Capítulo XI – Parte 5 (Final) – A Vida Por Um Galho 

Será que os neutrinos são capazes de nos transportar, num momento de ressonância límbica, para alguma realidade paralela?

Será que os neutrinos são capazes de nos transportar, num momento psicológico de ressonância límbica, para alguma realidade paralela?

O comandante Argos desceu, acompanhado pelo mordomo e o cozinheiro, para o iate. A noite estava muito amena e ele preferia dormir em seu beliche. Gostava do balanço do mar e, além disso, queria estar fora do chalé se o tal jacaré voltasse. Poderia rapidamente trazer reforços do continente. Podia ser que os revólveres dos policiais resolvessem o problema, mas se a fera fosse das grandes ele tinha lá suas dúvidas. Conhecia histórias da Amazônia sobre o jacaré-açu. O bicho tinha escamas tão grossas nas costas que tiros de fuzil não lhe faziam mal nenhum. Seria preciso que a bala viesse ao contrário, isto é, do rabo para a cabeça, para poder penetrar nele. E se o tal jacaré que andava aprontando ali na ilha fosse um destes? Ele não fazia idéia de qual era a área geo­gráfica do jacaré-açu. Não podia afiançar-se de que ele só vivia na Amazônia, portanto, era melhor prevenir.

Chegaram ao atracadouro. O céu estava escuro, mas a luz das es­trelas dava um tom profundo à abobada celeste. Argos gostava de olhar o céu sem luar. Despediu-se de seus companheiros e ficou um tempo olhando para as escuras águas do mar. “Onde será que está você, meu guloso ca­langão? Na ilha? Debaixo deste barco? Onde?” à sua pergunta muda só o leve marulho do mar respondia. O chap-chap da marola contra o casco da embarcação era para ele um bom calmante. A brisa suave que lhe acariciava o rosto também o ajudava a relaxar os nervos. Só agora é que perce­bia o quanto estava cansado. Resolveu entrar e tomar uma bebida antes de ir deitar-se. No pequeno camarote ele se serviu um campari e ligou a te­levisão. Era o noticiário e Argos sentou-se olhando a telinha sem quase prestar atenção no rosto da repórter, mais voltado para degustar a bebi­da meio amarga que lhe descia pela garganta. Pensava em tudo o que vivenciara na ilha e estava boquiaberto que tudo aquilo tivesse podido acontecer num lugar em que sempre encontrara a paz e o sossego. Ele não enten­dia como não pudera escutar os gritos das moças ou os que possivelmente o Dr. Khamal havia soltado quando fora atacado pelo bicho. O que poderia ter impedido o som de chegar até ele? Era comum ouvir as vozes das pessoas no chalé até quando conversavam em voz normal. Os risos, então, chegavam cristalinos ao iate. Como é que os gritos daquele dia, não?

Argos passava e repassava cuidadosamente todos os acontecimentos de que tomara parte no chalé. Revia os locais, as pessoas, as conversas, e tudo lhe parecia absolutamente normal. Não havia vento forte que desviasse ou abafasse o som das vozes. Os pássaros estavam silenciosos… Os pássaros? Mas aquele era um detalhe importante. Por que o passaredo, que sempre fizera algazarra durante todo o dia, naquele justo dia estava silencioso? Ele, como marinheiro, tinha conhecimento de que as aves costu­mavam silenciar quando uma procela estava por acontecer. Elas percebiam, ou intuíam, sinais que geralmente passavam despercebidos aos seres humanos. A quietude momentânea do vento, a súbita elevação de temperatura e da umidade no ar; a densidade da água do mar, como se as moléculas ficassem repentinamente mais unidas umas às outras; a atmosfera que se torna­va pesada… enfim, uma infinidade de sinais que os humanos há muito perderam a capacidade de sentir, graças ao apego à tecnologia e o desliga­mento do todo que é a vida no planeta Terra.

