Ele tinha a palavra certa para o momento certo. Sempre. E não dizia nada que um homem sábio não pudesse dizê-lo. No entanto, por que jamais o fizeram?

Ele tinha a palavra certa para o momento certo. Sempre. E não dizia nada que um homem sábio não pudesse dizê-lo. No entanto, por que jamais o fizeram?

Os dois, Mestre e discípulo, caminhavam apressados e sem conversar, embora Primus ardesse de vontade de trocar algumas palavras com Issa. Fervia de curiosidade de saber como é que ele podia fazer o que fazia totalmente desarmado e totalmente destemido. Ele tinha conhecido homens corajosos, mas nenhum deles dispensaria armas para se proteger de outros homens tão ferozes quanto eles. Mas Issa era diferente. Agia sempre com alegria, mas quando tinha de ser firme e decidido, sua postura inibia os mais audaciosos. Seu olhar era como uma espada… Um punhal acerado. Sua palavra soava como o ribombo do trovão. E a ira que transmitia aos ouvidos de quem as ouvia fazia que tal pessoa ficasse petrificada, paralisada e desorientada. Vira-o fazer isto várias vezes e, ainda assim, abismava-se diante daquele poder incompreensível. E como podia curar com o só passar a mão acima do corpo do ferido, como fizera com ele por duas ou três vezes? De onde lhe vinha aquele poder maravilhoso? Ele pusera de pé toda uma tribo celta entre um dia e o outro. Era um milagre, tinha de admitir. Mas ele afirmava que não havia nada de sobrenatural naquilo. Tudo era normal, simples, e qualquer um podia fazer o que fizera. Como? O que diabo era a tal Fé de que ele vivia falando?

Dizia-se que um celta sem sua montaria não era um celta.

Dizia-se que um celta sem sua montaria não era um celta.

— Atonchau, vamos voltar para a aldeia de Bryan. — Issa não vai mais voltar. Ao menos, não voltará por nós. O que fizemos foi vergonhoso e creio que ele não nos perdoou.

Atonchau permaneceu calado, olhar perdido entre as copas das árvores. Então, com um suspiro, concordou com a decisão de Luprécio com um aceno de cabeça. Não tinham armas e nada que levar. Era só colocar os pés na estrada e dar ensejo à longa caminhada. E eles o fizeram, sem conversar. Iam envergonhados e amargurados. Pedir a aceitação de Bryan ia ser duro para qualquer um deles, pois eram orgulhosos. Mas não tinham outra opção. Os germanos não os aceitariam, nem mesmo o rei Armínio. Seriam discriminados e viveriam sempre sob suspeita.

Caminhavam em silêncio. Intimamente Atonchau se arrependia de não ter lutado para manter suas armas consigo. Issa o deixara nu, e a seu companheiro, diante de inimigos que lhes surgissem pelo caminho.

— Tua face diz que estás inquieto. Por que? — Perguntou Luprécio, que vinha observando seu companheiro atentamente pelo canto dos olhos. A sombra de preocupação e a face crispada do outro o preocupava.

— Sim, estou — respondeu Atonchau, lançando um olhar de esguelha para o companheiro. — Na verdade, Issa me roubou a paz. Antes eu não o tivesse conhecido.

Luprécio caminhou em silêncio por um tempo. Então, rebateu.

— Não digas que ele te roubou a paz. Ele nos ensinou que a paz é um estado íntimo. É algo nosso. Está em nosso interior, em nosso coração. Ninguém pode roubar nossa paz. Nós é que podemos fazer coisas que a perturbam. Então, a responsabilidade por ter nossa paz perturbada é toda nossa. É o que fazemos que pode perturbá-la.

— Ele perturbou minha paz quando se recusou a nos levar em sua companhia e disse o que disse.

— E o que ele disse?

— Como?! Não te lembras? Ele disse: “Ao menos não fujam. Já é uma boa coisa”. Nós não…

