Os germanos eram aguerridos e temidos por sua terrível agressividade destrutiva.

Os germanos eram aguerridos e temidos por sua terrível agressividade destrutiva.

Os cinco germanos mal-encarados riam um riso silencioso, mais um esgar de desprezo pelos indefesos viajores diante deles. Issa deu dois passos em direção ao seu discípulo romamo, mas foi atingido com grande violência pelo machado de guerra do mais alto, mais forte e que mais próximo dele se encontrava. Tombou como se fulminado por um raio. Os dois celtas decidiram que não se entregariam sem lutar e com dois pulos já estavam sobre os cavaleiros, antes que eles pudessem atacar. Derrubaram dois deles e os quatro, atracados, rolaram por terra num corpo-a-copo furioso. A luta durou bastante tempo, observada com interesse pelos outros três germanos que não se intrometeram. Os celtas foram vencidos. Amarrados, foram obrigados a transportar o corpo inerte de Issa numa rústica padiola feita de paus amarrados.

Heimirich e Hrodulf, os chefes da tribo germana tinham esta aparência..

Haimirich e Hrodulf, os chefes da tribo germana tinham esta aparência.

Andaram a noite toda e ao amanhecer, exaustos, deram entrada na tribo dos irmãos HaimirichHrodulf. Issa permanecia desacordado com um filete de sangue lhe correndo pela têmpora direita.

Hrodulf aproximou-se dos prisioneiros e os olhou com olhar feroz. Era gigantesco e parecia ser gêmeo de seu irmão, Haimirich. Louros, olhos azuis escuros, os dois metiam medo a quantos não os conhecessem. Na realidade, eram líderes ferozes e rebeldes. Sua tribo já entrara em luta contra o destacamento romano que tinha acampamento a poucas milhas de onde estavam e obrigara Roma a mandar mais soldados para reforçar o local. Naquele exato momento, Haimirich e seu irmão planejavam um ataque ao destacamento a caminho do pequeno forte romano a fim de reforçar a guarnição. Deviam ter partido mais cedo, mas a chegada dos prisioneiros os reteve. Queriam saber se eles, de algum modo, tinham ligação com o destacamento visado. A presença de Primus entre o grupo reforçava a desconfiança dos ferozes germanos.

Hrodulf abaixou-se e colocou a mão diante das narinas de Issa. Esperou um momento e olhando para o irmão fez um gesto negativo com a cabeça.

— Morto? — Perguntou Haimirich.

Com aceno de cabeça Hrodulf confirmou.

— Queimem o cadáver. Não nos serve para nada — ordenou o Chefe, Haimirich.

— Esperem! — Gritou Atonchau, debatendo-se para se safar das mãos que o seguravam ajoelhado e forçavam sua cabeça para que ficasse abaixada.

— Ele é Issa, o enviado do rei Armínio em missão de paz. Se o mataram, compraram briga com aquele rei.

Hrodulf ordenou, com a mão, que soltassem o celta. Este ficou de pé e Hrodulf aproximou-se dele para o olhar dentro dos olhos. 

— Se mentes, celta, mando-te esfolar vivo. Repete o que disseste.

Mesmo sem suas armas, Atonchau e seu companheiro eram guerreiros valentes.

Mesmo sem suas armas, Atonchau e seu companheiro eram guerreiros valentes.

Atonchau repetiu com segurança e olhando firme nos olhos de seu interlocutor.

— Ele é Issa. Um estrangeiro amigo do rei Armínio. Veio como seu representante em missão de paz. Como pudestes ver, não viemos armados. Agora, que vós o matastes, creio que haverá guerra entre vossas tribos.

Hrodulf  voltou-se lentamente para os seus vigilantes.

— Sabiam disso? — Perguntou, e sua voz traía raiva.

— Não. Não sabíamos — respondeu um dos cinco, o que parecia o chefe do pequeno grupo.

— Não perguntaram o que faziam em nosso território?

— Não. Eram celtas e celtas são inimigos nossos.

— Mas prenderam primeiro o romano, foi o que disseste. Então, por que não o questionastes sobre o que fazia em companhia de celtas em nosso território? Seria a pergunta mais imediata a ser feita… Ou pensas que não?

— Celtas e romanos são nossos inimigos. Não julguei ser preciso questioná-los. Aliás, o privilégio de fazer interrogatório é de nosso chefe, Haimirich. Cabe-nos trazer a ele qualquer prisioneiro para que o interrogue.

