Capítulo XI – Parte 4 – AS MISTERIOSAS TOCHAS AMARELAS DANÇANTES

Cérebro, a usina de energias que desconhecemos totalmente.

É nosso. Está em nosso sistema nobre, mas pouco ainda se conhece sobre seus poderes.

Tamara e Karina conversavam animadamente na suíte que lhes fora designada. O assunto era a morte de Khamal. Tamara estava muito impressionada com o detetive Damastor e Karina não tinha simpatizado com Ivaldo. A seu ver, ele era o tipo de policial safado, mulherengo e vulgar. Tama­ra ria dos conceitos sem fundamentos de sua colega. O detetive era-lhes desconhecido. Como julgá-lo e rotulá-lo? Depois, o rapaz se mostrara ativo e muito solícito. Se não fora mais simpático talvez isto se devesse a que estava muito cansado. Quando se tem a glicose baixa no sangue, diz a ciência médica, o humor fica deprimido e o comportamento tende a ser desagradável.

— Você está sendo muito radical com o jovem companheiro de Damastor, Karina. Eu também notei que ele quase sempre manteve a face fechada e falou pouco, mas o próprio Damastor afirmou que ele é diferente quando descansado. Que tal esperar até amanhã, para ver melhor as coisas?

— É… Talvez você tenha razão. Eu tenho mesmo um pé atrás com policiais, confesso. Mas…

—  Esse seu amigo, o detetive Damastor — cortou Tamara. — Ele…

— O que tem ele? — instou Karina, curiosa.

— Bem, eu o achei simpático. E é muito… muito másculo, se me entende.

— Não, não entendo, não. O que você quer dizer com másculo? — e Karina olhou com sarcasmo para a companheira de quarto.

— Bem… Eu não falo no sentido sexual, se é o que está perguntando. Sua masculinidade está na postura do corpo… nos modos… nos movimentos… ele se move firme, decidido… enérgico, você me entende? Eu quero dizer que a presença dele preenche o ar… enche o ambiente. Há como uma força emanando de seu corpo… Uma aura de força… Fala com firmeza, com segurança e… e… e sabedoria. Enfim, ele é uma presença marcante. É isso aí: uma presença marcante.

Karina observou a amiga com um sorriso no rosto. Nunca, antes, a vira assim, tão entusiasmada com alguém. Mas se se impressionara com o detetive, então estava queimando suas fichas. Damastor era um homem difícil de convivência. Tinha uma vida muito agitada, muito enrolada, muito so­bressaltada. Ele era polícia por vocação, não por opção.

— Damastor é desquitado — informou Karina. — A sua ex-mulher é muito bonita. Chama-se Penélope e têm um filho, acho que o nome dele é Poli­doro. Está, se não me engano, com dezoito anos feitos. Tinham um outro, mais jovem, mas faleceu.

— Desquitado? Por que ele se separou da mulher? — Interessou-se Tamara.

— Eu não sei bem, mas parece que o Kantor Antratos pagou a um desses galãs imbecis para que conquistasse Penélope. Foi um golpe muito feio e muito duro para o coitado.

— Sempre o Kantor, hein? Pelo visto, Damastor vem nos calos dele há muito tempo…

— É isto mesmo — disse Karina com um suspiro.

— O que você sabe mais a respeito do assunto? — interessou-se Tamara.

