VOLUME II – CAP.1 (CONT. 1) – NO RITUAL

Ela se sentia atraída pelo réptil, embora soubesse que tinha horror ao bicho...

Ela se sentia atraída pelo réptil, embora soubesse que tinha horror ao bicho…

Enquanto o pescador fazia esta misteriosa invocação, Ivaldo sentia-se flutuar como se estivesse perdendo peso. Um estranho funil de luz e escuridão, como um rodamoinho que brotasse de dentro de seu umbigo, o envolveu e ele teve a sensação de que nascia para dentro de si mesmo. Sentiu-se chupado para o interior de seu corpo e lá, na escuridão tumular, começou a rodopiar em direção a uma luz muito clara e muito suave que lhe surgia como se no fim do mundo. A velocidade do giro era enlouquecedora e um zumbido profundamente incômodo zuniu dentro de seu cérebro. Ele queria livrar-se daquilo, mas algo lhe dizia que isto só seria possível quando conseguisse atravessar a porta que vislumbrava longe, muito longe, no final do túnel. Uma grande angústia tomou-lhe o peito e ele quis gritar, um grito primal capaz de explodir o mundo. Mas o grito ficou-lhe na garganta. Ele não tinha corpo, apesar de estar dentro de seu próprio corpo. Estava nascendo novamente. Nascendo, mas para onde? A luz no final do túnel avançou rapidamente e um grande medo tomou conta de Ivaldo. Com puro horror se viu cuspido para fora daquela vagina escura, mas protetora… E caiu rodando sobre uma praia de areia alva e limpa, que brilhava suavemente sob a luz da lua prateada. Ainda estava tonto, no chão, mas sentia que estava vestido e tinha em mãos uma arma. Era a  ponto quarenta e cinco. Levantou-se e ouviu uma ordem dentro da  cabeça.

— Suba a lapa. Corra! Uma mulher precisa urgente de socorro. De passagem, entregue a  arma para seu companheiro e diga-lhe que vá para a fogueira. Deve atirar sem pensar duas vezes no homem com cabeça de bode. Mexa-se! O tempo urge.

Ivaldo sentiu uma necessidade premente de fazer o que lhe era ordenado e levantou-se rapidamente. Correu direto  para uma cabana de palha de coqueiro e viu Damastor encostado na parede, passando as mãos pelos cabelos. Parecia perdido e sem rumo. O vento fresco da noite era como um alento novo para seu corpo e ele sentiu força como nunca antes havia sentido.

— Aqui! — gritou para o companheiro e lhe atirou a pistola. Sem interromper a corrida continuou comandando:

— Vá para a festa junto à fogueira e atire no homem-bode!

Damastor quase não pega a arma, pegado que foi pela surpresa de ver seu parceiro ali, correndo  como  um  cabrito em direção ao riacho. Não teve tempo de lhe perguntar nada e ficou um momento apalermado, ruminando os sons para entender o que ouvira. “Atirar no homem-bode…? O que ele quis dizer com isto?” 

Olhou em direção ao lugar onde vira Ivaldo sumir, mas ele já estava fora de suas vistas. ” Bem, seja lá o que for, só vou descobrir se também for à festa. Então, vamos lá!” E ele se pôs a caminho sempre pensando que vivia um pesadelo. Ninguém podia correr como Ivaldo corria, inda mais subindo um caminho íngreme e pedregoso como aquele que seu companheiro seguia. Para onde ia assim, tão apressado? E como é que sabia o caminho tão bem, se nunca nenhum deles estivera ali, antes? Perguntaria isto a ele, quando o encontrasse novamente. Agora, tinha de se concentrar em encontrar o tal homem-bode.

Ouvia a gritaria recrudescer lá perto da fogueira e prestou atenção naquilo. “Um problema de cada vez”, pensou.

Assim que se pôs a andar em direção ao fogaréu, o vozerio cessou. Damastor achou aquilo muito esquisito e estugou o passo. Ainda estava desorientado e fascinado com aquilo tudo, principalmente com o solo que seus pés descalços pisavam. Era um solo arenoso, muito branco e muito frio. Quando contornou uma grande pedra na curva do caminho, pôde discernir a multidão silenciosa e toda atenta a um tablado onde alguma coisa se desenrolava. De onde estava não lhe era possível distinguir o que acontecia lá em cima, mas intuiu que se tinha de encontrar um tal homem-bode certamente seria lá. Com muita cautela foi introduzindo-se por entre o povaréu, mas logo percebeu que ninguém lhe dava atenção. Todos estavam como que hipnotizados pelo que sucedia lá no tablado. Damastor procurou afastar dois homens mais altos que ele e ver melhor através de seus ombros, mas só distinguiu a figura de um homem mexendo lubricamente os quadris. Ele estava de costas e o detetive não podia ver o que havia a sua frente. Continuou forçando a passagem sem que ninguém se opusesse a isto. De repente ouviu um grito apavorado de uma mulher e pareceu reconhecer a voz. Deixou a cautela de lado e apressou-se a avançar, dando uma volta para melhor ver quem gritava. Os gritos transformaram-se em gemidos estranhos, que ora lembravam os de uma mulher em orgasmo, ora os de uma pessoa em desespero. Ele continuou forçando a passagem e avançando o mais depressa que podia. Finalmente chegou a um lugar de onde podia ver o que se passava no tablado e o que viu lhe pôs os cabelos de pé. Um homem com cabeça de bode postava-se entre as pernas de uma mulher nua e amarrada a uma mesa rústica. Das mãos dele uma cobra de quase setenta centímetros se espichava para o sexo da mulher e nele parecia que estava mergulhando. Os pés da mulher se distendiam e os músculos de sua coxa saltavam sob a pele. Damastor não esperou para compreender o que se passava. De onde estava fez pontaria e atirou. O homem bode deu um salto para trás soltando um grito de  dor  e   saiu  cambaleando   de   costas  até  cair  lá de cima.  As pessoas  em volta do detetive espalharam-se ao   gritos  e ele se atirou  em direção ao tablado, subindo ali com um salto acrobático. O que viu gelou-lhe o sangue nas veias. Milena olhava com olhos esbugalhados para a cobra cuja cabeça havia desaparecido no orifício de sua vagina. A mulher chorava e gemia como se estivesse sob intensa excitação.