Haimirich, que observava o diálogo entre seu irmão e o chefe da patrulha, intrometeu-se.

— Ele tem razão. Não lhe cabe interrogar prisioneiros. Isto é prerrogativa tua e minha. Chama nosso curandeiro. Talvez ele consiga salvar a vida do emissário de Armínio. Não é um bom momento para nos confrontarmos, depois de termos provocado a ira da guarnição romana.

Com um aceno de cabeça, Hrodulf mandou que fossem buscar Marklat. O ancião de barbas longas não demorou para vir ter com os chefes da tribo. Recebeu ordens de verificar as condições do parlamentar de Armínio. Com vagar, ajoelhou-se e curvou a cabeça sobre o peito de Issa. Então, depois de um tempo, ergueu-se apoiando-se em seu cajado, e falou.

— Morto ele não está. Mas não sei se aguentará muito tempo mais, ainda. A pancada foi forte demais e lhe quebrou os ossos da cabeça. Talvez se recupere, mas vai depender dos deuses que possa falar ou, sequer, entender alguma coisa que se lhe pergunte.

— O que nos aconselha, ancião? Armínio vai-se sentir insultado e poderá querer vir contra nós, o que muito agradará aos romanos, a quem, há pouco tempo, atacamos. Agora mesmo, um destacamento com muitos soldados está a caminho da guarnição romana. E não é um destacamento pequeno. Contam até com cavalaria.

As guerras entre germanos e romanos eram sempre violentas e sangrentas. Ambos eram povos aguerridos.

As guerras entre germanos e romanos eram sempre violentas e sangrentas. Ambos eram povos aguerridos.

— Um dilema de cada vez — disse o ancião, após pensar um pouco. — Os romanos são o perigo mais próximo. Creio que o melhor é atacar o reforço, antes que se juntem aos que estão na guarnição. Levai os prisioneiros em vossa companhia, inclusive este aqui. Que eles lutem por suas vidas, mas que não saiam vivos do campo de batalha. A responsabilidade pela morte deles ficará à conta dos romanos e vós ambos vos tereis livrados da enrascada em que fostes metidos.

— O semi-morto não poderá lutar, ancião. Para quê, então, levá-lo?

— Para enfiar em seu peito uma lança romana e, assim, confirmar a morte pelas mãos deles.

Hrodulf olhou para Haimirich e ambos riram.

— Marklat tem razão —  disse Haimirich, satisfeito. — Faremos como ele aconselha. Manda que os guerreiros se aprontem e amarrem o semi-morto Issa no lombo de um cavalo. Que a flecha que lhe atravessar o peito venha diretamente do arco de um romano.

A azáfama tomou conta da tribo germânica. Não esperariam mais. No entanto, demoraram muito mais do que pensavam e, quando estavam prontos para a partida soou o alarma. Um vigia chegou esbaforido e aos gritos de “romanos!” romanos!” “Alerta, romanos!”

E logo se ouviu o tropel de cavalos e o vibrar do solo com a marcha ordenada dos combatentes temidos. Desordenadamente os germanos se atiraram para fora da aldeia numa tentativa de levar para longe os inimigos. Assim, poupariam as mulheres, os idosos e as crianças. Sabiam que os romanos adoravam fazer prisioneiros para escravizá-los. Não desejavam tal destino para seu povo.

O encontro foi de uma violência inaudita e a maca improvisada onde estava o corpo inerte de Issa foi largada no campo de combate. Ali, ele foi coberto pelo pó levantado do chão pelas patas dos cavalos e pelos pés dos guerreiros em choque uns contra os outros. Os celtas, livres das amarras, não entraram na contenda e trataram de escapar o mais depressa possível. No entanto, Primus se colocou ao lado da guarnição e entrou na batalha com toda a sua coragem e todo o seu treinamento militar. Primus lutava ao lado da maca de Issa e, embora bastante machucado, não esmorecia. O que não percebia é que Gabriel estava imantando sua aura com uma luz vermelho-vivo, o que lhe dava resistência acima da natural.

O comandante romano logo percebeu a presença de Primus e lhe identificou o modo de combater. Também notou que ele defendia ardorosamente aquele corpo inerme sobre a maca rude e mandou que um grupo de infantes fizesse uma proteção ao redor dos dois, usando os escudos para isto. A batalha durou até o anoitecer, quando os romanos se retiraram, dando espaço para que os germanos também retornassem à tribo para descansar e tentar arquitetar um contra-ataque que lhe desse alguma esperança de vitória. Estavam cercado pelos inimigos que eram em maior número do que haviam imaginado. Mas por mais que pensassem, a situação sempre lhes parecia terrífica. 

