Na Rocha

 

Lapas típicas da misteriosa Ilha de Pargos.

Lapas típicas da misteriosa Ilha de Pargos.

Ludmila chegou ao tronco do coqueiro e viu que Ivaldo tinha razão. Ali não somente tinha uma plataforma, como parecia bem grande. Encontrou a pantufa que lhe caíra do pé e que havia pensado ter afundado na escuridão para um abismo de quase mil metros. Alegria e confusão lhe tomaram a mente. Como é que ali em baixo a luz da lua era tão clara que podia quase ver uma agulha na areia e lá de cima não conseguira ver nada?

— Ivaldo! — gritou jubilosa. — Você estava certo! Aqui tem muita areia. Pode-me ver?

— Não! Acho que a rocha negra absorve a luz da lua. Agora, posso descer?

— Eu não sei. E se não tiver saída? Acho que deve esperar mais um pouco enquanto eu ando por aqui e vejo se tem uma descida para o sopé deste rochedo.

— Eu espero. Mas não vá desaparecer de novo, sim?

— Para onde?

E Ludmila começou a andar em linha reta, distanciando-se do negro paredão. Uns trinta passos depois chegou à beira de outro buraco negro. “Será tão curto como este em que caí pensando estar despencando num abismo?” Ela apanhou uma pedra de tamanho considerável e a jogou lá em baixo. Durante quase quarenta segundos não houve ruído, mas depois ela pôde ouvir um choque, depois outro, um espaço de tempo silencioso, mais um choque abafado, nova demora, outro choque e mais nada. “É, aqui é mesmo um abismo fundo. É melhor andar pela beirada para ver até onde isto vai.” E Ludmila se pôs a acompanhar a descida da plataforma. Andou quase cem metros, quando se lembrou de Ivaldo. Chamou-lhe o nome em voz alta, mas não ouviu resposta. Voltou pressurosa. Junto ao paredão, tornou a chamar por Ivaldo.

— Estou aqui. E então?

— Acho melhor você descer. Parece que encontrei uma saída.

Ela ouviu o baque surdo do corpo dele no coqueiro. Ouviu-o soltar um palavrão, depois ouviu-o descendo pelo tronco até que chegou ao chão.

— Machucou-se?

— Sim. Você não me disse que o coqueiro tinha espinhos.

— E não tem. Você se espetou nas palmas dele, seu tolo.

— O que encontrou?

— Acho que é uma descida. Vamos?

— É o jeito. Subir, agora, não dá mais.

Eles encontravam sempre dificuldades como grandes paredões que precisavam descer ou subir.

Eles encontravam sempre dificuldades como grandes paredões que precisavam descer ou subir.

Desceram sempre costeando a montanha. A trilha ora ficava muito larga, ora era tão estreita que tinham de apoiar-se apenas nas pontas dos pés para passar, segurando-se com quantas forças tinham nas reentrâncias que encontravam no paredão áspero, para não cair. Começaram a ouvir o barulho de uma cachoeira e não demoraram a ver um rio que parecia brotar do meio do negro paredão e despencar de uma altura que não podiam calcular, pois não viam o fim da queda.

— Não é estranho? O vapor d’água devia fazer esta pedra limosa, mas não há limo nenhum aqui — comentou Ludmila que ia à frente.

— É. Talvez o vento forte… Ou a maresia, quem sabe? — Ivaldo se concentrava em fixar o caminho. Embora a pedra escura dificultasse a caminhada, era possível perceber alguns detalhes da senda. Do lado direito estava o precipício, de onde uma nuvem branca de vapor d’água subia tornando a noite muito fria. Do lado esquerdo estava o paredão que, à medida que desciam, tornava-se cada vez mais alto e sinistro. Faias, samambaias de longos talos e folhas compridas, bambus anões e arbustos característicos das quedas d’água lançavam seus galhos sobre a senda e vez por outra dificultavam o movimento. O barulho surdo da queda d’água fazia o chão de pedra tremer. Devia ser um volume assustador a se despencar ricocheteando no rochedo até o fundo, lá embaixo. “Eu espero que o gato pintado não tenha tido a idéia de vir beber água aqui” pensou Ivaldo preocupado com a onça que quase pulara sobre ele, quando subia o rochedo. Estava decidido a, se saísse vivo daquele pesadelo, estudar a vida e o costume dos animais selvagens. Agora compreendia que conhecer somente a fera bípede não era suficiente, principalmente quando se está numa situação daquelas.

