Míriam, a mãe de Yehoshua, toma consciência de quem é verdadeiramente.

Míriam, a mãe de Yehoshua, toma consciência de quem é verdadeiramente.

Apenas para ajudar a retomada do fio da meada, eis os acontecimentos anteriores que já foram narrados por mim, aqui. Basta ir a estas datas para ler e recordar: 23/07/2015; 03/07/2015; 02/07/2015; 20/06/2015; 03/06/2015;  21/05/2015; 16/05/2015; 01/05/2015; 28/04/2015; 09/04/2015;   12/04/2015;  06/04/2015.

Vamos retomar a vida no Mosteiro de Hemi, onde Míriam, a mãe; Míriam, a esposa; Míriam, a irmã; Ruth e os irmãos Yoseph, Thiago e Matheus trabalhavam em harmonia com a vida pacata dos monges. Os dois encrenqueiros, depois da surra memorável que lhes tinham aplicado Yehoshua e Gabriel, haviam sossegado e decidido obedecer ao regime ditado pelo Rimpoche. Naquele dia as mulheres estavam entregues ao costumeiro trabalho de limpar o templo, lavar as roupas, ajudar na feitura da alimentação para todos. Próximo da hora sexta, meio-dia em nosso horário atual, pararam para descansar, antes de fazerem soar o sino chamando para o repasto. Entre as mulheres, Míriam, a mãe, não se encontrava. Aliás, ela estava desaparecida há dois meses e seus filhos e nora não conseguiam encontrá-la por mais que a buscassem. Ruth tentara junto ao Rimpoche de Hemi descobrir onde sua mãe se escondera, mas o ancião limitara-se a sorrir misteriosamente e lhe dera as costas sem nenhuma palavra.

Míriam alcançou sua verdadeira consciência cósmica num lugar como este.

Míriam alcançou sua verdadeira consciência cósmica num lugar como este.

— Alguma novidade, Ruth? — Perguntou Yoseph pela centésima vez, mão no peito, ansioso. Embora não fosse de demonstrar seus sentimentos, ele era muito apegado à mãe.

— Não. O Rimpoche teima em manter silêncio. Mas pelo seu sorriso, ela está bem e está sob a proteção dele, escondida em algum lugar.

— Mas… por que? Por que ele a esconderia?

Míriam, a irmã, aproximou-se dos dois e se intrometeu na conversa.

— Acho que ela está em tratamento. Não sei se vocês notaram, mas nossa mãe andava estranha, nos últimos quatro meses. Aérea, distraída, parecia viver numa realidade diferente da nossa. Uma vez eu lhe falei sobre o desaparecimento dos escovões de limpar o assoalho do templo, e ela, distraidamente, bateu de leve a mão em meu ombro e murmurou: “Sim, sim, é isto mesmo… Mas vai passar… Tudo vai mudar, não se preocupe!” E se afastou de mim com aquele olhar de quem olha, mas não vê o que está à sua frente.

— É… Ela andava muito estranha, mesmo — disse Míriam, a cunhada, que viera juntar-se ao pequeno grupo. Dava-me a impressão de estar vivendo num mundo à parte.

— Isso! — Exclamou Ruth, olhos brilhantes. — Mamãe passou a viver em outro mundo, mesmo que estando entre nós. Por que?

— Talvez esta religião, o Budismo, esteja fazendo com que fique… fique…

Míriam, a cunhada, parou, hesitante.

— Então? Conclui! — Instou Ruth, ansiosa.

Eles não mudaram após três séculos. E o Fim está-se anunciando.

Eles não mudaram após três séculos. E o Fim está-se anunciando.

