Centurião romano. Eles foram os guerreiros mais aguerridos do passado. Conquistadores do Mundo, perderam-se pela corrupção de valores que assolou o Senado Romano.

Centurião romano. Eles foram os guerreiros mais aguerridos do passado. Conquistadores do Mundo, perderam-se pela corrupção de valores que assolou o Senado Romano.

Boca seca, olhos esbugalhados, coração acelerado. Era assim que o centurião romano se sentia enquanto seu olhar, pasmo, ia de um homem ao outro dentro da tenda de prisioneiros. Ele via, mas não acreditava. Como a estranha mulher fizera aquilo? Como pusera de pé e totalmente são um homem que estava praticamente morto? Como soltara o prisioneiro e lhe devolvera a vitalidade ao corpo exangüe, sem ter nenhum ungüento que ele tivesse visto? Magia celta? Seria aquela estranha uma bruxa celta?

— Não, romano. Minha mãe não é uma bruxa nem, muito menos, celta.

Lēntulo quase deu um salto ao ouvir o hebreu falar. “Por Júpiter! Ele leu meus pensamentos! Quem são essa gente? Onde me meti?”

— Não te assustes, Lēntulo — disse o recuperado pondo-se de pé e fazendo o centurião sacar do gládio num movimento automático de defesa. — Teu medo reduzir-se-á ao nada como água que corre”, quando souberes que meu discípulo e eu não somos homens de armas. Nem maldade minha nem de meu discípulo é causa de teu pecado, homem. Levanta-te tu também da Morte em que te encontras”. Deixa teu gládio e teu medo e meu Pai “te dará a conhecer acerca de teus inimigos” verdadeiros, que se encontram dentro de ti e de mais ninguém.  

Míriam, a mãe de Yehoshua, recuperara o envólucro canal do Poderoso Maytréia porque o amava como nenhuma mulher amou a seu filho.

Míriam, o Buda Avalokiteshivara que se fez mulher para ser a mãe de Yehoshua, recuperara o envólucro canal do Poderoso Maytréia porque o amava como nenhuma mulher amou a seu filho.

Lēntulo não sabia, mas estava ouvindo trechos do salmo 57 adaptados pelo Rei dos Reis à mensagem que desejava dar ao assustado militar romano. Issa falava como sua mãe tinha feito. Deste modo, sabia-o bem, disseminava a Torá entre os gentios.

O hebreu aproximou-se do espantado centurião e com cuidado, mas com firmeza, pôs a mão sobre a dele que segurava o cabo do gládio e empurrou-a de modo a fazer que tornasse a arma à bainha. O tempo todo, olhos nos olhos, Issa sorria simpaticamente e este sorriso ameno com aquele olhar firme, quebrantaram o medo e a agressividade destrutiva do romano. 

— Lēntulo, “não cantarás a Fortaleza de meu Pai, nem te regozijarás todas as manhãs pela Sua Santa Misericórdia se te fazes um desamparador de teu próximo”. Então, segue o caminho de Primus e abandona o gládio, pois ele é símbolo da máxima ilusão do homem. Armas, Lēntulo, não concedem nenhum poder aos que as empunham. Ao contrário, tira-lhes o sossego e aumenta-lhes a culpa e a angústia. Quando um irmão nosso empunha uma arma, Lēntulo, perde imediatamente o sossego. Quantas noites o terror perturbou teu sono desde que pegaste no gládio para defender ilusões e falsos deuses? Sim, teu Imperador não passa de um homem, teu irmão e nosso irmão, que treme de medo todas as noites. Um irmão que, por ter feito a opção errada de vida, não consegue livrar-se dos demônios em seus pesadelos noturnos. Isto lhe roubou a coragem e lhe tirou a dignidade. Por isto ele necessita de outros braços para empunhar o gládio, visto que o seu próprio se tornou inútil até para isto.

Pasmo, sem conseguir reagir àquele olhar simultaneamente doce e autoritário, o centurião estava totalmente à mercê do hebreu. Uma angústia assomou-lhe ao peito e seus olhos marejaram ao ouvir as palavras que o estranho dizia.

— Primus e eu vamos sair por aquela porta e tu não permitirás que ninguém nos persiga nem nos impeça os passos, pois não somos perigo nem para teus comandados, nem para ti, nem para os germanos com quem terças armas. Então, peço-te, irmão meu, que nos acompanhes até o limite de teu acampamento e nos deixes partir em paz, pois a paz é nosso caminho. Sempre.