—… merecíamos ouvir aquilo?— Cortou Luprécio. — Ora, vamos, Atonchau. Nós merecemos aquilo e muito mais. Desonramos nosso povo; desonramos a nós mesmos, como guerreiros que somos. E traímos a confiança de quem nos tirou de situações complicadas sem cobrar nada por isto. Tens de reconhecer que Issa não é responsável pela perturbação que te agonia. Eu também estive às voltas com o mesmo questionamento que tu deves ter feito a ti mesmo. A acusação íntima de que agi covardemente naquele campo de batalha, fugindo enquanto o romano Primus permanecia firme na defesa do corpo de Issa me atormentou por um tempo. Ainda nem estou certo de que ele estava mesmo morto, como tu alegaste para me convencer a fugir e abandonar os dois lá naquele combate sangrento. Se estivesse, os romanos não teriam carregado a maca para seu acampamento. É o que penso. Seja como seja, estive às voltas com minha consciência por uns dois ou três dias. Mas, como o próprio Issa disse certa vez, se eu vivesse mil vezes aquela situação, mil vezes eu teria agido do mesmo modo, não é? Segundo ele, não se pode mudar a história traçada para a nossa vida e eu aceito sua afirmação porque ela me parece muito coerente com o que aprendemos em nossa própria religião. No círculo de Abred nós não temos muitas opções. Só podemos agir e reagir de conformidade com nossos limites mentais, emocionais e físicos. E estes limites são fruto do meio em que nascemos, crescemos e fomos educados. Nós não nascemos perfeitos, meu amigo. A gente tem de aprender com o grupo e o que o grupo aceita como certo e legal é o que ele nos ensina. E isto é lógico, embora, aprendi com Issa, nem sempre o que o grupo ensina como a verdade seja realmente de conformidade com o que nosso Pai Celestial, como o chama Issa, tem como tal. Talvez, lá, no campo de batalha, tu e eu tenhamos atingido nosso limite nos três campos – o físico, o emocional e o mental. Isto me serenou o sentimento.

Atonchau parou e encarou seu parceiro, com expressão de ira contida.

— Não quero brigar contigo, portanto, não prossigas.

— Não prosseguir em quê? — Perguntou Luprécio, surpreso, mas sustentando o olhar beligerante do outro.

— Com tua fala. Estás-me perturbando.

— Que seja. Mas não sou quem te perturba. Procura em ti mesmo a causa, senão, não encontrarás a paz que perdeste.

— Tu estás mesmo do lado daquele… Issa!

— Estou. Eu me arrependo de meu momento de fraqueza, mas não me condeno por aquilo. Issa se magoou? Ele tem razão para isto. Então, eu admito minha fraqueza, minha covardia. Se fizeres a mesma coisa, não continuarás a fugir de ti mesmo, entendes? E tua paz voltará. E eu creio que até mais sábia.

— Vai atrás dele, então! Deixa-me em paz! — Urrou descontrolado Atonchau.

Luprécio encetou a caminhada, dizendo para o amigo fora de si.

— Culpa, Atonchau, não se aquieta com gritos. Ela tem de ser resolvida no íntimo do culpado. Aceita-a e não lutes contra ela. Traz a causa de tua culpa para a luz de tua consciência. Olha-a de frente. Admite o erro que te levou à culpa. Sem censuras. Sem medo. Sem fugas. Assim, acabas com esse tormento. E se te cobras uma justificativa junto àquele a quem por ventura tu prejudicaste, estimula tua coragem íntima e vai ter com o ofendido. É melhor um momento de agonia, que anos de sofrimento sem descanso.

Atonchau não conseguiu rebater e, por isto, afastou-se de seu companheiro. Andaram assim, afastados entre si, até chegarem à aldeia do rei Armínio. Foram levados diretamente ao germano que os olhou de modo frio e expectante.

— Onde está Issa? — Perguntou Armínio para quebrar o silêncio dos celtas.

— Não sabemos — respondeu Luprécio.

— Como? Vós não estáveis com ele? Não fostes com ele à aldeia de Haimirich?

Luprécio contou em minúcias o que tinha acontecido. Armínio os ouviu em silêncio. Quando o celta terminou sua narrativa o rei levantou-se e lhes deu as costas. Permaneceu em silêncio por um longo tempo e, quando falou, fê-lo ainda de costas para os dois homens.

— Eu poderia mandar matar-vos por vosso comportamento execrável. Mas decido que não. Vós sereis levados de volta à aldeia de onde sois. Lá, o comandante da escolta relatará ao chefe de ambos o que fizeram e que desonra todos os celtas. Que seja ele a vos aplicar a punição que mereceis.

Amarrados pelos cotovelos a uma vara atravessada atrás dos corpos, os celtas tiveram de encetar a caminhada escoltados por seis germanos mal-encarados. Luprécio seguia resignado, mas seu amigo estava com a face carregada de ódio. Evitava cruzar o olhar com o dele, o que lhe dizia que Atonchau alimentava pensamentos de mágoa, rancor e vingança.