—Bom, esta religião se choca fortemente com a nossa. Então, eu penso, minha sogra está em conflito. A doutrinação, aqui, não é como entre nosso povo. Lá, tudo é feito sob pressão constante. Não se pode nem mesmo pensar que não seja de conformidade com o que está escrito na Torá. Aqui, não. Aqui, o silêncio é imperioso e isto nos obriga a estar conosco mesmo. Eu, por exemplo, tenho-me pegado questionando fortemente o que a Torá impõe como a Lei. Aqui, prega-se o Perdão acima de tudo. Prega-se a paz e a compreensão. Repugna-se qualquer tipo de agressão ao próximo, mesmo que seja um suposto inimigo. Para estes monges, os homens não podem ser inimigos porque são todos irmãos. Defende-se a Fé como a Lei do Espírito. Lá, entre nosso povo, não se enfatiza o perdão senão entre hebreus legítimos. A Fé, entre os de nossa gente, é uma obrigação coercitiva. Não se tem Fé, como aqui. Temos Medo de Deus. Eles, aqui, amam Brahmân e esta é uma diferença estupenda. Este povo é pacífico, embora tratem os estrangeiros com dureza.

— Convenhamos, se isto se refere a nossos irmãos, os monges estão certos. Nunca vi cabeças tão duras quanto a deles — Disse Míriam, a irmã.

— Bem… Eles são homens. Foram muito mais treinados na religião hebraica do que nós, que só fomos ensinadas a servir a eles — disse Ruth, com um suspiro. — Creio que é por isto que são tão apegados à religião hebraica.

Míriam, a cunhada, ergueu a mão e apontou para um lugar fora de Hemi. Todas se voltaram para olhar para lá e todas viram uma suave luz azul destacar-se sobre uma grande rocha.

— O que é aquilo? — Perguntou Míriam, a irmã.

— Eu não sei. Desde que estou aqui, jamais vi aquela luz. E em pleno dia… É estranho…

— Vamos chamar o Rimpoche. Ele talvez possa-nos explicar — sugeriu Míriam, a irmã.

As três mulheres caminharam apressadas para o Templo, onde o Rimpoche meditava de olhos fechados. Ruth, a mais atrevida, tocou-lhe o ombro para lhe chamar a atenção. O monge demorou bastante antes de abrir os olhos.

— Que desejais? Não vistes que estou meditando?

— Mestre Rimpoche — disse Ruth, faces afogueadas. — Podeis vir conosco até lá fora? Há algo que nós desejaríamos que vísseis…

— A luz azul? — Perguntou o ancião, voltando a fechar os olhos. — Não demora para que tenhais satisfeita a vossa curiosidade. Agora, deixai-me que preciso retornar para onde estava, antes de virdes a mim, perturbar-me.

As três mulheres se entreolharam, confusas, e em silêncio retornaram para onde estavam. Mas quando olharam para o lugar onde tinham visto a luz, ela não mais pairava por lá. Estavam absortas e tentando descobrir se a tal luz surgia em algum outro lugar, quando ouviram a voz suave e doce de Míriam, a mãe.

— O que procuram, minhas filhas?

As três se voltaram para ela e recuaram um passo, assustadas. Ao redor de Míriam, a mãe, estava aquela estranha luminosidade azul tênue. Ainda assim, bem visível sob a luz clara do Sol.

— Mãe! — Exclamou Ruth, garganta seca de surpresa. — O que lhe aconteceu? A senhora desapareceu faz é tempo e nos surge assim, toda luminosa? O que está acontecendo?

— Eu não sei, Ruth. Nem mesmo sei se estou luminosa, pois não vejo luz nenhuma nem sobre mim, nem ao redor de mim, nem em mim mesma. É brincadeira?

— Não! — exclamou Míriam, a nora. — A senhora está luminosa, sim. Será que não percebe isto?

— Não, não percebo. Mas seja o que seja, vai passar. Venham, precisamos conversar nós quatro.

Todas foram ter com Míriam, a mãe, no quarto em que ela sempre dormia. Entraram e viram a cama ainda intocada.

— Não tens estado aqui há mais de dois meses — disse Ruth, excitada. — Vê, a cama está como nós a fizemos há tanto tempo. Por onde a senhora esteve?

— É sobre isto que desejo falar-vos. Sentai-vos.

As outras a obedeceram ansiosas. O que será que Míriam, a mãe, tinha a lhes dizer?

