VOL II – CAP.1 (CONTINUAÇÃO) – Na Rocha

A Ilha ainda tinha muitas surpresas para os desnorteados amigos.

A Ilha ainda tinha muitas surpresas para os desnorteados amigos.

Enquanto o detetive se via num beco sem saída, seu companheiro subia a lapa escura com a segurança de um cabrito montês. Seus pés pisavam a pedra lisa com firmeza e ele parecia não se dar conta de que estava cada vez mais alto e numa trilha cada vez mais difícil. Não sabia porque andava por ali, mas sentia que a mulher que precisava de ajuda urgente estava lá em cima, em algum lugar de difícil acesso. Ivaldo começou a ter muita dificuldade em prosseguir com a velocidade em que vinha e passou a andar devagar. Era obrigado a procurar pontos de apoio cada vez mais difícil na pedra lisa e por várias vezes seus pés escorregaram  e ele sentiu-se quase despencar para o buraco negro cujo fundo não podia divisar.  Sua respiração ficava difícil e seu coração estava acelerado. Então, de algum lugar lhe chegou um grito de socorro. Era fraco, indicando que quem gritava estava muito longe dele, mas deu-lhe a direção em que devia seguir. A trilha  terminava ao pé do escuro paredão da montanha em forma de tocha. Na luz prateada da lua, barrada pelas escuras copas de algumas árvores, Ivaldo  começou  a  andar  às  apalpadelas. Parecia ter chegado ao fim de sua corrida. A pedra era lisa e a prumo e o detetive não conhecia nada de alpinismo. O que fazer em tal situação? Novamente lhe chegou o grito de socorro. Vinha lá de cima, de um ponto onde seus olhos não podiam alcançar. O enorme paredão fazia uma curva a uns oitenta metros e continuava subindo para o infinito. ” Tem alguém lá em cima e está em sérios apuros. Eu preciso chegar até essa pessoa, mas como? Não há nem uma fresta onde eu possa firmar as mãos para tentar uma subida.” Ivaldo começou a ficar ansioso. À medida que avançava para o lado direito do paredão ele ía ficando mais a prumo e a trilha de apoio ía-se estreitando. Para complicar a situação, uns arbustos de galhos duros e muito espinhosos atrapalhavam-lhe os passos. “É melhor voltar e tentar pelo outro lado. Este aqui não leva a lugar nenhum”. E o companheiro de Damastor retrocedeu o caminho cuidando para não escorregar e procurando evitar mais espetadelas nas canelas já bastante danificadas. O outro lado, porém, não parecia ser muito melhor que aquele de onde viera. Os espinheiros eram mais abundantes e as pedras mais íngrimes e cortantes. A trilha sumira e ele progredia com muita dificuldade. O rapaz começou a desesperar-se. “Diabo, não posso chegar aqui e fracassar. Preciso subir até onde está quem grita por ajuda. Tenho de encontrar…” Um corpo amarelo ocelado passou a menos de vinte centímetros de sua face e Ivaldo quase caiu sobre uns espinheiros com o susto que tomou. Era um enorme jaguar que foi aterrar silencioso sobre uma grande pedra abaixo um pouco de onde estava o homem. O felino mal tocou a pedra e se voltou para o intruso. Um rugido ameaçador saiu de sua bocarra escancarada. A situação de Ivaldo era muito desvantajosa. Os espinheiros não lhe permitiam muita manobra e o grande gato amarelo-ocre parecia estar com fome. “Barbaridade” – pensou o policial com o coração aos pulos. “Uma onça! E eu não entendo nada de domar animais selvagens. Putzgrila! Eu preferia estar sob o fogo cerrado dos marginais do Boréu, a estar aqui. Como vou enfrentar aquilo?” O jaguar passarinhou sobre a pedra buscando um meio de se lançar sobre a sua vítima em potencial, mas parecia hesitar diante dos espinheiros pelos quais o homem estava cercado. Ivaldo meteu a mão no bolso da calça em busca de seu canivete e pela primeira vez notou que estava sem ele. Pé-ante-pé o detetive foi recuando para junto do paredão, colocando mais espinheiros entre ele e a fera. Como andava de costas não percebeu que se abeirava perigosamente de uma fenda no solo. Só se deu conta do perigo  tarde demais. Seu pé esquerdo falseou e ele perdeu o equilíbrio, caindo de costas na fenda e rolando por ela uns dois metros até parar de encontro a uma pedra muito fria.  A  escuridão  era   intensa,  mas  ele  sentiu  que  a  fenda continuava para cima. “Acho que foi daqui que aquele gato esfaimado saiu. Vou tentar subir por ela. Quem sabe se não vou chegar onde estou querendo?”

