O nervo entre as vértebras T-12 e C-1, que afetam o gânglio celícaco e o plexo hipogástrico, quando beliscado pelo bico-de-papagaio, dispara uma horrível poliesculhambose" que torra a paciência da gente.

O nervo entre as vértebras T-12 e C-1, que afetam o gânglio celícaco e o plexo hipogástrico, quando beliscado pelo bico-de-papagaio, dispara uma horrível poliesculhambose” que torra a paciência da gente.

É domingo. Estou às voltas com uma dor terrível no nervo afetado pelo maldito bico de papagaio, em minha coluna. A par com isto, luto com a dúvida entre enfrentar ou não, a dolorosa operação para implante dentário. Já fui comunicado pelo implantodontista que ele retirará osso da parte anterior de meu maxilar para suprir a falta óssea na parte frontal, onde faltam meus dentes. Aos 75 anos, com dores que não cessam dia e noite em minhas costas, roubando-me o sossego do sono, optar por mais uma fonte de grande dor, desta vez na face? Hesito.

A decisão tem de ser tomada em tempo curto, pois dia 13 deste mês, justamente no dia de meu aniversário, devo dar os cheques para pagamento da primeira etapa do longo trabalho de implante. E hoje são 11 de outubro de 2015. Que dilema. Ninguém pode-me ajudar…

Estou com a família toda em casa – filhos, genro e nora e neto adotado por meu filho. Como se dizia antigamente, “estou com tudo e não estou prosa”. E foi assim, com o Astral mais por baixo que barriga de cobra, que Orozimbo me encontrou.

Velho, sim. Iletrado, sim. Mas burro, jamais. Eis Orozimbo.

Velho, sim. Iletrado, sim. Mas burro, jamais. Eis Orozimbo.

Ele chegou justo quando faltava alguns minutos para a turma se mandar. Abancou-se, após cumprimentar parcimoniosamente a todos, e permaneceu pitando e bebericando seu café sem açúcar. Quando, finalmente, ficamos sós, ele bateu a mão ao lado de seu toco, indicando que desejava falar. Sentei-me numa cadeira ali perto e me dispus a ouvi-lo. Ao menos seu papo descontraído me distrairia das dores impertinentes na coluna.

— Home, vancê sabe onde fica o tar de praneta Marte?

Olhei-o surpreso e apontei para cima, para o Espaço, com meu indicador.

— Vancê tombém sabe qui ele aparece lá in riba cuma uma istrelinha avermeiada, num sabe?

— Hum-hum  — fiz eu, já interessado pelo interesse súbito de Orozimbo pela Astronomia.

— Apois bem — desembuchou ele — véi foi buscá o netin na casa d’um amiguin dele e lá tinha um tubão deste tamanho — e ele abriu os braços para me mostrar o tamanho do tal tubo. — Era um troço gozado, num sabe? De um lado a boca do tubo cabia uma bola de futebór de tamãio médio. Do otro lado, a largura era iguá à da tampa do Massageó qui vancê segura nessa mão aí. — E ele apontou para o tubo de Massageol que eu segurava entre os dedos.

Luneta. Uma similar a esta deve ter sido aquela por onde Orozimbo espiou o Planeta Vermelho.

Luneta. Uma similar a esta deve ter sido aquela por onde Orozimbo espiou o Planeta Vermelho.

— Os minino apontarum lá pra riba, pra istrelinha vermeia e me disserum que aquilo lá era o tar de praneta Marte. Entonce, me pedirum que metesse o ôio no lado pequeno do tubão. Véi viu uma bolona maió qui uma bola de futebór, cuma cor vermeia isqiuisita, briando dentro duma iscuridão de metê dedo nos óio. Ai véi tirô o oio do vidrim da parte istreita do tubão e oio lá pra riba. Só viu aquele pontim avermeiado qui todo mundo vê desde qui o mundo é mundo. Um negóço munto sabido, aquele tubão. Pur ele, a gente inxerga o qui num vê a ôio nu.

— O tubão, Orozimbo, chama-se telescópio. No caso, uma luneta avantajada, pois um telescópio de verdade não cabe na varanda de um apartamento. É um aparelho gigantesco.