Sem se importar com o centurião, Issa voltou-se para seu discípulo e com um gesto de cabeça convidou-o a segui-lo. Altivo, sem mais olhar para o comandante romano, encaminhou-se para a saída, seguido do boquiaberto Primus que, também ele, não compreendera absolutamente nada do que ali tinha visto acontecer. Como um autômato, Lēntulo colocou-se ao lado direito de Issa e o acompanhou para fora da tenda. O vigia olhou os três com expressão de espanto, mas seu movimento em direção a eles foi sustado por uma ordem seca, dada com a mão espalmada de seu comandante. Também ele não compreendia nada…

Em pé e cercado por seus legionários, Lēntulo ficou a olhar a dupla caminhar com passos firmes em direção à aldeia dos germanos. Ninguém ousava falar nada. Ninguém entendia nada.

Ele sabia quando se impor apenas com a palavra e o olhar. Não é à-toa que o denominaram O Rei dos Reis.

Ele sabia quando se impor apenas com a palavra e o olhar. Não é à-toa que o denominaram O Rei dos Reis.

Haimirich foi o primeiro a enxergar os dois homens caminhando em direção a eles. Pôs-se de pé num pulo. Não os reconhecia, pois estavam longe, mas vinham da direção do acampamento romano, logo, eram inimigos. Ele soltou um grito chamando seu irmão e, simultaneamente, pondo em alerta todos os seus guerreiros.

— Olha! — disse a Hrodulf, quando este se pôs a seu lado. — Dois estranhos que vêm dos romanos. Que devemos fazer com eles?

— Deixa que cheguem até nós. Talvez tragam alguma mensagem do comandante deles. Neste momento, não é aconselhável  ser beligerante. Não estamos em superioridade numérica e eles praticamente nos cercaram. Ouçamos o que seus enviados têm a dizer.

Quando Issa e Primus chegaram perto, Hrodulf recuou um passo, espantado. Reconhecia o romano e seu acompanhante. Eram os dois que julgara tivessem morrido no campo de batalha. Mas eis que eles ali estavam e o ferido, quase moribundo estranho trazido por seus guerreiros, vinha firme sobre as pernas e tinha um olhar sério e duro fixado em sua face.

— Mas são eles… os nossos prisioneiros. Como é que…?

Os dois chegaram diante dos chefes germanos e permaneceram olhando para eles sem nada dizerem. Então, pigarreando, Hrodulf falou.

— Quem de vós vai explicar-nos este espantoso acontecimento? Devíeis estar mortos no campo de batalha. Não percebi nenhuma chance de salvação para qualquer um de vós. No entanto, eis que vos vejo vir de parte de nossos inimigos e vos tenho postados diante de nós, em silêncio e nos olhando de modo acusador. Que feiticeiro têm os romanos que pôde trazer da morte esse homem? Dizei-nos quem é ele e nós vos deixaremos seguir vosso caminho.

— Nosso Pai, Hrodulf, “conduz os mansos em Justiça e ensina aos humildes os seus caminhos. E todos os caminhos de nosso Pai Celestial são de Misericórdia e Verdade para os que buscam a sua Paz e a sua aliança e seguem seus Mandamentos”. Tu foste indigno de nós, portanto, não mereces qualquer explicação de nossa parte sobre o que nos aconteceu lá, entre os teus irmãos romanos. Quando aqui cheguei eu estava ferido e não me tratastes; eu tinha sede e não me dessedentastes; eu estava desamparado e não me destes abrigo. Fostes indignos da liderança que exerceis sobre vosso povo e, pior, sois, ambos, indignos de mim. Agora, afastai-vos de nossa presença e deixai-nos encontrar os dois celtas fujões que nos envergonharam vilmente. Eles desonraram o Filho do Homem a quem deviam seguir com orgulho.

Dizia-se que nada intimidava os terríveis germanos, mas Issa, sem armas, fez tremer dois dos mais aguerridos chefes daquele povo.

Dizia-se que nada intimidava os terríveis germanos, mas Issa, sem armas, fez tremer dois dos mais aguerridos chefes daquele povo.

Desconcertados e sem saber o que fazer diante da altivez do hebreu, que os fazia sentir como se fossem miseráveis anões perante seu olhar candente, os dois germanos se entreolharam desnorteados. O homem chamado Issa dizia a verdade, embora eles não compreendessem bem suas palavras. Ambos os irmãos foram tomados por súbita emoção de vergonha e agastamento. Reconheciam, a duras penas, que a acusação de Issa era justa e não tinham argumentos contra ela.

Inspirando fundo, Haimirich deu um passo à frente e se posicionou diante de Issa, cujo olhar penetrante sustentou com dificuldade. Eram observados por todos os guerreiros que tinham acorrido ao seu grito e isto o obrigava a que não demonstrasse fraqueza diante dos envidados do rei Armínio.

