VOL. II – CAP. 1 – DESPERTANDO – NO CHALÉ

 No Chalé

A bela ilha da milionária era, agora, uma ilha desconhecida.

A bela ilha da milionária era, agora, uma ilha desconhecida.

— Por que diz que estarei mais segura aqui?

E Andréa voltou à mesa, olhando curiosamente para o estranho pescador de sorriso bondoso e voz meiga.

— Porque neste exato  momento  todas  as outras personagens importantes deste jogo estão numa luta de vida ou morte.

— Cruz credo! — exclamou Andréa persignando-se. – O que quer dizer com isto?

— Quero dizer que só nós podemos tirá-los sãos e salvos de onde estão, agora. — Andréa olhou aturdida  para  Ivaldo.  Não entendia  patavina do que o estranho homem falava. O detetive, por sua vez, também estava atônito. Pigarreou desconfortável e olhou para o velhinho. Sem querer, voltou a olhar o relógio. Marcava meia-noite e meia.

— O que quer dizer com isto, meu pescador? — Perguntou  o policial,  tentando   parecer descontraído, mas traindo  sua  preocupação  no  olhar  desconfiado  para a porta da cozinha.

— Se quer saber do que estou falando, não é para a porta que deve olhar — disse o simpático velhinho,  demonstrando uma agudeza de observação que muito incomodou ao detetive. Andréa acompanhou o olhar do estranho que mirava além da janela e tomou um tremendo susto. Lá fora havia uma montanha onde, antes, ela só avistava o céu. Um grito abafado escapou-lhe dos lábios e chamou a atenção do detetive. Ele a olhou e voltou-se para a janela. O que viu tirou-lhe a voz.

— Mas o que diabo é aquilo?

O detetive lançou-se para a janela com a respiração suspensa. Viu uma paisagem escura, desértica, iluminada por uma grande lua cheia muito brilhante.

— O… o… o que aconteceu lá?

E ele voltou-se totalmente desorientado para o tranqüilo velhinho.

– Nada muito fora do normal — foi a resposta. — Mas é hora de trabalharmos. O tempo urge. Venham. Ajudem-me. Depois eu explico tudo, sim?

Com olhar horrorizado Andréa afastou-se de costas até chocar-se com a parede.

—O… o… o senhor fez aquilo? — gaguejou a mulher tremendo de medo.

— Não, Andréa, eu não fiz aquilo. Eu  sou  parte daquilo. E não por minha inteira vontade, pode crer.

— Eu não estou entendendo nada — murmurou Ivaldo. — Pode explicar…

— Depois — cortou o pescador, agora muito sério. — Não temos muito tempo, acredite.

— Mas não temos muito tempo para quê? — perguntou Ivaldo intrigado.

— Para reverter o que está acontecendo. Venham, sentem-se aqui.

— Não! — exclamou Andréa persignando-se apavorada. Seu olhar ia do pescador para a janela e desta para ele sem compreender nada do que via lá fora.

O pescador ergueu-se e de repente sua postura mudou.   Ele pareceu mais forte do que antes e seu olhar tornou-se penetrante como o aço.  Seu corpo estava mais forte, embora seus cabelos continuassem brancos como a neve.

— Obedeçam imediatamente! — ordenou ele imperativo e sua voz era firme como a de um jovem militar.  O efeito,  porém,  foi  exatamente  contrário  ao esperado, pelo menos em Andréa. Ela gritou e se atirou para a porta. Como um raio  o  pescador correu e se interpôs entre ela e a saída.

— NÃO! —  gritou ele com voz trovejante.  —  Não tente  sair.  Você não vai gostar nem um pouco do que vai encontrar do outro lado.

Ivaldo sacou da .45, pôs-se de pé e apontou para o pescador dizendo:

— Eu não sei quem você é, mas vou ficar sabendo já, já. Se não falar, quem não vai gostar do que vai acontecer é você, vovô.