— É, o apelido daquele tubão era mermo esse aí. Mas véi vai continuá chamando de tubão qui esse nomão metido a besta véi num sabe falá, nhor não. Agora, o mió mermo, qui ispantô este véi, foi qui os pai dos mulequin amigo de meu netin me disserum que tem uns doido querendo ir morá lá no tar de Marte. E me disserum que lá exéste água, só qui danada de sargada. Fora isto, num tem mais nada, não. E o céu daquele tar de praneta é preto. Num é azul cuma o nosso, não. Deve ser feio pra diabo, né não?

Marte - tal como visto por Orozimbo.

Marte – tal como visto por Orozimbo.

— Deve mesmo. Ao menos para os nossos olhos — concordei eu, interessado no que ele tinha para me falar.

— Entonce. Os pai dos mulequin amiguin de meu netin me disserum que há uma brasileira, uma véia, qui tá doidona pra ir s’imbora lá pro tar de Marte. Será que tá tão disisperada pru qui num incontra macho p’rela aqui imbaixo, não? E pra qui é qui véia qué macho, se a mió idade pra home e muié é justo quando os negóço deles pára de aguniar a gente? 

— Talvez a mulher não esteja buscando um marciano para substituir um terráqueo em sua vida, meu amigo — disse eu, rindo de sua tirada.

Solo Marciano - terra seca, vermelha e árida.

Solo Marciano – terra seca, vermelha e árida.

— Se num é isto, pra qui diabo arguém vai querê vivê num lugá amardiçoado, qui é todo de barro vermeio e num tem nem um capinzim? E me disserum, os pais dos mulequim, que o tar praneta é auto-esterilizante. Eles ixpricarum que o praneta mata toda forma de vida pequititinha, cuma as miócas, os besouros da terra e outros bichim ansim, num sabe? Intonce, inté a terra do tar de Marte é amardiçoada, cruz credo!

E Orozimbo fez o sinal da cruz, o que eu achava muito interessante, já que ele era candomblezeiro de pai e mãe.

— Meu amigo — disse eu, rindo. — Os cientistas que estudam as estrelas e os planetas acreditam que a combinação da radiação solar ultravioleta que satura a superfície de Marte, combinada com a extrema secura do solo e a natureza oxidante de sua química impedem a formação de organismos vivos no solo marciano. Até mesmo de bactérias. Até hoje a Ciência Pragmática humana se faz uma pergunta inquietante: teria havido vida em Marte em algum passado distante? Se esta hipótese se confirmar, outra pergunta virá a seguir: como e por que meios a Vida Marciana foi extinta? Será que os Marcianos atingiram tal estágio de evolução que lhes levou ao auto-extermínio e ao extermínio de todas as formas de vida no planeta, agora morto? Ou será que o choque com um enorme meteoro causou a calamidade que exterminou a Vida nele? Esta última pergunta agonia nossos cientistas porque, ultimamente, tem-se descoberto muitos astreóides passando perigosamente perto de nossa Terra. Ora, há evidências mais ou menos seguras, de que foi o choque de um pedregulhão daqueles que extinguiu a vida em nosso planeta no tempo dos dinossauros. E se um meteoro gigante vier a se chocar com a Terra novamente? A explosão que ele causaria bem poderia lançar para o espaço toda a nossa água, eliminar todas as formas de vida e condenar a Terra a ficar tão morta quanto é o planeta vermelho.

Orozimbo lançou um olhar preocupado para o céu azul sobre nossas cabeças. Depois de um grande silêncio, quando eu já me dispunha a deixá-lo só, entregue às suas conjecturas, ele voltou a falar.

Nós temos este presente do Criador e o estamos matando de modo cruel.

Nós temos este presente do Criador e o estamos matando de modo cruel.

— Certa veiz vancê me falô de um tar de “Circulo num se Passa”. Seria uma ispécie de invortório in derredor da Terra qui impediria dos homem consegui ir vivê fora dela. Vancê inté me dixe qui mermo os ispritos dos mortos num pode se afastar de nosso praneta. A gente morre aqui, e passa a vivê num involtóro munto mais sutil ao derredor da Terra. Ninguém pode deixá o praneta, nem na condição de ispritu. Inté qui atinja a condição de um Cristo, cuma o Jesus dos cristão, todos os ispritus tem de vivê ao derredor da Terra. Véi ainda matuta munto nesta sua históra… Cuma vancê ixprica, agora, essas viages doidas dos mais doido ainda internautas? Ora, se os home forem pra Marte, home, eles vão vivê lá. Entonce, o tar “Circulo num se Passa” é lorota, né não?

