Coragem. O que é isto?

Coragem e Sabedoria. O que é isto?

O tema acima me foi sugerido por uma leitora, Marly Meirelles. Tenho estado um tanto enrolado com afazeres e missões que me surgiram de supetão e me engolfaram numa batalha nova, totalmente nova, em minha existência. Por isto fiquei fora do ar por estes dias. O susto me causou um “black out” mental, mas creio que já posso retornar.

Marly veio lendo ao que acredito, com muito interesse, meus artigos sobre algumas partes de minha Teoria Psicológica à qual denominei de Teoria da Psicologia Sincrônica Ressonante.

Em atenção ao seu pedido, vou tentar abordar o tema que ela me sugeriu a partir desta Teoria.

Marly deve estar lembrada do que escrevi sobre nosso Caráter. Este vocábulo, caráter, refere-se a uma marca indelével, como aquela que o fazendeiro coloca no seu gado. Vou ampliar um tiquinho mais a história da formação do Caráter Humano como eu a entendo. Como deixei exarado em artigo anterior, o caráter é uma herança transpessoal do Indivíduo e quase sempre está em oposição à Pessoa em que a Sociedade transforma aquele ser.

O caráter,  para seguir o mais próximo possível os rastros de Jung, seria o conjunto de heranças sócio-culturais específicas que se forma desde muito tempo atrás, em grupamentos humanos habitantes de um determinado lugar no planeta. Por exemplo, a fleugma do inglês. É histórica a fleugma inglesa que se caracteriza pelo pedantismo, pela arrogância e pelo estoicismo daquela gente.

Os costumes religiosos dos indianos formaram um Caráter voltado para a contemplação e a filosofia religiosa.

Os costumes religiosos dos indianos formaram um Caráter voltado para a contemplação e a filosofia religiosa.

Todas as pessoas herdam um tipo de caráter que se origina no caldo da cultura onde nasce. O caráter transcende, então, à Pessoa Social do aqui e agora, embora, curiosamente, seja moldado pelo comportamento fruto direto do ambiente geológico em que vive o grupo social que o cria e molda, assim como das tradições culturais, dos hábitos que desenvolvem e passam de geração a geração, da mitologia e crenças que adotam e da influência que sofrem do clima e dos acidentes geológicos, bem como da interação com a fauna do lugar. Parece meio complexo, mas leia mais atentamente e verá que isto não é tão difícil de apreender cognitivamente.

O caráter filtra os seus inputs, só admitindo aqueles que se tornam uma força propulsora do desenvolvimento evolutivo da Identidade humana. O que é pusilânime, como a covardia, a tendência à traição, à mentira, à corrupção e a outros defeitos do grupamento humano de onde deriva, o Caráter descarta e não inclui em sua formação. É, portanto, um fortíssimo motor do aprimoramento do Ser Humano enquanto tal.

Então, os atributos de que você gostaria de saber mais — coragem e sabedoria — são atributos inerentes ao Caráter de qualquer Indivíduo. Pode não estar presente ativamente na Pessoa Social de alguém por diversas razões puramente sociais, mas está, com toda certeza, na profundidade de seu Ser, na sua Identidade formada a partir de seu Caráter. 

O sonho de invencibilidade do Caráter do norte-americano surge em suas obras cinematográficas.

O sonho de invencibilidade do Caráter aguerrido do norte-americano surge em suas obras cinematográficas.

Todos somos iguais quanto ao Caráter. Entretanto, em função da localização geográfica e da cultura desenvolvida pelo grupamento humano que ali evoluiu, determinadas qualidades do Caráter afloram para integrar a Identidade Individual da Pessoa, mas o fazem segundo a cultura vigente naquela parcela da humanidade. Por exemplo: entre os norte-americanos a qualidade mais pregnante do Caráter Transpessoal é a ousadia e o destemor à batalha. Os norte-americanos amam o combate e seus filmes, assim como sua História, deixam isto muito claro. Em seu Caráter Coletivo, a Justiça e a Paz se alcança pelas armas. O povo, no dia-a-dia, parece pacífico como qualquer outro, mas basta algo sair do comportamento normal cultural deles, eis que esta qualidade do Caráter dos Americanos do Norte aflora e explode em fúria. Um louco toma de uma arma e dana a matar a torto e a direito? Não tem conversa: é morto e o policial que o elimina não vai responder processo administrativo, como acontece entre nós. 