Na telinha surgiu o rosto risonho do Deputado Luis Filipe Macedo Nettus. Anunciava-se que ele iria inaugurar uma estátua em homenagem aos meninos de rua do Brasil, em solenidade no Aterro do Flamengo, às dez horas do dia, daquele dia que se iniciava, pois já passavam cinco minutos da meia-noite. A solenidade contaria com a presença de importantes personalida­des públicas e de representantes da Comissão dos Direitos Humanos…

Argos teve seu fluxo de pensamentos interrompido e sua atenção prendeu-se no noticiário. Conhecia bem o Deputado, pois que era o pai de Luis Filipe, o noivo de Milena Forcis, sua patroa. Ficou inquieto e não soube responder-se de imediato a causa daquilo. Fixou a vista na telinha pa­ra acompanhar os detalhes da reportagem. Era mostrada uma área bem conhecida do Aterro do Flamengo, aquela bem diante do Hotel Glória, onde ha­via uma prainha não muito limpa, mas bastante freqüentada prin­cipalmente pela classe menos privilegiada da sociedade. Logo após a pri­meira passarela, à direita, havia um monumento de pedra coberto por oleado. Um tablado fora armado para que o deputado pudesse falar ao povo, durante a solenidade. Novamente uma foto dele ficou exposta no vídeo en­quanto a repórter discorria sobre as qualidades políticas do homem público. Repentinamente à lembrança de Argos acudiu a recordação de Mara na sala, olhos vidrados falando algo sobre a morte de um homem público inocente e bom. O Deputado Luis Filipe era um homem público, justo e bom tal como descrito pela repórter. O comandante perdeu de pronto o sono e desapareceu-lhe o cansaço. Pôs-se em alerta. As coisas faziam sentido e ele se espantava com a incrível “coincidência”. Como se explicava que a moça pudesse prever tão certeiramente um desfecho trágico ainda por a­contecer? E o que quisera dizer com “nada será como as aparências indi­carão”? Argos levantou-se e foi direto ao telefone. Mesmo que sua pa­troa estivesse dormindo, ele estava disposto a acordá-la para lhe dizer de suas suspeitas. Quanto mais pensava no assunto, mais certeza tinha de que Mara se referira especificamente ao futuro sogro de Milena. Dis­cou o número do chalé, mas não ouviu nenhum sinal. Refez a ligação, estra­nhando aquele súbito silêncio. Nada. Nenhum ruído no aparelho. Discou o número do celular da milionária e o resultado foi a mesma coisa: nenhum sinal no aparelho. Com o cenho franzido de estranheza, Argos saiu para o cais. Avistava o chalé e via luzes acesas na cozinha. Havia gente acor­dada, ainda. Ninguém ao telefone. Então, por que é que o aparelho não dava sinal? Argos resolveu que nenhuma interrupção iria impedir que ele falasse com sua patroa. Decidiu voltar ao chalé e não hesitou: pôs-se imediatamente a caminho. Embora a noite estivesse sem lua, os postes iluminavam o suficiente a senda que subia coleante e entre flores até a casa.

