Gosto muito quando ele vem me visitar.

Gosto muito quando ele vem me visitar.

Orozimbo, que andava desaparecido fazia tempo, desde que visitou a cadeia a contragosto, resolveu dar as caras. Não apresentava mais aquele ar cansado com que saíra daqui há alguns dias. Entrou, abancou-se em seu toco, pediu seu café amargo e bebericou pacientemente enchendo seu pito com o fumo oloroso. Depois, pitou meditativo, o suor escorrendo pela face negra de olhos brilhantes. Faz um calor abrasador por estas nossas bandas e não há previsão de chuva. Eu me sentei a seu lado lamentando ele não gostar de entrar em casa. Ficamos em silêncio, ele pitando e eu lendo as fofocas da ÉPOCA. Sempre o Petrolão e os enrolados nele. Em dado momento Orozimbo pediu que eu lesse em voz alta e eu o atendi. Ele ouviu todo o artigo pacientemente (A PROPINA DE PASSADENA). Quando acabei, ele riu, divertido. Estranhei e o questionei a razão do riso.

— Home, vancê se alembra de cuma era seu vô pur parte de seu pai?

Olhei-o com estranheza, mas lhe respondi que não. Tinha uma vaga impressão sobre a sua figura, mas nem mesmo saberia dizer se aquela memória retratava, hoje, o homem que meu avô paterno fôra. Fazia tanto tempo que ele se fôra…

Orozimbo sem pito não é Orozimbo.

Orozimbo sem pito não é Orozimbo.

— E apois — disse Orozimbo, batendo o pito na beirada do piso e deixando o fumo despencar sobre a grama seca. — Vancê num se alembra dele e só fais um tiquim assim de tempo qui vancês tão separado, né não? Agora, pensa, home. Esse pessoá aí tá virando este país de perna pru ar. Eles pensa que são os tar. Pensa qui tão cum tudo, mas de verdade mermo, num tão é cum nada. O tempo vai corrê sempre na merma velocidade. Eles vão inveiecê e vão morrê. E os nome dele vão ficá, cercado de mintira sem importânça, nos livro de iscola. Em pôco tempo para que arguém se alembre deles vai sê perciso consurtá a internet ou argum livro. E a verdadeira históra de cada um ninguém jamais vai sabê. E pra quê? A vida continua. Tudo vai tê mudado. As pessoa serão outra e os intersesse tombém. Inté as cidade terão mudado. Ruas nova; praças nova; carros novo, tudo novo. Inté a tar de internet tombém terá mudado e terá muito mais coisa pra se fazê cum ela. E os dinhêro qui eles robarum vai tê sumido. Inté pode sê qui a mueda tombém tenha mudado, cuma já mudô muntas veiz, num é não? Entonce, pra qui é qui o povo tem de ficá ansim, agitado, irritado, furioso? Num foi Pai Oxalá qui dixe: “Os mau pur si se distrói?” E apois. Essa gente, home, vai sumi do mapa e os véi do futuro, joves de agora, num vão nem querê falá deles. E quando falá, vão falá mar, o qui será uma disgraça pras armas deles, num sabe?

Sua paz se foi perdida por cinco milhões de dólares. Ele tem tudo de graça às nossas custas. Por que perder a paz por esta ninharia?

Sua paz se foi perdida por cinco milhões de dólares. Ele tem tudo de graça às nossas custas. Por que perder a paz por esta ninharia?

E tem mais, home. Nóis tá aqui num é pra fazê e acuntecê? Num foi pr’isto qui Olorum nos criô? Ele nos deu este mundim pra gente experimentá de tudo in riba dele. Os qui passa a vida quietim, fazendo tudo certim cuma manda os figurino dos home, tão perdendo tempo, num sabe? O bandido ao meno se arrisca, véve, ixperimenta. Mermo qui leve a breca, ele viveu. Já o qui se iscondeu pur detrás dos muro de suas casa… dentro dos muro das iscolona, cuma vancê feiz quando istudô essa tar de pisicologia, esses, home, perderum tempo. E vão sê cobrado, pruqui num aprenderum nada de verdade. Lê e decorá é uma coisa. Vivê é otra munto maió, munto mió. A ixperiênça qui se leva daqui de baixo é qui vale. Lá in riba num tem essa de bom nem ruim. Tudo vale. Tudo é levado in conta.

— Ei, espera aí! — Protestei. — Eu estudei muito e trabalhei muito em minha profissão. E se você não se lembra, consertei a vida de muitas famílias e de muitos adultos. E é assim com todos os que cursam uma faculdade.

— Tá bom, concordo. Mas tem aqueles qui vão istudá pra nada, só pra tê canudo. Inté pruque tão lá pra caça muié e só. Adispois qui consegue o tar canudo, uns véve às custa da famia, dos pais, e num querem sabê de dá duro. Otros, arrependido, vão se impregá num impreguim carqué e levam a vida amargando tê disperdiçado a vida. Véi fala é deles.

— Melhorou — disse eu.

Ficou podre de rico e, agora, está podre de desespero. Valeu a pena?

Ficou podre de rico e, agora, está podre de desespero. Valeu a pena?

— Agora, vem os tar de pulítico e faiz esta merda danada, tudo pruqui tem oio gordo no dinhero qui num é deles. Metem a mão no melado, cuma diz vancê, e adispois perdem os cabelo in desespero quando a puliça vai atrás deles e o povão vaia e inté joga coisa neles, de tanta reiva. Será qui vale a pena tanto desespero a troco de uns papezim qui num vale nada? Óia, tão dizendo qui o dinhero brasileiro num compra mais a terça parte do qui comprava quando se ia no mercadim. Entonce, diz os qui intende disto, que o tar dinhero perdeu valô. Intonce, ome, o dinhêro qui eles robarum tombém tá perdendo valô. E se isconderam ele aqui mermo fizeram a merda pra nada, né não? No fim, vão ficá cum bando de papé sem valô. Num é chato? O qui os tar papezim pode comprá qui tenha valô? Carro? Ora, perde o valô em seis meis. E antes disso, véi vê nas rua, serve só pra deixá o cabra cuspindo fogo pelas venta nos ingarrafamento. Véi vai a pé, chega mais depressa qui os tar carrão, e ainda miora a saúde. Barco? Tombém. Avião? Num se véve dentro dele o suficiente para justificá a enormidade de zimbo qui se paga pela geringonça. Bebida? Essa coisa, home, só faiz má pra saúde. Num vale perdê os cabelo em desespero só pra pudê dizê qui tomô o tar de uisqui importado. É veneno e pronto. O peste só robô pra se invenená. Num é burrice?

Fiquei calado. Orozimbo simplificava muito as coisas, mas no fundo, dizia uma verdade. Ninguém deixa traço de sua verdadeira existência na Terra. Cada um de nós faz sua história, mas ela tem duas faces. Uma, a gente vê. Todos vêm. A outra, interna, só aquele que a escreve pode ver. E há uma terceira face, que nem o escritor mesmo conhece…

Levantei e fui fazer uma limonada para nós dois.