Issa seguiu adiante, quando chegaram ao local onde haviam deixado os dois celtas. Primus estranhou que ele não parasse para encontrá-los e questionou o mestre. Mas Issa lhe disse que os tolos tinham ido atrás de mais encrenca e que eles dois tinham que apressar o passo a fim de evitar acontecimentos mais funestos.

Sua argumentação era sempre em defesa do homem até mesmo diante de seus próprios juízos.

Sua argumentação era sempre em defesa do homem até mesmo diante de seus próprios juízos.

E foi à tardinha do segundo dia de caminhada que chegaram à aldeia de Armínio. Issa, com suas passadas elásticas e rápidas, percorria entre 8 a dez quilômetros por hora. E começava suas caminhadas bem cedo, tão logo a luz solar emprestasse a cor rósea ao céu do amanhecer. E, ainda que tendo tido um treino militar pesadíssimo, foi custoso a Primus acompanhar seu Mestre. Foram recebidos com alegria e levados a tomar banho no riacho a fim de se livrarem do cansaço. Depois, foram alimentados fartamente com frutas, leite e peixe assado. Issa aceitou tudo, inclusive o peixe. E comeu com um assombroso apetite. Então, quando já estavam descansados e reconfortados, sentaram-se para informar ao rei Armínio do resultado de sua jornada.

Armínio e seus Druidas e Druidesas ouviram silenciosos a narrativa de Issa. Demonstrações de assombro não havia em suas expressões faciais, mas a troca de olhares entre si dizia bem o quanto estavam espantados com tudo o que ouviam. E Issa concluiu, dizendo:

— Podeis descansar, vós todos. Assim como os romanos não mais atacarão a aldeia de Hrodulf e seu irmão, Haimirich, também assim a aldeia destes não vos atacará. A missão de que fomos encarregados foi cumprida. Agora, gostaria de poder ir dormir. Meu discípulo e eu estamos cansados da caminhada puxada que tivemos de fazer para alcançar nossos celtas fujões e que vós pusestes a correr sem aguardar por meu retorno.

— Foi realmente uma decisão impulsiva — admitiu Armínio. — Mas não nos agradou que eles vos tivessem traído.

— Não houve traição. Um homem pode sentir medo diante de um número muito superior de inimigos. E pode achar que não há porque entrar em uma guerra que não diz respeito diretamente à sua aldeia. Eles pensaram corretamente, considerando o estilo de vida que vivem desde quando nasceram nesta terra. Ninguém pode, meu irmão, quebrar o jugo que a crença e os hábitos de uma comunidade lhe coloca no pescoço.

— Eles te abandonaram — contestou o Rei.

— Não. Eles abandonaram um cadáver esquálido sobre uma improvisada maca de galhos, no meio de um campo de batalha feroz, pelo qual, corretamente, pensaram não ter razão para arriscar a própria vida. Quem de vós não pensaria semelhantemente na situação premente em que eles se encontravam? A batalha era entre germanos e romanos. Eles são celtas. Nada mais natural que pensassem que nada tinham haver com aquilo.

Houve silêncio e os germanos se entreolharam, agastados. Então, Armínio assentiu com a cabeça e indicou aos dois a saída. Estavam livres para irem dormir na cabana a eles destinada. E assim fizera.

Era manhã cedinho e já Issa estava de pé e fazendo o desjejum que lhe oferecia o rei Armínio. Primus o acompanhava recomposto pela noite serena e longa de sono repousante. Sabia que logo estaria pondo em teste  sua capacidade de resistência física, pois acompanhar seu Mestre não era para qualquer um.

Foi mais um dia e meio de marcha forçada até chegarem à aldeia de Bryan e Allan. Foram recebidos com alegria e levados até os dois fujões. Sem se incomodar com o cansaço da longa caminhada, Issa sentou-se ao lado de seus discípulos, acompanhado pelos dois chefes da aldeia. Eles queriam ouvir de Issa suas aventuras, narradas pela metade pelos dois companheiros. Nenhum dos dois, Bryan e Allan, tomara a decisão de punir os discípulos agastados de Issa. Nem mesmo fizeram menção de os expulsar da aldeia novamente. Simplesmente Bryan mandou que fossem obter novas armas e se integrar ao grupo de guerreiros, para treinar ativamente como tal. Ambos, Atonchau e Luprécio, estavam constrangidos ali. A presença de quase toda a tribo os fazia sentir mal, pois todos conheciam em detalhe o que havia ocorrido no campo de batalha. Issa mais uma vez narrou com detalhes os acontecimentos, inclusive a estranha visita de sua mãe, o que havia despertado grandes fantasias entre romanos e germanos. Os celtas também ficaram impressionados, mas não fizeram comentários.