— Na minha última noite neste quarto — começou a mãe, em voz calma — eu me deitei muito cansada e muito triste. Estava angustiada com a ausência de notícias de meu filho Yehoshua. Nenhuma caravana que passava por aqui sabia informar sobre ele. Então, desabei em lágrimas. E quando chorava notei um clarão dentro deste cubículo. Olhei em volta, através das lágrimas que me embaçavam o olhar e vi aquele arcanjo que já me visitara várias vezes, no passado. Ele estava sereno e tinha uma expressão de tranqüilidade que me serenou o coração.

— Míriam — disse ele —, não chores por Yehoshua. Ele está trabalhando arduamente para cumprir com os planos de Brâhman.

— Onde está meu filho, Gabriel? É este teu nome, não é?

— Sim, é. Neste momento ele…

— Por favor, leva-me até ele — eu pedi, cortando-lhe a palavra. Ele aproximou-se de mim e me estendeu a mão. Segurei-a decidida e ele me pediu que eu fechasse os olhos. Fiz como mandava e só os abri quando recebi ordem para isto. E vi meu Yehoshua entre povos estranhos, gigantes de cabelos louros, que o ouviam atentamente. Ele estava lindo, Ruth, teu irmão. Eu o amo muito…

Míriam, a mãe, fez uma pausa e seu olhar se perdeu no vazio diante de si.

— Todas nós o amamos muito, senhora — falou Míriam, a esposa. — E todas nós sentimos imensa saudade dele — e lágrimas lhe desceram por sua bela face. Ruth também chorava juntamente com Míriam, a irmã.

A senhora enxugou as lágrimas e sorriu, dizendo:

— Por que choramos? Ele está muito bem. Ensina àquela gente estranha os segredos de Hemi. A religião budista, quero dizer. E o faz com tanta proficiência que eles, que nada sabem sobre o Budismo, aprendem com facilidade os novos conceitos. Ademais, meu filho e vosso irmão e esposo, é muito querido entre aquela gente.

— Então… Continua, por favor — pediu Ruth carinhosamente.

— Bom, quando Yehoshua se retirou para a mata ao redor daquela vila, eu corri atrás dele e o chamei, mas ele parece que não me ouviu. Continuou andando até uma pedra branca, bem no meio de um córrego de águas límpidas, onde se sentou. Só então, rindo, olhou para mim e me perguntou:

— O que fazes aqui, mãe?

— Gabriel! ele me trouxe. Eu morria de saudade de ti — quase gritei de alegria e tentando abraçá-lo. Mas ele estendeu a mão para mim, dizendo:

— Não me toques. Não poderás sentir-me. Não estás em corpo físico.

Parei atordoada e me voltei para o Arcanjo. Ele sorria de leve e acenou afirmativamente com a cabeça.

— O… O que vós quereis dizer com isto? — Perguntei, tensa. Pensava que era um sonho… um delírio de um coração saudoso. Mas Yehoshua me esclareceu.

— Mãe, estás em outra dimensão mais sutil que esta em que me vês. Na verdade, só eu posso ver-te onde estás. Teu corpo denso dorme lá onde tu te deitaste. Agora, ouve-me: não te preocupes comigo. Tua saudade me afeta e me perturba justo num momento em que isto não é desejável. Não parece, mas estou entre gente aguerrida, que pode, por qualquer coisa com que se sinta ofendida, se voltar contra mim e meus novos discípulos.

— Discípulos…? — Perguntei, espantada.

— Sim. Estou formando novo grupo que desejo que aprendam meus ensinamentos e prossigam pregando a mensagem deste lado do mundo. Meu tempo é curto para uma tarefa tão hercúlea. Eu não quero apressar o rio…

— Falas de uma mensagem… Podes dizer-me que mensagem é essa? — Eu pedi.

— A mensagem de nosso Pai Celestial, mãe. A Mensagem de Amor. O Amor que pode redimir a humanidade, se ela o compreender e o praticar. Mas estou vendo que é muito dura a missão de explicar uma coisa que de tão simples nasce todo dia e se deita com o sol. No entanto, os homens não a enxergam…

E, então, Yehoshua passou a falar de sua missão e da mensagem que tinha de pregar entre os homens. E eu o ouvi embevecida por mais de dois meses. Depois, não sei quando aconteceu, despertei numa gruta fora do mosteiro, ao pé da grande montanha. Lá, onde dizeis que vistes uma luz azul. Despertei e vim ter convosco.