Os romanos, ao sustar o combate, mostravam que não desejavam entrar pela noite sem lua num combate feroz como aquele e em um terreno que não dominavam como os naturais. Os germanos, por sua vez, também desistiram da luta. Estavam muito cansados e tinham sido pegados despreparados. Muitos haviam morrido no combate e os remanescentes precisavam de tempo, mínimo que fosse, para reorganizar seus guerreiros.

Lēntulo, o comandante da guarnição, um centurião, mandou buscar Primus para interrogá-lo. Quando se retiraram do campo de batalha ele também mandara que seus soldados trouxessem a maca com o cadáver nela. Estava curioso para saber de quem se tratava e a razão de ser defendido tão tenazmente pelo seu estranho compatriota.

Exausto e coberto de sangue, Primus apresentou-se diante do comandante da guarnição.

— Quem és? — Perguntou Lēntulo, altivamente e peremptoriamente. — Teu modo de combater te denunciou. Por que defendias com tanto ardor a maca daquele moribundo?

— Ele é meu Mestre. Um sábio hebreu a quem sigo — Primus sem titubear. Espantou-se por perceber que já não mais se via um romano. Apenas um homem. E aprendera isto com quem estava entre a vida e a morte. Seus olhos marejaram e ele teve dificuldade para sustar o choro.

— És um soldado romano, eu percebi isto claramente. Então, como me podes dizer que segues a um hebreu? E por que estais tão longe de vossas pátrias? Como te chamas? A que coorte ou centúria tu pertencias? Por que estás longe dela e sem comando?

Primus suspirou fundo. Sabia que estava condenado à morte tão logo contasse sua deserção, mas não tinha outro meio. O centurião tinha a expressão dura dos comandantes que não perdoam traidores. Então, com vagar e voz apagada, narrou sua história. Quando terminou foi segurado por dois legionários fortes como touros.

— És um vil traidor do Imperador e de Roma, Primus — trovejou o comandante. — Devias ter-te matado antes de seguir o tal hebreu. Felizmente, para ele, já está praticamente morto, caso contrário sentiria a ira de Roma através de mim. Quanto a ti, terás o que mereces assim que o dia amanhecer.

Dirigindo-se aos guardas, ordenou, seco:

— A ferros. Sem água e sem pão até quando eu me livrar desses imundos germanos. Quanto ao hebreu moribundo, deixai que morra. É melhor para ele do que me defrontar.

Naquele exato momento, longe dali, Miriam, a mãe, que meditava em companhia de Ruth, sua mais amada filha e a que mais com ela se identificava, abriu os olhos e soltou uma exclamação de surpresa. O dia estava perto de clarear.

— Mãe?! O que foi? Por que…

— Yehoshua! Teu irmão! Ele está entre a vida carnal e a vida espiritual. E não consegue sair desta situação. Vamos orar…

Uma luz intensa brilhou no aposento e um homem surgiu do nada, como se saindo de dentro da luz. Era forte e trajava um balandrau brilhante como se feito de prata. Tinha uma longa cabeleira esbranquiçada e suas feições eram alvas e bonitas. Testa larga, olhos separados e olhar direto e firme. Queixo comprido e um pouco quadrado, o que lhe emprestava um aspecto de dureza à expressão facial. Lábios finos e bem delineados. Os braços caiam ao longo do corpo naturalmente, mas o que mais impressionava era a suavidade de sua expressão facial e a mansidão de seu olhar meigo. Ele fixou diretamente a face de Míriam, a mãe. Não falou nada, ao menos que Ruth pudesse ouvir. Depois de alguns minutos, desapareceu numa nuvem branco-azulada que se desfez suavemente.

— Quem era ele? — Perguntou Ruth, excitada e com as faces afogueadas. — Que homem belíssimo, mãe! De onde veio, tu o sabes?

— De longe e de perto, filha. Mas não tenho tempo para te explicar mais nada. O tempo urge. Anda, vai avisar a todos que eu não desejo ser perturbada. E não retornes aqui até que eu apareça lá fora. Agora, vai!

