Míriam, a mãe de Yehoshua, passava por um momento nebuloso em que se percebia entre duas realidades bem distintas.

Míriam, a mãe de Yehoshua, passava por um momento nebuloso em que se percebia entre duas realidades bem distintas.

Míriam, a mãe, estava sentada serenamente, meditativa. Como uma autômata trabalhava na feitura de um belo tapete que tecia em companhia de outras monjas. Junto a ela, Ruth a observava atenta e curiosa. Sua mãe tinha um ar sereno, mas o olhar parecia perdido, longe dali, como se mirasse outra realidade, outra dimensão. A jovem, que era muito apegada à mãe, ardia de curiosidade de lhe perguntar mais sobre a experiência que ela havia narrado a todas. Pressentia que algo não lhes tinha sido dito. No entanto, aquele não era o momento azado.

Abaixo, junto a outros monges, Thiago, Mateus e Yoseph trabalhavam duro no curtume. Já não mais reclamavam tanto e Thiago e Yoseph já aceitavam ir ao templo orar junto com os monges, embora fossem reticentes e arredios. Yoseph era o único que se recusava aos rituais, principalmente os de purificação que ele julgava insultuosos a Jeovah.

Issa comprazia-se com a Natureza em suas mais variadas formas de manifestação.

Issa comprazia-se com a Natureza, flores, animais etc… em suas mais variadas formas de manifestação.

Muito longe dali, naquela manhã radiosa, Yoseph encetava uma longa caminhada em direção a uma tribo de guerreiros violentos. Ele e seus discípulos teriam muitos dias até chegarem àquela tribo distante. Todos os que o acompanhavam iam preocupados e temerosos. Estavam por demais longe das tribos celtas, muito adentrado no vasto domínio de Armínio, o rei dos germanos. Iam como mensageiros de Armínio tentar um encontro entre o rei e o chefe da tribo rebelde. Atrás de todos eles, Atonchau estava mergulhado em lembranças e uma lhe trouxe inquietação. Eram as palavras de Issa: “— De hoje em diante não mais sereis seres ambíguos, meus irmãos. Para meu ministério não pode haver pessoas ambíguas quanto ao sexo a que pertencem. Vós, ambos, sereis homens, com todos os atributos de homens e com vossos comportamentos bem definidos como homens. Vossa condição nesta encarnação está por mim apagada aqui e agora. O que fizestes e o que fostes deve ser banido de vossas mentes e de vossas lembranças. É um sacrifício que caberá a vós somente. Não vos aliviarei desta tarefa.

Desde aquele dia que nenhum dos dois celtas se tinham tocado. No entanto, ele ainda sentia forte atração pelo seu parceiro. Não que fosse algo imperioso, incontrolável, não. era algo estranho, um desejo cheio de vergonha. Gostaria de conversar com Luprécio e Issa sobre isto, mas sentia forte vergonha só de pensar em o fazer. Por isto, naquele dia, ia taciturno, afastado do grupo e arredio. Nenhum dos dois homens parecia notar seu isolamento e isto o incomodava e irritava.

— Mestre Issa — disse Primus, que caminhava ao lado direito do Mestre. — Ainda acho imprudência nossa irmos assim, sozinhos, um punhado de homens estranhos: dois celtas, um hebreu e um romano, em missão de parlamentares do Rei Armínio. Por que ele nos escolheu?

— Eu me esqueci de perguntar isto a ele, meu amigo. Agora, é tarde. Só temos que seguir em frente. Estás com medo?

— Sim, estou. Sou romano e tu já sabes que não somos amados por muitos povos. Os germanos inclusive.

— Mas não estás vestido como romano e, sim, como celta.

Primus temia os gigantes barbudos. Conhecia-os bem e sabia que eles e os germanos eram ferozes na guerra.

Primus temia os gigantes barbudos. Conhecia-os bem e sabia que eles e os germanos eram ferozes na guerra.

