Ao surgir no horizonte, ele muda toda a paisagem.

Ao surgir no horizonte, ele muda toda a paisagem.

Aquele dia amanhecera com um sol brilhante como se a luz estivesse em festa. Os pássaros piavam com força e espargiam alegria pelo ar perfumado do olor das flores silvestres e daquele forte que o carvalho emanava de si. Issa estava sentado sob a grande árvore, olhos fechados, quieto, como se alheio àquilo tudo. Com certa reverência, Bryan e Allan vieram sentar-se ao seu lado. Ambos também mantiveram o silêncio e também fecharam os olhos, cada qual tentando compreender qual a razão de se manter assim. E logo uma paz desceu sobre eles. Os sons e a claridade da luz solar invadiram-lhe os poros e seus corpos foram tomados por uma energia que eles desconheciam até aquele momento. Então, quando já não mais se percebiam integrando um mundo objetivo, ouviram a voz de Issa que falava com um tom de riso.

— Com quê, então, os bravos guerreiros celtas também se renderam à Paz do Pai?

Ele nos chega de manso, sorrindo feliz, e se assenhoreia de nosso Ser com uma força inigualável.

Ele nos chega de manso, sorrindo feliz, e se assenhoreia de nosso Ser com uma força inigualável.

Bryan e Allan abriram os olhos e miraram a face sorridente do estranho amigo que se introduzira na aldeia e em seus corações tão de manso que já não mais parecia ter chegado à aldeia há tão pouco tempo.

— Uma experiência espantosa, tenho de confessar — disse Allan, curvando-se um pouco para a frente para mirar a face sorridente de Issa.

 — O Pai, meu irmão, está todo o tempo bem junto a qualquer ser vivente neste mundo. Não importa a Forma de que seu espírito ou sua alma se revista, pois ambos, espírito ou alma e corpo são suas criações. E todo pai é zeloso de sua criação… Ou será que erro?

— Tu fazes distinção entre alma e espírito. Por que? — Perguntou Allan.

— São diferentes. O Espírito nasce da Alma, mas enquanto ele é imortal, ela tem fim.

— Os animais têm espíritos?

— Não. Têm almas. Mas suas almas não são finitas. Apenas, quando deixam a matéria, tornam-se uma única Mônada.

— E o que é uma Mônada? — Perguntou Primus que, na companhia de Atonchau e Luprécio, viera juntar-se ao grupo, tomando assento diante de Issa.

Na Cadeia Lunar nós éramos como ele: grandes gorilões, os mais evoluídos seres daquela cadeia planetária.

Na Cadeia Lunar nós éramos como ele: grandes gorilões, os mais evoluídos seres daquela cadeia planetária.

— O Espírito, neste mundo, só o tem o homem e a mulher. Neste mundo, os outros seres têm alma. Há muito muito tempo, o homem também foi como aquele cão que vedes lá longe. Na verdade, os homens eram gigantescos símios e não tinham espírito, apenas almas. Estas, quando o corpo findava, flutuavam em semi-consciência para se unir a todas as outras na grande Mônada humana.

— Mônada? O que é isso? — Quis saber Allan, o mais interessado nas palavras de Issa.

— Uma gigantesca nuvem formada no Espaço pelo agrupamento das almas que já não têm corpo físico. Ali, na Mônada, as almas primitivas se dissolvem e se tornam apenas a Mônada. Na Mônada as experiências de cada Alma se tornam uma única, de modo que a Mônada está sempre evoluindo em Conhecimento e Sabedoria. Quando o tempo determinado pelo Pai chega ao seu termo, o Mundo sofre grandes desastres, grandes cataclismas. Tudo mudo. As terras mergulham nos mares e os fundos dos mares afloram. A vida se extingue tanto sobre as terras como dentro das águas. Há, então, um longo período de descanso do Mundo, que precisa de um tempo longo para se readaptar às mudanças. Durante o tempo em que o Mundo descansa e se reorganiza, o Pai trabalha nas novas formas que os novos seres que virão povoar o novo Mundo devem ter. São formas corporais melhoradas, com mentes mais evoluídas.

— Issa — cortou Bryan, reverente. — Tu nos falas de coisas que desconhecemos totalmente. Mas sinto que dizes a Verdade e isto me assusta. Se entendo bem, nós todos vamos morrer… É isso?

Dor, desespero, sangue e sofrimento. Eis o que o César romano dava a seus comandados...

