Sobre a grande lagoa da fazenda Gameleira o Sol nascia com o mesmo esplendor com que se punha e sua luz abençoava aquela terra prometida.

Era um entardecer calmo na Natureza, mas agitado no coração dos companheiros de Issa.

Era o entardecer. O tempo nublado escurecia o dia mais cedo. O pequeno grupo parou para fazer o acampamento simples. Não demorou para que um panelão estivesse cozinhando carne de javali e alguns tubérculos para os famintos celtas e o romano. Yehoshua, porém, retirou de um saco de couro suas indispensáveis frutas secas e outras, frescas. Comeu com apetite e se saciou com água que levava em um cantil. Então, buscou um local afastado dos outros e se sentou em padmasambava, fechando os olhos. No entanto, sua concentração não foi muito longe. Alguém sentou-se a seu lado e o tocou, obrigando-o a abrir os olhos.

— Perdoa-me Issa — disse Atonchau, o que se sentara a seu lado. — Mas estamos sendo seguidos por quatro ou cinco germanos desde que entramos a costear o rio.

— Sei disto — respondeu Issa, sorrindo.

— E o que pretendes fazer quanto a eles?

— Eu? Nada. Eles estão em seu território. Então, que andem como quiserem e observem quem quiserem. Os intrusos somos nós, não somos?

 

Atonchau lamentou não estar armado.

Atonchau lamentou não estar armado.

Atonchau coçou a cabeça e permaneceu um longo tempo mirando na face serena de Issa, que lhe sorria parecendo divertido. Então, com um suspiro, levantou-se e foi ter com seus companheiros.

— E então? — Perguntou Luprécio, preocupado.

— Nada. Ele não se incomoda e se mantém irritantemente sereno. É um perigo enorme que nos segue como uma serpente, mas Issa ignora solenemente isto. Não entendo.

— São cinco apenas. Se tivéssemos trazido nossas armas poderíamos dar cabo deles antes que nos denunciassem ao chefe rebelde. No entanto, Issa nos proibiu vir armados. Agora, eu me sinto como um inseto na teia da aranha. Não confio em germanos e no tal Haimirich e seu irmão Hrodulf menos ainda. O que o chefe Armínio nos falou sobre ele dá medo.

— Tu?! Com medo? Não acredito — disse Primus encarando Atonchau.

— Sou humano e me sinto nu sem minhas armas — rebateu aquele, com olhar assassino para o romano.

Fez-se longo silêncio durante o qual todos olhavam o sereno Issa em meditação e com um leve sorriso na face iluminada pela serenidade que sempre exibia quando se sentava daquele modo estranho.

— Ele tem um magnetismo que nos domina — murmurou Atonchau. — Nunca, antes, encontrei alguém assim.

— É… — murmurou Primus por sua vez. — E sua sabedoria sempre nos surpreende. Vejam vocês: foi muita sabedoria dele não permitir armas conosco. Se estivéssemos armados, já teríamos sido atacados pelos que nos acompanham e vigiam. No entanto, andamos despreocupadamente e não procuramos nos esconder e isto os desconcerta e os faz hesitar entre atacar ou apenas reportar a Hrodulf que há estranhos em suas terras.

— Eu não confio em germanos — teimou Luprécio, irritado. — Eles gostam de fazer escravos. Gostam de roubar nossas mulheres e vendê-las ou fazer que sejam escravas das suas. E se querem saber, detesto estar a serviço de um desgraçado rei germano.

Fez-se silêncio, pois Issa se pusera de pé e vinha em direção deles. Parou diante dos três e apontou para Primus.

— Tu, vai ter com os germanos que nos seguem e os convida a vir ter conosco. 

— Como?!

— O quê? Ficaste doido? — Bradaram os celtas pondo-se de pé com ar beligerante.

— Sei o que te peço, Primus. És o que mais tens aprendido comigo. Então, vai. E tem fé, homem de Deus. Eles não são bichos. São homens, como tu e nós todos.

— Que ordem é esta? — Rugiu Luprécio com os punhos fechados. — Eles têm armas, nós não. São nossos inimigos naturais, por Hella!

