VOLUME II – CAP. I – 3ª PARTE – Na ilha

Aventuras fantásticas para os desorientados amigos.

Aventuras fantásticas para os desorientados amigos.

Enquanto as duas amigas lutavam pela vida nas entranhas da terra, o comandante do iate também enfrentava uma situação desesperadora. Sabia que o jacaré estava ali, bem abaixo dele, talvez esperando para dar o bote se o galho de árvore não lhe aguentasse o peso. Mas tinha de tentar a passagem de qualquer modo. Ficar ali esperando o dia clarear seria como condenar outros à morte certa. Firmou-se bem para fazer a travessia de uma árvore para outra e começou a transferir o peso do corpo do galho onde se encontrava para o outro, da árvore seguinte. A curvatura foi muito acentuada e o comandante quase cai. Mais uma vez sua agilidade  o salvou. Quando, finalmente se aprumou no galho onde estava, o suor pingava-lhe em bicas. ” Estou muito baixo. Quase senti o chão nos pés. O jacaré não deve ser um animal de reflexos rápidos, senão eu teria sido atacado. Acho que ele ataca por impulso.”  Argos firmou-se no galho da árvore e ficou quieto, escutando, mas não conseguia ouvir nada. Apenas alguns grilos algures.

César era um mordomo impecável.

César era um mordomo impecável.

Enquanto o comandante permanecia naquela situação de impasse, o mordomo, César, vestindo apenas um calção e uma camiseta branca, subiu ao convés. Não tinha sono. O que presenciara havia roubado sua fleugma. Desde que fôra mandado servir no iate de Milena que não tinha presenciado nada semelhante. Não tinha certeza de que aquilo pudesse servir de informação para os Kamuratti, mas era bom informar. Passeou aparentemente distraído pelo convés mas atento a qualquer movimento que indicasse haver alguém acordado. Como tudo lhe pareceu calmo e normal, desceu ao ancoradouro e se distanciou o suficiente para que sua voz não fosse ouvida, mas não o suficiente para que perdesse o barco de vista. Então, tirou do bolso do calção o seu celular e discou um número. Esperou na escuta, mas nenhum sinal lhe veio. Tornou a insistir, mas nada de novo aconteceu. Ficou por um momento pensando o que devia fazer. Não era possível que ambos os telefones estivessem desligados. Voltou a tentar os mesmos números várias vêzes sem resultado. Foi quando César mirou o mar que alguma coisa estranha lhe prendeu a atenção. Aproximou-se um pouco da praia e olhou a água. Estavam muito escuras. Pareciam um veludo negro. Nenhum reflexo vinha dali. Apanhou uma pedra e lançou em direção ao mar esperando ouvir o característico barulho da queda, mas não ouviu nada. Apenas um silêncio total. Desceu até a praia e tentou molhar os pés onde começava o negrume sem brilho. Meteu o pé naquilo que pensava ser água, mas só encontrou um buraco vazio. Olhou para o iate. Ele permanecia placidamente flutuando… no nada. César estava maravilhado. Abaixou-se e cuidadosamente meteu a mão naquele negrume e, como já desconfiava, não encontrou nada. Deitou-se na areia e meteu todo o braço naquele vazio. Era somente um vazio. Nem água, nem vento, nem nada. Um enorme buraco negro, vazio. O mordomo voltou de costas até encontrar a árvore onde estivera vigiando o iate enquanto chamava a residência dos Kamuratti. “Não tem água. O mar sumiu. Alá me ajude! Como é possível tal coisa? O que este pessoal está fazendo de tão misterioso? Alguém tem de saber o que se passa nesta ilha. Um jacaré amazonense que devora um médico famoso; sons que não são ouvidos e, agora, mar que desaparece. Isto tem de ter uma explicação. Tem alguém brincado com a gente. Alguém que descobriu algo… algum aparelho pelo qual os Kamuratti darão a vida. E eu tenho de descobrir onde está este aparelho e quem é o seu inventor. A Grande NAHASH vai querer isto de qualquer maneira. O que não poderá fazer com tal invenção?”

Um dos dois iates de Milena Fórcis.

Um dos dois iates de Milena Fórcis.

César continuou a olhar para o vazio que podia ser tomado pelas águas do mar por qualquer incauto desprevenido. E então teve uma idéia. Regressou ao iate, não sem algum temor, e desceu ao seu camarote de onde trouxe uma lanterna. Acendeu-a e mirou o escuro. A luz sumiu à altura do casco da embarcação. Sem reflexos. Simplesmente a luz chegava até onde devia haver a água e sumia. César desceu até a praia e colocou a lanterna a um palmo do escuro. Acendeu-a. A luz sumia logo a seguir. O buraco negro como que engolia a luz.