— Acho que estamos chegando ao final desta descida — gritou Ludmila para ser ouvida. — O barulho da queda d’água está muito intenso e a pedra treme cada vez mais forte com a pancada.

— Você está certa. Agora, o que me preocupa é o que faremos quando chegarmos lá embaixo. Não sabemos onde nos encontramos. Não sabemos como viemos parar aqui nem onde fica a porta do tempo… se é que existe uma.

— Veremos isto depois. Agora é preciso ter cuidado. A pedra está ficando lisa como o dia…

Ludmila não completou o que ia dizer porque escorregou e desapareceu em direção ao lago vinte metros mais abaixo.

— LUDIIIII!!!

Ivaldo lançou-se atrás da companheira sem se incomodar com o perigo. Também escorregou pedregulho abaixo numa velocidade assustadora. Seu corpo conseguiu manter-se sentado nos primeiros cinco metros, depois rolou como um trapo  descontrolado pela descida vertiginosa. Via Ludmila também rodopiando à frente…

Na Caverna

Era estranho ver o céu através de um buraco negro. Do mesmo modo, quando se olha para o fundo de um deles.

Era estranho ver o céu através de um buraco negro. Do mesmo modo, quando se olha para o fundo de um deles.

Karina firmou o pé no ombro de Tamara e subiu.  A amiga sentiu o coração falhar, um zumbido forte nos ouvidos e a respiração faltar. Parecia que o peso da colega sobre seus ombros era o do próprio mundo. Então, os pés sumiram e o peso desapareceu como se fosse por encanto. A lama soltava bolhas de gás sulfídrico e o odor era nauseabundo. Tamara recordou-se da praia de Copacabana ao entardecer e do movimento dos carros, das pessoas, dos desocupados… Como desejava estar lá, agora. Como queria estar bebendo uma água de coco bem gelada… ” Merda, eu não queria era morrer virgem. Por que resisti tanto?”  Sem saber bem porque o fazia, sorriu e o sorriso lhe fez bem. Queria descansar. Era só deitar-se e tudo acabaria bem…

A repórter inclinou a cabeça em direção ao caldo fétido que não via e quando estava a ponto de afundar nele sentiu um forte puxão em seus cabelos. Foi içada violentamente e o grito não lhe saiu da garganta porque alguém meteu a mão sob seu queixo e quase a sufocou quando a puxou para cima por ali. Depois, duas mãos finas, mas muito fortes, ferraram-se sob suas axilas e ela se viu arrastada para cima de uma pedra áspera, mas sem lama.

— Ânimo, colega. Você encontrou a saída e quer desistir, agora?

Era a voz de Karina. E ela estava fazendo algo indecente. Arrancou-lhe a roupa fora e começou a lhe massagear os seios, o ventre, as coxas o pescoço… A colega parecia ter mil mãos e as espalhava todas sobre seu corpo nu. Suas virilhas chegaram a doer quando os dedos delicados da outra afundaram nelas. Depois, os dedos impiedosos desceram pelo lado de dentro de suas coxas sempre apertando e soltando, apertando e soltando e com isso provocando ondas de dor. Tamara bem que desejava protestar, mas não tinha voz nem tempo. Foi virada de bruços e a outra montou em suas costas. A pressão foi forte e fez com que soltasse todo o ar que tinha nos pulmões. A falta de oxigênio fez que inspirasse com força  e a colega deixou que o ar lhe enchesse os pulmões… só para o fazer sair num jato quando lançou todo o peso do corpo  nas mãos espalmadas sobre a parte inferior do tronco, nas costas, à altura das pontas dos pulmões. Aquela tortura continuou e a fraqueza foi cedendo lugar a uma bruta dor de cabeça.

— Quer parar com isto, porra! — protestou com voz audível, Tamara.

