Somos entidades complexas. Fazer o quê?

Somos entidades complexas. Fazer o quê?

Somos seres que se colocam objetivos e batalham por alcançá-los. Esta assertiva é básica na Teoria da Psicologia Individual, de A. Adler, como vimos na aula anterior. E a PASR diz que somos seres que vivem a vida mergulhados ininterruptamente em Dilemas, os quais servem para lhes desenvolver as faculdades psicoemocionais, incrementando suas habilidades de inteligência e capacidade de resistir às derrotas, adaptando-se às novas condições destas surgidas e, geralmente, não esperadas nem desejadas. Os Dilemas sempre são instrumentos de combate ao Medo e ao comportamento medroso. É neste constante viver em desafio dilemático, afirma a PASR, que o Indivíduo mostra se venceu ou não, o predomínio da Pessoa sobre ele. Na visão da PASR, Pessoa é a entidade criada pelos apelos, pelas imposições sociais cheias de pré-conceitos, de juízos de valor compensatórios e de agressões defensivas que, no entanto, é necessária à vida comunitária socializada. Já Indivíduo é a entidade íntima de cada um de nós, estruturada a partir de legados arquetípicos predominantes na linha evolutiva do ser humano (e que lhe moldam o Caráter), que nem sempre estão em consonância com os impulsos, as crenças ou os pré-conceitos de terceiros sobre a Pessoa. O Indivíduo leva o sujeito humano a se centrar em si e a se comportar de conformidade com suas aspirações, suas crenças, seus anseios e suas necessidades íntimas, mesmo que isto resulte entrar em confronto com as crenças Pessoais, seus objetivos ou “goals”, como querem os estudiosos da TPI de Adler. Um exemplo real: uma jovem Pessoa mulher aprendeu, em contato com Pessoas homens, que era um fiasco no leito. Seu contato sexual coital terminava sempre em frustração para ela e críticas das Pessoas homens sobre seu desempenho.

"Meu Deus, eu não sou mulher. Eu sou uma frustração no leito."

“Meu Deus, eu não sou mulher. Eu sou uma frustração no leito.”

Na opinião de seus parceiros de leito, ela era fria, deficiente no quesito orgasmo. Em função disto, apelava com muita freqüência, para o fingimento do alcance do prazer, a fim de escapar das críticas cruéis dos que, depois de satisfeitos, jogavam sobre seus ombros aquela pecha humilhante de “frieza sexual coital”. Criada com valores rígidos quanto à exploração do próprio corpo e à sua experimentação no leito, seu ato sexual coital tinha, por debaixo de toda aquela agonia da necessidade não satisfeita, o amargor da culpa. Sua Pessoa admitia, frustrada, que realmente era “fria” e incompetente como mulher. Sua Identidade não. O conflito entre estas duas forças potentíssimas em seu Ser em manifestação, levou-a a buscar ajuda em muitos terapeutas de linhas de atuação as mais variadas. Sem resultado. Alguns, devido a ela possuir um “sex appeal” muito forte, tentaram levá-la para a cama, o que a revoltou sobremodo.

O orgasmo "de mentira" pode satisfazer a pequenez da masculinidade masculina, mas é desastrosa para a mulher.

O orgasmo “de mentira” pode satisfazer a pequenez da masculinidade, mas é desastrosa para a mulher.

Ela era psicóloga e tinha sido aluna de um colega de profissão que lhe parecia um fenômeno em conhecimento da Ciência da Psicologia. Então, quando já apresentava sintomas tidos e havidos pela Psicanálise como sintoma de “histeria”, buscou a ajuda daquele Indivíduo. “Meu corpo”, disse ela, “está dividido ao meio e isto me aterroriza. Na parte superior sou extremamente sensível e me estimulo intensamente quando meus seios são tocados. Mas quando meu parceiro me toca na parte de baixo, não sinto nada. É como se fosse feita de gelo. Isto me apavora. O ato sexual, para mim, é algo mecânico. Eu não sinto prazer”.

Educação infantil censurosa.

Educação infantil censurosa.

