Araras e periquitos ainda piam nesta árvore em Morrinhos, cidadezinha interiorana de Goiás.

Araras e periquitos ainda piam nesta árvore em Morrinhos, cidadezinha interiorana de Goiás.

Goiás era fria. Nos meses de maio a julho a gente sentia os dedos doerem de frio. Fazia facilmente 14ºC às 10 horas da manhã. Uma gostosura. Na Capital a gente encontrava pessoas simples, naturais da terra, desconfiadas, arredias, mas prestativas e fáceis de se tornarem amigas. Gozadoras, igualavam-se, quando não superavam os cariocas, reis da coroa da gozação. A vida ainda era muito interiorana e escreveu não leu, levava bala pra deixar de meter o bedelho onde não era chamado. A polícia era simples. Não havia desconfiança contra os cidadãos. A cordialidade reinava entre o civil e o policial. Eram amigos e gentis uns com os outros. Eram os anos de 1991 a 1995. Havia uma profusão de vida silvestre. Avestruz selvagem às margens das rodovias; tatus; tamanduás pelados ou peludos. Uma variedade assombrosa de araras, papagaios e periquitos. O pássaro-preto voava livremente e em bandos de vinte ou trinta e seu pio estridente alegrava as manhãs e o entardecer. Curiós, trinca-ferro, canário da terra, sabiá laranjeira, corrupião e dezenas de pica-paus das mais diversas espécies. O mais bonito era o pica-pau coroado, que vinha, em bando, picar o solo ou os arbustos ao redor de nossa casa, na capital. E à noite, centenas de corujinhas do campo voavam piando ao redor de nossa casa, nos terreno ao redor da qual elas tinham seus ninhos. Era belíssimo! Longe, ao entardecer, lá para as bandas de Senador Canedo, a seriema voltava seu longo bico para o céu e soltava seu canto de despedida do dia que findava. Era de tocar a alma da gente…

Torcidas organizadas se atacando feito bestas-fera não existia em Goiás.

Torcidas organizadas se atacando feito bestas-fera não existia em Goiás.

Não havia drogas. Não havia jogo clandestino (exceto o jogo do bicho, já nacionalizado em todo território nacional brasileiro). Não havia assassinato por drogas. As crianças não eram violentas e eram felizes, risonhas, brincalhonas.

Goiás era um Estado bom de se viver.

Rios e muitas cachoeiras faziam a alegria nos finais de semana.

Mas o tempo passou. Veio a imitação feroz do modus vivendi dos paulistanos e o goiano passou a falar errado como o diabo. Tudo por imitar o paulistano. E as roupas dos jovens, que imitavam os vaqueiros de rodeios, os heróis da terra, foram trocadas pelas roupas, pelos penteados e pelas gírias dos roqueiros aloprados. E vieram as drogas. E explodiu a criminalidade. E a polititicagem vicejou a todo vapor. E as matas foram derrubadas violenta e selvagemente. E os pássaros sumiram. E os animais passaram a ser mortos, atropelados pelos novos carros velozes e também foram rareando. E o trânsito substituiu a carroça puxada por burros pelos carros-bola de mil cilindradas. E as ruas estreitas foram entupidas e viraram um inferno. E a língua portuguesa foi substituída cruelmente pelo “paulistanês doentio, feio, destruidor da verdadeira língua portuguesa. E veio o ECA e as famílias goianas se desorientaram. E veio o Estatuto do Idoso e os goianos aprenderam a má-educação nacional para com os velhos trabalhadores de outrora. E vieram os motéis e as moças recatadas viraram as “prostitutas” livres.

Produto paulistano que já existe sobre Goiânia: poluição pela fumaça de carros.

Produto paulistano que já existe sobre Goiânia: poluição pela fumaça de carros.

E, finalmente, Goiânia virou um simples bairro paulistano com tudo o que de pior existe naquele Estado.

E eu perdi a alegria de ter vindo para cá.

Chamam a esta desgraceira de “modernização”. Goiânia, finalmente, tinha-se tornado uma capital moderna. Com mortes gratuitas e criminosos protegidos pelos Direitos Humanos, enquanto a Polícia tornou-se perseguida furiosamente pelos ditos Direitos – que, para mim, de humano não tem nada ou se perdeu há muito tempo.

E eu fui obrigado a ferir para me defender, o que muito me contrariou.

E passei a temer pela vida de meus filhos, que já não mais posso manter sob minhas asas.

E retornei ao inferno que tinha deixado para trás, quando saí do Rio de Janeiro dos idos de 1970.

Mas o pior é que o tempo ficou louco. Já não mais se sente qualquer diferença entre as estações que, agora, está-se reduzindo a uma única: VERÃO DE TORRAR TUDO: corpo, mente e coração.

Não mais se ouve o canto da seriema. Que lástima!

Não mais se ouve o canto da seriema. Que lástima!

Os minadouros somem numa rapidez de arrepiar de medo. Em lugar deles, capim a perder de vista. E bois. Bois comendo, peidando gases venenosos e sendo sacrificados para que suas carnes sejam trocadas pelo maldito dólar. Com isto, fazendeiros compram carrões e alimentam a falida indústria automobilística de outros países, pois o Brasil é o paraíso para onde todas correm, quando em suas terras de origem as pessoas dão preferência às bicicletas, muito mais saudáveis e menos dispendiosas. Mas aqui, a PETROBRÁS, combalida devido ao vírus polititica-petralha ter-lhe atacado até no fundo do mar, precisa desesperadamente que os brasileiros, além de pagar a maldita CIDE, comprem e consumam gasolina às toneladas de barris. Só assim poderá voltar aos velhos tempos, com muito dinheiro, para que novas quadrilhas de polititicas (não necessariamente petralhistas) lavem a égua.

Meu reino não é mais deste mundo...

Meu reino não é mais deste mundo…

E eu adentro a velhice. 75 anos bem vividos. E estou com a doença dos velhos: coluna. Como este diabo dói. E quando ataca é de desesperar. E tome remédio que esculhambam o fígado. Que se dane! Quanto mais depressa eu subir, melhor para mim. Este mundo está indo pro buraco ou, melhor, entrando no período da Seleção Divina.

A humanidade está louca em toda parte. No outro hemisfério os homens se matam por religião. Quem diria que em pleno Século XXI este “ópio do povo” ainda vicejaria com uma força de espantar e meter medo. Loucura! O verdadeiro Deus deixou de ser conhecido e em seu lugar veio uma coisa terrível, que manda degolar pessoas diante de câmeras de TV; que manda explodir gente inocente; que manda pegar a Bíblia e gritar feito enlouquecidos, pois os seguidores de  tal ou qual pastor não tem fé de que a oração silenciosa seja mais poderosa do que aquela gritada e tocada com decibéis acima de mil.

E eu triste, saudoso de mulheres que amei e me amaram de todo coração. Tenho em minha memória seus olhos brilhando de alegria e gozo, e pranto, e felicidade, quando, no leito, nos entregávamos ao rala-e-rola com todo ardor.

Aquilo passou. Ficou somente a recordação. Não tenho mais nenhum desejo de ter o corpo de uma mulher sob o meu. Para quê? Para ver nos seus olhos o desespero cada vez maior da solidão, do abandono, da incompreensão? Não, pelo Amor de Deus, não mais..