Issa voltou-se sério para Luprécio e o encarou e de seus olhos chispas de luz pareciam explodir em direção à face furibunda de seu discípulo rebelde. Ainda que hesitante e contra sua vontade, Luprécio se encolheu diante daquele olhar de fogo.

— Eu sou o Mestre de todos vós. Não questioneis minhas ordens. Vai, Primus. O que esperas?

— Sozinho?! — Perguntou Primus, receoso.

— Não. O Pai sempre estará contigo. Agora, vai!

Com um profundo suspiro, Primus se retirou desaparecendo na escuridão. Fez-se silêncio por um tempo. Então, com um gesto de mão, Issa convidou os celtas a se sentarem.

Qual é a Parábola por detrás deste mito?

Qual é a Parábola por detrás deste mito?

— Vou contar-vos uma parábola do povo entre os quais nasci neste mundo. Eles são conhecidos como hebreus. São aguerridos, mas são extremamente religiosos e obedientes às Leis do Pai Celestial. Tal obediência cega e sem questionamento dá azo a que muitas fantasias e muitas parábolas sejam tomadas ao pé da letra, o que não é bom para os homens.

Havia um sábio entre os hebreus de outrora que retirou seu povo do Egito e os levou para o deserto de Sin. Durante muitos dias permaneceram perambulando pelas areias ardentes secas e muito quentes do deserto. E a água tornou-se extremamente escassa e terminou por faltar totalmente. O povo sedento, cansado e temendo a morte cruel pela sede, deitado sobre as candentes areias do Sin, voltaram-se raivosos contra o sábio que os levara àquela situação. Seu nome era Moisés, e ele tinha a seu lado seu irmão mais velho, Aarão. Os dois se viram acossados pelos sedentos revoltados contra aquela situação extrema e angustiosa. E os revoltados diziam:

— Oxalá que nós tivéssemos perecido entre os nossos irmãos diante do Senhor nosso Deus. Por que tirastes vós a congregação do Senhor para o deserto, para morrermos assim nós, como os nossos animais?

— Por que nos fizestes subir do Egito e nos trouxestes a este péssimo lugar, que não se pode semear, e onde se não dão nem figueiras, nem vinhas, nem romeiras, e em cima disto não tem água que se beba?

— E Moisés e Arão deixaram a turba, perturbados, e entraram no tabernáculo, o templo armado sob uma tenda no deserto, e com o rosto prostrado na areia quente e a alma contrita, oraram ao Pai Celestial. E Lhe pediram que Ele ouvisse o clamor do povo e lhe abrisse seu maior tesouro, uma fonte de água viva, para que, saciando-se todos eles, cessassem a murmuração e a revolta. E o Pai Celeste respondeu à oração ordenando: “Toma a vara, ajunta o povo, tu e Arão teu irmão, e ordenai vós ambos à pedra diante deles que dê água. Ela assim fará e toda a multidão e todos os seus animais se dessedentarão”. 

Vede, vós que me ouvis, que os dois líderes daquela gente não tinham mais que a promessa do Pai. E Sua voz não se fez ouvir como se ouve a voz humana, mas chegou a cada um deles apenas como uma intuição, uma idéia que lhes brotou de algum lugar dentro de cada um. E a idéia era una para ambos. Confiantes em que tinham realmente ouvido a Voz do Senhor Deus, eles reuniram as pessoas revoltadas e diante delas e ordenaram à pedra no meio do acampamento que desse água para dessedentar a todos.

E da pedra jorrou água em abundância. Dia e noite. E todos se dessedentaram. Até os animais. E a fé do povo foi reacendida pela milésima vez, pois eles, sempre que uma situação que se lhes afigurava de perigo, logo se revoltavam e murmuravam contra os enviados de Deus ao meio das gentes.

Qual é a parábola por detrás deste outro mito fabuloso?

Qual é a parábola por detrás deste outro mito fabuloso?

Issa silenciou e o silêncio pesou como chumbo sobre os três homens. Os dois celtas começaram a rir baixinho e terminaram por explodir numa sonora gargalhada. Entre risos, Luprécio falou.

— Issa, és um grande contador de história, mas nessa aí tu exageraste. Pedra dando água só porque dois homens assim ordenaram? Não convence, meu amigo. Não convence mesmo! — E o celta se dobrava de rir. Issa, contudo, apenas mirava o chão enquanto desenhava um árvore com o dedo indicador da mão esquerda.

