Ele não abdica de suas "guias" de modo nenhum.

Ele não abdica de suas “guias” de modo nenhum.

Meu velho amigo chegou, como sempre, sem cerimônia. Abancou-se em seu toco, acendeu seu pito e pachorrentamente esperou que terminássemos o ritual do Culto no Lar. É que, curioso como sempre, decidi fazer um curso denominado CUIDADORES DA ALMA, no Centro Espírita Ramatis. As cinco primeiras aulas não me despertaram interesse, pois o que ensinavam era, para mim, conhecimentos de “segundo grau”. Eles não vão além do Duplo Etérico. Quando muito, chegam ao Corpo Emocional e falam alguma coisa, muito leve, sobre o Mental Inferior ou Corpo Rupa, isto é, o Mental onde surgem imagens mnêmicas. Meu interesse cresceu quando veio a aula sobre CROMOTERAPIA. Eles possuem dois aparelhos “belíssimos” de aplicação de luz. Coisa com que eu sonhei muito possuir, quando tinha meu consultório de Psicologia Clínica, mas não havia onde obter, no Brasil. Eles importaram dos EUA um como modelo e, aqui, replicaram-no. Agora, se se integra o quadro de trabalhadores da casa, pode-se comprar um para si. Só por isto vou-me tornar um trabalhador. Nem que seja por somente um ano. Entretanto, quando adentraram o Reiki eu me interessei de verdade. A prática da aplicação de passes magnéticos eu conheço de sobejo, graças à Umbanda, ao Espiritismo de Mesa, ao Budismo e à Teosofia. Por isto, nada tinham a me acrescentar, exceto o fato curioso de que aplicam os passes com a pessoa deitada em uma maca. Na Umbanda, quem aplica o passe magnético é a entidade que está “incorporada” (caboclo, preto velho etc…). Eles o fazem estalando os dedos e, na maioria das vezes, “defumando” o Duplo Etérico com a fumaça do charuto ou do cachimbo, com a intenção de queimar e afastar as larvas etéricas e do baixo astral, atraídas para os corpos sutis dos consulentes devido aos seus vícios (fumo, bebida, drogas) ou pela sujeira que gruda em seu Ovo Áurico e é causada por seus maus pensamentos e más reações emocionais. No Ramatis este estalar de dedos não é aprovado nem permitido.

A propósito, consulte o endereço http://www.levir.com.br/salao7-video.php?num=0863 para aprender sobre os Chakras Etéricos. As aulas contidas ali são excelentes. Você vai aprender muito sobre algo que certamente desconhece totalmente.

O Duplo Etérico e os Chakras.

O Duplo Etérico e os Chakras.

Na Teosofia o passe magnético é aplicado com a pessoa de pé e de lado. O aplicador deve, antes, construir um par de luvas de cor azul-elétrico envolvendo as mãos. Isto tem a intenção de proteger o aplicador do “rebote” ao mexer com a sujeira do consulente. As luvas, quando a concentração é forte e firme, esquentam nossas mãos e esta é uma experiência bastante curiosa, visto que, para pessoas como eu, sempre questionadora e “fuçadora”, comprova a tremenda força do nosso pensamento sobre uma matéria que não se pode enxergar nem sentir de outra forma. E mais: a gente tem a “visão” das luvas, embora não necessitemos de fixar o olhar nas mãos físicas, pois se fizermos isto, elas nos aparecerão tal e qual a vemos naturalmente – de ossos, carne e pele. O que vemos é além da visão física. O magnetizado recebe os passes ficando de frente e de lado para o magnetizador.  Não é o magnetizador quem se move ao redor do consulente, durante o passe, mas aquele que recebe o passe é que se movimenta segundo orientação do magnetizador. O passe é dado na boca de cada chakra. Depois, cobre-se o magnetizado com uma proteção (um “ovo”) feito com luz cor-de-rosa, que é a Luz de Jesus, a Luz do Amor Divino. Em algumas pessoas, este “ovo” protetor é feito em cor Azul, a cor de Maria, a cor da Calma, da Devoção.

