No Ritual (continuação…)

Há quem ainda duvide da existência de Mundos Paralelos ou de Realidades paranormais. é bom mudar de idéia...

Há quem ainda duvide da existência de Mundos Paralelos ou de Realidades paranormais. é bom mudar de idéia…

Damastor ficou olhando as mulheres de negro pronto para entrar em ação. Agora, desconfiava de qualquer coisa que se movesse à sua volta. Tinha consciência de que muito pouco poderia fazer para se defender se houvesse um ataque, pois teria de soltar a cobra e ela sumiria dentro de Milena. A pistola estava caída no tablado perto dos pés de uma das moças e ele temia que qualquer delas pegasse a arma. Elas não saberiam servir-se da pistola e tanto poderiam ferir-se como acertar nele ou em Milena. Pensava rápido no que poderia fazer, quando uma das moças falou.

            — Tome… é sal.

            Damastor olhou para a moça com estranheza. Para  que lhe serviria sal naquela hora?

            — Pegue! — insistiu a outra moça. As mãos de ambas tremiam e o detetive compreendeu que elas tinham muito medo. Será que era dele?

            — Para que o sal? — Indagou.

            — Coloque no ferimento de Amritha, o ovo da Bruxa — falou a moça mais magra e mais alta.

            — E onde está essa tal de Amritha, posso saber? — perguntou Ivaldo.

            — Em suas mãos, estrangeiro que domina o trovão — disse a mais baixa das duas moças.

            — É a cobra que vê, mas a cobra é somente a sua forma ilusória — informou a outra.

Amritha, a cobra que não era cobra.

Amritha, a cobra que não era cobra.

Damastor não entendia nada do que estava ouvindo, mas aceitou o sal prontamente. Seus músculos estavam cansando e a cobra logo voltaria para o ventre de sua quase morta anfitriã. No só momento em que estendeu a mão para apanhar o sal, a cobra deslizou rapidamente para o ventre de Milena, fazendo-a gemer de prazer e dor simultaneamente. Não sumiu pela vagina a dentro porque a faca ficou atravessada na entrada. Damastor jogou o sal junto ao fio da lâmina. De dentro do ventre veio um berro desumano e uma fumaça azul fétida a enxofre começou a sair de Milena. A faca caiu no tablado e a cobra sumiu. O ventre da moça desinchou como por magia e ela desfaleceu, pálida e respirando com muita dificuldade. Damastor desamarrou as pernas de Milena e cuidadosamente retirou-a dali. Ao descer os rústicos degraus notou que não havia mais viv’alma por perto. O povo todo tinha sumido para suas cabanas e nelas se trancado. Ele era um novo demônio aos olhos daquela gente simples e ignorante. Notou que era acompanhado de longe pelas moças trajando preto e chamou-as imperiosamente. Elas acudiram pressurosas e pararam a respeitosa distância, cabeças curvas e olhos presos no chão.

            — O que deseja, senhor?

            — Tragam-me uma roupa para esta mulher — ordenou. As moças voltaram lépidas sobre seus passos e sumiram atrás do tablado. Damastor não teve de esperar muito e logo as duas retornavam trazendo uma alvíssima roupa de linho, um copo feito de bambu com um líquido esverdeado dentro e umas flores roxas muito perfumosas.

            — Para que isto? — e o detetive apontou para o copo e as flores.

            — Faça com que ela beba este vinho. Ele vai devolver as forças ao corpo da mulher e sarar os ferimentos internos deixados por Amritha. As flores têm um perfume calmante que vai recompor o coração e lhe reanimar o espírito.

            O detetive fez o que lhe era dito sem questionar. Com muito cuidado verteu o vinho na boca sem cor de Milena e ela o engoliu, tossindo sem força. Ele lhe chegou uma das flores às narinas e ela virou o rosto para o lado, pois o odor era forte e ardia quando inspirado. Somente após a quarta inspiração foi que Milena reagiu. Levou a mão ao braço de Damastor e o empurrou para fugir ao cheiro da flor.  Ele voltou a insistir e na terceira vez a mulher conseguiu sentar-se, reclamando.

            — Sente-se melhor? — perguntou o detetive.           

A flor roxa "milagrosa".

A flor roxa “milagrosa”.

— Sim, mas se continuar a colocar essa coisa em meu nariz vou morrer na certa — foi a resposta com voz entrecortada.

            — Não foi o que me disseram as suas salvadoras — comentou o detetive aliviado.