Nosso belíssimo Planeta Azul. Por que não cuidamos de sua Vida? Sem ela, todos morremos...

Nosso belíssimo Planeta Azul. Por que não cuidamos de sua Vida? Sem ela, todos morremos…

— Não. Veja, ninguém consegue se separar das condições terrestres necessárias à manutenção de sua vida. Os astronautas têm de se manter dentro de roupas onde a temperatura, a pressão atmosférica e o ar que respiram têm de ser aqueles que levam daqui, da Terra. Se chegam à Lua, não podem tirar estas roupas protetoras e mantenedoras das condições de vida na superfície de nosso planeta. Se fizerem isto e entrarem de vez nas condições atmosféricas da Lua, morrem quase imediatamente. A vida de qualquer um não dura mais de um quarto de minuto, se tanto. Do mesmo modo será em Marte, se alguém conseguir chegar lá. Os astronautas não poderão dispensar suas indumentárias que mantêm as condições de vida na Terra, ou morrem imediatamente. Eles terão de trabalhar para construir um domo, uma cúpula de vidro, dentro da qual, pensa-se, poderão injetar o ar terrestre que deverão transportar em grandes cilindros e sob enorme pressão. Terão de trabalhar a água de Marte de modo a purificá-la dos venenos que possa ter e lhe emprestar as características fisico-químicas que compõem a água na Terra. E supondo que a porosidade da terra marciana não seja tal que deixe o ar levado da Terra escapar através dela, os humanos ainda terão de trabalhar duro para encontrar condições de fazer que plantas terrestres cresçam naquela terra marciana, que, eles já sabem, são tremendamente contrárias à vida. Além disto, terão de viver sob proteção constante contra o bombardeio dos raios ultra-violetas que podem assar vivo uma pessoa, em Marte. Ora, aqui na Terra, o aumento destes raios já está causando preocupação porque já se prevê que muitos vão morrer devido a que seus corpos não terão tempo de se resfriar, como fazem atualmente, através do suor, a fim de refrescar a pele e manter a vida. Imagine lá em Marte, onde não há atmosfera quase nenhuma e os raios ultravioletas caem como cachoeira chovendo diretamente do Sol sobre aquela terra queimada. O Círculo Não se Passa, meu velho, é uma defesa espiritual-carnal criada pelo Inominado justamente para proteger o envoltório espiritual sob o solo de todos os planetas que ele criou ao infinito, ao redor de estrelas, umas iguais em tamanho e radiação, ao nosso Sol. Outras, muito mais violentas e muito mais mortais para nós. Cada ser que vive a vida em um planeta diferente do nosso, não tem permissão para viajar pelo Espaço Sideral livremente e ir perturbar a vida em outros planetas. E quando o fazem, como se supõe que fazem, têm de manter-se dentro de escafandros especialmente feitos para proteger seus envoltórios físicos nas condições ideais para o planeta de onde vieram. Até seus Espíritos necessitam que os demais corpos sutis de que se revestem, como os corpos de Matéria Etérica, Matéria Astral, Matéria Mental, Matéria Intuicional, Matéria Búdica e Matéria Divina precisam de se manterem inalterados, caso contrário o próprio Espírito sofreria e seu Corpo Búdico poderia se desfazer, o que seria um desastre para ele e, por extensão, para a Obra do Inominado. 

Orozimbo coçou a carapinha e me olhou com o cenho franzido.

— Home, quando vancê desimbesta a falá bunito véi vôa mais qui piriquito, arre diabo! Véi num intendeu foi nada disso tudo qui vancê falô. Só intendeu qui pra saí da Terra e ir pra otro mundo, a gente percisa de roupage especiá. E isto véi compreende proqui inté nos cinema a gente vê isto. Mas o resto…

Ele se fechou em az de copas, expressão ausente, sinal de que estava tentando regurgitar o que tinha acabado de ouvir. Eu me retirei e fui deitar, pois minhas costas estavam em brasas. Orozimbo se foi em silêncio, mas sei que voltará com mil perguntas para me fazer.

É o diabo falar demais…