Com muita dificuldade Ivaldo começou a escalada. Frequentemente a fenda continha barro úmido e ele perdia o apoio das mãos, descendo alguns centímetros e, com isto, atrasando sua ascensão. Mas isto só aconteceu nos primeiros vinte metros. Depois, a fenda, ainda que estreita, tornou-se uma trilha muito segura e desimpedida. Ela era palmilhada com frequência, talvez pelo inquilino amarelo-ocre que se atirara por ela para fora da pedra. A escuridão era muito densa e o detetive avançava totalmente às cegas, guiado somente pelo tato. Entretanto, trezentos metros acima, pôde distinguir a luz da lua sendo filtrada pelo entalhe no rochedo. Avaliou a distância ainda a percorrer e calculou mais trezentos metros. “A maldita tocha de pedra tem uns bons setecentos metros de altura… ou mais. Só espero que quem precisa de ajuda se aguente até que eu chegue lá.” O detetive continuou a subida, agora pisando um pouco mais rápido. Estava-se acostumando com a escuridão e já não temia pisar em falso. Em um dado momento sua mão de contato com o paredão rochoso só encontrou o vazio e aquilo desconcertou-o. Continuou avançando com os braços estendidos à frente, pisando cautelosamente o solo liso que não via. Contou trinta e oito passos pequenos até encontrar novamente o paredão. “É a entrada de uma gruta. Se eu tivesse uma lanterna teria parado para olhar, mas é melhor seguir em frente. Pode ser a toca da onça e eu não gostaria de que ela me encontrasse aqui, caso tenha resolvido voltar, após vencer o medo aos espinheiros.” 

Ivaldo prosseguiu a subida com mais esforço e maior segurança à medida em que se aproximava do clarão da lua e podia distinguir o chão onde pisava. Finalmente atingiu o topo do rochedo. Era terrificantemente bonito. O chão preto da pedra absorvia a luz prata da lua e formava um contraste impressionante. Mas o detetive dedicou muito pouco tempo a observar aquela maravilha. Seus olhos passearam ansiosos pela imensidão escura para a frente, para os lados e para trás, sem encontrar nada que se assemelhasse a uma pessoa. Só a pedra lisa que parecia estender-se para o infinito, à sua direita.

— Onde está você? – gritou ele.

— Aqui em baixo! – foi a resposta que o fez quase saltar de susto. A voz vinha de logo à frente, como se brotasse do chão preto. Com cuidado ele deu alguns passos à frente e viu o abismo a menos de duas duzias de passadas. Se tivesse andado naquela direção tinha toda a probabilidade de cair por ele antes de se dar conta de sua existência. ” Lugarzinho safado, este aqui”  pensou o detetive espichando o pescoço e aguçando a vista para ver se divisava alguma coisa, mas em vão.

— Quem é você? – perguntou ele olhando para baixo.

— Meu nome é Ludmila. Sou uma repórter e não me pergunte como vim parar nesta enrascada porque eu não saberia responder. Pode-me ajudar, Ivaldo?

— Ludmila! Como soube que era eu?

— Sou boa em reconhecer vozes, lugares e feições. Agora, por favor, quer-me ajudar? Eu estou tendo cãibras nos braços e não sei por quanto tempo vou aguentar.

—Não estou enxergando nada, minha amiga. Você tem fósforos?

— Não. E você?

— Também não. É o azar de não fumar.

— Eu vejo sua cabeça. Não ande mais nem um passo ou vai vir-me fazer companhia.

— A que distância estou de você?

— Acho que uns… uns cinco metros… Talvez menos.

— Você está em alguma fenda do paredão?

— Não. Aqui não há fendas. Estou dependurada na palma de um coqueiro.

— Tem coqueiros aí embaixo, é?

— Pelo menos tem este em que estou. Por que?

— Então, vou saltar.