Vivi minha vida sempre no modo criança, isto é, perguntando sobre tudo o por que? infantil. O que quer que eu visse logo me perguntava: por que? E como todo curioso, ia atrás de uma resposta que me satisfizesse. Há os aventureiros que sobem montanhas e se lançam lá de cima em busca de "adrenalina". Eu busco uma satisfação íntima, além do sensório físico e dentro do sensório transpessoal.

Vivi minha vida sempre no modo criança, isto é, perguntando sobre tudo o por que? infantil. O que quer que eu visse logo me perguntava: por que? E como todo curioso, ia atrás de uma resposta que me satisfizesse. Há os aventureiros que sobem montanhas e se lançam lá de cima em busca de “adrenalina”. Eu busco uma satisfação íntima, além do sensório físico e dentro do sensório transpessoal.

Ali, no curso, eu estava mesmo interessado era em aprender o Reiki. Pêndulo era outra coisa da qual eu tinha todo o conhecimento teórico. Na verdade, nunca acreditei muito na sua eficiência, visto que a própria batida do coração, impulsionando o sangue através do corpo, faz que nossos dedos e até mesmo nossos braços pulsem sutilmente e esta pulsação é transmitida ao fio de onde pende o pêndulo. Assim, seu giro é questionável. Quando aprendia Tai-Chi-Tchuen com Mestre Wu-Chao-siang, ele, certa vez, me mostrou como um Monge Shao-lin controla até mesmo as batidas de seu coração. Tomou de uma espada especial, de lâmina muito fina e longa e de empunhadura com o dobro da empunhadura das outras espadas. Ele esticou o braço direito para o lado, ao longo do ombro, com o cabo da espada preso firmemente entre os dedos da mão e o final da empunhadura tocando seu braço. Permaneceu assim por longos três minutos. Não houve o mínimo movimento da ponta da lâmina. Então, ele mandou que eu segurasse a espada na mesma posição e não deixasse que a ponta da arma vibrasse de modo algum. Tentei isto por quase um ano e não consegui. O pulsar de meu coração fazia, num ritmo crescente, que a ponta da arma vibrasse até tornar impossível segurá-la na horizontal. Então, transferindo aquela experiência para o uso do pêndulo, as aulas sobre ele, ali no curso, também não me despertaram nenhum interesse. Mas quando os instrutores adentraram o tema do Reiki eu me interessei. E fiquei mais interessado ainda quando, em aula prática, tive a experiência sensorial que realmente me despertou o interesse. Como eu disse, sou muito terra-a-terra. Ou algo me sensibiliza de um modo bastante objetivo, ou eu vacilo feio.

Ao receber os passes do Reiki senti fisicamente o despertar de uma reação sensorial que não tenho palavras para descrever. Um “calor” em cada boca de chakra onde as mãos do aplicador parava. Nem mesmo na OM-AUM tive tal experiência. E no chakra frontal (Ajna) um relâmpago brilhou rapidissimamente em meu sistema perceptivo interior. Algo além de meu sistema nervoso. Uma raio de luz azul-claro, que brilhou uma fração de segundo (dentro de meu encéfalo, mas não nele mesmo) pois eu estava de olhos fechados. Isto, sim, prendeu fortemente minha atenção.

Quando recebi o banho de luz na Cromoterapia também sofri uma experiência sensorial, objetiva, direta. Quando a luz Violeta foi aplicada no meu Chakra Coronário, uma tontura seguida de grande calor espalhou-se gostosamente por todo meu corpo, mas principalmente em meu crânio. Prendi minha atenção naquela sensação, buscando captar cada mínima alteração que nela ocorria. Era real. Era objetiva. Era aqui-e-agora. Tudo o que eu aprendera teoricamente e desejara aplicar em meus pacientes de psicoterapia e nunca tive condições de fazer. Então, decidi entrar no corpo de trabalhadores do Centro Espírita. Seus orientadores me convenceram, não com arrazoados filosóficos, etéreos, mas com sensações objetivas e diretas. Além deles próprios.