Dor, desespero, sangue e sofrimento. Eis o que o César romano dava a seus comandados…

— Sim. Por que te assustas? Por acaso não morreis às centenas sob a crueldade de vossas guerras fratricidas?

— Mas… Mas afogado?! Eu não gosto dessa idéia — disse Bryan, sério.

— Por que? — Perguntou Issa, rindo.

— Ora… Deve ser horrível sentir a vida se indo sob grande agonia… A agonia da falta de ar… a agonia do sufocamento… o desespero da sufocação… Isto é horrível!

— E quantas vidas tu tiraste fazendo que teu suposto inimigo morresse afogado no próprio sangue?

Fez-se silêncio e Bryan remexeu-se inquieto.

Ela é feia, mas sendo uma criação do Pai Celestial, é nossa irmã.

Ela é feia, mas sendo uma criação do Pai Celestial, é nossa irmã.

— O Pai vos colocou a todos, animais ou humanos, no Mundo. Ele tem todo o direito de retirar-vos daqui para vos aprimorar. Não vos esqueçais que nada vos será dado de graça. Tendes de batalhar para alcançar os prêmios. São infinitos, mas crede em mim: são árduos os embates para se chegar a eles. Quanto ao que chamais de morte e temeis tanto, compreendei que é um fato natural da vida. Não há vida eterna na carne, assim como não há vida eterna em nenhum lugar no Espaço. A Vida, a Energia que emana de nosso Pai, esta sim é Eterna tal e qual Ele mesmo. E se a Vida insufla vossos Espíritos, então, sois eternos. A transição de um estado material para outro implica, sempre, em dores, pois esta é inerente à Matéria. Não há Espírito com dor, logo, não há aprendizado para o Espírito. É a dor que ensina, meus irmãos. Por outro lado, não há matéria sem dor, logo, há intenso aprendizado para quem vive na Matéria. Compreedeis-me?

— Explico-me melhor — disse Issa, rindo das caras de desorientados que via ao seu redor. — Um Espírito passa através do fogo material sem se queimar. Deste modo, ele não aprende o valor do Medo. Um Espírito passa através da água sem se afogar, logo, ele não aprende o valor da cautela para com a água em sua vida. Um Espírito passa através de um leão ou de um tigre ou de um elefante furioso sem tomar qualquer precaução contra o perigo que estes animais representariam para ele, se tivesse um corpo material, logo, o Espírito jamais aprenderá o valor de se precaver contra os perigos mortais que o cercam, quando estão submetidos à vida material. A falta desta aprendizagem emocional não permite que a alma imortal primitiva, apenas uma gota incolor da Mônada Humana, adquira a riqueza que só as Emoções imprimem nela. Vós já aprendestes a temer o gládio manejado por mãos romanas. Já aprendestes o quão violentos e sanguinários são aqueles homens, quando em combate. Mas se fôsseis espíritos somente, ainda que combatêsseis uns contra os outros por uma Eternidade inteira, de nada vos serviria tal combate, visto que em Espírito vós não sentiríeis nenhuma experiência emocional que só a dor ensina. O Espírito não se perturba diante da tempestade, ainda que se trate de um furacão. O Espírito não se perturba diante da explosão de um vulcão e não foge à lava candente, pois ele nada sente diante de tais fenômenos que vós, encarnados, temeis muito. O Espírito, se não vive a experiência da limitação da carne e de sua capacidade de sentir dor, não aprende nada quanto a estes grandes processos que o Pai coloca à disposição do homem encarnado para que desenvolva o dom do Conhecimento. É por temer a dor causada por tais fenômenos que o homem busca meios de se precaver contra os danos que eles podem acarretar para si mesmos e para tudo o quanto construam. Sois os seres mais fracos da Criação de meu Pai justamente para que sejais obrigados a vencer o comodismo da Carne e busqueis superar vossas fraquezas enquanto seres encarnados. Vós sois professores uns dos outros. Na medida em que um grupo vosso, os romanos, por exemplo, se arma para vir contra vós, celtas, vós buscais todos os meios e engenhos que vos possa defender e, com isto, fazeis experimentos para criar novos artefatos de defesa. Havereis, um dia, no futuro, após sofrerdes muito por vossa ignorância mesma, de chegar aonde eu já cheguei: não é pelas armas que as Nações se entenderão e solucionarão suas desavenças e seus conflitos. Não é impondo o desespero e o ódio entre os irmãos que a família do Pai chegará a bom termo na senda do Amor. É, sim, pela compreensão, pela paciência, pelo perdão e pelo Amor acima de tudo, pois sois seres amados e criados no Amor Divino do Pai que está em toda parte e a tudo vê e sente e compreende.