— Ficou doido? Você vai esborrachar-se a uns mil metros abaixo.

— Eu acho que não. Segure-se firme para evitar que meu impacto a desloque. Eu vou pular. Me dirija a posição, sim?

— Não! Você  não pode fazer isto. Você é minha única esperança de salvação. Se morrer, tô frita! Fique aí mesmo e encontre alguma coisa para me puxar até aí em cima.

 — Não tenha medo. Coqueiros não nascem em pedras. tem de haver uma plataforma com terra… talvez areia. Vou tentar chegar até a palma onde você se encontra. Depois, desço pelo tronco até a suposta plataforma.

— Não se arrisque. Eu mesma posso fazer isto. Espere por mim. Vou tentar. Se não houver a tal plataforma, pelo menos um de nós está fora para tentar alguma coisa.

— Não há nada aqui em cima que eu possa usar para ajudá-la. A pedra é lisa como a calva de um careca.

— Você está de calças?

— Sim. Por que pergunta?

— Tire-as. Faça uma corda com as pernas dela e jogue uma ponta para mim. Talvez chegue até aqui.

— E eu fico nu?

— Não, de cuecas. Não costuma usar uma?

— Sim, mas…

— Não é hora para pudicícias. Eu tô me lixando para suas pernas ou… ou… ou para ele, você sabe do que estou falando.

— Tudo bem, farei isso se você não encontrar a plataforma com terra. Vai arriscar?

— Já estou arriscando.

E Ludmila pôs-se a avançar pela palma até chegar à copa do coqueiro. Sentiu que ele estava lotado de cocos e rezou para que a tal plataforma realmente existisse.

Na Caverna

Enquanto isso, logo abaixo deles, na escuridão da caverna, Karina e Tamara desciam a cachoeira em queda quase livre. Afundaram num poço borbulhante e com braçadas e pernadas vigorosas cada uma das duas amigas lançou-se para cima, já bebendo grandes goles da água fria. Suas cabeças emergiram à tona, mas um espesso véu de neblina causada pela água que caía de uma grande altura sufocou-as, quase impedindo que respirassem. Elas se debateram angustiadas e tossindo muito. Era horrível sufocar, sentir as forças faltando, o coração disparando, os membros esmorecendo e tendo, apesar de tudo, de se manterem à tona sem qualquer apoio nos pés. Engasgando e tossindo, Tamara foi a primeira a gritar pela amiga.

— Karina… Ka…Karina, on… onde você está?

— A… à sua di… di… direita… eu… eu acho.

— O que diabo era aquilo?

— As tochinhas?

— Sim. O que eram?

— Nade para fora do véu de noiva. Siga minhas braçadas. você pode ouvi-las?

— Sim.

— Venha, então. Estou sufocando.

— E as tochinhas?

 — Eu conto depois. Estou afogando. Nade!

E com vigorosas braçadas Karina pôs-se a nadar rezando porque tivesse escolhido a direção certa. Logo começou a sentir que nova corrente se formava e orientou-se transversalmente a ela. Não desejava despencar noutra cachoeira. Seus braços deram com a margem do rio subterrâneo. Ela se içou para fora, tremendo tanto de frio que quase não conseguia manter-se de pé.

— Tamara…?

Ouviu o tossir engasgado de sua companheira logo mais abaixo, mas ainda dentro d’ água.

— Nade em direção à minha voz. Você me ouve?

— Sim… eu… estou… tentando…

— Não se deixe arrastar pela correnteza. Pode haver nova cachoeira logo abaixo.

— Eu.. eu estou saindo d’água. Mas estou tremendo tanto que não posso me manter de pé.

— Esfregue o corpo com as mãos. Friccione os braços…

— Estou fazendo isso. Agora, pode-me dizer o que eram as tochinas?

— Os olhos de uma onça.

— Onça?!

— Sim. Um jaguar, se você preferir. Os olhos de um felino brilham amarelo-esverdeados no escuro. Eu já vi aquilo no zoológico.

— Ah… Eu teria virado comida de onça. Não sabida que os olhos dela brilhavam assim — falou Tamara tossindo e tremendo de frio.

— Por isto estou sempre com você. Para salvá-la de sua própria ignorância.

— Tá, convencida. O que vamos fazer, agora?