            — Que salvadoras? — E Milena olhou em volta. Só via o tablado e as palmeiras. Ninguém estava à vista. Damastor voltou-se para lhe apontar as moças, mas elas haviam desaparecido. Aliás, tudo tinha desaparecido. Não havia mas as cabanas, nem a fogueira, nem as fitas no pau central. Até este havia sumido.

            — O que diabo aconteceu? — perguntou ele, perplexo.

            — Conte-me  você, detetive. O que faz em meu sonho?

            — Sonho?! Que sonho?

            — Este que estou tendo…

            — Mas não é sonho. Você não se lembra do que lhe aconteceu?

            — Claro que lembro. Você colocava esta flor de cheiro forte em meu nariz. 

            — Não, não. Isto não foi nada. Eu estou falando do Sacerdote de Cabeça de Bode que lhe colocou uma cobra na… no… Você não lembra?

            — Senhor detetive, já me basta estar sonhando com esta praia esquisita. Não me venha inventar histórias, sim? — E Milena empurrou o braço de Damastor com brusquidão, sentando-se no tablado.

            — Mas eu não acredito que a senhora não se lembre de nada! Há menos de cinco minutos eu a salvei de uma coisa horrível. Não se lembra mesmo?

            — Não. E não lembro porque não há nada para ser lembrado. Agora, já que está aqui, pode-me dizer que diabo de lugar é este? Em minha ilha é que não estou mesmo. E se não estou lá e estou aqui, alguém me trouxe. Como não posso ser carregada por Magia, então, ensina a lógica, estou dormindo. Simples, não?

À noite, Pargos ficava mais misteriosa e amedrontadora ainda.

À noite, Pargos ficava mais misteriosa e amedrontadora ainda.

            — E eu sei lá! — explodiu Damastor, pondo-se de pé e olhando em volta. Não havia o mínimo sinal da vila de pescadores. A luz prateada da lua cheia banhava um lugar arenoso e coberto de pedras negras. Ao lado deles, o mar revolto arrebentava furiosamente contra os rochedos e se quebrava na alvíssima areia da praia. Era só. O detetive recusava-se a aceitar aquilo como sendo um sonho. Caminhou para o tablado e apanhou a pistola de lá de cima. Disparou-a e sentiu o cheiro da cordite e da pólvora. A arma era de verdade. O odor característico também. Mas o cenário havia mudado fenomenalmente. “E Ivaldo. Onde estará ele? Eu não sonhei com a sua presença aqui. Ele veio mesmo e me deu esta pistola. Que lugar estranho é este, meu Deus?”

            Milena levantou-se e se encaminhou em direção ao estuário do pequeno rio. Damastor correu em sua direção. Tinha medo de que ela viessa a desaparecer também. Estava ficando desorientado demais para o seu gosto. Sentia-se inseguro e temia uma crise nervosa. Percebia-se à beira de uma. A areia macia e fria era agradável ao contato, mas Damastor estava com medo. Muito medo. Será que estava enlouquecendo? Aquilo tudo não passaria de uma alucinação?

            Milena desceu a ribanceira baixa do estuário e mergulhou os pés na água clara.

            — Damastor! — gritou ela. — Será que aqui também tem um jacaré como aquele que apareceu em minha ilha?

            Então ela se lembrava do jacaré. E se se lembrava, aquilo não era sonho. Ele chegou até onde estava a sua anfitriã. Milena levantara o vestido acima dos joelhos e andava lentamente em direção ao outro lado.

            — Milena! — chamou Damastor. — Não se arrisque assim. Eu não sei se há jacarés, mas o perigo pode ser o próprio rio. Quem lhe assegura que ele não é fundo?

            — Sou boa nadadora — disse Milena rindo e continuando a andar.

            — Por favor, volte aqui — pediu Damastor. — Eu estou muito cansado para ter de enfrentar outra luta.

            — E lutar contra quem? — riu Milena, já com água pela cintura.

            — Eu não sei e juro que não gostaria de saber — foi a resposta com voz abafada de Damastor, que se sentou na areia. Subitamente  sentia-se sem forças e desanimado. Pegou-se com saudade da velha delegacia, logo ele, que sempre pensara detestar aquilo lá. E ao lembrar a delegacia, lembrou também de Ivaldo. Onde estaria? Sumira justamente na direção para onde ia a milionária. Por que todos pareciam ter estranha atração por aquelas bandas? Ergueu a cabeça e viu Milena afundar repentinamente. Era como se tivesse sido tragada pelas águas.