A casa de Haimirich era muito similar àquela dos celtas. Na verdade, elas se pareciam muito. A aldeia é que se diferenciava na organização.

A casa de Haimirich era muito similar àquela dos celtas. Na verdade, elas se pareciam muito. A aldeia é que se diferenciava na organização.

O barulho do tropel das montarias dos germanos chegou ao pequeno grupo, acampado sob um grande arvoredo às margens de um riacho ensombreado. A estrada não passava nem perto dali. O local fôra escolha de Issa, que, naquele momento, comia calado um punhado de passas e tomava um copo de suco de frutas silvestres, feito por Primus. Os seus companheiros celtas, Atonchau e Luprécio, abatidos, estavam afastados dos dois. Ao ouvir o tropel, Issa pôs-se de pé e ordenou:

— Fiquem aqui. Eu vou ter com eles.

— E o que faremos? — Perguntou Atonchau pondo-se de pé, em guarda.

— Ao menos não fujam. Já é uma boa coisa — respondeu Issa sem olhar para eles. Aquilo agastou mais ainda os celtas, que se sentaram incomodados. Preferiam estar no campo de batalha a se encontrar ali, sob o desprezo de Issa. Sabiam que o tinham traído, mas seu desprezo doía muito mais do que qualquer punição.

— Vou contigo, Issa? — Perguntou Primus colocando-se ao lado do amigo.

— Não. Fica com eles e me aguardem. Os germanos precisam de mim para se livrar de um massacre de parte dos romanos. Tenho de solucionar este impasse.

Assim como os norte-americanos, hoje, eles foram os Senhores do Mundo do passado.

Assim como os norte-americanos, hoje, eles foram os Senhores do Mundo do passado.

Bem em uma curva da estrada os germanos viram a inconfundível figura de Issa caminhando apressado. Estava só e parecia se dirigir a algum lugar com urgência. Estugaram os animais e logo o cercaram. Haimirich saltou de sua montaria bem diante do hebreu, que, parado, aguardava-o com olhar severo.

— Perdoa-me, Issa, enviado de Armínio, mas neste momento minha tribo precisa desesperadamente que voltes comigo. Não na condição de prisioneiro. Não o és mais entre nós. Vem como nosso convidado.

Issa olhou ao redor e voltou a olhar o chefe germano.

— E para me convidar a retornar precisaste de todos estes guerreiros? Não imaginava que os germanos de tua tribo fossem tão medrosos. Nunca ando armado e não aprovo armas e tu sabes bem disto. Ainda assim, vens a mim com guerreiros como se eu te representasse algum perigo…

— Tu és mais misterioso que o próprio Tarannis, o deus do trovão. E tua mãe, Issa, é tão misteriosa e poderosa quanto nossa Dea Matronna. O centurião romano me narrou o acontecimento em que ela te trouxe de volta da morte. Assombroso! O comandante romano acredita que tua mãe seja a deusa deles, a que chamam de Juno, mas nós pensamos que ela seja nossa Dea Matronna, a Mãe dos Deuses germanos. Afinal, não estamos em Roma para que a tal Juno tenha o poder de vir aqui sem a permissão de Dea Matronna. Acreditamos que a mulher misteriosa que surgiu na tenda onde tu e o teu companheiro romano estavam presos foi nossa Deusa e, depois de esclarecermos isto, tu deverás fazer um sacrifício a Dea Matronna…

Issa levantou os olhos e mirou na face do germano. Viu que ele falava a sério e isto o irritou. Sua voz soou alto e clara.

— Eu não faço sacrifícios de espécie alguma, germano. Eu mesmo sou o sacrifício, mas minha hora ainda está longe. E minha mãe é quem é e não fiqueis igualando-a a fantasmas de vossas imaginações.

— Fantasmas?! — Agastou-se o germano,olhando ao redor, para seus guerreiros. Estes, também, se mostraram magoados com a classificação que Issa fizera de sua deusa principal. Dea Matronna era, para eles, a Deusa Mãe da Natureza. Ela provia frutas, grãos, peixes e demais animais aquáticos. Insultá-la era fazer que ela secasse os rios e suspendesse as chuvas, trazendo fome e sofrimento ao povo germano. 