— Estou querendo sugestões. Tenho fome, tenho frio, estou morrendo de cansaço e gostaria de voltar para aquela cama quentinha e macia — e Karina fazia força para não chocalhar os dentes.

— Eu também — disse Tamara batendo um joelho no outro.

As duas silenciaram. Brincavam para não cair em angústia, mas a situação delas não era nada confortável. A caverna era muito fria e mesmo fora do rio de águas geladas não havia nenhuma vantagem para ambas.

— Tamara – chamou Karina. — Se ficarmos paradas vamos morrer congeladas.

— Ou pegar um bruto resfriado.

— Pois é. Acho que devemos começar a andar. E você?

— Estou de acordo. Dê-me sua mão. A gente não pode se perder.

— E para onde vamos?

— Vamos acompanhar o rio. Vamos pela margem. Já vimos que subir não dá. E se na improvável hipótese de conseguirmos, quem nos garante que a tal onça não vai estar pronta pra nos jantar?

— É… É preferível arriscar a descida. Só que tenho um medo danado de afundar terra a dentro.

— Todo rio sai em algum lugar. Estamos numa ilha… eu acho.  E se estamos numa ilha, este riozinho danado de frio vai ter de desembocar no mar.

Tateando, Karina encontrou o braço estendido de Tamara. Trêmulas, deram-se as mãos e se puseram cautelosamente a andar pela margem do rio. Era de pedra muito lisa, talvez cheia de limo e elas tinham de tomar todo cuidado para não caírem n’ água de novo. Não havia barulho de correnteza e isto as tranqüilizava. Andaram uma enormidade de tempo, até que Tamara ouviu a colega lhe perguntar:

— Tamara, você não está notando um silêncio muito estranho?

— Como assim?

— O rio. Eu não o estou ouvindo.

Tamara aguçou o ouvido. Sim, o canto suave das águas havia sumido. Ela parou e tateou com o pé, à frente. Pedra fria. Para o lado, a mesma coisa.

— O que terá acontecido? — perguntou Karina, apreensiva.

— Acho que nós nos afastamos da margem fugindo do limo escorregadio.

— E para que lado? — havia medo na voz da amiga.

— Tenha calma. Pelo menos ficamos sabendo que estamos dentro de uma caverna espaçosa. Vamos pensar. Tínhamos a margem do rio à nossa direita. Eu andava puxando você para o meu lado esquerdo, sempre que sentia o limo escorregadio sob meus pés. Se nos afastamos, não devemos ter feito isto por muito tempo.

  — Vamos voltar, então?

— Acho que é a melhor idéia. O rio nos dirige, ao passo que ficar perambulando pela caverna pode-nos levar a um labirinto do qual não logremos sair jamais.

Cuidadosamente e toda atenta as duas iniciaram a andar para a direita, sempre procurando ouvir o barulho suave da correnteza. De repente o pé de Tamara escorregou e ela perdeu o equilíbrio. Na queda firmou-se no braço de Karina, que também se desequilibrou e caiu. As duas sentiram que escorregavam numa lama viscosa e fedorenta. Soltaram-se e tentaram segurar-se em qualquer coisa, mas seus dedos só encontraram aquela lama estranha. Karina rodou de lado e caiu a fio comprido, afundando na ganga. Seus cabelos ficaram uma pasta horrível e sua boca encheu-se daquela coisa pegajosa e fétida. Cuspindo, tossindo e debatendo-se na tentativa de voltar à posição sentada, a repórter procurava encontrar a mão da amiga, em vão. Seu corpo bateu violentamente numa pedra e rodou para a esquerda., indo parar com lama até a cintura. A repórter conseguira, após o tranco, sentar-se. Quase imediatamente uma onda de lama cobriu-a e o corpo de Tamara chocou-se com o dela. As pernas da moça estavam para o alto e suas coxas bateram no rosto de Karina. Esta compreendeu que a amiga estava em sérios apuros. Se não levantasse logo, afogar-se-ía naquilo. Com um grande esforço, apesar de as coxas da outra escorregarem de suas mãos, ela conseguiu ajudar a companheira a se erguer. Tamara tossia desesperadamente e vomitou em grandes jatos.

— O que diabo é isso? — gritou ela quando pôde falar.