Fez-se um pesado silêncio. Lá de fora chegou audível o barulho de uma cantoria muito estranha. O detetive não conteve a curiosidade  e  se  aproximou do janelão para espiar. O pescador não fez nenhuma objeção a isto.

Ivaldo meteu a cabeça para fora e sentiu os cabelos da nuca se eriçarem. O que via era absolutamente desconcertante. Longe, para o leste, vinha um clarão de grande fogueira. À esquerda pedras negras como carvão sobressaíam de dentro de uma areia alva como açúcar que brilhava estranhamente prateada sob a luz fantasmagórica de uma lua cheia absolutamente inadequada.  O detetive espichou o corpo  para fora e olhou o chalé, mas não viu o que esperava. Ao contrário, parecia que estava dentro de uma gruta que saía de um grande pedregulho.

— Santo Deus… O que aconteceu com a ilha de Milena?

Andréa, de olhos arregalados e mãos sobre o coração como se querendo impedir que ele saísse de seu peito, também veio olhar pelo janelão.  Sua respiração ficou suspensa e ela , soltando um gemido, desabou desmaiada no chão. O pescador não se mexeu até que Ivaldo, recuando com o corpo coberto de suor, recostou-se desorientado na parede. O pescador pescador, então, calmamente aproximou-se dele e lhe tomou  a arma das mãos sem que o detetive opusesse resistência.

— Sinto muito, mas mesmo sem compreender o que está ocorrendo você tem de colaborar comigo. Seu amigo corre perigo e a dona desta ilha está na iminência de ser usada para servir de residência de um ser muito maligno.

— Onde estão eles?

— Lá fora. Agora, ajude-me a despertar sua amiga.

Os dois puseram Andréa sentada  e o pescador colocou a mão suavemente sobre a testa da mulher chamando-lhe o nome baixinho.  Ela suspirou e abriu os olhos fixando o homem à sua frente abobalhadamente. Demorou um pouco para que, finalmente, recobrasse plenamente seu auto-controle.

— Andréa — falou o estranho com voz doce — você vai ajudar-nos, não é?

— Eu… quem… o quê…?

— Sente-se, Ivaldo — ordenou o pescador. — Andréa, traga-nos uma vela e giz branco, por favor.

Andréa sacudiu a cabeça ainda atordoada e balbuciou com voz fraca, erguendo-se um pouco cambaleante:

— Não temos giz…

— Tem farinha em pó?

— Não, senhor. Também não temos farinha.

— Bem… o que você tem em pó branco?

— Eu… eu tenho maizena…

— Serve. Traga-nos a maizena, sim?

— Pois não, senhor.

A mulher dirigiu-se a um armário e voltou  com  uma caixa de maizena que entregou ao pescador. Suas mãos tremiam e ela deliberadamente evitava olhar em direção à janela ou através dela.

— Por favor, dispam-se.

— O quê? — surpreendeu-se Ivaldo.

— Dispam-se. Suas roupas estão  impregnadas  de  matéria elemental indesejável para o trabalho que temos de fazer.

— Mas o que diabo é isso? — explodiu Ivaldo ficando em pé. O pescador pescador ficou um momento em silêncio, mirando com olhar sério o semblante do jovem detetive. Então, com um suspiro, falou.

— Geralmente eu não gosto de agir contra a vontade dos outros, mas neste caso vejo que terei de forçá-los à colaboração.

O estranho homem fixou Ivaldo nos olhos. O detetive sentiu uma estranha tontura e uma gostosa sensação  de  bem-estar. Ouviu novamente a ordem de se despir e desta vez não opôs objeção. Tirou a roupa e permaneceu nu de pé no meio da cozinha. Andréia fez a mesma coisa.