Quando a voz de Issa cessou de falar, fez-se grande silêncio. Então, o Mestre voltou-se para os dois amigos que, cabisbaixos, não ousavam olhá-lo de frente.

— O que tendes a me dizer? — Perguntou e no pesado silêncio do momento suas palavras soaram estranhamente alta demais.

— Nada — respondeu Atonchau com voz surda e feições fechadas.

— E tu, Luprécio, o que me tens a dizer?

— Que me penitencio de minha covardia para contigo, Issa. E peço que perdoes meu companheiro. Ele se sente muito culpado por sua covardia lá no campo de batalha. E não se perdoa por isto.

Issa voltou-se para Atonchau e lhe tocou o ombro, obrigando-o a que o olhasse nos olhos.

— É verdade que tu te julgas?

Pigarreando, o celta assentiu com um aceno de cabeça.

— E podes me dizer de quê?

— Eu fugi.

Fez-se silêncio, durante o qual Issa se contentava em desenhar a figura de um peixe no solo. Ele parecia querer aquele silêncio e quando julgou aprazado o momento, falou.

— Por que os homens têm sempre de viver apontando um dedo acusador contra si mesmo, quando nosso Pai Celestial não o faz jamais contra eles?

— Podes ser mais claro, Issa? — Pediu Bryan, todo atento, pois sabia que Issa não jogava palavras ao vento.

— Vêde — iniciou Issa, voltando-se para o chefe. — Eu tenho dito insistentemente que nosso Pai vive em cada um de vós. Nasce convosco desde mesmo quando ainda estais sendo gerados no ventre de vossas mães. Cresce convosco. Sofre as decepções e goza as alegrias que vivenciais em vossas vidas. Mas Ele não acusa jamais a qualquer um de vós. Ele apenas sorri de vossas fraquezas, de vossos medos, de vossas ações infantis. Então, se o Pai não vos acusa, por que tendes necessidade tão grande de o fazer?

— Mas Luprécio e seu companheiro te abandonaram à conta do romano, não foi isto o que aconteceu? — Obtemperou Bryan, para alívio de Atonchau que não desejava encetar nenhuma conversa com aquele que era a causa de seu desassossego.

— Por que não podeis ver diferente? — Perguntou Issa, olhando dentro dos olhos azuis do chefe da aldeia celta.

— Mas é a verdade que tu e eles dois nos contaram — rebateu Bryan, sustentando o olhar inquiridor de Issa.

— Verdade?! Digo-vos, chefe celta, que a Verdade tem mil faces e nenhuma expressa sua realidade mesma. Vós os julgais segundo a verdade do grupo? Ou segundo a verdade que aceitastes a partir dela? Vós o sentenciais segundo um valor verdadeiro ou segundo os valores que filtrais como vossos a partir das crenças do vosso grupo?

— E tu, como tu os julga? — Obtemperou Bryan, sem se dar por vencido.

— Ora, eu estou a cavaleiro desta situação, pois não faço nenhum juízo de valor sobre qualquer um dos dois. São homens. São guerreiros. São celtas e foram criados com os valores e as verdades celtas. Então, agiram segundo o que lhes foi inculcado em vosso meio, em vosso grupo. Como poderia, qualquer um deles, agir de modo diferente, se qualquer outro, dentre todos vós, na mesma situação e tendo passado tudo o que eles tinham passado, não teria agido de modo diferente?

— Primus não é celta, mas romano e agiu contrário aos costumes dos romanos. Explica isto, se podes fazê-lo — desafiou Bryan, com um sorriso no rosto e os olhos brilhando de satisfação. Ele gostava muito de desafios e estava enfrentando um com uma pessoa extraordinária. Isto o estimulava. Issa o olhou e sorriu com simpatia. Gostava do chefe celta. Era uma pessoa de valor e um Espírito de grande força.

— Não, Bryan, Primus não é mais de nenhuma nacionalidade humana — rebateu Issa, pousando a mão sobre o ombro de seu discípulo. — Primus adotou a cidadania do reino de nosso Pai e quem é cidadão daquele Reino, não pertence a nenhum ínfimo reino humano. Direi de modo diferente: Primus aprendeu de verdade, convencidamente, que é irmão de todos os homens sobre a terra e não faz sentido que se distingam por detalhes de somenos. Ele, como eu, aceita a todos indistintamente.