Os brasileiros, ao contrário dos norte-americanos, não têm a agressividade destrutiva como força dominante em seu Caráter. Ao contrário, desenvolveram e continuam desenvolvendo uma qualidade muito positiva – a qualidade da Paz e do Amor. Não há, na História do Brasil, envolvimento de nosso povo em guerras terríveis. Só contra o Paraguai e na História do Piauí é que se lê sobre escaramuças com as armas. O brasileiro gosta mais de solucionar seus conflitos pelo diálogo e tem uma forte tendência ao perdão das ofensas sofridas.

Ninguém jamais foi tão corajoso quanto Ele. No entanto, nuca pegou uma arma para lutar contra alguém.

Ninguém jamais foi tão corajoso quanto Ele. No entanto, nuca pegou uma arma para lutar contra alguém. Sua arma era a Sabedoria.

Se a Coragem é um atributo muito claro em nosso Caráter, a Sabedoria vem camuflada sob diversas formas e uma destas é a recusa de nossa gente a se envolver em guerras fratricidas. Não se estranhe eu dizer que a Coragem é um atributo de nosso Caráter, pois ela se manifesta fortemente na Identidade dos brasileiros. Quando não há como escapar ao enfrentamento, o brasileiro demonstra muita coragem para encarar o desafio do Dilema em que se encontra. E ao decidir pelo enfrentamento, nosso povo usa de Sabedoria e sempre faz opções em que a briga e a violência são preferidamente evitadas, mesmo em situações angustiantes.  Claro que isto não é o Caráter em si entrando em ação, pois o Caráter é uma entidade arquetípica de nossa gente e de todas as gentes pelo mundo a fora. Suas duas características se manifestam na Identidade Individual do brasileiro. Como já expliquei, a Identidade é oculta, subliminar, manifestando-se fortemente quando há conflito entre o comportamento impulsivo e irresponsável da Pessoa e as convicções caracterológicas subliminares ou, até mesmo, inconscientes.

Você, Marly, tem oportunidades de ouro para descobrir a veracidade do que digo. Você se dispôs a rever com outra visão sua estrada percorrida na vida. Se olhar esta estrada segundo o que aqui esclareço, poderá descobrir, com surpresa, que sua Identidade está mais presente do que você poderia desconfiar, em todos os momentos dilemáticos de sua existência. E naqueles em que se pegou sendo fraca, desorientada e medrosa, com certeza vai descobrir que agia de conformidade com os “anseios” da sua Pessoa e esta, em qualquer de nós, sempre toma decisões erradas que fatalmente nos lançam em grandes dilemas posteriores.

Contudo, se deseja conseguir tomar decisões consciente de sua responsabilidade nelas, o que demonstra a Coragem para tanto, deverá abster-se de juízos de valor quer sobre o Dilema em si, quer sobre você mesma. Busque aplicar a Sabedoria através de uma postura de distanciamento do dilema. Olhe-o impessoalmente, como faz o experimentador que manipula situações experimentais em que uma cobaia deve reagir, ainda que o experimentador saiba de antemão que a maioria das opções de escolha da cobaia levá-la-ão à morte. Então, a melhor postura diante de um Dilema crucial, angustiante, sufocante, é tomar distância das partes que compõem o tal Dilema. Este esforço requer grande dose de coragem, pois distanciar-se do Dilema e colocar-se como um observador à parte requer um esforço que acarreta insegurança subliminar intensa na Pessoa.

Tomemos um exemplo para tornar mais objetivo o que tento dizer. Um amigo meu se envolveu com uma mulher casada e muito infeliz no casamento. O marido era violento, chegando, a mulher e as filhas, a correrem perigo de vida na companhia dele. Meu amigo tomou-se de amores pela mulher e entrou de cabeça na luta por sua defesa (ele tomou uma decisão diante do Dilema: (a mulher e suas filhas X marido e pai violento).

Durante cinco anos ele enfrentou o diabo para defender a família que decidira adotar para si. As filhas do homem não têm bom equilíbrio psico-emocional, mesmo assim, meu amigo não hesitou em adotá-las e batalhar para conseguir fazer que elas se transformem em Pessoas inseridas sadiamente num contexto social muito difícil como é o que se vive atualmente em qualquer Estado do Brasil.

Combate de karatecas.

Combate de karatecas.