Embora ele servisse já há seis meses como mordomo, na verdade era um Cientista, um físico nuclear a serviço da Grande NAHASH. Era descendente de tuareg, daí sua pele escura e seus olhos negros e levemente amendoados, seu  nariz volumoso e suas mãos muito grandes e fortes. Fôra  designado para servir junto a Milena Forcis simplesmente porque ela era noiva do filho do Deputado que mais incomodava a NAHASHILLA dos Kamuratti. Devia acompanhar a moça até após seu casamento e se manter na função de mordomo, quando teria acesso a qualquer segredo ou informação do casal. Forçosamente isto seria possível, visto como a amizade entre o Deputado e o marido de Milena os faria compartilhar de coisas que não apareceriam na Câmara. Segredos que muito interesse despertavam na Grande NAHASH. Ele sabia que a Sociedade Secreta aproveitava tudo, qualquer informação, por mais fútil que parecesse, para dela tirar algum proveito. Fôra a mentora de quase todos os serviços de inteligência de todos os países, principalmente da Rússia e de Israeal. Ele mesmo era membro ativo do MOSSAD. Mas trabalhava como agente duplo. Em primeiro lugar vinham os interesses da Grande NAHASH. Depois, os de Israel. Agora, tinha diante de si um fenômeno fantástico. Alguém tinha a responsabilidade por aquilo e certamente que a Grande NAHASH iria querer pôr a mão nele, mesmo que tivesse de eliminar meio mundo para isto. César, ele próprio, já perdera a conta de quantas pessoas tivera de eliminar para tomar informações de somenos que a Grande NAHASH queria a qualquer preço.

O mordomo pôs-se de pé e olhou em direção ao Chalé. Não o viu. Em seu lugar estava um estranho maciço de pedra muito alto, aliás, exageradamente alto para aquela ilha tão pequena. A lanterna caiu-lhe das mãos, tal foi a sua surpresa. Esfregou os olhos e tornou a mirar o lugar onde devia estar o chalé. A montanha continuava lá, imponente, sob um luar de prata cuja luz não chegava até ele. Voltou a olhar para o iate. Estava lá, no mesmo lugar.

“Não estou ficando doido. Isto está acontecendo de verdade e eu vou descobrir o que é. Alguém está usando um giganteco aparelho holográfico para gerar esta ilusão. Pelo menos quanto ao chalé. E eu vou descobrir onde o esconde. Quanto ao problema do mar, verei depois. O negócio é bem maior do que se pode imaginar.”

Cesár se pôs a subir a trilha em direção ao chalé, mas logo voltou atrás. “Preciso de uma arma. Não sei o que vou encontrar pela frente.” Regressou mais uma vez ao iate e apanhou uma pequena maleta de aparência inofensiva. Retirou dela algumas peças em aço e em pouco tempo armou poderosa besta. Montou as dezoito flechas curtas com ponta de aço e corpo de alumínio, colocou tudo numa aljava de  palmo e meio que prendeu à cintura, sob o braço esquerdo e saiu. A arma tinha  a vantagem cômoda de ser absolutamente silenciosa e poder alcançar um alvo com precisão a até cem metros. E tinha a vantagem de possuir mira telescópica. Ele a mantinha escondida em seu beliche há seis meses. Mantinha-a sempre limpa e pronta para uso, assim como a beretta que sempre trazia colada na parte interna da coxa. Era “expert” em armas de fogo e armas não convencionais, como a besta, o punhal e o sabre tuareg. A trilha estava escura, mas César andava com cuidado e a luz da lanterna iluminava bem o caminho. Estava atento ao menor ruído, ao menor farfalhar, a qualquer mudança no zumbido dos mosquitos. Tudo poderia dar sinal de alteração no ambiente e foi assim que ouviu o “bocejo” do jacaré. Parou de chofre e ficou escutando atentamente aquilo. Novamente um ruído estranho, como se um galho de árvore tivesse sido sacudido. ” Jacarés não sobem em árvores. O que se está passando aqui?” Pisando silenciosamente e apagando a lanterna, César saiu da trilha e permaneceu no escuro, escutando atentamente para localizar de onde vinha o ruído. O silêncio voltara a reinar e ele teve de esperar muito tempo. Sabia que não estava dentro da área de interesse do monstro, senão teria sido atacado. A escuridão não era normal e sua vista não se acostumava com ela, de modo que continuava sem enxergar nada. Por isto resolveu acender a lanterna. Em sua volta havia muitos arbustos e algumas árvores altas. Não era aconselhável mover-se por ali, pois as folhas secas no chão dariam o alarma para a fera. Ele aprendera com os nativos da amazônia que os jacarés ficam hipnotizados pela luz de uma lanterna e perdem a ação. Assim, resolveu andar lentamente, focalizando ora para um lado, ora para outro da trilha. A besta, que trazia na mão esquerda, foi armada com uma flecha. César sabia que ela atravessaria mesmo as escamas de um caimão. E se atirasse, fa-lo-ía direto na cabeça do animal. Ele ficaria cravado no chão e não havia como escapar da morte. Após uma demorada ascenção cuidadosa pela trilha, ele viu uma curva onde havia muitos arbustos e muitas árvores copadas. Parou e passeou o facho da poderosa lanterna por entre as folhagens rasteiras. E viu a fera. Era enorme. Estava de costas para ele e parecia atenta a alguma coisa acima de sua cabeça. Dirigiu o facho de luz para cima e deu com o comandante Argos dependurado a menos de dois metros do animal. Ambos, Argos e o jacaré, notaram a luz. O comandante não podia saber quem estava iluminando e o jacaré virou-se lentamente em direção ao facho. César focalizou os olhos do animal. Este parou o giro e permaneceu quieto. César mirou justamente naquele olho enorme e disparou a seta. Um rapidíssimo “ziisss” e ela sumiu dentro da cabeça da fera, que rolou várias vêzes sobre si mesma agitando descontroladamente a gigantesca cauda e varrendo quantos arbustos tocava, arrancando-os pelas raízes. Depois, parou de barriga para cima com espasmos nas patas, que foram cessando de se bater  até parar de vez na quietude da morte.