Por algumas vezes, quando muito jovem, eu fiz projeções astrais involuntárias. Uma experiência extra-física das quais nunca me esqueci. Foram vívidas, intensas. No entanto, não vi nada além do que normalmente vejo. O extraordinário nelas era a velocidade com que eu me deslocava. Bastava pensar em alguém ou em algum lugar e instantaneamente eu estava lá. Ou diante da pessoa em quem pensara, ou sobrevoando o local pensado. Eu também não via nenhum corpo meu. Parecia que só possuía olhos, ouvidos e nada mais. Lamentavelmente, por não possuir ninguém fazendo experiências comigo, só visitei lugares que eu já conhecia. Fui a Teresina e vi minha mãe lavando roupa no tanque de nossa velha casa. E ela sentiu minha presença, pois parou de se concentrar no que fazia, olhou ao redor e, testa franzida de preocupação, chamou pelo meu nome. Também fiz uma visita ao meu pai, em seu trabalho, na ABI. Ele escrevia algo num folha de papel. Quando eu cheguei, ele me olhou diretamente, franziu a testa e, sem falar fisicamente, me perguntou: “O que você está fazendo aqui? Como se projetou?” Meu pai via espíritos de caboclos, pretos-velhos, exus e toda espécie de viventes em outras dimensões. Ele me viu e se espantou. Era a comprovação de que eu não estava em fantasias histéricas. Papai saiu às pressas de seu trabalho e veio correndo para a casa de sua irmã, minha tia Sinhá, onde foi-me encontrar estirado na cama, “semi-morto”. Sem tocar meu corpo, chamou meu nome por alguns momentos e, então, eu senti um tremendo puxão à altura de meu umbigo e despertei na cama onde havia deitado para descansar depois do almoço (tinha almoçado às 13:30h). Então, eu realmente tinha feito aquilo que os ocultistas, teosofistas e espíritas chamam de “projeção astral”. 

Orozimbo me chamou de volta à realidade objetiva. Eu estava sentado ao seu lado, como sempre, esperando que ele terminasse seu ritual com o pito.

— Vancê num é di rezá. Entonce, pru qui é qui tava lá, na sua mesa de armoçá, cum sua muié, rezando e dizendo aquele palavroado bunito, cuma se falasse cum arguém?

— Ora, Orozimbo. Você me conhece bem. Quando estou envolvido com orações e concentrações é porque alguma coisa interessante me despertou o interesse.

— Ué! E vancê já num sabe tudo o qui desejava sabê?

— Não, meu velho. Sei só um tiquinho assim. Meu ceticismo, se é que posso me definir como cético, me freia em muita coisa. É verdade que eu estava apático e desinteressado de tudo, até mesmo da Teosofia e do Espiritismo. Eu me sentia – e ainda me sinto – vazio. É que o que se vive neste mundo, atualmente, está totalmente fora de meu conhecimento e meus anseios íntimos…

— Hei! Pare de falá compricado. Véi num veio cá pra uvi o qui num intende.

— Eu só queria dizer que meu modo de ver e sentir o mundo está totalmente fora de sintonia do modo como ele é visto e sentido pelas pessoas, atualmente.

Orozimbo acenou afirmativamente com a cabeça. Permaneceu calado por um momento e, então, falou.

— É… Véi tombém se sente fora do ar. Parece inté qui as gente de hoje véve num tempo diferente daquele qui véi viveu, né não?

— É assim mesmo, Orozimbo.

— Véi num intende, home. As pessoa de hoje, véio ou não, véve grudado nesse tar de celulá. Véi observa qui todo mundo num tira os óio desta coisa ruim. E véi pede pra vê o qui derum pro meu netim. Sabe o qui véi viu? Besteira! Só besteira! Umas foto qui num tem nada de instrutivo… um bando de palavra isquisita, qui num ispreça nada útil, num sabe? Meu netim inté qui tenta traduzi aquilo pra eu, mas num dá não. É tudo tão vazio…

— Você está certo. Ali, no watsup, a gente não encontra nada muito útil, duradouro. Imediatista, sim. Coisas superficiais que, tão logo são postadas, já não mais têm valia pois outra novidade surgiu. É como as estrelas e os astros da Rede Globo de TV. Eles chegam novinhos, estalando. Uma graça na telinha. Cinco anos depois é um desastre. Estão cobertos de maquiagem pesada para esconder as rugas do cansaço e das noitadas tolas. As mulheres engordam e, ainda que mantenham a expressão da juventude, seus corpos já estão disformes, graças à genética mesmo, ou graças a uma malhação desesperada para vencer a concorrência com as novatas, enxutinhas como as veteranas já foram um dia.