— Nossa deusa é a Mãe de todos os Deuses e nos tem protegido desde quando surgimos no mundo. Não podes insultá-la e ficar impune. Tu mesmo reconheceste perante nós o poder de Dea Matronna, quando disseste: “Mas não choreis quando as nuvens secarem e os campos não mais vos derem alimento”. Só a Mãe dos Deuses pode fazer o que tu falaste. Então, cuidado com tuas palavras, Issa. Dea Matrona é poderosa e pode irritar-se contigo. Tu deves respeito a ela e farás o sacrifício devido, pois ela te salvou da morte.

— Se essa Dea Matronna realmente existe, eu a convoco a surgir aqui e agora — desafiou Issa, em alta voz.

Ele também sentia as fortes emoções que nós, atualmente, julgamos "baixas", como a ira. Só que não se deixava controlar por ela.

Ele também sentia as fortes emoções que nós, atualmente, julgamos “baixas”, como a ira. Só que não se deixava controlar por ela.

Houve um movimento de receio dos germanos que não puderam evitar de olhar para o alto à procura da suposta Deusa-Mãe. Mas nada aconteceu. Então, magoado e contendo a custo a raiva pela impertinência de Issa, Haimirich também lançou um desafio.

— Não sei a razão de Dea Matronna não se manifestar agora. Mas não nos cabe, a nós, apenas humanos, compreender as vontades de um Deus. Quanto a ti, se tua mãe, que afirmas não é nossa protetora, é uma deusa, que ela nos apareça aqui e agora e nos prove isto — Desafiou, por sua vez, o líder germano. Issa olhou-o com expressão de raiva na face.

— Minha mãe não dá espetáculos, germano. Não a invoques para isto.

— Nossa Deusa Mãe também não faz tal coisa — rebateu o chefe germano com raiva contida na voz e sacando da sela seu machado de guerra. — Ela não veio porque a tua se acovardou! — gritou, vermelho de ira.

Uma luz suave fez-se sentir bem acima daquela luminosidade natural da luz do Sol. Uma voz maviosa surgiu de dentro daquela luz espantosamente bela.

Filho meu,  vejo que teus amigos necessitam de me conhecer. Eles terão oportunidade disto, mas só após ultrapassado o angustioso período em que seu povo será transformado no maior carrasco do povo hebreu. Ambos estes povos precisarão de correção nos rumos que vão tomar no futuro. Tu o sabes bem: os hebreus serão renitentes nos erros que cometem sempre. Os germanos serão a pesada mão do Criador sobre eles. Agora, vai com estes e os socorre, pois necessitam desesperadamente de tua ajuda. 

Os germanos foram tomados de grande medo e alguns deles deram a volta às suas montarias e dispararam rumo à aldeia. Haimirich teve dificuldade para segurar seu cavalo e seus olhos estavam pregados naquela luz intensa que, contudo, não emitia qualquer calor. A voz cessou e a luz se desfez rapidamente, voltando tudo ao normal. O temor era grande entre os que tinham ficado e olhavam para o líder à espera da ordem de voltar à aldeia e abandonar aquele homem enfeitiçado na estrada. Mas não foi isto que o líder fez. Issa, então, falou. E sua voz soou suava, quase zombeteira.

— Querias a prova de que minha Mãe existe? Tu a tiveste. Mas eu, porém, até agora não vi sinal da deusa a que prestas honra. E isto é porque ela só existe na vossa fantasia. Agora, vamos!

Era impossível encarar quele olhar severo do Mestre Issa.

Era impossível encarar quele olhar severo do Mestre Issa.

E Issa pôs-se a caminhar de volta à aldeia. Haimirich esporeou o cavalo e se colocou ao lado dele. Puxava outra montaria pelas rédeas. Lutava bravamente para colocar seus pensamentos em ordem e para não demonstrar descontrole diante de seus comandados. Não seria nada bom que isto acontecesse, ali. Não num momento tão delicado quanto o que a tribo estava enfrentando. Então, procurando mostrar-se totalmente senhor da situação, esporeou seu cavalo e foi postar-se ao lado do misterioso homem que, a cada momento, mais e mais o surpreendia com coisas absolutamente fantásticas. Seu coração, contudo, estava disparado e em sua mente ainda brilhava aquela luz misteriosa e belíssima. Jamais a esqueceria enquanto vida tivesse. 

— Espera, Issa! Toma! Monta! Chegaremos mais depressa à aldeia.

— Não ando em montarias. Gosto de andar a pé. E tu não precisas de pressa, pois tens dois dias para ir ter com os romanos levando-me contigo.