— Ótimo! — exclamou Karina — Já está voltando a ser a rabugenta que conheço e de quem gosto mais do que da quase defunta de há pouco.

— Por que está-me amassando deste jeito? — e Tamara esforçou-se por fugir às mãos sádicas da amiga.

— Porque você estava envenenada pelo gás que se desprende daquela lama esquisita, minha cara. Se eu não a puxo de lá, estaria mortinha da silva, agora, sabia?

— Não, mas chega. Se continuar com essa massagem para elefante vou morrer é esmagada, tenho certeza.

Karina auxiliou a colega a se sentar e apontou para cima. — Olhe, está vendo? É a luz da lua. Há uma abertura acima de nossas cabeças.

Tamara ficou a olhar para aquilo com desânimo. O buraco parecia estar no fim do universo.

— De que nos serve? Não temos como chegar lá — falou ela com voz fraca.

— Olhe para a sua esquerda — disse Karina animada. Karina obedeceu e viu várias estalactites que se encontravam com muitas estalagmites num emaranhado que lembrava aquele formado pelas raízes dos fícus, na Praça Deodoro, em frente ao Ministério da Guerra, na sua querida Rio de Janeiro.

— Estalactites — murmurou a mulata sem muito ânimo.

— É. Vamos tentar subir por elas. Venha.

— Nua?! Nunca!

— Vista a roupa melada de lama, se quiser, mas ande logo. Estou maluca para tomar um banho e creio que vamos encontrar o rio logo que sairmos daqui.

Tamara pegou no vestido, mas mudou de idéia. Ele fedia como o próprio satanás cristão e estava frio e grudento.

— Acho que vou nua, mesmo — disse, ficando em pé.

— Não tem problema, não sou lésbica — brincou a amiga.

— Espero que não mude de idéia quando me vir à luz da lua — respondeu jocosa Tamara, demonstrando que a massagem de Karina surtira efeito. Parecia voltar ao seu natural.

— Não mudarei. Agora, chega de papo furado. Venha, vamos buscar a saída.

As cavernas de Pargos impressionavam e amedrontavam.

As cavernas de Pargos impressionavam e amedrontavam. (gracieteoliveira.pbworks.com).

 

As duas entraram pelas deslumbrantes colunas calcárias que, ao contrário do rochedo, eram brancas, quase alvas, e refletiam como espelho a pouca luz lunar que lhes chegava vindo da fenda lá em cima. Tamara animou-se. Andar por ali era até fácil, depois de patinar na lama fétida que acabavam de deixar para trás sem nenhuma saudade. Subiram, subiram e subiram. Já arfavam quando finalmente atingiram o pico de uma das mais altas estalagmites dentre aquelas muitas que tinham deixado para trás. A fenda estava a um metro e noventa do pico calcário, mas penetrar nela não era tão fácil quanto tinham esperado. A pedra era lisa e sem reentrâncias onde firmar os dedos.

— E agora? — perguntou Tamara, arfando de cansaço. Estava exausta, faminta e a cabeça voltava a doer.

— Você acha que pode comigo nos seus ombros? — perguntou Karina.

— Lá em baixo eu estava pior e pude. Por que não, aqui também?

— Então, vamos lá. Ajoelhe-se.

— O que pretende?

— A fenda tem mais ou menos um metro e vinte de largura. Se eu conseguir penetrar nela, encosto as costas em um lado e apoio os pés no outro lado. Firmando as mãos atrás das costas consigo subir, entende?

— Sim. Fiz muito isto em Petrópolis e no Alto da Boa Vista. Se não estivesse tão fraca iria em seu lugar.

— Não tem problema. Quando a gente sair daqui vamos tomar um banho no rio e comer coco, tá certo?

— Nem me fale em comida — disse Tamara ajoelhando-se para que a amiga lhe subisse aos ombros. — Eu comeria até urubu frito se encontrasse um.

Karina firmou-se nos ombros de Tamara e se equilibrou de pé. Então, comandou:

— Tente ficar de pé balançando o corpo o menos possível. Segure-me pelas pernas para eu me equilibrar melhor.

