CAPÍTULO XI – Parte 2 – O Primeiro Contato com o Passado

Podemos experimentar vivências simultâneas em dimensões diferentes? Em Pargos, sim.

Podemos experimentar vivências simultâneas em dimensões diferentes? Em Pargos, sim.

Mara tomou banho, penteou-se e foi direto para a cama de Ludmla. A suíte em que estavam era toda em rosa-claro e a luz indireta também era muito calmante. Ludmla estava acordada ainda esforçando-se para lembrar alguma coisa dos momentos em que ficara com Khamal e sua companheira de quarto lá na biblioteca. Nada lhe vinha à recordação e isto a in­comodava muito. Não podia admitir aquela súbita amnésia. A maciez da cama e o cheiro dos lençóis limpos e alvos não lhe davam qualquer relaxamento. Sentia-se inquieta, com uma incômoda sensação de perigo iminente a lhe atormentar os sentidos. Sua colega sentou-se ao lado, na cama. Vestia confortável “peignoir” e um roupão de linha que lhe caia muito bem.

— Em que pensa? — perguntou Mara.

— Em tudo. Principalmente em nós duas com Khamal, lá na biblioteca.

Mara sentiu-se subitamente incomodada e com uma leve sensação de contrariedade a lhe perturbar as emoções.

— Eu não acho isto importante… — disse ela, sem mesmo saber o que dizia.

— Ao contrário — rebateu Ludmla. — Minha mente está vazia como um tape que foi apagado. Quem fez isto comigo? Só pode ter sido o Dr. Khamal, mas por que? Por que ele me queria desmemoriada?

— Eu não sei… Mas não somos nós quem me preocupa — disse Mara. — O que me in­comoda é o jacaré. De onde veio ele?

— Ora, isso Milena já explicou — tornou Ludmla com uma leve e indisfarçada ponta de irritação na voz. — Acho que concordo com Damastor e sua tese de que o jacaré foi circunstan­cial. Nós e Khamal… Aqui é que está o…

Os olhos da ruiva fixaram-se na janela da suíte, com espanto. Mara seguiu-lhe o olhar e também assustou-se. Lá fora, banhada pela prateada luz da lua cheia, ela viu a razão do susto de sua companheira. Longe, um enorme contorno escuro de uma montanha surgia re­cortando-se contra o céu claro e dando uma inquietante sensação de ameaça, de perigo.

— Meu Deus! — exclamou Mara. — Aquilo… o que é? De…de onde é que veio?

— Você também está vendo? — e Ludmila olhou a amiga, perplexa.

— Sim, vejo, mas não acredito! — E Mara esfregou os olhos como se quisesse apagar a visão. Ludmila foi até à janela. Divisou, bem abaixo, uma luxuriante mata cerrada. O chalé parecia estar a quase trezentos metros de altura, sobre um penhasco. E lá embaixo tudo era es­curidão e ameaça.

— Não é possível! Estou ficando maluca! — E Ludmila recuou instintivamente de perto da janela. Uma tontura escureceu-lhe a vista e ela sentiu-se quase desmaiar. Recuou cambale­ando e teve de se apoiar na cômoda para não cair. O coração disparara-lhe no peito e chegava quase a doer de tão forte que lhe batia. Por sua vez, como que hipnotizada e fascinada pela cena inusitada que divisava lá fora, Mara foi também à janela. Não conteve um grito de espanto. A menos de duzentos metros ela via a praia. Uma nesga de areia grossa, brilhando à luz da lua. Ondas enormes, coroadas por espuma brilhante, arrebentavam-se com estrondo entre as paredes rochosas de pedras negras. Do lado direito ela viu o estuário do pequeno rio que desembocava no mar cercado de altos coqueiros. O chalé estava a uns quinhentos metros do rio, mas dava perfeitamente para divisá-lo correndo serenamente para o mar, pois o estuário situava-se bem a baixo, num leve declive que ia desde o chalé até ele.

— Céus! — gritou a repórter assombrada. — É  a praia! A praia de Pargos.

Ludmila olhou a colega com espanto. Endireitou-se, respirou fundo e olhou pela janela novamente, mas de onde estava. Só via o paredão escuro recortado contra o céu de luz diáfana.

— Praia? – perguntou com estranheza. — Que praia? Eu vi um enorme precipício escuro como breu bem abaixo de nós. Divisei algumas copas lá longe, mas não há praia nenhuma. Definitivamente não há praia, Mara. Lá fora tem tudo, menos praia. Acontece que aquilo não é a geografia da ilha em que estamos. Eu tenho absoluta certeza disto.