— As roupas não enganam muito, Issa — disse Primus, com um suspiro. — Não sei o que temos de diferente, mas ninguém se engana fácil quanto à nossa origem. Tua aparência, também, não condiz com a dos celtas e tu não te preocupas em te vestires como eles, o que te põe em maior destaque ainda. A tribo à qual vamos é muito violenta e tem longa tradição de guerras, inclusive contra o Rei Armínio. Surgirmos lá de repente como emissários de Armínio… Não me parece muito alvissareiro para nós.

Issa caminhou em silêncio por um tempo com seu companheiro expectante ao lado. Então, olhando de lado para Primus, falou.

— Nada acontece que não seja pela Vontade de nosso Pai Celeste, meu amigo. Se aqui estamos certamente é por Sua Vontade. O que nos vai acontecer também pertence aos Seus desígnios e eles não estão disponíveis ao nosso conhecimento. Cabe-nos, então, crer que Ele não deseja nosso mal e ir em frente.

Primus permaneceu calado por alguns minutos. Então, falou.

— Issa, não me lembro de nosso Pai entrando na tenda de Armínio e dizendo que nos ia enviar nesta missão para ele…

Issa soltou uma gargalhada, olhando para seu discípulo entre lágrimas de riso.

— Por que tu ris de mim? — Agastou-se Primus.

— Não de ti, mas de tua tirada. Imagina se Ele, o Senhor dos Universos, tomasse corpo humano e viesse ter conosco. Seríamos queimados instantaneamente, Primus. Sua luz é indescritível.

— Até tu?

— Sim, até este meu corpo. Meu espírito não sofreria nada, mas os vossos… Nem é bom pensar no que lhes aconteceria. Mas pára de temer o que ainda não aconteceu, homem. Estamos aqui, ainda na estrada. Então, preocupemo-nos com este momento. É neste presente que devemos centrar nossa atenção e, não, no que ainda vai acontecer.

Primus olhou para Issa, em dúvida.

— Tu não pensas no futuro? No que nos vai acontecer?

— E o que nos vai acontecer? — E a voz de Issa tinha um quê de interesse.

— Ora… Eu não sei ao certo, mas sinto que não será nada agradável. Não somos as pessoas indicadas para esta missão. E se queres saber, os germanos são cruéis com seus inimigos.

— Ah, não sabes? E quem seriam as pessoas mais indicadas para esta missão? — A voz de Issa demonstrava diversão.

Os guerreiros germanos não ficavam devendo nada aos guerreiros celtas.

Os guerreiros germanos não ficavam devendo nada aos guerreiros celtas.

— Gente de Armínio, Issa. Gente celta, que conhece os modos estranhos dos germanos. Olha, certa vez tive de combater contra uma tribo germânica. Não a de Armínio, mas outra. E podes crer: eles são osso duro de roer. E insisto: os germanos são cruéis com os prisioneiros. Temo o que possam decidir fazer conosco.

Novamente Issa silenciou e caminhou um bom tempo calado. Parecia absorto, mas de repente voltou a falar.

— Primus, seja qual seja a agonia do homem, ela sempre tem fim. O corpo humano é fraco. Não suporta muito, não. E não encontro razão para preveres que vamos ser torturados. Os celtas temiam ao rei Armínio e, no entanto, ele me recebeu muito bem e nos tornamos amigos. A ponto de nos solicitar que viéssemos tentar a paz entre as tribos. Tortura, meu amigo, há desde que se desperta para um novo dia até quando se vai dormir novamente. O sol causticante sobre nossas cabeças é uma tortura, principalmente quando se está andando pelas areias do deserto. O frio enregelante também é uma tortura para os que têm de suportá-lo. Mesmo assim, não se morre facilmente nem pelo calor nem pelo frio. O corpo humano é fraco, mas dentro de limites estreitos pode suportar algum tempo, não muito, a tortura, seja ela qual seja.

— Erras. Já vi prisioneiros romanos resistir por semanas sob as mais cruéis torturas — teimou Primus com o senho franzido de franca preocupação.

— Semanas não são anos. E não são uma vida. Logo, é um tempo curto — ponderou Issa, sério.

— Para quem está como nós, agora, sim. Mas para quem está sob o jugo do algoz… Duvido!

— Posso pedir-te um favor? — E Issa olhou para o rosto perturbado de seu companheiro.