A surpresa que o conhecimento daquele prazo causou no chefe germano foi controlada por ele com esforço. Em seu íntimo começava a temer o estranho. “Que poderes realmente ele possui? Como lidaremos com alguém tão estranho assim? Ficarei aliviado ao entregá-lo aos comandantes romanos. Que o levem para bem longe de nós, seja ele ou não filho da tal Juno”. Controlando-se com dificuldade, Haimirich falou.

— Não apenas tu, Issa. Devo levar principalmente teu amigo romano que se chama Primus. Onde ele se encontra? O comandante dos romanos deseja levá-lo a Roma para que seja julgado e sentenciado, provavelmente à morte.

— Primus espera por mim na companhia dos celtas fujões. E ele não vai voltar a Roma porque eu não quero isto.

— Aonde Primus está?

— Para quê desejas saber, se não é meu desejo que nos acompanhem? Quem importa para vós ambos sou eu e eu aqui estou. Então, vamos.

E Issa se pôs a caminhar tão rapidamente que os cavalos tiveram de ser postos a trote para acompanhar suas passadas elásticas. Chegaram à aldeia já passava da hora oitava. No entanto, Issa não dava sinais de cansaço e seu mau humor tinha desaparecido. Abraçou crianças e idosos e acenou alegremente para as mulheres, estas, arredias e temerosas. É que os fujões tinham chegado à frente há muito tempo e espalhado a notícia do poder da mãe do misterioso Issa. A confusão entre eles era enorme. Será que a misteriosa mãe daquele homem misterioso era mesmo a tal Juno dos romanos? Se era, melhor seria que ele fosse entregue aos legionários o mais depressa possível. Filho de uma Deusa, certamente ele era um semi-deus como os romanos pensavam e não haveria humano capaz de o enfrentar, pois seu poder era praticamente ilimitado. Os romanos estavam certos. O melhor era conduzi-lo a Roma, onde receberia as adorações a que fizesse jus. Ele deixara claro que estava irritado com a tribo e, por isto, era um perigo tê-lo entre o povo da tribo.

Hrodulf aproximou-se de Issa e o fitou nos olhos. Não viu beligerância naqueles olhos caramelados, mas alegria. Uma alegria contagiante, que o desconcertou.

— Tu pareces feliz, Issa. Sabes que vamos entregar-te aos romanos? Sabes que eles vão ficar zangados contigo porque escondeste o tal Primus? Por que o proteges? Só por que ele defendeu teu corpo, quando estavas à morte, no campo de batalha? Não creio que só isto seja suficiente para…

— Hrodulf — cortou Issa, olhando o germano nos olhos —, aquele que se arrisca com destemor para defender o Filho do Homem é irmão deste. E um irmão meu, Hrodulf, não é jamais abandonado por nosso Pai Celestial nem, muito menos, por mim.

— Filho do homem?! O que queres dizer com isto?

— Há apenas um Homem verdadeiro em todo este Universo em que viveis. Só Ele é a Perfeição. Só Ele é a Justiça. Só Ele é o Amor sob todas as suas formas. Eu sou Seu Filho, seu primogênito porque fui o primeiro a nascer para Seu Reino, logo, posso dizer com retidão que sou o Filho do Homem.

Hrodulf coçou a cabeça e franziu a testa. Não tinha compreendido nada do que acabava de ouvir. Então, balançando a cabeça negativamente, rodou nos calcanhares e se afastou daquele que, para ele, era um doido varrido.

Issa notou que as mulheres o evitavam e disfarçadamente puxavam as crianças para dentro de suas casas. Ficou um momento olhando atentamente a reação delas e, sorrindo, encaminhou-se para a casa do líder Haimirich. Lá dentro estavam os que geriam a comunidade: o druida, a druidesa, Haimirich e Hrodulf. Falavam em voz baixa, discutindo como é que iriam levar o misterioso Issa aos romanos. E se ele se recusasse? Deveriam amarrá-lo? Como, se ele era um semi-deus?

 — Eu não sou um semi-deus. Eu sou um Deus — E a voz de Issa fez todas as cabeças se voltarem em sua direção. Parado na entrada da cabana, ele sorria. Então, sorrindo, entrou e se sentou na roda entre Haimirich e seu irmão. Ninguém disse nada, mas havia temor no coração de todos e Issa sentiu isto. Então, sério, falou.

— Todos vós são deuses, como eu o sou. Todos somos filhos de um Deus. Tudo o que nos rodeia é criação d’Ele. Então, as aves são deuses também, assim como os animais e tudo o mais que podeis ver. E se tudo aqui é Deus, inclusive vós mesmos, por que tremeis de medo de mim por terdes compreendido que eu também o sou?