— Há praia, sim. Eu vejo e não estou sonhando, não! — E Mara apontou para o lado di­reito enquanto falava.

— A mata está à direita, além do rio Marataxa. Parece perto vista daqui, mas na ver­dade ela é bem longe… Eu sei. Até a gente chegar a ela tem de percorrer um caminho rude, as­cendente e pedregoso… Meu Deus, eu sei, eu sei! Eu conheço aquele lugar!

— Mas de  que  rio  você  esta  falando,  criatura? Que praia? Lá fora não há praia nen­huma. Você está alucinando tudo isto. A gente está sobre um enorme precipício. Eu vi. Não posso dizer como é que viemos até aqui, mas o certo é que estamos dependuradas nele.

Ludmila passou a mão pelos cabelos, perplexa, e murmurou:

— Só pode ser um pesadelo. Só pode ser isto… Eu estou dormindo… tenho de estar…

— Venha ver! — chamou Mara imperativa. — Venha ver a praia e o rio Marataxa. Eu tomei muitos banhos ali, ora essa.

— Não há rio, Mara —  teimou Ludmila. — Nós estamos num pesadelo.

— Venha ver! — insistiu Mara nervosamente.

Ludmila aproximou-se novamente da janela. Com muito cuidado e com o coração aos sobressaltos, apoiou-se no peitoril e olhou lá para baixo. Sim, havia um enorme precipício es­curo como a boca do inferno abaixo delas. E à frente, o vácuo até onde podia enxergar. Lá, bem distante, o enorme paredão rochoso, negro como breu. Ao lado, dependuradas no pre­cipício, ela podia divisar copas de algumas árvores. Mas definitivamente não havia nenhuma praia ali. Nem ali, nem até onde podia divisar.

— A praia, veja!

E Mara apontou em frente.

— O abismo, lá embaixo! — E Ludmila apontou para baixo.

As moças olharam-se perplexas e confusas, cada qual mantendo o braço estendido na direção do que viam. Depois, olharam ao mesmo tempo lá para fora. Mara fixava a praia em frente, enquanto Ludmila olhava, ser ver, o fundo do abismo bem abaixo da janela.

— Santa Virgem, Ludi – murmurou com voz trêmula, Mara. — Eu vejo uma paisagem diferente da sua. E estamos olhando ao mesmo tempo e pela mesma janela. Como é possível?

Ludmila respirou fundo para controlar as batidas de seu coração e passou a mão pelo rosto.

 — Eu não sei. Isto é uma loucura. Se você não estivesse aqui, o­lhando pela janela e vendo quase tudo o que vejo, então eu já estaria desacordada, tenho certeza. Estou-me sentindo tonta.

Mara fechou os olhos com força e apertou as mãos até sentir as unhas se cravando em suas palmas. Respirou fundo várias vezes, a cabeça num torvelinho de pensamentos desencontrados. Então, subitamente, abriu os olhos e fitou decidida a face pálida de sua amiga.

— Pois eu quero decifrar este mistério de uma vez por todas — falou a moça com resolução. — E vou agora mesmo até aquela praia lá!

Ato contínuo a repórter passou uma perna sobre o peitoril da janela, mas foi contida pela forte mão de sua companheira que lhe segu­rou o braço, aflita.

— Não! — gritou Ludmila, olhos arregalados de medo. — Pode ser uma ilusão, mas o que vejo é muito real a meus olhos. Se saltar a janela você se esbagaçar lá em baixo. Estamos quase a trezentos metros… talvez até a mais que isto, de altura…Você me entende, não é? Estou falando con­fusamente, mas você me compreende, certo?

E Ludmila curvou-se sobre o peitoril, olhando com arrepio para o negror que subia das profundezas da terra até ela.

— Do que é que você está falando? — protestou Mara. — Lá fora está a praia e a areia está bem aqui, sob a nossa janela. E eu vou até lá, agora mesmo.

Mas a ruiva puxou a amiga com força, obrigando a que descesse da janela.

— Desça daí, diabo! Não vê que pode-se matar? Há um abismo!

— Mas que abismo que nada, Ludi. Olha, a areia está tão perto de nossa janela que eu até posso tocá-la com a mão.

E Mara lutava para se debruçar sobre o peitoril.

— Não há nenhuma areia, droga! É uma ilusão! Se saltar a janela você vai morrer, não está vendo? — E forcejando, Ludmila falava.