Orozimbo me olhou de través e de testa franzida.

Em matéria de relação macho-fêmea, não se pensa mais com a cabeça de cima...

Em matéria de relação macho-fêmea, não se pensa mais com a cabeça de cima…

— Eu quero dizer, Orozimbo, que as mulheres continuam sendo objeto de consumo dos machos, ainda que os machos de nossa espécie estejam cada vez mais raros, para desespero de nossas fêmeas. As estrelas televisivas têm de se manter “menininhas”, engraçadinhas, mesmo quando o corpo já denuncia que já são fuçadas e estão a caminho do arquivo morto. O superficial é procurado com ânsia de desespero, pois o superficial é como a flor da cerejeira, que dura somente um dia. Só que o superficial, entre nos, humanos, passa numa velocidade bem maior. A velocidade do watsup ou do Face. Mal é transmitido para um grupo, já outros superficiais estão viajando à velocidade da luz para nublar o brilho do primeiro… Está entendendo?

— Hum-hum… — fez ele, acenando afirmativamente com a cabeça.

— Dizem as estatísticas que só no Brasil há cinco milhões de mulheres a mais do que homens. Isto é para desesperar qualquer jovem que busque um relacionamento sério, pensando no futuro.

No íntimo, todos querem chegar à velhice junto com alguém. Mas está cada vez mais difícil...

No íntimo, todos querem chegar à velhice junto com alguém. Mas está cada vez mais difícil…

— Na veíce, home, na veíce. A gente véia qui véve só, quando dá um piripaco é desesperadô. Num tem ninguém do lado para ajudá. Nem santo ajuda. Inté parece qui, nestas hora, eles tomam chá de sumiço, né não? Vancê, qui já teve in tudo qui é lugá de ispiritismu, deve de sabê bem o qui véi tá falando.

— Espirito, Orozimbo, já escreveu sua história aqui neste mundinho danado. Agora, é a vez de quem está aqui escrever a sua.

— Entonce, véi tá iscrevendo uma bibrioteca intera…

E ele deu aquela risadinha de mofa.

—Agora, home, falando séro, as muié devia mais du qui nunca se vendê caro. Mas não. Pur carqué vem cá min-a nega, elas já tão atendendo os macho. Aí, cuma é qui eles vão arrespeitá elas? Estalou o dedo e já tem uma na cama!

— Ei! Como é que você sabe disto?

— Ora essa, home. E apois véi num tem oiças, não? E nun tem netim qui tá ficando safadim, safadim? Os mininu de hoje, home, ficam véi depressa demais. Meu netim já anda de beijo na boca das minininhas. Cuma ele diz: “deu mole, zás!”

Atualmente, o erotismo cedo é incentivado até na Moda. Imagine que já há sutiã para crianças de 4 anos, com recheio que é para que ela fique mais "sexy".

Atualmente, o erotismo cedo é incentivado até na Moda. Imagine que já há sutiã para crianças de 4 anos, com recheio que é para que ela fique mais “sexy”.

Bom, ele andava bem atualizado. Devia mesmo ser graças ao Arturzinho, pois o moleque estava crescendo e era esperto como o diabo.

— Sabe, Orozimbo, isto aí, este assunto, é arquivo morto para mim. O que os jovens fazem já não me interessa mais. E o que os adultos fazem com os jovens e as crianças, também não. Aliás, nem o que os adultos e os velhos fazem entre si. Este assunto só me interessa se mexe diretamente comigo. Fora daí…

Ele permaneceu quieto por um longo tempo e quando falou já não mais estava dentro do assunto que conversávamos.

— Véio veio aqui, home, incurcado cuma coisa, num sabe? Seguinte: essa tar de reincarnação… Vancê acha mermo qui esse negóço é obrigatóro?

— Ué! Por que isto, agora, meu amigo?

— É qui véi tá sintindo que o tempo dele tá acabando, num sabe. Véi viveu munto. E põe munto nisto, home. E feiz um bucado de merda. E tombém põe merda nisso aí, num sabe? Véi inté matô!

— Você?! Você matou alguém, Orozimbo? Isto é novidade para mim. Como foi isso?

