VOLUME II – CAPÍTULO I – No Chalé

Todos na ilha e no iate de luxo, estavam envolvidos em uma aventura extra-dimensional.

Todos na ilha e no iate de luxo, estavam envolvidos em uma aventura extra-dimensional.

O pescador terminou a invocação e fixou os olhos nos olhos de Ivaldo. Ele estava cianótico e não apresentava qualquer sinal de respiração ou de vida. Parecia ser feito de cinza azulada.

            — Não podemos deixar que morra para esta realidade e fique preso na quarta dimensão — disse o pescador para Andréa, que tudo ouvia, via e compreendia, mas que já não estranhava nada. Tudo lhe parecia absolutamente natural. O pescador mandou que Andréa ficasse de frente para ele. Então, ajoelhou-se diante dela e colocou as mãos de modo a formar um triângulo com os dedos indicadores e polegares de ambas as mãos, com o vértice para cima. Colocou este triângulo sobre o púbis de Andréa e murmurou uma invocação em páli. Era uma espécie de canto cadenciado e a mulher foi sentindo inicialmente uma estranha sensação de formigamento sobre o canal vaginal e no períneo. Então, o homem tocou um ponto no ventre de Andréa, dois dedos abaixo do umbigo, fazendo uma pressão quase imperceptível.  O formigamento começou a mudar para excitação e os mamilos de Andréa contraíram-se, seus pelos arrepiaram-se e ela sentiu que estava úmida. Seu coração acelerou e sua boca ficou seca.

            — Ajude-me com ele — pediu o pescador. Andréa obedeceu, sentindo que a excitação sexual aumentava de modo quase insuportável. Eles deitaram o corpo azul-acinzentado de Ivaldo sobre a mesa de pedra e Andréa notou que o pênis dele estava ereto e rígido.

            — Agora, ouça, Andréa. Você vai sentar sobre o sexo dele e fazer com que penetre em seu sexo. Mas não vai copular, por maior que seja a sua vontade. Terá de ficar quieta. Procure somente contrair os músculos do assoalho pélvico para aumentar a excitação, mas não copule. Você me entende?

            — Não, senhor. Eu quero gozar… Eu preciso…

            — Não, Andréa, você não precisa. Escute, você gera uma energia muito forte em seu aparelho reprodutor, quando está excitada. Toda mulher faz isto. Esta energia vem dos chakras básico e sacro. Se você atingir o orgasmo, agora, esta energia se dispersa e se desperdiça inutilmente. Por isto é absolutmente necessário que não se volte para o gozo carnal, físico. A descarga orgásmica, neste momento, é prejudicial.

            — Por que, senhor?

            — Porque você é o portal de retorno de Ivaldo. Ele nasceu para o mundo de lá a partir do próprio chacra umbilical, mas não retornará da quarta dimensão a não ser através do ventre de uma mulher, novamente. O orgasmo é um meio de um corpo dizer ao outro que chega, que já não o quer mais. No sexo, não é o orgasmo que é importante, mas sim o prazer. Mantenha o prazer, apenas ele. Não procure o fim.

            — Qual a finalidade deste… deste sofrimento, senhor?

            — Não há sofrimento nenhum, Andréa. Você terá de fazer um exercício de Tantra Yoga. Você já leu o Kama Sutra?

            — Não, senhor.

            — Pena. Mas eu a ajudarei.  Se não trouxermos Ivaldo de volta, ele, que não pertence ao grupo, então, a batalha estará perdida para todos. E eu receio que para toda a humanidade atual. Agora, suba na mesa e sente-se sobre o pênis de Ivaldo.

            Andréa obedeceu prontamente. Estava no ápice de sua excitação e tinha certeza de que ia ter o melhor orgasmo de que já desfrutara em sua vida. Não entendera nada do que o pescador falara, mas entendia perfeitamente de seu desejo. E este queria desesperadamente um gozo explosivo, devastador. Sentiu o pênis de Ivaldo mergulhar em suas entranhas e perdeu o controle de si. Ia começar a se movimentar freneticamente sobre ele, mas o pescador lhe tocou um ponto entre as sobrancelhas e ela se sentiu paralisada. Algo anormal aconteceu com sua mente. Uma vontade férrea impedia que ela realizasse o que mais desejava naquele momento. E aquela vontade não vinha do pescador. Era dela. Sentia que era sua mente quem ordenava a quietude.