— Dizes coisas incompreensíveis, Issa — falou a druidesa. — Como podemos ser deuses se somos mortais? Um deus não morre.

— Que horror! — Disse Issa, fingindo nojo e rindo a bom rir, depois. — Que deusinho pequeno seria qualquer um que não morresse e ficasse para sempre aprisionado neste mundo de dores, temores e desconhecimento de tudo. Meus irmãos, sois deuses justamente porque podeis morrer. Olhai esta pedra — e ele tomou um cascalho que estava diante de si, nas mãos. — Tudo morre, menos ela. Tudo passa e vai embora. Mas ela fica. Imobilizada, parada, à mercê das intempéries. Um homem que não morresse viveria como este escolho: sem chances de crescer para o Reino Infinito de nosso Pai Celestial. Dai graças ao Todo Poderoso que nos dá a liberdade de virmos até aqui e retornarmos à nossa Casa, no Infinito, onde Ele próprio reside.

Houve um silêncio durante o qual todos se entreolharam com expressão de incompreensão e temor nas faces. Então, a druidesa voltou a falar.

— Dizes que somos deuses. Como, se não somos capazes de saber nem mesmo o que nos vai acontecer daqui a um pequeno tempo? Por exemplo: o que pensas que te vai acontecer em uma hora?

— Issa, sempre rindo, olhou-a e respondeu.

— Exatamente daqui a uma hora eu estarei sentado diante do legionário romano discutindo com ele a liberdade de Primus.

— Erraste! — Exclamou, jubiloso, Haimirich. — Nós só vamos entregar-te aos romanos amanhã, conforme foi o combinado. Queremos ter-te conosco para te honrar e te dispensar os cuidados que um emissário deve receber entre o povo que o recebeu. Sei que será tarde, mas antes isto que nunca.

— Não. Eu não errei. — E pondo-se de pé Issa saiu da casa e caminhou diretamente para a saída da aldeia. Todos permaneceram parados na porta da casa de Haimirich, apenas olhando-o se ir.

— Certamente ele é louco. Vai direto para o meio do braseiro. Será aprisionado e nem quero pensar no que lhe vão fazer… — Disse Hrodulf, coçando a cabeça.

— Melhor para nós. Ele mesmo decidiu seu destino. Não teremos peso em nossas consciências pelo que lhe vai acontecer. Só nos resta esperar para ver como os romanos vão-se comportar em relação a nós. Enquanto esperamos, é bom que afiemos nossos machados e providenciemos o reforço de nossas defesas.

Hrodulf voltou-se para seu irmão com uma expressão de excitamento na face.

— E se eu fosse até o rei Armínio e lhe pedisse ajuda para libertar seu emissário Issa do domínio dos romanos? Ele não ama a essa gente tanto quanto nós também não a amamos. E o ter enviado Issa como seu parlamentar nos diz o quanto o tem em consideração. Certamente que nos ajudará. O que pensas disto?

— Terás apenas um dia, se tanto. Não sei se chegarás a tempo no reino de Armínio. E ele levará tempo discutindo se deve ou não entrar em confronto com os romanos. Ele é prudente e não impulsivo, como temos sido. Sempre avalia bem as situações, antes de entrar em confronto com quem quer que seja.

— Mas vale a pena tentar, não achas?

Haimirich ficou um longo tempo pensando na proposta de seu irmão. Era muito pouco provável que Armínio viesse em socorro deles, mas concluiu que não custava tentar. Qualquer coisa era válida como alternativa ao massacre certo e iminente. A ele caberia apenas ganhar tempo. Não fazia idéia de como conseguir isto, mas o desenrolar dos fatos lhe mostraria um meio, com certeza. Talvez Issa conseguisse um tempo precioso na defesa daquele a quem chamava de discípulo, o tal Primus. Todo tempo era bem vindo. Então, acenou que “sim” com a cabeça e seu irmão correu a juntar alguns guerreiros para o acompanhar. Em pouco, um grupo de sete cavaleiros deixava a aldeia a todo galope. Cada um levava um cavalo de reserva.

Entrementes Issa chegou ao acampamento da guarnição romana. O sentinela ordenou que aguardasse e mandou consultar Lēntulo a respeito do estranho que dizia ser esperado por ele. Logo o legionário retornou com a ordem de que deixasse Issa passar e que ele fosse escoltado até a tenda do comandante.

