Os romanos o tiveram bem perto. Viram sua face. Assistiram seus prodígios e o admiraram. Mas foram impelidos ao deicismo...

Os romanos o tiveram bem perto. Viram sua face. Assistiram seus prodígios e o admiraram. Mas foram impelidos ao deicídio…

— A ferros! — Urrou o furioso centurião Lēpidus tão logo viu a figura de Primus sair de dentro da mata do lado esquerdo da estrada. Dois legionários, dentre os dez que o acompanhavam a despeito da ordem de Lēntulo de que fosse sozinho, atiraram-se sobre Primus e com brutalidade desnecessária não somente o esbofetearam como o puseram a ferros com grossas correntes lhe prendendo os pulsos. Quieto e apenas observando tudo, temeroso do que poderia acontecer, o guerreiro germano que os trouxera até onde Haimirich, ele próprio e outros guerreiros haviam encontrado Issa, meneou a cabeça em desaprovação ao que os legionários faziam. Um olhar de ira lançado pelo centurião o fez endireitar-se sobre sua montaria. Jamais um germano mostraria respeito ou receio diante de um romano, fosse ele ou não, um gigante ameaçador.

— Eu sou Roma, na ausência de meu Imperador, germano. Não me olhes como se me desafiasses, pois posso acabar com tua vida por este insulto.

— Talvez tu tenhas a oportunidade de tentar isso que dizes — rebateu, irado, o guia germano. — Mas eu te garanto, romano, que não partirei deste mundo sem te levar comigo. 

Os celtas, considerados bárbaros, tiveram o Mestre entre eles e O respeitaram.

Os celtas, considerados bárbaros, tiveram o Mestre entre eles e O respeitaram.

Por um longo momento os dois inimigos se entreolharam. Em nenhum havia a mínima demonstração de medo do outro. Então, com um sorriso maldoso, o centurião apontou um dedo para o germano e rugiu, soturnamente:

— Eu te enviarei ao teu Valhala assim que nos encontrarmos no campo de Marte. E será um prazer para mim, eu to garanto!

O germano cuspiu de lado, com desprezo, e rodou a montaria disparando de retorno à aldeia. Os romanos não necessitavam mais de um guia e ele não estava disposto a agüentar um segundo a mais sequer, a arrogância do centurião.

— Foge, germano! — Gritou provocativamente o arrogante centurião. — Foge, agora, mas não me escaparás logo mais, eu te juro!

Na tenda de Lēntulo, Issa estava de pé, à entrada, olhando sério os soldados que se moviam afanadamente afiando suas armas e se preparando para um combate que sabiam ser iminente entre eles mesmos e os germanos de Haimirich. Às suas costas e o olhando intrigado e preocupado, o comandante da guarnição mirava-o enquanto bebia água em um copo de prata. Depois, decidido, veio postar-se ao lado de Issa.

— Podes responder-me a uma pergunta? — Não mirava Issa, mas o acampamento diante de ambos.

Issa voltou-se para ele e o mirou de cima abaixo, assentindo com um aceno de cabeça.

— És mesmo hebreu?

— Sim e não. Sim, porque nasci de uma mulher hebréia e entre aquele povo. Não, porque em verdade, em verdade, não pertenço a este mundo.

O comandante mirou com expressão interrogativa a face de Issa.

Zeus imperou por uns tempos entre os judeus. Depois, travestido de Júpiter, também mandou e desmandou entre os romanos. Os judeus o detestavam.

Júpiter, o deus pagão que emprestou sua figura ao deus hebraico-cristão do passado.

— Então… És um deus?! Quero dizer, és filho de um Deus?! Júpiter, por acaso?

Issa abriu um grande riso e rindo pousou a mão sobre o ombro do comandante, que se viu agastado com aquela intimidade, mas não se furtou ao toque do hebreu.