            — Não lute contra sua vontade, filha – ouviu a voz serena do pescador. – Permaneça sentada, junte as duas mãos, palma com palma, dedos apontados para cima, no alto da cabeça, com os dedos médios forçados um contra o outro. Mantenha uma concha nas mãos. Mantenha a coluna vertebral ereta e feche os olhos. Concentre-se no prazer e na contração controlada do assoalho pélvico. Imprima um ritmo de quatro contrações por respiração. Espere! Ponha os cotovelos numa linha reta com as omoplatas… Assim, assim está perfeito. Agora, leve a mente para dentro de sua vagina… observe o calor e a sensação além do físico que há dentro de você. A Energia Cósmica, o CHI da fecundação está-se manifestando e se densificando em torno do pênis. Mantenha a condensação desta energia…

            Maravilhada, Andréa sentiu que o desejo animal do orgasmo desaparecia e dava lugar a um bem-estar intenso.  Dentro de seu ventre um calor que não vinha de suas vísceras, mas vinha de algum lugar extracorpóreo tomava forma como uma pulsação rítmica, forte, intensa.

            — Você é de Áries, Andréa. Você é naturalmente uma acumuladora da energia Fôhat, a geratriz, a transmissora da Vida. O Fogo das arianas, que muitas vezes é confundido com promiscuidade, é natural. A mulher ariana nem sempre é compreendida no sexo. E é difícil a um homem não preparado atender as exigências do Fôhat nela acumulado. Você é a melhor para este tipo de exercício. Gera naturalmente a energia de que necessitamos, enquanto as mulheres de signos que não do Fogo só o fazem após preparação longa e especial.  Estamos quase prontos para que você transmita a primeira onda de energia para o corpo de Ivaldo. Fique assim, quieta, e usufrua do seu prazer ao máximo. Você já não sente nenhuma premência pelo gozo físico, não é?

            Andréa assentiu com um leve aceno de cabeça. Estava deliciada e por ela podia ficar ali para sempre que pouco se lhe dava. Sua atenção estava toda voltada para o interior de sua vagina. Ali se passavam coisas que ela nunca antes havia notado. Sempre se julgara uma mulher muito boa no coito, mas estava descobrindo que não sabia nada a respeito. Percebeu um leve pulsar no membro do companheiro e voltou a atenção para aquilo. O homem que lhe parecera literalmente morto, estava vivo e compartilhando…

            — Não, Andréa, não é Ivaldo quem compartilha com você — disse o pescador, demonstrando que percebia seus pensamentos tão claramente como se ela estivesse falando com ele.— É o corpo dele, apenas.

            — Eu não estou entendendo… — pensou Andréa sem se mover.

            — Sensação, filha, só o corpo tem. Coito é sensação. O coito se dá no corpo. É o corpo quem se satisfaz com o sexo coital. E isto funciona para ele como a gasolina para o automóvel. O sexo faz o corpo liberar energia etérica. Cada molécula d’ água no corpo entra em atividade química, principalmente aquelas que compõem os humores glandulares. Esta atividade acelera o fio nádico que forma o Corpo Etérico e o faz pulsar com mais intensidade. Esta pulsação facilita a circulação da energia prânica ou CHI que alimenta a vida no organismo físico. Todos os chakras são beneficiados com  esta aceleração, pois suas tônicas sobem uma oitava na escala sonora. Isto traz para o físico um bem-estar e uma disposição para o otimismo muito salutares. É errado praticar o coito pensando em fazer o parceiro sentir prazer. Ninguém tem esse poder sobre o outro. No ato coital, Andréa, cada pessoa deve pensar em si, centrar-se em si. Cada um só pode provocar ou cercear o prazer próprio. Cada um se permite sentir ou não prazer com a utilização do corpo do outro. Esta é a alma da Tantra Yoga. O yoga tântrico não se interessa pela aparência física de seu parceiro, porque isto não influi em sua capacidade de se permitir sentir prazer. Ele precisa da energia que sozinho não pode gerar. Também não pode gerar esta mesma energia na prática do coito homossexual por que as polaridades são iguais, ainda que um parceiro se diga de sexo oposto. Um homem é um homem e uma mulher é uma mulher, independentemente dos desvios psicobiológicos que venha a sofrer. Mesmo quando o coito é praticado do modo errado como geralmente se faz, a tônica dos chakras se beneficia, ainda que algum tempo depois volte a regredir a oitava que avançara. O yoga tântrico dificilmente sofre este retorno, de modo que a prática do sexo, para ele, é uma Escada de Jacó por onde ascende em direção ao inefável. Neste momento você ascendeu uma oitava tanto em sua escala tônica dos chakras, quanto na tonicidade sônica de seu corpo físico. O resfriado que estava-se manifestando, acaba de ser neutralizado em você. O cansaço das tensões do dia de hoje está-se esvaindo porque seu corpo literalmente despiu-se de uma roupa suja e está trajando outra, nova. Uma roupa de energia vital, se me entende. O sexo, Andréa, é o melhor remédio para doenças várias. A mulher que vai dar a luz tem de estar em harmonia e equilíbrio consigo mesma, com o seu corpo, com a sua vitalidade.