— Bão… Véi num tinha intenção de matá, pra falá a verdade. Um dia, era noitinha, lá bras banda de Recife, no Pernambuco, véi vinha de vorta da roça. Um sujeitim arreliado apareceu de repente cuma peixeira na mão dizendo qui era um assarto. Véi achô qui o safado tava de brincadera, pois Orozimbo nunca foi home de andá cum munto dinhero, nhor não. Mas o sujeitim tava falando a verdade. E cuma véi ainda num intendia isto, ele sapecou uma peixerada direto no peito de Orozimbo. Aí, mais no susto qui de intenção feita, véi sartô pra trás enquanto batia cum peito do pé dereito bem debaixo do queixo do pereba. E vancê sabe qui pé de capoeira é um martelo, né não? Foi pá-puf! O disgraçadim caiu durim, durim. Véi tinha quebrado o pescoço do danado. E cuma Orozimbo tinha ficado fulo da vida, pois a peixeira fez um rasgão aqui, óia, bem debaixo do mamilo isquerdo, ainda deu uma cusparada in riba do cadáver, antes de si ir imbora, num sabe? Adispois, quando a réiva tinha ido imbora, véi num se sentiu bem, nhor não. O pereba nem sabia sartá de banda, home! Tomou a lapada de frente, ora vê se pode! Véi foi inocentado na justiça dos home. Mas na justiça cá de dentro da gente, véi sente qui nunca se perduou. Véi é isquentado e já bateu num bucado de pereba. Mas nunca teve intenção de matá, num sabe? E o que mais dói em Orozimbo é saber que o peste tinha ido assartá pruqui a mulecada dele, in casa, passava fome… Adispois qui tudo serenô, véi trabaiô pur mais de dez ano pra ajudá a criá os minino do pereba. Tudo tá crescido. Eram três menino e uma menina. Todos foram casado e bem casado, num sabe? E todos já são avô. E têm Orozimbo cuma avô deles… Acho inté qui num se arrescordam da históra entre este véi e o pai deles. Mas a consciênça de Orozimbo num dá sossego… 

Os olhos de meu velho amigo se encheram d’água e eu me enterneci com isto.

Os pratos da Balança do Karma são complicados...

Os pratos da Balança do Karma são complicados…

— Bom, meu velho, a Justiça de Deus não pode ser avaliada segundo o que nós entendemos como Justiça. Você se culpa pelo que aconteceu. Mas será que o Criador não escreveu exatamente este drama em sua vida e na do pereba que você mandou para o outro lado? Veja, ele tinha os filhos, mas não tinha como sustentá-los. Você não tinha filhos, mas era trabalhador, corajoso e engenhoso. Tanto assim, que tomou a responsabilidade de criar os filhos do homem que matou sem intenção de fazer isto. O pai daquelas crianças saíra para assaltar. E se tivesse dado certo? Talvez ele terminasse por se acostumar a fazer isto e até ensinasse aos filhos a triste profissão de bandido. E pode ser que o Criador não desejasse isto para aquelas crianças… Aí, ele colocou você no caminho do homem fraco. A intenção d’Ele deu certo. Você pôs fim à jornada fracassada daquele coitado e o mandou subir, antes que ele enveredasse pelo lado escuro da vida e, pior, arrastasse atrás de si os seus filhos. Ao menos os meninos machos… E lembre-se: foi Jesus, o Filho de Deus, quem disse: “Não cai uma folha do galho de uma árvore sem que seja pela Vontade do Pai”…

Orozimbo deu uma fungada, enxugou os olhos e ficou calado, olhar perdido na grama seca abaixo de nós. Então, depois de um longo tempo meditando, voltou-se para mim, agora com o olhar brilhando de alegria, e falou:

— Home, vancê é mermo danado de sabido. E apois num é qui vancê tirô do peito deste véi aquela curpa que apurrinhô ele pur tantos anos? Eta cabra bom, sô!

Ele se levantou com um belo sorriso na face negra e se despediu.

— Espere, não quer saber o que eu penso sobre a reencarnação?

— Não. Agora, não. Adispois véi vorta pra cunversá sobre isso aí. Véi, agora, vai gozá o resto do dia cum este alívio qui vancê lhe deu. Inté a vorta, home!

E lá se foi ele, gingando como todo bom capoeira, só que, agora, com passadas revigoradas.

Que bom que ele era simples e se satisfazia com pouca coisa…