— Mas tu nos disseste: Ao menos não fujam. Já é uma boa coisa” — falou com voz soturna e com dificuldade o pobre Atonchau.

— Sim, eu disse isso. E daí? — E Issa se voltou para seu discípulo em crise.

— Daí que foi a mesma coisa que nos acusar de covardia.

— No entanto, não era esta minha intenção. Por que colocais pensamentos e juízos em mim, que não me pertencem? Por que agis tão mal para comigo, se nunca o fiz para convosco?

— O que queres dizer com isto? Tu nos confundes. É de propósito? — resmungou Luprécio, olhando rápido para a face de Issa e voltando a olhar para os próprios pés. Issa meneou a cabeça, desaprovadoramente.

— Sou teu Mestre. Então, não fales comigo olhando para o chão. Respeita-me como eu te respeito.

Houve um momento de constrangimento que deixou a todos se sentindo incomodado. A vergonha de Luprécio subitamente pareceu ser a vergonha de todos eles.

— Não foi com a intenção de vos humilhar que eu vos disse o que disse, mas sim com a intenção de vos resguardar de vossas próprias fraquezas. Quem vinha atrás de mim não vos tinha em boa consideração. E vossa postura culposa deporia contra vós mesmos e vos aumentaria a condenação no juízo deles. Eu não desejava que tal coisa acontecesse convosco. Quando vos disse que permanecessem ali e não fugissem tinha a intenção de vos resguardar de um comportamento que só pioraria as coisas para vós entre os da tribo de Haimirich. Se fôsseis capturados sem mim para vos defender, como é meu dever como vosso Mestre, certamente seríeis massacrados. A impressão que os germanos tinham de vós naquele momento era a pior possível. Como pudestes entender tudo errado?

Os celtas se entreolharam, agastados. Então, com voz rouca, Luprécio pediu.

— Perdoa-nos Issa. Nós erramos contigo.

— Não comigo, mas convosco mesmo. Nunca aprendeis que eu não vos julgo? Sois o que sois porque só podeis ser isto. Se fôsseis dois cães, poderia eu jugar-vos segundo o modo de pensar de um homem para com outro homem? Claro que não! Eu teria de descer meus julgamentos ao nível dos dois animais, que são limitados quanto ao como se comportar para com seu dono. E como não sois cães, mas homens, eu vos tenho como homens. E homens não podem ser julgados por ninguém…

— Por ninguém?! — Cortou Bryan, todo atento.

— Não vês que o pior juiz de um homem é ele mesmo? Olha para Atonchau. Ele é quem mais se julga e mais se condena. Ninguém o faz melhor que ele mesmo. Mas por que? Por que a necessidade de se impor tamanho castigo? Vêde, Bryan, não deveis ser severo convosco mesmo. Nem vós convosco, nem ninguém consigo próprio. Apenas deveis aceitar o que fazeis e o como fazeis, pois ou não poderíeis fazer diferente, por força das circunstâncias, ou o fazeis devido a uma forte convicção nascida do grupo a que pertenceis, a qual turva vosso valor pessoal. Há os que fazem o mal sabendo que agem mau para com seus semelhantes. É o caso dos imperadores e senadores romanos. Eles sabem muito bem que agem mal, por isto, criam Leis que lhes aliviem as consciências culposas. Quando um grupamento humano se entrega freneticamente a fabricar leis é porque seus espíritos já não mais pensam com clareza. Já deixaram o reino do Pai e passaram a viver pelas regras do reino dos encarnados. E aqui, a Ilusão domina tudo. Então, aqueles espíritos se perdem. Para sempre, pois é difícil a quem mergulha no Mal Social encontrar saída do vício de fazer o que é mau. No entanto, eu vos digo com minha autoridade de Filho do Homem: a Lei é uma única: Fazei ao vosso irmão o que desejais que ele vos faça. E esta Lei tem uma complementar, que sem ela, a primeira não pode ser obedecida: Amai ao Pai sobre todas as coisas. E como amar ao Pai Celestial? Simples: não pratiqueis iniqüidades.

Issa calou-se e o silêncio se prolongou entre os presentes. Todos estavam circunspectos. Em cada um dos presentes, uma tempestade de reações emocionais se desencadeava. Issa pôs-se de pé e convidou seus três discípulos a segui-lo. Não ficariam na aldeia de Bryan, mas acampariam na margem do córrego onde costumavam ficar. Issa precisava falar com eles, a sós.