Ele caiu doente com impaludismo (malária), uma doença que ataca principalmente o fígado. A doença prostrou-o de tal modo que por pouco ele não morre. Ele é meu aluno de Tai-Chi-Tchuen e me contou o que lhe estava acontecendo, ainda quando internado no hospital. Depois de ter alta, ficou sob tratamento com um especialista, que lhe disse que o protozoário da doença se transferira do fígado e se alojara em seu pulmão e ele não havia morrido por puro milagre e porque possuía uma enorme energia física (é sensei de karatê-dô). Graças ao seu intenso treinamento na arte do Karatê, seu físico possuía energia Yang em grande dose e isto o salvou. No entanto, ele se esvaziou e me apareceu por aqui tão fraco que levantar os braços, mesmo sentado, fazia que se sentisse tonto e perspirante (perspiração é aquele suorzinho leve que nos cobre o corpo em momentos de exaustão física).

Comecei exercícios de Yoga do Tai-Chi com ele para recuperar a energia em seus meridianos do pulmão, do fígado e do coração. Realmente, ele está “vazio” nestes meridianos. Meu amigo contou à mulher o que fazíamos e que se havia alguém no Brasil capaz de recompor seu Chi era eu. Pois bem, hoje, ao ligar para ele, encontrei-o furibundo com a esposa adotada. Ela pegou seu celular e listou todas as chamadas que ele recebeu de mulheres. Depois, quando ele estava relaxado, ela apresentou-lhe suas desconfianças quanto às tais mulheres. Ora, ele é comerciante e tem contatos com muitas firmas de mesmo ramo ou que lhe são fornecedoras. As mulheres são secretárias ou gerentes de tais firmas e é natural que liguem para ele. Meu amigo primeiro ficou chocado. Em choque, tentou argumentar com a mulher, que, contudo, esquivava-se de suas explicações e teimava em querer saber a razão de fulana de tal ter ligado mais vezes que as outras e estas besteiras que são clássicos comportamentos de quem tem auto-estima reduzida.

Meu amigo passou o dia perturbado e, por isto, tomou uma decisão errada em uma transação e levou um prejuízo respeitável. Aí, enfureceu-se contra a mulher. Achou-se injustiçado e desrespeitado. Estava pronto para chegar à casa e arrumar aquela arruaça. Até mesmo, sair fora da relação. Mostrei-lhe que o melhor modo de agir seria:

a) colocando-se fora da situação dilemática para analisar a posição da mulher;

b) considerar que todo comerciante leva prejuízo em transações comerciais e isto não era o fim do mundo, ainda que tenha errado nas decisões devido à raiva de que estava tomado. Esta raiva, no fundo, não era culpa de sua mulher, mas de seu condicionamento social explosivo. Ele bem poderia estar irritado devido a outro fato que não aquele e, por isto, ter tomado o mesmo prejuízo;

c) levar em conta que toda emoção é uma carga energética que de alguma forma deve ser colocada para fora, caso contrário fica perturbando nosso equilíbrio emocional e nos “tirando dos trilhos”, induzindo-nos a tomadas de decisão perigosas;

d) considerando suas características Pessoais de lutador e de explosividade emocional, logo, de quem não costuma “levar desaforo para casa”, ele devia chegar ao lar, sentar com a mulher e lhe colocar sua mágoa e sua raiva pelo comportamento dela. E dizer-lhe francamente que sua desconfiança demonstrava claramente uma insegurança inaceitável para ele; que ela sabia que ele tinha minha recomendação de buscar um ambiente tranqüilo ao menos em casa, para poder executar os exercícios de concentração e respiratórios associados aos movimentos do Tai-Chi necessários à ativação do Chi nos meridianos “esvaziados”. Mesmo assim, em função de sua desconfiança doentia, ela não lhe respeitara a necessidade disto e o insultara, desequilibrara-o e o levando a um prejuízo que ele não podia ter neste momento de seus negócios.

e) Finalmente, devia colocar claramente que ela necessita de procurar um Psicólogo para tratamento de sua “auto-estima reduzida”, pois, do contrário, a união deles estava fadada ao fracasso.

Depois de alguma argumentação minha, ele acedeu e se acalmou. Agora, veja:

Ao se retirar do Dilema criado por sua esposa, meu amigo age com Sabedoria. Evita que o orgulho ferido de sua Pessoa se choque com a magnanimidade de sua Identidade. Ao mostrar à esposa que ela está sofrendo de Transtorno Psicológico relativo à Auto-Estima ele demonstra Coragem, pois, no final das contas, assume parte do Dilema, colocando-se ao lado da mulher como suporte na luta que ela vai travar para superar seu desequilíbrio emocional. E isto, ele sabe bem, é difícil e doloroso.

Espero ter atendido ao seu pedido, minha amiga. Um abraço e até o próximo post.