Enquanto refazia o caminho de volta, Argos pensava em Mara e no noticiário. A cada minuto mais e mais lhe ficava claro que era ao Depu­tado que a previsão se referia. Ele pretendia, quando o dia clareasse, conversar com a repórter sobre aquilo. Como é que podia saber da ameaça de modo tão objetivo? Ora, ela era uma repórter. Certamente tinha acesso a informações que a maioria leiga não podia alcançar. De algum modo, em uma de suas buscas por furos jornalísticos, devia ter tomado conhecimento do perigo e resolvera anunciá-lo de modo a causar impacto. Talvez se explicasse isto pelo fato de que ela e Milena não eram íntimas o suficiente para que esta última acreditasse na notícia se  fosse dada as­sim, a queima roupa. Mas, se esta fosse a realidade, como se explicaria que a repórter esperasse até o momento azado, quando todos estavam polarizados pela tragédia de Khamal, para falar? Saberia ela que a tragédia ia acontecer e que aquele momento iria surgir a partir daquilo? Se sa­bia, como? O noivo de Milena era parceiro de squash de Argos. Este lhe ensinara o jogo e ambos o praticavam sempre que havia oportunidade de se encontrarem no clube. Os dois haviam solidificado uma boa amizade. Luis Filipe era interessado em espiritismo e freqüentava cen­tros espíritas com freqüência, embora com espírito mais de investigador que de adepto. Argos não acreditava em nada daquilo, mas acostumara-se a discutir os assuntos relativos ao tema com o rapaz e is­to o fizera, até certo ponto, desenvolver um respeito místico para com aquele culto que ele não sabia definir se era religioso. Lembrava-se de que, certa feita, uma entidade que se definia como um Preto Velho, o ha­via chamado à mesa. Ele fora somente em respeito à amizade que nutria para com Luis Filipe. O tal preto velho lhe dissera: “Você é homem do mar, não é? Pois bem, não vá no cruzeiro que sua patroa intenta fazer dentro de trinta dias. Naquele dia vai-se armar uma procela e o iate vai afun­dar. Ninguém que esteja nele se salvará.” Quando saíram do centro espírita ele comentara jocosamente o assunto com Luis Filipe. Este, para seu espanto, ficara preocupado. Argos ainda não fora comunicado da decisão a que os noivos tinham chegado dois dias antes: fazer um cruzeiro e apro­veitar para resolver alguns problemas financeiros. O rapaz se tornou muito tenazmente empenhado em fazer fracassar os projetos de Milena e che­gou até a sabotar o iate, atrasando em dois dias a saída. Naqueles meio­-tempo aconteceu a tempestade que a tal entidade havia previsto. E a ro­ta escolhida por Argos o teria levado direto para o olho do furacão. Em­bora não tivesse sido o suficiente para convertê-lo ao espiritismo, aquilo certamente o impressionara bastante. Deixou de fazer chacotas com seu amigo quanto à crença pela qual se interessava e se manteve mais respeitoso para com ela. Agora, nova previsão nebulosa era feita por outra entidade, es­ta, de carne e osso, mas nem por isto menos estranha em sua previsão do que aquela que se dizia espiritual.

Argos tropeçou e quase caiu. Foi então que notou que não havia a luz artificial dos postes a iluminar o caminho. Ao que parecia, os pos­tes tinham sido desligados. Deixou os pensamentos de lado e passou a se ater mais ao caminho, pois, sem a iluminação, ainda que fraca, ele era de difícil trilhar. E foi justamente esta mudança de estado psicológico que lhe salvou a vida, pois na parte mais escura e arborizada aconteceu o bote. A fera foi fulminante, mas Argos percebeu quase instintivamente o movimento do corpo escuro do réptil fração de segundos antes do ataque. O seu corpo, treinado nos reflexos do squash e do tênis, reagiu instantaneamente à associação movimento-perigo-jacaré. As poderosas e mortíferas mandíbulas fecharam-se com um macabro estalido de dentes onde, instantes antes, estavam as pernas do comandante. Em um salto espetacular, Argos pendurou-se no galho de uma árvore que se debruçava sobre o caminho e bem acima de sua cabeça e içou-se para o alto como se não tivesse peso. O sáurio desapareceu entre as moitas escuras, mas o comandante pôde entrever o seu tamanho. A fera parecia ter mais de quatro metros da cabeça ao rabo. Com o coração aos pulos e a garganta seca, o comandante ficou escutando, mas não houve mais nenhum barulho. “Está aqui perto, o desgraçado. Se eu descer posso ser atacado novamente. Mas que enrascada”!