Tamara colocou as mãos nas panturrilhas das pernas de Karina e se levantou com um esforço tremendo. Nua como estava ela e a amiga formavam um quadro digno de Renoir. Por instantes pensou que não conseguiria e que iria lançar a outra estalagmite abaixo, mas conseguiu. Karina estava com mais da metade do corpo dentro da fenda e não foi difícil fazer o que dissera. Então, começou a ascensão lenta, mas firme, e minutos depois saía para a amplidão da noite.

— Tamara — chamou ela. — Descanse um pouco que eu vou ver se encontro uma palma de coqueiro para lançar para você.

— Se puder, jogue um coco primeiro — pediu a outra, sentando-se com um suspiro.

— Tá legal.

E Karina olhou em volta. Ouvia o barulho de uma cachoeira para o leste, não muito distante dali e viu a massa escura da floresta que parecia ameaçadora. Não havia mais nada por perto, a não ser arbustos, cactos coroa-de-padre e muito capim-de-cheiro.

— Vou demorar um pouco, não se preocupe, tá legal? — gritou para a amiga lá embaixo.

— Eu espero. Tenho todo o tempo do mundo, pode crer.

Karina correu resoluta para a floresta de aspecto sombrio. Mergulhou sem hesitar por entre um cipoal emaranhado passando por ele como se estivesse ensaboada. Tinha a guiá-la o ronco da cachoeira e o seu apurado sentido de orientação espacial. Na mata tudo era fantasmagórico e as sombras pareciam ter vida própria e simulavam monstros ou davam a impressão de que ocultavam perigos inimagináveis atrás delas. A repórter não tremeu. Estava decidida e gravava cada tronco, cada galho, cada acidente do caminho. Tinha de saber voltar ou ia deixar a colega em maus lençóis. Quase meia hora depois saía num enorme lajedo. A mata ficara atrás e agora tinha laje e tufos de capim espalhados pela pedra negra. Era uma longa descida, mas podia ver o estuário do rio e o mar escuro, onde só as ondas brancas eram visíveis quando se arrebentavam nos arrecifes. “Diabo! Capim é um bom esconderijo para cobras e eu as detesto. Espero que elas tenham-se mudado ou estejam de barriga cheia. Não gostaria de ser picada por uma cascavel ou por outra parenta desta desgraçada.”

A moça deu início à descida. Corria em ziguezagues para evitar passar próximo das temidas moitas de capim. Com freqüência aproveitava o impulso da descida para saltar sobre algumas moitas, lembrando uma gazela que fugisse de um leão esfaimado. Seu corpo esguio e amorenado era um espetáculo muito bonito no silêncio  e na vastidão desértica da estranha ilha. Seus pequenos e bonitos pés, treinados pelo Wushu Chinês, moviam-se numa perfeita harmonia e pareciam voar por sobre a laje lisa e escamosa. Saltos, esquivas e pulos acrobáticos faziam parecer que o belo corpo de Karina dançava ao som de uma música mágica, inaudível. Ela estava suada e muito cansada, mas sua concentração na corrida evitava que perdesse o controle da velocidade. Finalmente chegou ao final do lajedo e encontrou a branca areia. Passou a andar depressa antes de passar a um passo normal. Respirava rápido e tinha a garganta seca. Viu a água e não pensou duas vezes para se jogar nela. O frio e a pureza do líquido escuro nunca lhe foram tão agradáveis. Permaneceu o mais que pôde mergulhada, deixando-se levar pela corrente. Sentia que os miasmas da lama da caverna iam sendo retirados de si e sua pele voltava a ficar limpa. Quando os pulmões começaram a reclamar pela falta de ar, emergiu. Sacudiu a cabeça e viu um vulto aproximando-se dela. Não distinguiu bem quem era, mas não esperou para ver melhor. Estava farta de surpresas e resolveu que desta vez seria ela quem faria a surpresa. Mergulhou de novo e nadou vigorosamente em direção ao intruso. Sentiu-lhe a aproximação pelo remanso na água e na claridade da luz da lua viu duas canelas muito brancas se movendo. Segurou aquelas pernas e puxou com força, fazendo a pessoa afundar sem ter tempo de dar um grito.