— Bem, é um negócio um tanto nebuloso. O que sei é que o detetive estava atrás de provas capazes de levar o meliante para ver o sol nascer quadrado, sabe? E ele incomodou muito o poderoso chefão. Vai daí, aquele crápula mexeu com os pauzinhos e colocou o detetive em escala constante e exaustiva. Ele passou a ser obrigado a ficar, às vezes, a semana inteira, vê se pode, dobrando o serviço e, logicamente, dormindo fora de casa. Quando conseguia vir pra casa chegava estourado, freqüentemente com 72 horas sem dormir. A vida conjugal deve ter ido pras cucuias. Vieram as brigas, as queixas e a inconformidade de Penélope com a situação. Aí foi que entrou o garanhão de aluguel. Boa lábia, ocasiões forjadas… motel. Penélope achou que estava apaixonada pelo salafrário e contou tudo ao marido. Com os nervos à flor da pele, totalmente estressado, Damastor armou aquele escândalo. Desceu o morro de uma vez e aplicou uma surra memorável na esposa. Depois — isto foi à noite — ele saiu de casa e foi dormir com uma ga­rota de programa. Mandou a Delegacia às favas e ficou dois dias e duas noites com a moça bebendo e copulando. Neste meio tempo o tal conquista­dor barato apareceu morto a bala. O exame de balística provou que os pro­jéteis tinham sido disparados pelo revólver de Damastor. Ele se viu em apuros com um processo de assassinato. Não se provou nada, mas todo mundo que viveu o drama afirma que foi o Kantor quem sustentou o processo em nome da família do desgraçado. Damastor investigava muitas trapalhadas do marginal e é lógico que a coisa foi armada e muito bem, pra cima dele. Só não foi expulso da polícia porque a moça se apresentou e depôs de livre e espontânea vontade em favor do detetive, inocentando-o com um álibi muito sólido. Na hora em que o IML afirmava que o meliante tinha sido assassinado ela declarou que estava no Motel com nosso amigo. Uma busca nos livros de registros e se constatou que a placa do carro do detetive estava registrada lá, naquele dia e que só saíra no alvorecer do terceiro dia. Os garçons se lembravam de o ter servido naqueles dias. Aí, a coisa melou. Quando devia prestar o segundo depoimento para confirmar o primeiro e esclarecer detalhes, a moça sofreu um acidente fatal. Aparentemente o seu carro perdeu os freios na descida da serra e ela, ó, danou-se. Depois de mui­tas peripécias, Damastor conseguiu flagrar o Delegado Amauri, Chefe da Delegacia onde ele servia, envolvido com a lavagem de dinheiro de tóxicos. O dono do Motel Três Corações, que viera prestar depoimento a favor do detetive, também sofreu um dano terrível. O motel pegou fogo e, embora não se tenha conseguido nenhuma prova, ficou a forte suspeita de que ambas as catástrofes ocorreram porque a mão de Kantor estivera em ação. A briga esta­va acirrada. Metralharam o carro de Damastor por cinco vezes, mas o homem tem um santo muito forte e escapou dos cinco atentados. Só em um deles é que saiu ferido. Foi quando elegeram para Governador do Rio de Janeiro um corrupto de marca maior. A bandidagem se soltou e os que lutavam pela justiça deram-se mal de verdade. Kantor estava por um fio, pois Damastor ti­nha arregimentado muitas provas contra ele. O  corrupto, contudo, uma vez eleito com o apoio do meliante, tratou de safar o bandido do apuro. Damastor foi retirado do caso e transferido para uma Delegacia de quinta categoria na baixada fluminense. As provas sumiram.

— Puxa vida, que novela, hein? — admirou-se Tamara.

— É… Eu costumo dizer que eles, Damastor e Kantor, nasceram um para o outro.

— Desde quando você se dá com o detetive?

— Desde o escândalo que o envolveu na morte do doidivanas que foi pago para desviar sua mulher. Eu fui designada para fazer a cobertura da história.

— E aí?

— Aí que tive a mesma impressão dele que você.

— Dele quem?

— De Damastor, ora. A sua… masculinidade, como você a definiu, me tocou fundo. Não conseguia ver aquele homem como um salafrário e resolvi ajudá-lo.

— Ah… E se eu a conheço bem, você comprou a briga dele com o meliante, não é?

— Comprei. Consegui muitos documentos quentes e muitas vezes até consegui preveni-lo de arapucas que estavam sendo armadas para ele. Terminamos ficando muito amigos. Só depois de conseguir voltar para a Delega­cia onde está agora, é que ele reencetou a briga contra Kantor.