— Há algum tempo, tu ainda não eras um centurião nem, muito menos, o comandante de uma guarnição como esta, um jovem hebreu te socorreu. Estavas todo estropiado e a ponto de não te salvares da morte. O hebreu, contudo, veio a ti, deu-te de beber e aos teus legionários e deixou-te um remédio que ele mesmo preparara com as próprias mãos. E aquele remédio te curou. No entanto, vejo com tristeza, que guardas no peito ódio pelo povo hebreu. Quando será que homens como tu aprenderão que a Paz e a Caridade são o melhor caminho a trilhar na Terra? Centurião, o pior mal dos homens são as armas que criam para ferir seus irmãos. O gládio marcará o Espírito de todos os que o manejam por muitos e muitos milênios. Quando aprenderás a pensar por tua própria cabeça, em vez de entregares pacificamente teu destino nas mãos de um desvairado que se perdeu na ilusão de que é teu superior, quando na verdade é menor que tu diante de nosso Pai Celestial?

Lēntulo sentiu que seu coração acelerava. Com olhar espantado, ficou de frente para Issa e o olhou atentamente.

— Estavas lá?! Eras tu aquele hebreu que jamais pude encontrar para agradecer pelo que fez por mim e por meus soldados?

— Não tem importância se eu estava ou não, presente ao que te aconteceu, pois tua história e a do jovem hebreu correu por toda Jerusalém e por toda Galiléia. Sou daquela gente. Então, é fácil que eu saiba do ocorrido. Mas posse garantir-te que o jovem hebreu não se preocupa com os agradecimentos daqueles a quem ele curou durante suas andanças pelo mundo. Digo-te que ele é capaz de sentir o que há no coração das pessoas e sabe muito bem quando elas lhe são gratas de verdade, ou não. Então, centurião, não te inquietes por encontrar aquele que te salvou a fim de agradecer-lhe pelo que te fez. Afinal de contas, falarás não com a sinceridade de quem aprendeu uma lição valiosa, mas com a arrogância da obrigação de quem continua se julgando superior ao seu irmão. Teu “muito obrigado, hebreu” trará atrás de si uma advertência: “mas nem por isso eu deixarei que fujas à punição se assim me ordenar Roma”. És um escravo, centurião. E és escravo de quem vale menos que tu, diante de teu Pai Celestial.

— Tu me confundes com tuas palavras desconcertantes. Quem é esse Pai Celestial de que falas? Júpiter, por acaso?

O Símbolo Máximo do Império Romano - César Augusto.

O Símbolo Máximo do Império Romano – César Augusto.

— Que importa um nome para Aquele que tudo pode? Chama-o como quiseres. Isto não tem qualquer importância. O que importa, centurião, é a integridade moral e o valor ético de seu filho. Até este momento, tu não demonstraste nenhum valor neste campo.

— Eu sou íntegro, hebreu. Não duvides disto, que me ofendes.

— Eu não duvido. Mas quando colocas tua integridade a serviço de um homem vil, mesquinho, arrogante e tolo, então tu te aviltas e perdes todo o merecimento diante de nosso Pai Celestial.

— E o que esse Pai Celestial a que tanto te referes quer que eu faça? Que traia meu imperador? Sabes o que acontece com quem comete tal ato temerário?

— Não tem importância o que quer que ele faça contigo ou com outro que, como o bravo Primus, decida abandonar a senda de dor, sofrimento e agonia a que esse imperador condena aqueles que o servem.

Uma bulha cresceu entre a soldadesca interrompendo o interessante diálogo entre o hebreu e o romano. Era Lēpidus que arrastava atrás de si o corpo todo ensangüentado de Primus, acorrentado ao cavalo em que o orgulhoso e violento centurião montava. Ele chegou diante da tenda e jogou aos pés de Lēntulo a corrente que segurava.

— Lēntulo, eis aqui o traidor. Mas creio que não terá muita saúde para chegar a Roma. Não importa, porém, pois não é digno de pisar as pedras da cidade do Imperador. Aproveita e põe a ferros também esse imbecil que está a teu lado. Ele é o responsável pela traição de Primus, logo, também merece a morte.

Issa ouvia impassível o que dizia o arrogante centurião. Então, a passos firmes dirigiu-se para o corpo exangüe de seu discípulo. Mas saltando rápido de sua montaria, Lēpidus se interpôs entre o Mestre e seu Discípulo. Issa parou o olhou com expressão de ira na face, para o rosto debochado do centurião truculento.