— Quem está aí?

César ouviu a pergunta mas nada respondeu. Apagou a luz e mergulhou pela mata a dentro distanciando-se rapidamente do local. Não lhe era conveniente que o comandante o visse. Pelo atalho que tomou logo estava de volta ao iate. Desceu ao seu beliche e rapidamente tinha tudo guardado. Meteu-se sob as cobertas e fingiu dormir. Poderia averiguar o que queria depois. No momento, não era nada conveniente ser descoberto.

Argos também viu a morte do jacaré e desceu da árvore tão logo cessaram os espasmos do animal. Não sabia bem o que devia fazer, se voltar ao iate ou se prosseguir rumo ao chalé que ainda não conseguia ver de onde estava. Quem teria chegado até ali e atirado no bicho? E que arma usara, pois não havia ouvido nenhum estampido? Vira como que um relâmpago e o jacaré saltara sobre si mesmo rodopiando descontroladamente até morrer. Depois, foi o silêncio. Ele nem ouvira se alguém se afastava. E se quem atirara não fosse amigo? Bem, esta era uma hipótese descartável. Quem quer que fosse o salvara. Se não fosse amigo, tê-lo-ia deixado morrer comido pelo animal. Optou por voltar ao iate e apanhar uma lanterna e foi o que fez. Não encontrou nenhuma dificuldade no retorno. A tripulação dormia e ele descartou a idéia de chamar um para o acompanhar. Quando, porém, chegou ao convés e olhou para o chalé tomou um susto. Ele não estava mais lá. Em seu lugar havia um enorme rochedo em forma de tocha olímpica. Argos ficou um longo tempo tentando identificar aquilo sem conseguir. Então, tocou o sino de alarma. A tripulação acudiu ao convés.

— Vejam! — gritou-lhes o comandante. — O que estão vendo lá em cima?

A bulha foi grande. Todos podiam ver o estranho rochedo. Argos não conseguiu fazer-se ouvir,  por  isto  apelou  para  o  apito.  Fez-se  silêncio.  Então, o comandante contou o que lhe acontecera há pouco e concluiu dizendo que chamara a todos para ter a certeza de que não estava sonhando nem tinha ficado louco. Agora, estava certo de que, ainda que fantástica, aquela realidade era concreta, existia mesmo.

— Comandante — perguntou o cozinheiro, aflito —, onde está o chalé? E o que é aquilo lá?

— Eu não sei. Mas sugiro que nos afastemos para o continente. De lá poderemos, quem sabe? trazer alguma ajuda para os infelizes que estão nesta ilha enfeitiçada.

— Acredita mesmo em feitiço, comandante Argos?

Era o mordomo César quem fazia a pergunta.

— Não, mas de que outro modo poderíamos explicar isto tudo?

— Não sei, senhor, mas deve haver alguma explicação científica para o fenômeno. Posso sugerir uma ação?

— Sim, pode.

— Por que não vamos todos ao chalé… ou àquela imagem lá? Pode ser uma ilusão…

– Coletiva? Duvido, César. Mas vamos votar sua sugestão. Quem estiver de acordo com nosso mordomo que levante o braço direito.

Nenhum braço se ergueu. Todos tinham medo. Apenas César levantou o seu.

— Parece que você foi voto vencido, companheiro.