— Dois meses… sem comer nem beber? — Espantaram-se as outras mulheres.

— Quando se dorme, minhas filhas, não se sente fome. Eu não senti nem fome nem sede. Nem mesmo agora, entre vós e aqui, tenho qualquer uma destas duas necessidades. E não me pergunteis como isto é possível, pois não sei explicar. Só posso dizer que estou em paz. Uma paz que não se traduz em palavras.

— Agora, preciso ir ter com o Rimpoche. Necessito saber mais sobre o que está-me acontecendo. Ando estranha, aérea e com uma paz da qual não sei falar. E me sinto imensamente feliz…

A senhora deu um beijo na testa de cada uma das mulheres ali presentes e se retirou, deixando a todas pasmas e sem saber o que dizer. Míriam, a mãe, chegou junto ao Rimpoche e se sentou numa almofada, fechando os olhos. Ela andava tão macio que parecia pisar em algodão. Não sabia dizer quanto tempo ficou em silêncio. Também não sabia dizer quando se viu fora do corpo. O lugar era luminoso, esplendidamente belo. Não havia formas, mas música e luz. Luz diáfana e música suave. Serenamente olhou ao redor e… Viu o mundo muito abaixo de seus pés. Fixou o olhar naquela bola azul e uma imensa ternura lhe assomou o Ser. “Lindo! Muito lindo!” pensou consigo mesma. A felicidade de que estava tomada a inundava toda e lhe dava o forte desejo de jamais retornar dali. Não via mais nada. Só ela e a bola azul girando num imenso espaço vazio e negro. Então, um vórtice de luz branca a envolveu e um rodamoinho engolfou-a. Serenamente ela se percebeu sendo sugada para algum lugar no Espaço. Um lugar em que não havia absolutamente nada mais que ela flutuando livre na imensidão negra do infinito. E uma voz soou. Poderosa, tonitruante, mas com imensa ternura.

— Avalokiteshiwara — disse a voz — está na hora de despertares para tua real condição. O momento se aproxima. Não desejo que o enfrentes sem a plena consciência de quem és.

— Sois…

— Sou quem Sou, Avalokiteshiwara. Nada há acima nem abaixo de mim. Nem à esquerda nem à direita. Nem na frente, nem atrás. Eu sou tudo e tudo é Eu. Tu te ofereceste para ser a Sagrada Mãe de Meu Filho Primogênito na Terra. Mas eu te faço a Mãe e a Guardiã de toda a raça homana, pois todos são irmãos de meu Filho Primogênito naquele mundo. Todos ali são meus Filhos também. Mas só ele alcançou a primogenitura.

— Faça-se em mim a Vossa Vontade, Senhor — pensou a Buda, agora consciente de sua realidade.

— Ela se faz, minha filha. Ela se faz. E eu me comprazo porque tu te ofereceste de livre e espontânea vontade para desceres com ele ao mundo de provação e dor. Tu sabes, agora, quem és. O Rimpoche, também. Mas a ninguém mais será revelada a tua condição, exceto à tua filha Ruth e no tempo devido.

— Meu Pai — pensou a Buda — um filho nosso está em uma situação…

— De grande aprendizagem, minha filha. Ele escolheu o caminho mais difícil, mas trilhá-lo-á até o fim, pois após a escolha não há retorno.

— Condói-me sua dor, seu sofrimento.

— E qual homem, no mundo de dores e sofrimentos, não sofre? Uns, mais que outros, na medida certa de seus merecimentos. Outros, mais intensamente que o comum. Estes, serão seres avançadíssimos, pois foram até onde os demais não puderam chegar. Eu sou a Justiça Suprema e Sei o que Faço.

— Sim, Vós O Sois e eu me curvo à Vossa Vontade.

— Volta, então. Mas mantém-te humana até teu retorno ao teu reino de direito.

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