— Não! Vamos com calma, colega. Desça, ande. Não podemos ficar malucas também, além de alucinadas, certo?

Mara olhou a amiga por alguns momentos. Por mais desejosa que estivesse de ir até a praia e ver de perto o lugar misterioso de seus pesadelos, tinha de concordar com ela.

 — Veja, Mara, o que eu vejo é muito real. Se saltar a janela te­nho certeza de que vai cair no abismo. Agora, venha pra dentro. Vamos sair um pouco de perto desta… desta… sei lá como chamar a isto. Venha, vamos sentar e refletir com calma. Estamos perdendo nosso con­trole.

As duas voltaram a se sentar no leito. Mara ainda não estava certa de que Ludmila estivesse mesmo acreditando haver um abismo lá fora. A areia era tão alva e tão concreta como a cama onde estavam sentadas.

— Não é possível que não ouça o barulho das ondas, Ludi. Escute! Está ouvindo? Sente o chão tremer com a arrebentação? Sente?

Ludmila ficou quieta por alguns instantes e meneou negativamente a cabeça.

— Calma, Mara, calma. Vamos ficar calmas. Pelo menos aqui dentro estamos seguras. Lá fora a realidade mudou. Eu não sei como, mas mudou e foi para pior. Parece até a ilha da fantasia…

— Eu não estou interessada em nenhuma série de televisão, agora, Ludi — protestou Mara de olhos fixos no maciço lá longe. — Eu não sei a­té quando aquilo lá vai durar, mas é minha única chance de ver de perto, de sentir sob meus pés e respirar verdadeiramente o ar de Pargos. Eu te­nho certeza de que lá fora está a ilha de meus pesadelos de anos. Agora quero ir lá, compreende?

— Mas fazer o quê? O que espera encontrar naquele lugar de pesa­delo? Pode ser al­guma coisa como uma dimensão diferente da que estamos acostumadas. Quem sabe o que nos vai acontecer se formos até lá? Escute Mara, preste atenção. Esta é a nossa realidade. Aqui den­tro. O que vemos aqui, sob nossos pés, à nossa volta, isto é real. Você é real para mim e eu sou real para você. Nós temos certeza desta realidade. Nela, estamos, ambas, seguras. Mas lá, lá fora, a realidade é outra. Não podemos dizer que estamos alucinando juntas. Aquilo, ainda que não possamos compreen­der o que seja, também é real. A sua praia e o meu abismo de algum modo existem simultaneamente. São partes de uma realidade em dimensão de tem­po-espaço diversa da nossa. São duas realidades diferentes, mas que ocorrem simultaneamente, como já disse.  É fantástico, é enlouquecedor, mas é real. RE-AL, compreende?

E Ludmila começou a dar voltas e mais voltas no quarto, olhando fascinada para a janela. Mara, sentada, mais calma, achou que ela fizera bem não lhe permitindo ir lá fora. Afi­nal de contas, e se o tal abismo a que ela se referia tão veementemente existisse mesmo? E se fosse uma di­mensão diferente e ela se metesse lá dentro, como ficaria?

— Eu não posso acreditar no que está acontecendo — murmurou Mara também de olhos presos na janela. — Mas que aquilo lá é Pargos, disso tenho absoluta certeza. Só não sei ainda é como conheço o nome do rio, mas pretendo descobrir.

— Mara,  já  sei  o  que  vamos  fazer  —  disse  Ludmila olhando a amiga com olhar brilhante.

— O quê?

— Vamos buscar Karina e Tamara e lhes mostrar o que estamos ven­do. Na volta, trazemos Damastor, Ivaldo e Milena. O que acha?

— Eu não sei… A gente pode chamá-los pelo celular…

— Não. Vamos até eles. Os celulares podem estar desligados, o que é mais provável. E nós não sabemos que efeito as ondas hertzianas poderiam causar àquela aparição. Venha, va­mos!

Ludmila pegou na mão de Mara e a arrastou em direção à porta, porém parou quando já segurava a maçaneta.

— Espere, Mara. Não vamos nós duas, não.

— Por que? — espantou-se a moça.

— Bem, estou pensando. E se a realidade estranha lá fora desaparecer quando não hou­ver mais alguém a observando daqui, hum? Eu acho que ela só tem existência porque nós a vemos. De algum modo, sei lá, nós mantemos aquilo concretizado.

— Eu não estou entendendo onde você quer chegar — confessou Mara.

— Escute com atenção. Os druidas, sabe quem foram eles, não sabe minha amiga?