            Andréa ouvia a voz suave e profunda do pescador enquanto percebia a roupa nova de que ele falava. Não havia necessidade de ele explicar com palavras o que ela podia perceber claramente no próprio corpo, mas era bom ouvi-lo. Sua voz a relaxava e de certo modo facilitava aquele maravilhoso processo. Ondas de prazer varriam todo o seu corpo, dos pés ao couro cabeludo. Agora, ela detestaria chegar ao orgasmo, porque ele terminaria aquela sensação de… de…

            — De amor consigo mesma, com o seu organismo físico, Andréa — disse o pescador, mais uma vez lendo o seu pensamento.

            — Por que isto está acontecendo comigo? — perguntou ela sem falar.

            — Primeiro, porque  você é o único pólo contrário e complementar ao do homem a quem você ajuda neste momento, presente aqui, nesta ocasião. Segundo, porque você está sob minha direção direta. Eu estou interferindo com sua organização psicoafetiva, digamos que estou  fazendo  você avançar uma encarnação inteira para obter o estado em que se encontra agora. Isto não é correto, mas diante das circunstâncias é imperiosamente necessário.

            — Este homem se recordará do que estamos fazendo, agora? — perguntou Andréa em pensamento.

            — Não, filha. Ele nem mesmo sabe do que se passa aqui. Está plenamente ciente de onde está e do que faz lá. Neste momento mágico, você o está gerando novamente. Ao regressar, ele terá a mesma sensação que teve quando nasceu pela primeira vez para esta dimensão. Só que não virá através de seu ventre. Virá no próprio corpo, de onde saiu pelo chakra umbilical para chegar à dimensão onde está, agora. Sua polaridade funciona, neste momento, de modo invertido. Você não recebe a energia do homem. Você cede energia ao corpo dele. Funciona ao contrário, percebe? No sexo normal, a mulher recebe a energia masculina e seu corpo, preparado pela Natureza para isto, faz a fusão dela com a própria para gerar um terceiro elemento, que, tendo herença genética dos dois é, contudo, diferente de qualquer dos genitores.

            — Energia, senhor? Tudo é energia, no sexo? — tornou a pensar a pergunta, Andréa.

            — Sim, é. O sexo animal, aquele praticado pela maioria das pessoas na terra no momento atual, desperdiça noventa por cento desta energia. E porque a desperdiça, freqüentemente o ato sexual é cansativo, para alguns até mesmo repulsivo. Mas esta dádiva de Deus ao homem não era para ser desviado para um caminho tão medíocre, Andréa. No sexo está a redenção da humanidade. Enquanto o homem não perceber isto e continuar a fazer do sexo material de comércio ou instrumento de poder para ferir, maltratar, humilhar e destruir a vida de seu semelhante, como ocorre com as ridículas questões entre marido e mulher que se separam, na qual a fêmea suga o macho até o osso e vice-versa, a raça humana não sairá do atoleiro da roda do Samsara. Sabe o que é isto, Andréa?

            — Não, senhor — respondeu Andréa em pensamento.

            — Samsara é a roda das encarnações. É o Moinho das Almas, filha. O moinho que mói a alma como a mó mói o grão de trigo para lhe tirar a casca. Se o grão é maleável e dócil, perde a casca rapidamente. Mas se é duro e teimoso, ficará muitas e muitas vezes sujeito ao suplício do esmagamento pela mó até que se liberte da casca.

            — O sexo é condenado pela Igreja Católica, senhor. Fazendo o que faço, também sou errada diante da Santa Madre Igreja — pensou Andréa. Ela percebera que a conversa com o pescador ajudava-a a controlar o impulso para mover-se e acelerar o orgasmo, pois as contrações pélvicas no ritmo que conseguia imprimir do modo como o pescador lhe dissera, excitava-a a um extremo indescritível. Distraindo a mente era mais fácil suportar a agonia.