— E eu sei lá! Parece a latrina do mundo, porra! — exclamou Karina, frustrada e raivosa. — Onde raios foi parar aquele rio maldito?

— Eu bem gostaria de saber. Beberia metade dele para lavar o estômago — disse a mulata ainda com engulhos.

Karina tentou levantar e caiu de cara, afundando na ganga. A custo conseguiu voltar a sentar-se e compreendeu que era perigoso demais o que fizera. Só se erguera de novo porque tinha como apoio a rocha onde batera . Se estivesse no meio daquela lama estranha teria morrido ali mesmo.

— Tamara – gritou, cuspindo a lama de sobre a boca – não se ponha de pé. Vai cair e vai morrer na certa. Eu tentei e afundei.

— Eu sei, eu sei. Quando rolei caí na besteira de me virar para me erguer e foi assim que desci os cinquenta metros nesta lama fedorenta. Parece que ela não escorre, apesar do declive.

— Não. Ela gruda, apesar de ser muito viscosa. Eu não compreendo isto.

— Pois eu não quero compreender nada. Quero é descobrir um meio de sair deste inferno, senão eu enlouqueço, pode crer.

As duas amigas estavam à beira de uma crise de nervos. Controlando-se à força, Tamara tentou ficar de gatinhas e quase afundou de novo. Encostou-se na pedra e apoiando as costas nela conseguiu ficar instavelmente de pé. Parecia estar sobre patins sem freios e numa ladeira.

— Estou de pé, mas sinto a rocha em declive acentuado. Acho que esta pedra está na metade do escorrega. Karina, acho que estamos numa enrascada dos diabos.

— Maldição! Eu preferia estar dentro do rio – lamuriou-se Karina, encolhendo-se de encontro à pedra. — O que mais pode-nos acontecer de ruim, agora?

— Creio que seria descermos ladeira abaixo nesta lama e terminar caindo no cone de um vulcão – brincou Tamara.

— Você não está falando sério… está? – assustou-se Karina.

— Não, não estou, não. O que estou mesmo é tentando ser engraçada para não cair nos olhos. É o que mais tenho vontade de fazer, agora – e Karina notou um tremor na voz da amiga. Ela, também, estava a ponto de chorar, tal era o seu sentimento de desamparo e abandono. Engoliu em seco, contudo, e esforçou-se por parecer natural quando falou.

— Calma, se pensarmos com a cabeça fria poderemos encontrar uma saída.

— Mais fria do que a minha está, só se colocá-la dentro de um freezer — disse Tamara com voz apagada. — Karina, convenhamos, nossa situação é terrível. Se nos movermos para qualquer lado que seja, vamos descer novamente a ladeira neste escorrega de merda. E onde é que isto vai terminar? Num poço fundo? Se for, estaremos condenadas a morrer com a barriga cheia desta coisa… e os pulmões, também.

 — Pode ser… Mas você mesma disse que todo rio corre para o mar. Esta coisa não pode ser diferente.

— É, mas esta coisa não está escorrendo. Ela fica aí, grudada na pedra, pronta para fazer escorregar por ela qualquer imbecil descuidado que lhe caia nas garras.

Enquanto falava, Tamara fazia escorrer a lama viscosa do corpo, passando vigorosamente as mãos pelos braços, pelo pescoço, pelos seios e pelos cabelos. De tanto se esfregar, suas mãos se limparam o suficiente para que pudesse sentir a pedra onde estavam apoiadas. Ela era áspera. A lama só existia lá em baixo. Freneticamente continuou passando as mãos pela superfície da pedra. Era áspera. Se seus dedos não estivessem sujos com a lama, poderia fixar-se na pedra e se içar para cima dela.

— O que está fazendo? Por que está tão calada? — preocupou-se Karina.

— Fique de pé — foi a resposta.

— O que?!

— Eu disse pra ficar de pé — repetiu a outra. Karina notou estranha mudança de inflexão na voz da colega.

— Mas a lama…

— Karina, encoste as costas na pedra e se erga apoiando-se nela. Vá de vagar que você consegue.

—Animada pelo tom de voz da companheira Karina obedeceu. Escorregou duas vêzes e caiu, mas finalmente conseguiu ficar de pé. Realmente, o piso era muito declinado, dando a impressão de que a descida continuava do outro lado da pedra.