— É, mas eu creio que é porque todos estão pensando com a emoção. Pensam em si, não nos que estão lá no chalé… ou… ou na ilha, em algum lugar.

— Pode ser, César, mas todos somos humanos. Alguma coisa anormal está acontecendo aqui e é natural que todos estejamos temerosos, não acha?

— O senhor também está temeroso, comandante?

— Sim, estou. Mentiria se dissesse o contrário. Você,  não?

— Minha obrigação é pensar primeiro em meus patrões, comandante. É assim que somos treinados, na Inglaterra. Sou mordomo de profissão. Minha vida vem após a de meu senhor. No caso atual, de minha patroa. E ela está sofrendo algum malefício que eu não sei dizer se é natural ou paranormal, mas não será fugindo daqui que vou descobrir. Se todos querem ir, tudo bem. Mas eu lhe comunico que vou ficar e investigar o assunto.

— Não posso fazer nada a respeito, César. Você não faz parte de minha tripulação, caso contrário teria de ir conosco. Mas eu lhe sugiro que seja sensato e venha também. Voltaremos com a polícia…

— E o que a polícia tem que não temos, comandante?

— Armas, homem. Armas.

— E o que podem armas contra aquilo? Desde quando revólveres vão resolver um caso de… de transformação paranormal de um chalé em uma montanha?

Os tripulantes entreolharam-se confusos. César tinha razão. Mais pessoas ali não ia resolver nada, somente aumentar a balburdia. Argos estava pensativo. O mordomo estava com a razão, sim. Mas se ficasse, não estaria arriscando sua tripulação a um destino desconhecido? Como comandante era sua obrigação proteger seu pessoal. Mas também tinha obrigação com a patroa e César estava certo. Ela estava em perigo… Ou será que não? Não decifraria o enigma se ficasse simplesmente pensando.  O mordomo percebeu o dilema do comandante e resolveu ajudar.

— Posso explanar uma idéia que tive?

— Fale, César. O que é?

— Aquilo lá pode ser somente uma imagem holográfica, comandante. Alguém, na ilha ou fora dela, está projetando uma imagem holográfica e nos confundindo.

— E o que é uma imagem holográfica? — perguntou o cozinheiro secundado por um aceno de cabeça de seu ajudante.

— É uma fotografia projetada através de lêiser, meu amigo. Ela é em terceira dimensão e quem a vê, vê todos os seus ângulos, todos os seus planos, e não somente um plano, como ocorre nas fotografias comuns. Você assistiu a saga de Guerra nas Estrelas?

— Sim…

— Pois bem, quando a imagem da princesa Lea é projetada de um aparelho parecido com um projetor cinematográfico contido no andróide Arthur e fala com o guerreiro gedai Obiwan Kinobi, aquilo é uma imagem holográfica.

— Mas será que existe um aparelho holográfico capaz de projetar uma imagem daquele tamanho? — duvidou Argos olhando para o rochedo.

— Eu não sei. Mas se houver, então, estamos diante de uma descoberta e tanto, não é? — instigou o mordomo.

Todos permaneceram calados olhando o pedregulho.

— César — perguntou Argos, — você acredita que alguém na ilha está… está de posse de uma tal máquina?

— Não sei, capitão. Mas se está, por que aproveita justamente o dia de hoje para testá-la? O que está querendo? Sou da opinião de que só indo até lá é que podemos tirar isto a limpo. A imagem holográfica pode, se a tal máquina existir, estar vindo do continente. A ilha pode estar sendo usada por acaso… Quem sabe? Mas se fôr uma holografia, descobriremos quando chegarmos lá. O chalé será visível sob a projeção.

— Está resolvido. Vamos lá nós dois, você e eu. Os demais permanecem aqui, vigiando o que quer que aconteça lá em cima. Ao menor sinal de anormalidade, você, Thálio, toca o apito intermitentemente para chamar a atenção de quantos iates e barcos estejam na enseada. E chama a polícia pelo rádio, entendido?

— Certo, comandante.

— Então, vamos, César. Está pronto?

— Sim — disse César, contrariado porque não poderia levar a besta. A pequena beretta não era arma para uma situação perigosa, como a do jacaré. — Vou buscar duas lanternas. É bom irmos prevenidos.

— Certo. Espero aqui.

César desceu e Argos se debruçou sobre a amurada para olhar a água. Não viu nada e estranhou. O barco tinha todas as luzes acesas, mas não vinha qualquer reflexo do mar. Ia chamar a atenção de Thálio para o estranho fenômeno, quando César chegou e lhe entregou a lanterna. Argos ainda olhou para o mar, mas desistiu de criar mais um foco de tensão. Pegou a lanterna e seguiu o mordomo que já se punha a caminho.