— Ótimo, agora, sentem-se aqui — e o pescador apontou as cadeiras próximas à mesa perto da qual ele se encontrava em pé.  Os dois obedeceram.  Embora  plenamente consciente de tudo  o  que se passava e do que fazia, o detetive achava absolutamente normal a nudez de ambos.  O  pescador retirou a toalha de cima da mesa, abriu a caixa de maizena e virando-se para o leste ergueu a caixinha até a testa, fechou os olhos, inspirou fundo e entreabrindo a boca emitiu um profundo e sonoro OM. O som era vibrante e parecia vir de  seu abdômen. Os  lábios  foram-se  fechando  lentamente  e o som foi mudando  de aberto para fechado,  terminando  num  equilibrado HUUMMM… Ivaldo e Andréa sentiram as células de seus corpos vibrarem com um  formigamento idêntico ao que se sente no céu da boca ao emitir o OM do modo como   o  pescador  fazia e sem tocar os dentes uns nos outros. Parecia que um milhão  de  formigas passeavam sobre suas peles e se encaminhavam todas em direção ao umbigo.  A sensação era esquisita, mas não intolerável. No terceiro OM  emitido do mesmo modo pelo pescador, o formigamento junto ao umbigo parecia estar vindo das entranhas do abdômen. Quando o som se extinguiu, os dois, e em obediência à ordem do pescador, retraíram num movimento brusco seus abdomens e tiveram a impressão de que as formigas eram jogadas para fora, no espaço. Então, apenas uma gostosa sensação  de  frescor  e  limpeza acompanhada  por um bem-estar comparável àquele que  se  sente  quando  se  toma  banho  após  um dia de trabalho onde se suou muito, ficou nos corpos dos ajudantes involuntários.

O pescador desenhou sobre a mesa o pantáculo sagrado. A ponta superior da estrela estava perfeitamente sintonizada com o Leste magnético da Terra. No centro do pantáculo desenhou um triângulo com a ponta  invertida  em relação à ponta superior da estrela pantacular. No centro do triângulo fez  o  Olho  de Rá. Na perna inferior direita desenhou a cabeça de Orus e na perna esquerda o número 13. Foi ao armário e apanhou dois copos que encheu de água. Colocou um deles sob a cabeça de Orus e o outro na ponta superior do pantáculo sagrado e, então, ordenou a Ivaldo:

e em obediência à sua ordem Ponha sua mão esquerda acima da ponta leste do pantáculo e a direita sobre o seu próprio coração.

Ivaldo obedeceu docilmente, pondo-se de pé.

O pescador, então, ordenou a Andréa:

— Você, estenda as mãos sobre a cabeça de Orus e o 13 da Morte.

Pacificamente Andréa obedeceu.  Ainda que de frente um para o outro, nenhum deles parecia notar a nudez mútua.

O pescador estendeu ambas as mãos para o leste, braços fletidos de modo que as palmas lhe ficavam à altura do rosto, mas dele afastadas uns cinqüenta centímetros, e murmurou uma estranha invocação:

            “Ó, nobre filho, que venham brilhar sobre ti, em círculo, as trinta divindades herucas irritadas e as vinte e oito poderosas deusas de cabeças diversas, portadoras de armas variadas e saindo de teu cérebro. A Leste, a Deusa Parda Rakshasa de cabeça de Yak. Ao Sul, que sobre ti venha a Deusa Amarela das Delícias, de cabeça de morcego e com uma navalha na mão. A Oeste, que venha sobre ti a Deusa Devoradora  Negro-Esverdeada,  de  cabeça  de  abutre,  segurando um báculo nas mãos.  Ao Norte te sobrevenha a Deusa Porca-Negra, de cabeça de porca, segurando um nó de fateixa nas mãos em garras de hapia. Mas não deves temê-las pois seus aspectos apenas refletem a maldade secular praticada pela inocência dos humanos em seu peregrinar sobre a Terra. Compreende que as Divindades Pacíficas emanam do Vazio do Darma-Kaya. Aceita-as com a mesma serenidade com que aceitas as Divindades bebedoras de Sangue, pois estas nada mais são que o reflexo ativo da Clara Luz brilhando na Vacuidade Primordial”.