— Pede. Se depender de mim, já podes considerá-lo atendido.

— Respira fundo e prende tua atenção neste momento, neste presente. É nele que vivemos, não em momentos passados ou futuros. Goza do bem-estar que esta caminhada nos faz. Goza do prazer da brisa fresca. Goza do odor das flores silvestres. Goza do canto dos pássaros. Tudo isto nos chega aos sentidos aqui e agora. Nada nos vem daquilo a que chamas de futuro. Aprende, Primus, não há futuro nem passado. Há o momento presente. E se é presente, não desrespeitemos quem nô-lo dá de graça a todo momento. O mal dos homens é manter suas mentes ou à frente ou atrás de onde se encontra no presente. À frente só há incertezas; atrás, só decepções e recordações. Então, Primus, passado e futuro são dois inimigos nossos. O único amigo neste triunvirato é o momento presente. Vivamos nosso presente com intensidade e com o máximo de prazer que ele nos pode oferecer. Ainda que estejas andando sobre pedras afiadas, pensa bem que se estão sob teus pés não foram elas que te procuraram e, sim, o contrário. As pedras não se movem. Os homens, sim. Seus pés, sim. E seus pés obedecem aos seus sonhos, seus devaneios e suas expectativas. Seus pés são guiados pelo desejo, Primus. Domina e controla teus desejos e tu encontrarás a paz que procuras.

— Issa — rebateu o romano, após pensar um pouco. — O passado se compõe de tudo aquilo que fizemos de bom, de certo, ou de mau e errado. O futuro se constitui de nossas expectativas, nossas esperanças, nossos anseios. Não estás certo quando me dizes que não há passado nem futuro e só o presente.

— E onde estão teus feitos maus? Saberias dizer-mo?

Primus pensou um pouco antes de responder.

— Em mim. Em minhas recordações. Em minhas lembranças. E nas recordações e nas lembranças daqueles a quem de algum modo eu feri ou ajudei.

— E tuas lembranças e recordações são iguais àquelas daqueles a quem feriste ou ajudaste? Elas neles despertam as mesmas emoções que em ti?

— Eu não sei… Talvez sim.

— Talvez não. Escuta, Primus, o homem sente de conformidade com sua experiência e a riqueza ou pobreza de sua capacidade emocional. O que o outro sente é somente dele. Tu nunca saberás o que é nem com que intensidade isto acontece. Nunca saberás a qualidade espiritual dele. Se ela for pequena, fraca, certamente seu sentir pelo que lhe fizeste de bom será pobre. Mas seu sentir pelo que lhe fizeste de ruim será mau e intenso. Os pobres de Conhecimento são medrosos e, por isto, sentem o Ódio com mais intensidade que o Amor. Então, não desperdices teu presente divagando sobre coisas que nele não se encontram. Não te voltes para as recordações boas nem sonhes com as futuras. As primeiras, já se foram e nunca mais voltarão. As segundas… Bom, estas jamais saberás como serão. Mesmo que passes a vida fazendo o bem a todos que a ti cheguem necessitando de algo, fiques certo que a maioria deles te votará rancor se por acaso agires de modo que eles entendam como falta de respeito ou de amizade ou desconsideração. O presente pode exigir de ti que ajas de modo a lidar com situações tensas, perigosas, que te tomam tempo na batalha para encontrar o melhor meio de se safar do dilema. Então, Primus, centra-te todo em apreciar o que o presente te oferece. Evita o excesso de alegria tanto quanto evitas o excesso de otimismo. Tudo o que é excesso é ruim, faz sofrer. Satisfaz-te com o que teu presente te traz no momento fugaz de sua duração. Aprecia tudo o que houver no teu presente, mas uma vez ele tendo-se ido, esquece-o e te prepares para a surpresa ou as surpresas que teu próximo presente te trará. 

Primus silenciou e se distanciou de seu Mestre. Precisava pensar no que acabava de ouvir, pois tudo lhe parecia complicado e de difícil alcance. Issa observou-o pelo canto dos olhos e meneou a cabeça com tristeza. Quando será que iria conseguir que aquele homem entendesse suas mensagens?