Ruth levantou-se atarantada e olhando espantada para sua amada mãe. Era a primeira vez que ela a expulsava de perto de si assim, de modo quase rude. Mas sem questionar a Senhora, saiu e foi cumprir com sua ordem.

No acampamento dos romanos Lēntulo já estava de pé e fazia um desjejum apressado. As trombetas tinham despertado todo o acampamento e havia um nervosismo dos soldados que se preparavam para a batalha. O comandante terminou o desjejum e se dirigiu à tenda dos prisioneiros. Encontrou Primus dependurado pelos punhos, semi-desmaiado e queimando de febre. Olhou-o com desprezo e se dirigiu ao estrado onde jazia o corpo do estranho. Debruçou-se sobre ele e o olhou curioso. Qualquer coisa naquela face macilenta e inchada lhe revolvia alguma lembrança que não conseguia rememorar. Quem era aquele homem? Algum romano importante? Não… Suas feições não eram as de um romano. No entanto, eram finas, delicadas e bonitas, apesar do inchaço que as deformavam.

Uma leve brisa fê-lo voltar-se para a porta da tenda. Aquele vento leve indicava que alguém acabava de ali penetrar. E o que viu o fez recuar um passo, espantando.

— Quem és? Como entraste no meu acampamento? Como passaste pelos meus guardas…?

Eu sou Aquela a quem o Senhor deu a fortaleza para guiar Seu povo na Terra. Sou Aquela com quem o Senhor Deus de todos nós divide a chama do Fogo do Amor Divino. Eu sou a Mãe desse sobre quem tu estavas debruçado. (NOTA: Míriam citava versículos dos Salmos, adaptando-os à situação, mas o romano não podia saber disto).

O comandante romano permaneceu calado alguns segundos, ainda tentando digerir a estranha fala da belíssima mulher, cuja presença lhe causava um grande incômodo.

— O… O que desejas, mulher? — Lēntulo se sentiu muito incomodado pelo timbre titubeante de sua voz. Seu coração lhe batia descompassado no peito.

— Por que me perguntas o óbvio, homem? Que mãe, tendo seu filho ferido e agonizante, não se apressa a socorrê-lo com todo o seu coração e com todo o seu amor?

Com voz seca, o centurião falou:

— Eu não fiz isto ao teu filho…

— És o comandante. Eles agem segundo tuas ordens. Para teus comandados, a tua voz é como a voz do Senhor, que divide a chama do fogo. O fogo do Amor que há em todos os corações, tanto de mulheres quanto de homens, mas que nos que te obedecem tu divides em fogo bom e fogo mau. Agora, afasta-te para que eu restitua a vida ao corpo que tens diante de ti e não compreendes quem é. Tu lhe deves a tua própria vida e a deverás para sempre.

Dito estas palavras misteriosas para o centurião, a estranha mulher de roupas claríssimas e coberta com um suave manto azul, aproximou-se do semi-morto e dando-lhe um ósculo na face, murmurou:

— Desperta, Rei dos Reis. Tua hora não é chegada e não vieste a esta gente para morreres de modo tão obscuro e apagado. Meu Amor está contigo. Para sempre.

A estranha mulher virou-se para o centurião, juntou as mãos ao peito e curvou a cabeça numa reverência amorosa e com um lindo sorriso na face e, depois, altiva, encaminhou-se para a saída e desapareceu pela porta antes que o surpreso Lēntulo se refizesse da surpresa. Quando, finalmente, ele correu a abrir a cortina que servia de porta e olhou em volta, não mais viu senão seus soldados andando nervosamente por toda parte. Procurou com os olhos o vigia e o viu empertigado, segurando firmemente o pilum, exatamente onde estava quando ele mesmo entrara na tenda. Encaminhou-se até o guarda e lhe questionou sobre a estranha mulher, mas o legionário, surpreso, afirmou-lhe que nenhuma mulher estivera ali, muito menos entrara na tenda. Ele não o teria permitido com toda a certeza. Atrapalhado e sem compreender o estranho fenômeno, Lēntulo retornou ao interior da tenda. E novamente foi surpreendido. Primus já não mais estava exangüe. Ao contrário, estava forte e as correntes que o prendiam encontravam-se caídas aos seus pés. O moribundo, agora, estava sentado na borda do estrado e o olhava com um lindo sorriso na face esplendorosa.

Lēntulo passou a mão pelos cabelos, atordoado. O que estava acontecendo ali?