— Afasta-te de meu caminho, homem mesquinho de alma. Tu não és digno das sandálias que Primus calça — E a voz estentórica de Issa pareceu fazer tremer o solo. No entanto, o arrogante centurião não moveu um músculo e o desafiou.

— Passa por mim, se és capaz!

Com um movimento brusco de mãos Issa lançou o gigantesco homem de costas a uma distância de quase três metros, onde ele se estatelou no pó. Pegados de surpresa, nenhum legionário reagiu e isto deu tempo a que o Mestre chegasse a Primus e sobre ele se curvasse. Percebeu que a vida fugia do corpo exangüe e estendeu a mão sobre o coração e a fronte do discípulo ferido.

— Por que me és fiel, filho meu, eu te ordeno que te ponhas de pé e me sigas. Não morrerás pela lâmina de ninguém, assim eu decreto.

Diante do boquiaberto Lēntulo o semi-morto abrir os olhos, sorriu e se sentou. Limpou-se com as próprias mãos do pó que lhe recobria o corpo todo e aceitando a mão que lhe estendia Issa, pôs-se de pé. Estava inteiro. Nem um único arranhão em seu corpo sujo e com as roupas em frangalhos. 

— Vamos embora. Isto aqui não mais é teu caminho e tu não mais pertences a esta gente.

Levantando-se cheio de ira e sacando do gládio, Lēpidus gritou irado.

— Eu vou matar os dois, agora!

Issa voltou-se para o furibundo romano que se preparava para vir sobre ele como um trem expresso. Ergueu a mão e gritou com voz poderosa.

— Pára, romano! O que pensares fazer a qualquer um de nós dois acontecerá contigo! Guarda, pois, teu inútil gládio, porque o Poder de Meu Pai é infinitamente superior à tua ira.

— Eu vou trespassar teu peito inútil primeiro, hebreu — Urrou o romano desvairado de ódio. — Depois, vou sangrar o traidor e assistir seu sangue se espalhar pelo solo, enquanto sua vida se apaga. Prepara-te! Nem Hades poderá salvar-te de mim!

Lēpidus atirou-se como um trem expresso sobre a dupla, que não moveu um dedo para se afastar da fúria que vinha sobre ela. O romano, em sua investida cega, não viu a corrente estendida no pó do solo e quase encoberta por ele. Seu pé direito prendeu-se nela e lhe atrapalhou o passo. Como vinha correndo com um ímpeto incontrolável, seu corpo projetou-se para a frente e num gesto reflexo de defesa, ele estendeu as mãos para adiante a fim de evitar bater com o rosto no solo. O gume afiado de seu gládio estava para o alto e o fio da lâmina voltada para dentro. Foi por ela que o pescoço do violento centurião correu, sofrendo um profundo corte que lhe seccionou a jugular, fazendo seu sangue jorrar para fora como se fosse água brotando de um minadouro.

Issa tomou a mão do espantado Primus e o puxou para fora do acampamento. Ninguém ousou interpor-se-lhes no caminho e os dois se afastaram, enquanto o infeliz Lēpidus agonizava cercado pelo seu próprio sangue. Curvado sobre o companheiro que morria devagar e se debatendo muito, o impotente Lēntulo assistia, pasmo, o centurião morrer tal qual tinha dito que faria morrer aos dois amigos

“Por Júpiter! Quem é aquele homem? Que tremendo poder esse seu Pai possui para que se cumpram suas palavras tal e qual ele sentenciou?”

Dois decuriões se aproximaram do comandante e, perfilados, perguntaram o que ele desejava que fizessem com relação aos dois homens que se afastavam do acampamento.

— Deixai que se vão. Eles não mais nos interessam. Cuidemos do enterro de nosso companheiro e, depois, desarmemos nossas tendas e voltemos ao acampamento de nossa guarnição. Como podeis ver, aquele homem estranho tem um poder acima das nossas forças. Talvez seja mesmo  filho de Juno e Júpiter e se assim o for, não é bom que mexamos com ele ou com seu companheiro.

Intimamente os dois decuriões deram graças a Júpiter porque não foram mandados contra os estranhos. Todos ali temiam o poder incompreensível do estranho de riso fácil.