Aquela jovem, naquele momento, ia de encontro(*) à sua rígida educação familiar, onde a mulher “promíscua” era uma sem-vergonha. Do ponto de vista da Psicologia Individual, aquela jovem se colocava como “goal” buscar uma solução para seu problema de vida. Do ponto de vista da PASR, seu “Indivíduo” rebelara-se contra sua “Pessoa”. Esta, aceitara pacificamente e desorientadamente os juízos de valor sobre si e, com isto, amargurava um estado culposo-raivoso que lhe envenenava a existência. Aquele, não. Para o Indivíduo de qualquer ser humano não há Dilema sem saída. Então, o Indivíduo daquela jovem mulher jogou sua Pessoa para escanteio e impulsionou aquele ser humano a ir à luta com a máxima capacidade de se arrisca que possuía. Arriscando-se ao máximo, ela aceitou o que seu colega de profissão lhe disse ser necessário. Não havia nada, absolutamente nada, nos livros de Psicologia (exceto algo muito superficial no trabalho de Master & Johnson) que lhe dissesse que o que lhe era proposto podia dar certo. Um Dilema angustiante surgiu inesperadamente diante dela. Sua Pessoalidade recuou cheia de medo. Sua Individualidade topou o risco, acreditando que a proposta insólita era a solução buscada. Seu colega, depois de hesitar um longo tempo, decidiu-se por ajudá-la e lhe deu uma ordem esdrúxula: “Tire a roupa”. Aquilo realmente soou totalmente insólito aos ouvidos de sua Pessoalidade. Imoral. Idéia corrupta. Tentativa de aproveitamento de seu momento de fraqueza e desespero. Uma dezena de pensamentos deste tipo lhe cruzaram a mente e por momentos ela hesitou, agoniada. Obedecer ou não obedecer? Tentar ou não tentar? O Dilema era intenso e não lhe dava tempo para refletir. Era confiar ou não confiar. Aceitar ou recusar.

Ela aceitou. 

Em menos de uma quinzena ela não somente estava “curada de seu sintoma histérico”, como também se descobrira alguém muito especial, compreendendo que não era uma mulher comum e disponível a qualquer macho da espécie. (* NOTA: ir de encontro a significa chocar-se com; ir ao encontro de significa colocar-se ao lado de; compartilhar com. É necessário esclarecer isto, pois ainda escrevo no velho idioma português do Brasil e o paulistanês dominante atual tem feito uma bagunça infernal em nosso idioma).

Muita gente perde a oportunidade crucial de suas vidas porque dão ouvidos mais à sua Pessoalidade do que à sua Individualidade. O feeling para isto é delicado e deve-se estar ligado em nosso íntimo, em nossas exigências individuais, caso contrário, a tomada de decisão pode ser equivocada.

Os “alvos” de um ser humano colocados, segundo a Psicologia Individual, como meios de se ascender mais e mais, na visão da PASR, é uma função dilemática, porque são os dilemas que fazem surgir os tais alvos. Os alvos são função da estrutura social que requer que as Pessoas se superem mais e mais, para poder obter os favores do Mercado. Quer um bom apartamento em um bairro de destaque social? Então, estude, faça Doutorado, consiga um excelente emprego e, finalmente, busque o dinheiro suficiente para alcançar seu alvo. E este, é um alvo da Pessoalidade, com o qual a Individualidade pode ou não, concordar. Os “objetivos de superioridade” não são colocados para si pelo ser humano e por sua própria Vontade, como é o entendimento da Psicologia Individual, mas surgem como estímulos mercadológicos, sociais, estereotípicos, que estimulam o Desejo na Pessoa, e são preparados para justamente atingir este propósito.

Adler diz que “por trás da luta pelo objetivo de superioridade encontramos sempre o sentimento de falta de integração, a insegurança e a inferioridade”. A PASR entende de modo diferente. Para esta Teoria, esta situação perturbada só é viável quando e se o ser humano se deixa levar totalmente pelo DESEJO estimulado em sua Pessoalidade. Se o ser humano é centrado em sua Identidade, certamente não responderá positivamente aos apelos do Mercado. Escolherá o que quer para si dentro de suas limitações, não procurando açodadamente obter o que ainda não esteja dentro de seu campo de possibilidades. Assim, este ser humano evita o viver angustiosamente em um campo dilemático artificialmente criado. 

Nosso encontro prossegue no próximo post.