: tomemos os lançamentos de carros do ano. Há um festival de carros do ano, cada fabricante se esforçando ao máximo para ressaltar tal ou qual detalhe do veículo a fim de colocá-lo acima dos demais concorrentes. Ligam a imagem do carro ao sucesso da pessoa. E fazem mais: ao lado do carro do ano sempre há uma mulher como algo que é subliminarmente desejado pelos machos de nossa espécie. Elas devem atender aos padrões de beleza da época (atualmente devem ser modelos esqueléticos, mas com um palmo de carinha bonitinha). Há uma mensagem subliminar já até abusada pelas montadoras e pelas revendedoras: “compre este carro e ganhe esta mulher como prêmio”. A Coca-Cola oferecia uma mulher quase totalmente pelada e correndo suor – gotículas de água, na verdade – pelo corpo, induzindo ainda mais a imaginação das Pessoas do sexo oposto a associar a Coca-Cola ao coito explícito, quando os pares do casal, atingido o orgasmo, suam.

A "fera" sobre rodas que a Propaganda e o Marketing torna o desejo desvairado de muitas Pessoas.

A “fera” sobre rodas que a Propaganda e o Marketing tornam o desejo desvairado de muitas Pessoas.

Nenhuma montadora nem nenhuma revendedora chama sua atenção para o fato real e cruel de que o carro do ano que você passa a desejar devido aos estímulos psicologicamente trabalhados pela Propaganda e pelo Marketing, de verdade não é seu; não lhe pertence. O carro do ano pertence ao ESTADO. Através dele os Governos auferem anualmente fábulas e fábulas de dinheiro com IPVA, TRU, Seguro Obrigatório e Multas, muitas multas. Para ter o tal carro do ano você assume que vai engordar – mais do que já o faz sob o acicate de leis absurdas – os cofres da Nação, os quais serão devidamente assaltados pelos que se elegeram políticos, mas de verdade não o são nem o serão jamais.

Os apelos sociais, que nos estimulam a lutar para transitar de um sentimento de inferioridade para um objetivo de superioridade são incomensuráveis. No entanto, se você estiver atento a si mesmo, à sua Identidade, verá que há em seu íntimo uma resistência muito forte ao exagerado número de apelos ao supérfluo dirigidos à sua Pessoa.

A Pessoa que é você, que sou eu e todos os demais seres humanos civilizados, estamos sempre em sincronismo (syng+kron = mesmo tempo) com o ambiente em que vivemos – atualmente, com o ambiente global. Estar síncrono com algo ou com algum momento fenomenológico é estar ressonando na mesma tônica tempo-espacial daquele momento. Todos sabemos o que significa ressonância. É a prolongação de um som causada por sua reflexão, ou por repercussão em outros corpos que entram em vibração sincrônica com o primeiro corpo. Se você tange uma das cordas do violão verá que as cordas adjacentes àquela também vibram, ainda que não tenham sido tocadas por seus dedos. Isto é ressonância. No caso em que estamos considerando, a ressonância da Pessoa se dá não somente através da vibração sonora, mas também pela vibração emocional estimulada pelos apelos das propaganda e pelo Marketing. Observe as pessoas que andam pela rua. A maioria esmagadora está inconsciente daquela outra que lhe passa ao lado. No entanto, se se encontram dentro de um campo de futebol torcendo por seu time do coração, a Pessoa entra em sintonia emocional com todas as demais. E se o time vence, abraçam-se, gritam e saltam juntos, tomados pela euforia passageira do momento da “vitória do time do coração”. Se, ao contrário, o time perde, todos se abatem e se irmanam na decepção e na “humilhação” da perda da partida. No dia seguinte, aquelas mesmas pessoas poderão passar umas ao lado das outras e não se reconhecerem. Esse exemplo nos dá a dimensão do quão ilusório é o momento social de qualquer fenômeno nele gerado e vivido pela Pessoa. E é justamente neste ambiente cambiante a todo momento que surgem os DILEMAS DE VIDA para todos nós.

Há um fenômeno pouco observado no comportamento das pessoas agrupadas e “irmanadas” numa torcida. Quando o time pelo qual elas torcem perde a disputa, um contingente muito grande das Pessoas torcedoras pelo time perdedor busca a solidão. Fecham-se em si mesmas e saem do ambiente amarguradas, irritadas e até mesmo agressivas. Este comportamento estranhamente oposto ao de euforia e que assume de súbito o controle da Pessoa é resultante da não ressonância da Pessoa dos torcedores com o Indivíduo que elas trazem em si.

Geralmente o Indivíduo no Ser Humano recrimina a Pessoa quando esta se deixa envolver demais por estímulos ilusórios do ambiente. Se o Ser Social que somos estivesse atento ao choque emocional que acontece quase a todo momento dentro de si mesmo, veria com clareza este embate. Em alguns fenômenos sociais em que a Pessoa Social não está muito interessada, mas se sente pressionada por outras a participar daquilo, a consciência percebe com clareza a contrariedade do Indivíduo que recrimina a Pessoa fraca, que se deixou envolver por uma situação que lhe sabia desagradável por pura fraqueza de Vontade. E se os pressentimentos de desgostos que a Pessoa previa materializam-se nos acontecimentos posteriores, a reação de frustração e culpa são ecos da revolta do Indivíduo que não aceitava desde sempre aquela fraqueza da Pessoa incauta.

Não é difícil para você, que me lê, parar um pouco e olhar sua estrada recém-palmilhada em seu dia-a-dia. Verá muitos exemplos do que acima digo. E após a decepção, você sempre terá dito para si mesmo(a): “eu não devia ter ido ou feito isto”.

Quase sempre a tomada de decisão dissonante com sua Identidade gera DILEMAS posteriores que você terá de enfrentar buscando novas tomadas de decisão para safar-se deles do modo menos traumáticos e conflituosos possível.

Estou longo demais e, atualmente, artigos longos não são lidos ou são descartados já na metade, principalmente se abordam temas sérios e profundos. Então, fico por aqui, por enquanto, torcendo para que você não tenha desistido antes des final.

Ah, em tempo: para os que me cobram a continuação da ILHA DE PARGOS e das aventuras de Yehoshua, tenho já pronto para publica alguns capítulos mais. Mas o tempo de apenas 8 horas é pouco para eu escrever tudo o que tenho de escrever ou atualizar, como no caso do conto A ILHA DE PARGOS. Por isto e, também, por estar “capotando” na curva da saúde mais freqüentemente do que eu desejaria, os artigos às vezes demoram um pouco. Mas saem, podem ficar certos.

Até nosso próximo encontro.