A temperatura daquele dia foi estranha. O calor se tornou sufocante. O ar estava parado e a evaporação fazia que as formas das coisas tremessem estranhamente diante dos olhos. O suor escorria pelos corpos das pessoas, germanos ou celtas, roubando-lhes a paciência e quebrantando-lhes a beligerância.  Lēntulo e seu companheiro Lēpidus trajavam roupas leves e tinham diante de si duas grandes jarras de água. Assim que Issa entrou escoltado na tenda onde estavam, ele dispensou a escolta e convidou o hebreu a se sentar.

— Onde estão os germanos que deviam te acompanhar? Ou vais dizer-nos que vieste sozinho a nós?

— Sim, vim sozinho. Para quê precisaria de guias germanos, se vosso acampamento pode ser visto até mesmo da aldeia deles? Seria tolice, não?

Sua Autoridade saia literalmente pelo seu olhar e o mais truculento dos romanos se sentia incomodado com ele.

Sua Autoridade saia literalmente pelo seu olhar e o mais truculento dos romanos se sentia incomodado com ele.

O meio sorriso na face de Issa irritou Lēpidus, que se remexeu, inquieto. Se ele fosse o comandante em chefe ali, o petulante já estaria a ferros, fosse ou não, filho de uma Deusa. Issa olhou penetrantemente nos seus olhos, mas isto só irritava mais ainda o truculento romano. Contudo, com um suspiro ruidoso, Lēpidus se conteve.

Os dois comandantes trocaram um olhar cúmplice entre si. De pé, diante dos dois, Issa ignorara o convite para se sentar e esperava, sério.

— Temos muito o que conversar, Issa. Primeiramente quero saber onde está o desertor Primus. É nossa obrigação levá-lo para Roma. Onde se escondeu o covarde?

— Covarde?! — Exclamou Issa, olhando muito sério dentro dos olhos do comandante romano. — Como podes chamar de covarde um homem que sozinho enfrentou por mais de duas horas os teus aguerridos legionários em defesa de mim, seu Mestre? Não vejo covardia em alguém assim. Por acaso um de vós faria a mesma coisa pelo outro, se este estivesse nas condições em que eu me encontrava naquele momento?

Lēpidus se remexeu nervoso e irritado. Aquele insignificante hebreu estava arriscando demais. Fosse ou não fosse filho de Juno, não aceitaria passivamente seu desaforo. Com raiva contida, falou.

— Não nos questiones, hebreu. Sabemos que és daquele povo imprestável e trabalhoso e só por isto já te voto aversão. Posso esmagar-te com uma só mão. Então, comporta-te e dobra tua arrogância perante nós, que somos os representantes do Imperador de Roma.

— Espera, Lēpidus — pediu Lēntulo. — Issa deve responder à minha pergunta. Então, Issa, onde está Primus?

— Em algum lugar, na mata, à espera de meu retorno são e salvo — foi a resposta impertinente.

— Diz-nos a localização exata de onde tu o deixaste. Ele é um traidor de Roma. Um desertor. Por isto, deve ser punido. Ele e toda sua família receberão o justo castigo. Agora, obedece-me e diz onde o deixaste.

— Lēntulo, não trairei aquele que não me traiu. Acaso já consideraste tu que não há semelhante a Primus entre vosso povo, homem sincero e reto, que aprende comigo a amar a Deus sobre todas as coisas e a seu próximo como a si mesmo e que se afasta do Mal que vos consome?

— Ele não é teu parente. Nem mesmo é hebreu. Então, entraga-o e livra-te da nossa ira trovejou Lēpidus. A mão do centurião fechara-se com força no cabo do gládio e seu companheiro temeu pela vida de Issa.

Os dois se mediram por um longo tempo. Nos olhos de Issa havia uma espécie de fogo intenso, percebido mas não visto. Nos olhos do gigantesco romano havia ira.

— Se o queres tanto assim, então, vai tu mesmo buscá-lo. Eu te direi onde encontrá-los. Mas ai de ti se encostares em um fio de cabelo dos celtas que estão na companhia de Primus. Este, virá pacificamente e não admitirei que seja maltratado. Deverá receber uma montaria e não virá a ferros nem amarrado, pois virá por sua própria vontade. Estamos compreendido?

— Não podes dar ordens a um centurião romano! — Urrou Lēpidus sacando o gládio. Ele não podia ver, mas Gabriel tinha em mãos sua espada de fogo e estava entre Issa e o furioso e descontrolado Lēpidus.