Arfando pelo esforço que lhe exauria as poucas forças que lhe restavam, ela perguntou à amiga:

— Consegui. E agora?

— Limpe-se esfregando as mãos pelo corpo o mais que puder. Depois, apalpe a pedra às suas costas.

Havia excitação na voz de Tamara. Karina pô-se a fazer o que ela lhe sugerira, sem entender bem para que aquilo poderia servir. Finalmente estava suficientemente limpa e apalpou a pedra. Compreendeu a excitação da amiga. 

— É áspera! — exclamou animada. — Você acha que…?

— Podemos tentar. Você se limpou bem?

— O melhor que pude. O que pretende?

— Levante sua perna e me dê seu pé — ordenou Tamara.

Karina fez o que a outra pedia. Tamara pôs-se a tirar a lama viscosa e grudenta do pé da amiga, cuidadosamente. Quando achou que tinha limpado o suficiente, disse:

— Escute, vou-me ajoelhar e procurar me firmar na rocha. Você coloca seu pé limpo em meu ombro e tenta subir em mim. Apoie-se o mais firmemente que puder na rocha. Pelo amor de Deus, não vá cair.

— É muito arriscado — disse Karina, temerosa.

— Mas temos de tentar – rebateu a outra com urgência na voz. – Você pratica Kung-Fu e tem excelente equilíbrio. Eu já a vi fazer coisas bem mais arriscadas. Vamos, concentre-se e tente.

Sim, Tamara tinha razão. Ela fazia exercícios muito mais arriscados, como equilibrar-se no topo de longos bambus, saltando de um para o outro enquanto dava socos e ponta-pés em inimigos imaginários, tendo uma venda negra nos olhos. Mas aquilo ali era bem diferente. Ela estava exausta, friorenta e enfraquecida. Seu corpo todo tremia e sua bioenergia estava fora de controle, em depressão.

— O que pretende com isso? — perguntou para ganhar tempo.

— Estou somente arriscando. Talvez a gente esteja imaginando coisa demais. Talvez este escorrega de merda termine aqui mesmo. Talvez que subindo na pedra a gente encontre outros pontos de apoio… Uma parede… Estalactites… alguma coisa em que nos fixarmos para sair daqui.

Karina sentiu-se esmorecer. Não era possível que a colega acreditasse mesmo no que estava dizendo. O tato nos pés lhe indicava claramente que a rocha continuava a descer. Aquela saliência ali era um acidente sem importância. Pensou que a outra queria movimentar-se para evitar a depressão se ficassem imóveis fisicamente e deixassem que a mente vagabundasse à vontade. Respirou fundo e procurou concentrar-se. Começou fazendo exercícios respiratórios profundos. Aquilo visava a fazer com que o excesso de oxigênio inalado aquecesse seu interior. Depois de um tempo que pareceu demasiado a Tamara, ela deu início a umas violentas contrações abdominais. Visava a pôr o tan-tien em atividade para obter o equilíbrio psicoafetivo de que ía precisar.

— Por que demora tanto? — impacientou-se Tamara.

— Cale-se. Estou-me aquecendo.

Karina continuou o exercício. Agora seu ventre executava movimentos circulares impressionantes pela precisão. Ela manteve os movimentos na direção dos ponteiros do relógio por quase três minutos e depois inverteu a direção e fez mais ou menos a mesma quantidade para o lado oposto. Começa a suar e aquilo lhe fez muito bem. As extremidades aqueceram-se e ela voltou a sentir o sangue pulsando forte nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Servindo-se do apaku e do koda, métodos de shiatsu japonês, tocou os pontos de aculpuntura estimuladores da energia YANG nos ombros, no pescoço, no peito e nos braços. O cansaço e o desânimo estavam dando lugar a uma gostosa sensação de bem-estar e sua confiança voltou a crescer. Finalmente deu-se por satisfeita.

— Estou pronta. Segure-se!

— Já era tempo. Mais um pouco e eu viraria sapo de tanto respirar este miasma nojento.

Karina firmou o pé no ombro da colega. Tinha a certeza de que por si, conseguiria. Mas tinha dúvidas quanto a Tamara. Pela sola do pé podia sentir que a outra estava muito desvitalizada. O que ela não podia ver era que sua amiga estava sentindo tonteira e a vista começava-lhe a escurecer…