            — Santa? Por que Santa, Andréa? Você tem idéia de quantos crimes contra a humanidade foram cometidos por ordem e com o aval pleno desta seita que você chama de Santa? Você sabe ao que visa a sua Santa Madre Igreja, Andréa? Ela visa tão somente ao Poder Venal, filha. O Céu é apenas um instrumento que ela pensa que manipula ao bel prazer de seus interesses freqüentemente egoístas e mesquinhos. E se ela é contra o que é sagrado, está coerente consigo mesma quando condena o sexo, pois sabe que quando o ser humano descobrir o verdadeiro caminho sexual, metade de seu poderio desmoronará como castelo de areia. E, creia, filha, isto está mais perto do que o supremo diretor dessa seita supõe.

            — Senhor, a Santa Madre Igreja não é contra o sagrado. Quer coisa mais sagrada do que a cruz? Ela é o símbolo da Cristandade, porque foi nela que morreu nosso senhor, Jesus Cristo, para redimir nossos pecados — pensou Andréa.

            — Mais uma vez você está errada, filha. Em primeiro lugar, a cruz que a sua Santa Madre Igreja diz ser sagrada, é falsa. A cruz sagrada é a cruz Esvástica e não aquela que o sumo pontífice exibe em seu cajado. Em segundo lugar, o sacrifício do Mestre Jesus não é plenamente conhecido atualmente. Há quem diga que ele não morreu na cruz como é apregoado. Em seu lugar teria sido Simão de Cyrenéa ou  Cyrene, como querem alguns, quem foi para a cruz no lugar do Rei dos Judeus. Jesus teria assistido à crucificação escondido em um nicho de uma parede. E Simão também não teria morrido na cruz. Ele teria sido retirado dela com vida, com a anuência de Pôncio Pilatos, e tratado por Jesus e seus companheiros essênios ficou curado dos ferimentos. Ele e Jesus tinham compleição física muito semelhante. Ambos pesavam noventa quilos e tinham um metro e oitenta e um ou dois centímetros de altura. Jesus, dizem os que defendem esta tese, ria do engodo que os romanos engoliam. Somente Pôncio Pilatos sabia da farsa, porque fôra comprado pelo suposto tio de Jesus, José de Arimatéia. Em terceiro lugar, Jesus não seria o Cristo, portanto, defendem os adeptos desta tese, é errado chamá-lo de Jesus Cristo. O Cristo é o Senhor Maytréia e é Ele o Senhor do Amor e da Devoção. Jesus, dizem, morreu num ritual suicida praticado pelos que resistiam ao ataque à fortaleza de Massada, na Judéia. Isto não lhe diminuiu o alto grau que atingira já naquela época. O suicídio nem sempre é condenável, filha. É preciso ver a razão pela qual a pessoa o comete conscientemente. Ele teria oitenta anos quando se matou na condição de um guerreiro pacífico, isto é, que não pegava em armas para derramar sangue de seu semelhante. Mesmo tendo lutado para obter o trono a que fazia jus por descendência, segundo os que defendem a tese de que lhe falo, Jesus nunca fugiu às regras rígidas da seita essênia em que foi educado, nem da que ele mesmo fundou e que se chamava a Seita dos Nazoritas. Este, o motivo pelo qual era conhecido como Jesus, o Nazorita e, não, Nazareno. Mais tarde, trocaram este nome para Jesus, o Nazareno e, depois, Jesus de Nazaré. Ele jamais foi de nenhuma cidade chamada Nazaré. Aliás, ela não existia quando ele veio ao mundo. Mas tudo isto são especulações que não podem nem ser confirmadas nem rebatidas. Mas o que importa em Jesus é o que Ele disse, pois suas palavras são eternas e atemporais.

            O pescador notou uma grande perturbação na aura astral de Andréa. Compreendeu que as informações que lhe estava dando haviam causado uma fortíssima turbulência emocional nela. Ele suspirou fundo e murmurou, enquanto tocava novamente o centro entre as sobrancelhas de Andréa:

            — Não, você ainda não está pronta para conhecer estas Verdades. Elas permanecerão como uma possibilidade em seu subconsciente. Quando a coisa explodir através de livros e a convulsão social chegar como resultado disto, você estará preparada para não sucumbir, como muitos sucumbirão, para azar e sofrimento dos Santos Padres no outro lado da Vida. Eles verão, tarde demais, que suas sacralizações terrenas não têm qualquer valor no mundo da Verdade, mas aí, pobre deles.

            Andréa suspirou fundo e a serenidade voltou à sua fisionomia. O pescador, então, soprou três vezes nos ouvidos do corpo de Ivaldo…