— Controla-te, romano! — Trovejou Issa com os olhos fuzilando de ira. — Enoja-me tua arrogância! Não imaginas o que te pode acontecer se tentas alguma coisa contra mim apenas com este pedacinho de ferro inútil. Eu Sou Quem Sou e tu devias ter compreendido isto. Agora, VAI! E não maltrates meu discípulo, ou te verás com quem não podes nem mesmo fitar. VAI! – E o grito de Issa pareceu fazer tremer toda a lona da tenda. Um como que vento quente soprou ali dentro, arrepiando de medo o cauteloso Lēntulo. Seu companheiro, lutando contra a súbita tontura, pôs-se de pé rapidamente. Seu olhar era de puro ódio contra o estranho que fazia coisas que ele não entendia, mas o punham descontrolado.

— PAZ! — Gritou Lēntulo intrometendo-se entre os dois adversários. — Lēpidus, por enquanto o que desejo é ter em meu poder o traidor. O hebreu está livre, por enquanto. Agora, faz o que ele diz e não discutas comigo.

Os dois comandantes trocaram olhares de raiva, mas Lēpidus, controlando-se a custo, fez um aceno de cabeça para que Issa o seguisse. Este, contudo, não moveu um dedo. Quando o irado e gigantesco romano se voltou para ele, disse.

— Vai à aldeia dos germanos e solicita a Haimirich que te ceda um guia para levar-te até onde me encontraram. Ireis encontrar meu discípulo exatamente onde me encontraram a mim. Agora, retira-te de minha frente que tua ira me embrulha as entranhas!

Por um momento pareceu que o furioso romano ia atirar-se sobre Issa e o esmagar. Este, contudo, olhava-o altivo e sem temor, o que irritava mais ainda o truculento centurião. O invisível Gabriel estendeu a ponta de sua espada flamejante e tocou na fronte de Lēpidus. Imediatamente este sentiu forte tonteira e cambaleou. Tentou segurar-se na quina da mesa, mas como era pesado demais, ela virou e ele se estatelou no chão. Issa cuspiu no solo e se retirou da tenda sem que Lēntulo fizesse qualquer movimento para o impedir.

— Controla-te! Não vês que nada podemos contra ele? Foste jogado ao solo sem que aquele homem fizesse um único movimento. Nem mesmo com a mão. Esse homem é especial! Cada vez mais acredito que não é humano. Para mim será bastante que nos entregue Primus. Feito isto, que se vá em paz e, se possível, o mais depressa que puder. E depois que ele se for, nem uma palavra nossa será dita a seu respeito, principalmente em Roma, compreendes? Com certeza os senadores considerarão a nós ambos traidores e seremos vendidos para algum ludus. Não quero terminar meus dias como gladiador.

Gabriel geralmente surgia armado como um guerreiro, quando necessário.

Gabriel geralmente surgia armado como um guerreiro, quando necessário.

Frustrado e com um ódio intenso reprimido, Lēpidus saiu da tenda, passou por Issa sem nem o olhar, montou seu corcel e disparou rumo à aldeia de Haimirich. Tremia de raiva e jurava para si mesmo que mandaria flechar o arrogante feiticeiro hebreu assim que ele se afastasse do acampamento. Ninguém o insultava daquele modo aviltante e ficava impune. O hebreu veria com quem se tinha metido.

Entrementes, Primus, que meditava perdido em si mesmo e alheio aos celtas que tentavam pescar algum peixe, teve uma visão psíquica. Não estava com os olhos abertos e não conseguiu abri-los, mas viu com sua terceira visão o Arcanjo Gabriel que lhe apareceu na forma de um homem de vestes brancas reluzentes, alto, muito forte, face serena e irradiando mita paz. Ouviu-o dizer: “Primus, ganhaste o afeto sincero de meu Mestre. E ele manda que tu vás esperar pela escolta romana que está vindo buscar-te. Não temas. Nada te acontecerá, pois estás sob a proteção do Filho de Deus”. Mentalmente e com serenidade Primus respondeu: “Farei a vontade de meu Mestre com alegria. E não temerei nada, pois sinto que há uma grande força ao meu redor”. 

Gabriel desapareceu e Primus, sem dar qualquer explicação aos celtas, afastou-se, subindo a ribanceira e saindo da mata para a estrada. Ali sentou-se à espera dos que vinham buscá-lo…