— Ti… tira ela… tira ela de mim…

 A voz de Milena era entrecortada pela respiração arfante de quem está prestes a um orgasmo intenso. Damastor avançou até o corpo do réptil e o segurou para puxá-lo, mas foi surpreendido. O corpo da cobra era liso como se estivesse ensaboado e escorregava de suas mãos com facilidade. Ele olhou para Milena e a viu fechar os olhos e se entregar com um longo grito a um orgasmo intenso. O corpo dela se contorcia e suava em grandes bagas, enquanto seu ventre começava a crescer à medida que o asqueroso réptil penetrava nele.

E…eeeuuu nã…não vo…vou aguentar…

Milena tremia como se estivesse tomada por febre alta e seus dentes rangiam quase a ponto de quebrar. Os músculos de seu pescoço saltavam sob a pele e ela parecia querer dobrar-se em duas.

“Meu Deus, ela vai morrer! O que eu posso fazer?”

O detetive olhou em volta, desesperado e impotente. A cobra já penetrara um quarto de seu corpo no da mulher. Então, o homem bode voltou ao tablado. Parecia estar totalmente curado do balaço e avançou rápido sobre o detetive. Trazia uma faca nas mãos e tentou esfaquear o polícia. Mas Damastor  era um bom lutador e esquivou-se rápido do ataque, encaixando uma chave de braço em seu agressor que, se fosse mais fraco, teria largado a arma. Mas o oponente do detetive era um homem singular e, para espanto deste, bloqueou apenas com a força bruta o golpe que teria quebrado facilmente o braço de outra pessoa. A manopla do sacerdote prendeu-se à parte posterior do pescoço do detetive e o aperto quase fez com que Ivaldo desmaiasse. Aquele homem tinha uma força descomunal. O policial foi obrigado a soltar o braço agressor para safar-se do aperto no cangote. Ferrou ambas as mãos no pulso do sacerdote e girou o corpo com rapidez espantosa, evitando a facada e torcendo o braço do homem para trás. Com um dos  braços aplicou um estrangulamento no pescoço taurino de seu agressor, mas este não largou a arma como Damastor esperava. Ao contrário, fez um profundo corte no braço do policial que foi obrigado a afrouxar a chave. O sacerdote, com um rugido feroz,  curvou-se para a frente e jogou Damastor por sobre as costas, lançando-o quase fora do tablado. O detetive, que fôra obrigado a largar o revólver para se defender do ataque fulminante, rolou sobre si mesmo e viu a arma  a  menos  de  meio metro de distância de sua mão.  Num  pequeno  salto deitado mesmo, pegou-a, girou sobre si e disparou quase à queima-roupa no sacerdote  que se atirava sobre ele pronto para lhe torcer a cabeça. A bala fez um buraco na testa  do homem e ele caiu para trás com um baque surdo. Damastor ergueu-se num salto e apanhou a lâmina. Correu para a mesa onde Milena, de olhos esbugalhados e com um fio de saliva escorrendo pelo canto da boca entreaberta numa respiração curta e ofegante, tinha o olhar perdido num vazio à frente. Ela parecia olhar sem ver o réptil que mergulhava cada vez mais em suas entranhas. Damastor cravou a lâmina no corpo luzidio e ele se contraiu violentamente. O ventre de Milena passou a apresentar estranhas convulsões, como se algo furioso se debatesse dentro dela. A mulher soltou um grito lancinante e seu corpo se retesou todo. Damastor não deu importância ao seu sofrimento e se concentrou em arrancar aquele bicho asqueroso de dentro dela. Teve de empregar toda a sua força para que a faca não escapulisse e a lâmina  não cortasse o corpo do réptil, possibilitando que pelo menos a metade dele sumisse no corpo de Milena.Por alguns instantes pareceu que a cobra levaria vantagem sobre o homem. Os músculos dele estavam retesados ao máximo, mas a cobra não cedia nem um milímetro. Milena estava pálida e tinha olheiras profundas. Arquejava e já não conseguia mais que balbuciar palavras desconexas. Finalmente, depois de um tempo que pareceu uma eternindade, o corpo da cobra começou a sair de Milena. Damastor olhou o rosto da mulher e se chocou. Sentiu que a vida se esvaía dela à medida que a cobra era arrancada. Parou de fazer força e a mulher pôde respirar.O detetive ficou parado, sem saber o que fazer. Segurava a faca e com ela impedia que a cobra voltasse a penetrar no corpo da sua anfitriã, mas não podia continuar puxando o réptil para fora porque mataria inexoravelmente a mulher. Ele se debatia no dilema que parecia sem solução, quando duas jovens vestidas de negro subiram ao tablado. Traziam algo muito branco nas mãos e o olhavam assustadas.