— E como vive o detetive, atualmente? Quero dizer…

— Vive com outra mulher, se é o que quer saber. O nome dela é Ce­lena e, pelo que sei, dão-se muito bem. Por isto, amiga, aconselho-a a passar ao largo, está compreendendo?

— Hum… Conselho é como café: toma quem quer, não é o que se diz?

— É…

— Pois bem, não preciso passar ao largo. Não estou precisando de namorado, agora. Estou sossegada, juro. Mas que Damastor impressiona, isto impressiona mesmo. Eu simpatizei muito com ele.

— Deu pra notar. Mas diga, o que foi feito de seu namorado?

— Não deu certo, sabe? Ele era um modelo fabricado pela TV. Fútil e vazio. Vivia da imagem e eu acho que me apaixonei pela imagem, não pelo homem. Ele não foi capaz de revelar o homem debaixo da imagem, e aí…

— Não me diga… O Silas?! Quem diria…

— Vamos mudar de assunto? — E Tamara levantou-se para ir para a sua cama.

— Tudo bem. Já é tarde mesmo. Falar de Khamal só nos traz tensão. Falar do Silas, parece, não lhe agrada, não é?

— Não mesmo.

— Bom… vamos dormir, então.

— Ainda não. Estou sem sono. Acho que vou tomar um chocolate quente. Você me acompanha?

— Eu acompanharia se aqui na suíte tivesse chocolate. No frigobar só temos bebidas geladas engarrafadas.

— Bem, vamos à cozinha. A gente encontra o que quer. É só procurar.

Tamara encaminhou-se para a porta seguida de Karina que sorria da disposição da colega. Achava que o que ela queria mesmo era encontrar com o detetive. Conhecia Tamara de trabalho e sabia que ela não era de de­sistir assim, sem lutar pelo que queria. Aquilo não daria em nada, mas ia ser divertido. Damastor era um homem muito sério com relação a relaciona­mento e não tinha nenhum motivo para romper com Celena. Assim pensando Karina enveredou pelo corredor, atrás da amiga. Não notou como estava difícil enxergar ali, até que ouviu a voz de Tamara dizendo:

— Puxa, como está escuro aqui, não é?

— Tente encontrar o interruptor. Acho que desligaram todas as luzes — respondeu Karina.

Às apalpadelas Karina terminou por tocar com a mão as costas de Tamara que tateava em busca do interruptor sem o encontrar.

— Eu acho que esta escuridão é muito esquisita — disse Karina.— É um chalé todo envidraçado e a luz da noite, ainda que fraca, iluminaria o corredor. Não sei o que está acontecendo. Isto aqui parece um túmulo.

— Eu vou voltar, acender a luz da suíte e deixar a porta aberta ­— disse Tamara.

— Boa idéia. Vá! Eu espero aqui — respondeu Karina.

Tamara deu meia-volta e começou a andar em direção à suíte. Tinha a certeza de que só haviam dado alguns passos, três ou quatro, antes, mas agora estava andando já uns quinze passos e não chegava ao quarto. Começou a pensar que tinha passado da porta. Procurou apalpar a parede para se situar e ficou espantada. As tábuas pareciam muito irregulares e esquisitamente úmidas e frias. Sua atenção prendeu-se à parede que não conseguia ver. Firmou os dedos e seu espanto aumentou. Aquilo não era madeira, mas barro e pedra. Parou de andar e raspou a parede. Seus dedos afundaram no barro úmido. Tamara ficou perplexa. Como é que aquele barro fora parar ali? Estava tentando descobrir pelo tato mais detalhes sobre aquele acon­tecimento insólito quando ouviu um pequeno grito atrás de si.

— Karina? — chamou. — O que há?

— Onde está você? — ouviu a voz angustiada da amiga.

— Aqui, às suas costas. O que houve? Por que gritou?