— Issa, por que dizes chegar aonde eu já cheguei? Por acaso, já viveste como nós, na ignorância? 

A pergunta foi formulada pelo Druida Allan. Issa o mirou atentamente e, com um suspiro, baixou a vista para a terra e com o dedo do pé esquerdo desenhou um peixe estilizado na areia.

— Minha caminhada começou há muitos e muitos Dias de Brahmân, meus irmãos.

— O que é Um dia de Brahmân? — Quis saber Primus.

— É a duração de 4.320.000.000 de anos, segundo os Vedas, o Livro Sagrado dos Lamas Tibetanos, de onde vim ter convosco. Na verdade, estou no Caminho há exatamente 21 dias de Brahmân, se quereis saber. Sei que não podeis nem de longe imaginar a enormidade do tempo que já percorri em minha Evolução. Mas não há como eu lhes transmitir a compreensão disto. 

Seus ouvintes se entreolharam, desconfiados. Issa os olhou com surpresa e com um geste de mãos interrogou-os sobre a dúvida que lhes via nos olhares.

— Ora, Issa, não tens a aparência de uma múmia que tenha existido há tanto tempo que nem mesmo é possível imaginar. Tua aparência é de um jovem de não mais que 26 anos ou um pouco mais.

Yehoshua explodiu numa gostosa gargalhada e foi entre risos que falou:

— Ó, mentes duras para a compreensão, então não estou eu vos falando do Espírito Imortal? Este corpo nada é para meu Espírito Imortal, assim como os vossos corpos também nada são para os vossos espíritos. Vossos corpos são necessários a vós como instrumento de aprendizagem, conhecimento e, daqui a alguns milênios, Sabedoria para vossos Espíritos. Meu Espírito já não mais tem nada a aprender aqui neste Mundo. Ao contrário, tem muito a ensinar e é meu desejo conseguir isto, pois meus ensinamentos visam tão-só aliviar-vos de muitas dores e muitos sofrimentos que bem podeis evitar se me seguirdes. Sou vosso irmão mais velho e venho aqui de livre e espontânea vontade apenas buscando que aprendais comigo e encurteis vossa caminhada. Crede em mim: os que não me seguirem terão de percorrer uma senda muito espinhosa, de muitas dores e muitas lágrimas. Não é meu desejo que palmilheis este caminho. Eu o conheço bem e posso asseverar-vos que ele pode ser abreviado, pois vos é facultado chegar à Sabedoria Espiritual e vos libertardes da prisão da carne em tempo muito menor e com muito menos sofrimentos.

— Meu espírito é tão velho quanto o teu, Issa?

A pergunta veio de Atonchau, o mais atento e o mais interessado no que ouvia.

— Não. Sois jovem, muito jovem, se a existência de vosso Espírito for comparada com a minha. Por isto mesmo eu vim, para vos ensinar como abreviar a longa estrada à frente.

— E… E quantos dias de Brahmân meu espirito já viveu?

— Vai alterar alguma coisa em tua vida ter esta resposta agora?

Atonchau meneou vagarosamente a cabeça em sinal de negação.

— Então, não apresses o rio, meu irmão. No devido tempo terás consciência do que desejas saber. Por enquanto, limita-te a viver esta vida dentro do que vos ensino. E o que vos ensino é simples: amai-vos uns aos outros; não vede em vossos irmãos inimigos apenas porque se vestem diferentemente de vós, adoram deuses diferentes dos vossos, falam línguas diferentes da vossa e têm a pele de cor diferente da vossa. Não vos enxergueis diferentes dos que vestem andrajos e andam maltrapilhos. Olhai muito além dos andrajos, pois lá podereis descobrir o brilho cegante de um Espírito em aprendizagem. O corpo não retrata a alma. O que a retrata são as ações, as emoções e os comportamentos. É nestes que vós podeis mostrar o quanto tendes crescido diante do Pai. Não desejeis ser grandes diante dos olhos de vossos iguais, pois isto é egoísmo infantil. Em quê um Imperador difere do escravo? Em ilusão, somente em ilusão. Em quê um Senador Romano difere do chefe de uma tribo celta? Em ilusão, somente em ilusão. Então, não valorizeis as ilusões e buscai enxergar através dela. Isto vos levará diretamente ao Conhecimento.

E sem esperar mais nada Issa se levantou e se encaminhou para a floresta. Era seu modo de dizer que havia falado o suficiente por aquele dia.