— És tão cego quanto a gente do povo onde nasci — disse o Mestre, sem alterar a voz, o que obrigou o risonho celta a conter o acesso de riso para ouvi-lo. — Eu comecei dizendo que o que ia contar tratava-se de uma parábola. É verdade que os hebreus tomam as histórias da Torá como verídicas, ao pé da letra, como tu o fizeste agora. Mas quase a totalidade do que ali se encontra são parábolas velando conhecimentos que eles ainda não têm a capacidade de compreender, porque lhes falta quem ensine as Verdades Ocultas. A parábola que vos narrei está contida no livro do Êxodo Cap. 17 e, também, no livro Números, capítulo 20, versículos 7 a 13. Se um dia quiserdes verificar a veracidade do que vos digo, ide até Israel e, em Jerusalém, visitai a grande sinagoga. Pedi a um rabi que vos mostre estes livros e lá ireis encontrar esta parábola, mas escrita de modo velado, como uma aventura real, vivida por Moisés e Aarão.

— E qual é o significado dessa parábola, Issa? — Perguntou Atonchau, interessado e atento.

— Moisés e Aarão significam na verdade Conhecimento e Sabedoria. Sem estes dois pilares da Mente humana, o homem não consegue realmente ser Homem. Vós, por exemplos, ainda estão longe de serdes Homens. São somente imitação disto.

Os dois celtas se remexeram incomodados com o que ouviam. Não fosse Issa e o sujeito já estaria morto estrangulado.

— O nosso Pai Celestial não fala com os homens simplesmente porque ele não tem boca nem precisa disto. Este órgão rudimentar diante do Poder do Excelso é ridículo e só serve ao corpo físico, nada mais. Quando, em uma parábola hebraica, se disser que Deus falou com tal ou qual profeta, na verdade o que isto significa é que a Verdade se revelou àquele que se dedicou a entrar em seu tabernáculo e se recolher em meditação, entregando-se totalmente ao seu Criador. Profeta é todo homem que procura a si mesmo dentro de seu corpo, dentro de sua mente, pois é aí que está o Pai Celestial e somente aí Ele se revela, em silêncio, ao Filho que o busca. O corpo humano é a Tenda do Tabernáculo, e este é a Mente do Homem.

A fonte de água viva a que se refere a parábola que vos contei diz respeito à revelação interior do Poder que o Celeste Pai de todos nós guarda em cada ser humano, à espera que este se recolha ao seu Tabernáculo. Só então Ele a revelará. Esta Revelação é o Amor, que o Homem, a partir do momento em que há a Revelação, se vê tomado por ele para nunca mais ser por ele abandonado.

A Pedra de onde a água do Amor jorrará pela ordem do Homem é seu coração embrutecido pelas ilusões do Mâyâ, este mundo em que acreditais viver de verdade.

O povo que se dessedentou da água viva que brotou da pedra são as pessoas a quem o Redivivo irá transmitir o seu Conhecimento e lhes mostrar o Caminho da Salvação, como eu faço convosco. Agora, podeis fazer o favor de meditar na parábola e sua rica mensagem que eu vos traduzi? Sim, e se algum de vós decidir realmente ir visitar os hebreus, por favor, aprendei a falar e ler o hebraico para poderdes consultar ao vivo a própria Torá. O livro é considerado sagrado pelo povo hebreu, mas sempre há um rabino que não vive subjugado pela prática política da corrupção dos costumes, que impera no Templo de Jerusalém. Tais rabis desmoralizam a grande sabedoria da Torá e a tornam vergonhosa e mesquinha... Ah, sim, meditai na parábola que vos narrei, pois ainda há muito nela que eu não vos revelei de propósito. Descobri por vossos próprios esforços. É o exercício da Mente que desperta o Espírito.

Issa percebeu o olhar de espanto de seus dois discípulos celtas. Miravam algo atrás dele. Voltou-se e viu Primus amarrado, todo ensanguentado. Tinha levado uma surra violenta dos germanos que brandiam suas achas de guerra com olhar assassino para eles…