— Eu dei dois passos à frente e… e pisei em água. É impossível,  mas tem… tem um riacho… um córrego… sei lá! Tem água aqui em cima. E está gelada — falou Karina, nervosamente. — Eu não estou entendendo nada.

— Eu não quero-lhe alarmar, mas a parede que era de tábua corrida e lisa, virou barro — informou Tamara tateando o chão à frente com o pé a fim de sentir a água de que Karina falava. Mas o que seu pé encontrou foi areia fofa e muito fria. “Meu Deus, não é possível. Não há como, mas tem areia aqui. O chão é de areia...” Ela soltou um grito de susto quando sentiu a mão da amiga pousar em seus cabelos.

— Calma, sou eu — disse Karina. — O que está acontecendo?

— Acho que estamos sonhando e uma de nós invadiu o sonho da outra — tentou brincar Tamara para se acalmar, mas estava com a boca seca e sua voz soou aguda pelo medo que tomava conta de si.

— Eu não acho nada engraçado… — ia dizendo Karina quando viu algo muito esquisito à frente. — Olhe! — gritou para a amiga. — O que é a­quilo lá?

Tamara olhou para a frente, para o lado de onde acabara de vir e viu duas pequenas tochas amarelas dançando esquisitamente lá longe.

— O que é aquilo? — perguntou perplexa.  Karina não podia enxergar a amiga, tal era a escuridão que as envolvia, mas notou-lhe um nervosismo na voz. Procurou fixar as esquisitas tochinhas amarelas. Elas dançavam e subiam e desciam até quase o chão. Era uma dança esquisita. Ora para a direita, ora para a esquerda, ora para o alto, ora para baixo. Tamara permaneceu calada e olhando atentamente para aquilo que parecia estar-se aproximando velozmente delas. Subitamente compreendeu o que eram e seus pelos ficaram de pé.

— Tamara, ande de costas, rápido! — ordenou Karina nervosamente e empurrou com força a amiga.

— Mas o que…? — quis protestar a moça, mas foi empurrada violentamente pela amiga, que lhe gritou nervosa:

— CORRA! CORRA DEPRESSA! CORRE O MAIS DEPRESSA QUE PUDER!

Tamara se pôs a correr quase arrastada pela mão da colega.

— Mas… mas por que? — perguntou aparvalhada.

— Aquilo lá é a morte! Corre, diabo, CORRE! — E Karina disparou a correr sem se preocupar com o que poderia encontrar pela frente. Pela mão puxava a aturdida amiga que, olhando para trás, via as pequenas tochas a­celerarem a dança esquisita.

Era muito estranho correr num escuro de breu, mas fosse o lá o que fosse aquilo lá atrás, era melhor seguir a companheira. As duas to­chinhas haviam também acelerado a dança e Tamara notou que elas se aproximavam velozmente. “Parece que elas voam mais rápido que nós duas” pensou a repórter preocupada. De repente, quando as tochas estranhas já estavam praticamente sobre elas, mergulharam nas águas geladas e profun­das de um riacho.

As duas afundaram e foram envolvidas pela água turbilhonante. O mergulho não era esperado e elas se soltaram, cada qual buscando subir para respirar. Perderam-se uma da outra. Karina rodopiou e se sentiu puxada para baixo violentamente. “Meu Deus, vou morrer afogada!” pensou aflita. Debateu-se desesperadamente, mas era como um graveto num rodamo­inho. Seu corpo girava com tamanha força que teve a impressão de que se ia partir em duas. A água espumejou e Karina sentiu milhares de bolhas de ar subindo-lhe pelo corpo e batendo-lhe no rosto como se fossem per­nas de aranha. Então, num repente, ela despencou rumo às entranhas da Terra. Suas mãos tocaram algo duro e teve a impressão que era o corpo de Tamara, mas só o que podia ter era impressão. Então, foi o vazio, a queda livre rumo ao desconhecido. Seus pulmões estavam estourando e queimavam com a falta de oxigênio…