— Sei, sim. O que têm os druidas com nossa situação?

— Não digo que eles tenham nada com o que nos está acontecendo. O que quero dizer é que eles ensinavam que a terra possui linhas de forças que são como os canais energéticos da acupuntura em nosso corpo. A Ter­ra é um ser vivo, sabemos disso, agora, mas os velhos druidas afirmavam isto há muitos séculos atrás. Pois bem, nos ensinamentos deles, as li­nhas de forças que circulam sob o solo geralmente acompanham os cursos d’água subterrâneos e são, umas, positivas e outras, negativas. Os seres vivos — e os humanos não escapam a isso — têm a tendência a acompanhar a linha de força negativa, pois ela é a que cede a energia kundaline. Já as positi­vas, estas nos roubam energia. É por isto que as trilhas das formigas assim como as dos homens no mato, são sinuosas. Instintivamente todos seguimos as emanações energéticas negativas ter­restres…

— Bem, o que tem isso com a realidade virtual lá fora? — impaci­entou-se Mara.

— Já chego lá, paciência, sim? Bom, as tais linhas de força cru­zam-se a toda hora. A este cruzamento deram-se o nome de Malha Hartman. A sabedoria druida construía os cromlech sobre um entroncamento destes para captar tais energias e dirigi-las para o alto. Não sei bem por que é que o faziam, mas a mesa de pedra existente no centro de um cromlech servia de leito para muitas operações mágicas e, também, para a cura de do­enças graves. Tudo através da energia terrestre. Os cristalomânticos da atualidade afirmam que se se puser um cristal facetado de uma determinada forma bem no meio de uma malha Hartman, pode-se abrir um portal para uma dimensão paralela à nossa.

— E daí? Você acredita que alguém colocou um cristal destes nal­guma malha existente aqui, na ilha de Milena? Se colocou, quando foi is­to?

— Não, eu não estou afirmando tal coisa. Não poderia. Mas quero dizer que de alguma forma há uma malha Hartman aqui. E ela foi ativada…

— Mas como e por quem?

— Talvez por nós… Talvez pelo Dr. Khamal… Eu não sei. Só sei que acho que não deve­mos sair as duas daqui de dentro. Uma tem de ficar olhando atentamente lá pra fora. Acho que assim a coisa não vai desaparecer e nos deixar com cara de bobas se, quando voltarmos com os outros, a realidade lá de fora tiver sumido. O que acha?

— Mirabolante — disse Mara, cética.

— Talvez, mas é uma suposição objetiva. Pelo menos, para mim.

— Tudo bem, não entendo nada de druidismo, mesmo. O que quer fa­zer?

— É o seguinte: você fica aqui. Não tira os olhos lá de fora por nada deste mundo, está entendendo? Eu vou lá fora e trago todo mundo pra cá. Aí, juntos, decidimos o que vamos fazer. O que acha?

— Bem… quer dizer… Diabos, tá tudo muito confuso, eu não consigo pensar direito. Mas… mas… bem, talvez você tenha razão… — tar­tamudeou Mara.

— Então, tudo bem. Você fica. Não vai fazer nenhum mal, não é? Agora, prometa pelo que há de mais sagrado para você que não vai correr a se atirar pela janela tão logo me veja fora daqui. Promete?

— Prometo. Mas não demora, sim?

— Não. Só o tempo de convencer a todos a me seguirem. Tudo bem?

— Tá.

E Mara voltou à cama onde se sentou e ficou a olhar para o estranho e lúgubre maciço lá fora, recortado contra um céu azul fantasmagóri­co pela luz de uma lua cheia muito clara.

Ludmila abriu a porta e saiu… para o nada. Seu pé desceu no vazio e ela caiu com lancinante grito de pavor. Seu corpo bateu na copa de um coqueiro que se dependurava sobre o abismo e suas mãos agarra­ram-se freneticamente na grande palma da árvore solitária. Escor­regou a­té quase a ponta da palma antes de poder fixar-se nela com todas as forças que possuía. A palma curvou-se perigosamente e a apavorada ruiva ficou pendendo sobre o vazio negro debaixo de seus pés. Uma das pantufas que calçava sumiu abismo abaixo e a moça sentiu o vento frio no pé descalço.  Ela olhou para  cima à procura do chalé. Queria pedir ajuda a Mara, mas seus olhos só viram a lapa escura e, acima, um céu iluminado pela grande lua cheia. Ludmila estava só, dependurada sobre um abismo sem fundo e num lugar absolutamente desconhecido.