No escuro de breu que se ía cada vez mais adensando, Argos procurava uma saída. Não tinha a intenção de permanecer ali até o dia clarear a fim de evitar o lagartão assassino. Agora, lamentava amargamente não se ter munido ao menos de uma lanterna. Tentava olhar em volta, apertando os olhos com força, mas pouco ou quase nada divisava. Nem mesmo via a luz da cozinha no chalé, que, agora, era somente uma sombra negra recor­tada contra o céu de um azul escuro quase preto. Ele estava, agora, na mesma situação em que as moças estiveram horas antes de o Dr. Khamal ser atacado. Não podia gritar porque atrairia alguém para a morte certa. Ti­nha de se safar sozinho. Não sabia como era que um jacaré procedia quan­to à presa. Será que o bicharoco ficava na espreita? Será que era capaz de rastrear a presa como o fazia um tigre, uma onça, uma matilha de lobos selvagens? Ou será que ele só atacava porque seu território tinha sido invadido e, uma vez passado o perigo da invasão, desinteressava-se do invasor? Uma coisa era certa: ou a fera tinha uma digestão muito acelerada e similar à do tubarão, ou aquele ali era especial. De qualquer modo, Ar­gos precisava pensar, e pensar rápido. Não lhe agradava a idéia de perma­necer feito a chita de Tarzã, dependurado num galho de árvore e tendo como guardião um jacaré guloso. Quando o sol nascesse era claro que pesso­as começariam a se movimentar do chalé para o iate ou deste para o chalé. E fosse qual fosse o primeiro a iniciar a caminhada, morreria com certe­za. E a expectativa de assistir ao desjejum macabro do sáurio punha Ar­gos muito agitado. Não ía ficar quieto de modo algum. Olhou o relógio luminoso em seu pulso. Era a meia-noite e trinta e cinco minutos. Tinha a1gum tempo para agir. Deslizou pelo galho até o tronco da árvore e dali às apalpadelas passou para o próximo. Na escuridão que se fazia densa, po­dia divisar o escuro mais denso de uma rocha que ele sabia existir perto de onde estava. Teria que dar um jeito de passar da árvore em que estava para a outra que sabia existir, mas não podia mais ver. Desta outra, teria de passar a uma terceira e caminhar pelos seus galhos até atingir a ro­cha. Então, desceria para o outro lado do pedregulho e se encaminharia para o chalé por entre o cipoal do outro lado. Sabia que ía arranhar-se todo, porém era melhor aquilo do que ficar ali impotente. Ele deu início à caminhada reptilesca. Não conseguia ver nem mesmo suas mãos, de modo que cada movimento tinha de ser cuidadoso e toda a sua atenção devia estar voltada para os mínimos detalhes. Assim, quando o galho em que se dependurava se encurvava rumo ao solo, tinha de calcular a curvatura e avaliar a que distância ela lhe colocava do chão. Esta distância podia ser mortal, se o colocasse à altura das mandíbulas do jacaré. Argos não via o bicho, mas ouvia-lhe perfeitamente o bocejo terrificante. E pelo bocejo o des­graçado devia estar bem próximo, talvez até acompanhando o seu caminhar, às cegas, pelos galhos da árvore. Ele conseguiu atingir os galhos da ou­tra árvore, após um tempo que lhe pareceu uma eternidade. Mas podia per­ceber pelos “bocejos” que era acompanhado de perto pelo jacaré. Segurou um galho da outra árvore e o sacudiu com força para testar sua consistência. Parecia forte o suficiente para o sustentar. Mas, quando passasse o peso de seu corpo para ele, qual seria sua curvatura? E se, ao invés de curvar-se, ele se partisse e o jogasse ao chão? Se tal coisa acontecesse ele era um homem morto. E morto de morte horrível. O comandante começou a suar e isto não lhe agradou nem um pouco. As palmas de suas mãos se tornaram escorregadias com o suor e isto lhe dificultava firmar-se no galho da árvore para poder arriscar a passagem. “Talvez eu esteja muito baixo. Talvez seja melhor eu subir um pouco mais e procurar um outro galho…mas se não tiver? Não vejo nada e não nosso saber se os galhos superiores se en­trecruzam como estes aqui. Também não sei a que altura me encontro. Não, é melhor tentar a passagem aqui mesmo. Se perco este galho posso não o en­contrar de novo e, aí, a coisa fica preta de verdade…” Com estes pensa­mentos a lhe esquentarem os miolos, Argos deu mais um forte safanão no galho para lhe testar a firmeza. Parecia que ele era firme. O comandante, então, respirou fundo e deu início à perigosa transferência de seu corpo de uma para outra árvore. Não podia ver, mas estava a menos de dois metros do chão…

Fim do Primeiro Volume.