— Viestes, vós ambos, em má hora ao nosso encontro. Preparávamos um ataque aos nossos inimigos. Sabíamos que o combate tiraria a vida de muitos de nós, mas tínhamos de defender-nos deles, pois são escravagistas e não respeitam a ninguém que não sejam seus iguais. Éreis, e creio que ainda sois, emissários de Armínio e só por isto devíamos ter-vos recebido com a deferência e o respeito que pessoas em tal posição de destaque merecem. No entanto, quando vos trouxeram à nossa presença, estáveis em petição de miséria e não havia como acreditar em vossas palavras. Não sabemos o que aconteceu convosco entre os romanos, mas certamente eles possuem um poderoso mago, mais poderoso que nossos Druidas, haja vista que vos vemos sãos e saudáveis diante de nossos olhos, quando vimos em que condições vos encontráveis quando vos deixamos para que fôsseis mortos por eles. Vinde, acompanhai-nos. Vossos celtas estão em uma de nossas casas, prisioneiros. Mas não foram feridos por nós. Não matamos nossos presos sem lhe oferecermos uma possibilidade de viver. Vinde e vede por vossos próprios olhos.

Amarrados firmemente a duas estacas fincadas no chão da cabana de cobertura de palha, Issa encontrou seus dois celtas fujões. Quando viram Primus, o primeiro a adentrar a cabana, eles abaixaram os olhos, envergonhados. Mas quando sentiram a presença de outro homem perto do romano, olharam-no e suas bocas se entreabriram de espanto.

— Tu?! — gritou, descontrolado, Atonchau. — Mas nós te vimos semi-morto sobre a maca em pleno campo de batalha. Como podes…?

Issa aproximou-se deles e falou alto, para que todos os presentes — e muitos eram curiosos que se acotovelavam para olhar incredulamente o redivivo — ouvissem.

“Não sejam envergonhados por minha causa os que Te esperavam, meu Pai e Pai das Sete Virtudes. Não sejam confundidos a meu respeito aqueles que por um momento de Ti se apartaram, ó Pai das Sete Humanidades”. Nós, Tu e eu, perdoamos-lhes a fraqueza, pois ainda são mais humanos que vossos filhos. 

E ditas aquelas misteriosas palavras, Issa voltou-se para Haimirich e ordenou impositivo.

— Libertai-os que não sei de crime que tenham cometido contra vós. Ao contrário, vós nos insultastes e nos agredistes. Não paguem eles por vossas ignomínias.

Confuso e avermelhado de vergonha e raiva, Haimirich mandou que libertassem os emissários do Rei Armínio. Quando todos os quatro estavam juntos, o chefe germano postou-se diante deles e falou.

— Perdoai-me, vós todos, os mal-tratos com que vos acolhemos. Como já expliquei ao homem que chamais Issa e que nos parece vosso líder, chegastes em má hora à nossa aldeia. Temos um combate a lutar e o tempo urge. Se sairmos vitoriosos, prometo dar-vos um tratamento que vos recompense dos dissabores sofridos entre nós. Mas se perdermos… Bem, ireis conhecer a dura vida de escravo romano. Até podereis ser vendidos para algum ludo a fim de que vos transformem em gladiadores, o que é pior que a morte rápida pelo gládio deles.

Os dois chefes germanos curvaram as cabeças e se retiraram seguidos por seus guerreiros, deixando os quatro sozinhos na cabana.

— Vamos — disse Issa, olhando censuroso para os dois celtas que, agastados, baixaram os olhos.

— Aonde pretendeis ir? — Inquiriu Raimirich espantado. — Entre nós ainda tendes alguma chance de sobreviver. Mas se os romanos…

— Não pertencemos a esta estupidez — disse, ríspido, Issa. — Matar-se uns aos outros faz que vos torneis menores que animais perante os olhos de meu Pai. Vós vos arrependereis amargamente por cada irmão morto por vossas armas. E isto vale para germanos, celtas ou romanos. O Pai Celeste é pai de todos nós e Ele castiga os renitentes na maldade e cruéis na ação. Então, vamos!

— Espera, imprudente! — Bradou Hrodulf. — Somos os melhores nestas terras. Fica conosco e nos deixa reparar o desrespeito que cometemos para com o rei Armínio, ofendendo e ferindo seus enviados. Nós também sabemos ser bons, quando é preciso.

“Seja outro que te louve e não tua boca; o estrangeiro e, não, teus lábios.” Dizei-vos bons, mas só quando vos sentis culpados perante vossas consciências. Isto não tem valor perante os olhos do Pai, porquanto Ele vos deu Conhecimento para desenvolverdes a Sabedoria. E esta, não permite que saiam palavras reparadoras dos lábios dos justos. A Sabedoria põe na boca do justo a palavra certa para a ocasião certa. Ide, lavai vossa terra com o sangue de vossos irmãos. Mas não choreis quando as nuvens secarem e os campos não mais vos derem alimento. A vida, tolos e arrogantes irmãos meus, não finda com o último suspiro. Vamos!

E Issa retirou-se altivo, seguido pelo orgulhoso Primus e os acabrunhados celtas. Os três ainda teriam muito que aprender com o Grande Mestre.