Como Jesus falou com o Pai enquanto estava no escuro, sobre o topo de um morro que se acreditava assombrado pelo diabo? Ninguém sabe.

Yehoshua Meditava diante de seus discípulos e eles ficavam maravilhados com sua quietude.

Durante horas o Mestre se manteve afastado dos três discípulos que, para passar o tempo, pescavam peixe no riacho e os preparavam para o almoço. Issa estava de costas para eles, em meditação. Sentado, com as pernas cruzadas e os pés trespassados sobre as curvas dos joelhos, ele parecia ter-se ausentado completamente do ambiente. Luprécio parou de esfolar o peixe que Atonchau lhe tinha trazido e, voltando-se para Primus, comentou:

— Sempre me espanta a capacidade dele de ficar horas sentado daquele modo esquisito. Uma vez até tentei, mas deu câimbras em minhas pernas. E minhas costas não aguentaram muito tempo, esticada como estão as dele.

— É um modo de meditar que ele aprendeu num Mosteiro Budista. Como seu aprendizado se deu enquanto era criança, facilmente pôde condicionar o corpo para ficar como está, agora, sem se cansar. Não vai acontecer isto nem comigo nem com vós. No entanto, conforme ele já me disse, o modo de sentar não importa. Importa, sim, é o ato da concentração. E acreditem, é muito difícil ficar concentrado em um único pensamento além do som e da forma, quando se está no meio da floresta e à beira de um riacho cantante, como este em que nos encontramos. Tem-se de ter um domínio acima do comum, muito acima mesmo, para se “apagar” para o mundo que nós vemos.

Yehoshua deixou seus três discípulo europeus na margem de um regato como este.

Yehoshua deixou seus três discípulo europeus na margem de um regato como este.

— Não são só o som e a forma o que perturba — disse Luprécio dando um violento tapa no braço, onde um mosquito se saciava com seu sangue.

— Eu já vi suas costas totalmente picadas por mais de uma dezenas de mosquitos, quando ele se sentou para meditar, certa vez. Estava toda vermelha, mas ele não se incomodava com aquilo. Sua resistência à dor é espantosa — comentou Primus, com um profundo suspiro.

— Será que um dia nós vamos conseguir tal controle de nossa mente e nosso corpo? — Quis saber Atonchau.

— Creio que sim. Eu, pelo menos, já consigo muito. Mas tenho treinado sempre e sempre — Informou Primus, voltando seu olhar penetrante para o celta.

— Se querem saber — falou Luprécio, com entonação carregada. — Não sei bem o que Ele deseja de nós. Aliás, nem sei como é que Ele realmente pensa. Quando fala, tudo parece muito claro. Mas depois de um tempo, suas palavras são confusas; seus conceitos são muito estranhos e a gente fica perdido em um turbilhão de pensamentos desencontrados.

— Bom, nisto eu posso ajudar — falou Primus, olhando para o celta a seu lado. — Não penses nas palavras que ele pronuncia, mas na mensagem que elas trazem. Não são as palavras, mas a mensagem que trazem até nós.

— Explica-te melhor que eu não te compreendi — pediu Luprécio, sentando-se ao lado de Primus.

450 homens votando Leis que eles mesmos não cumprem. Esta é a vida de ilusão dos homens.

450 homens votando Leis que eles mesmos não cumprem. Esta é a vida de ilusão dos homens.

— Vamos ver se consigo. Lembram do que ele disse há pouco? Quando um grupamento humano se entrega freneticamente a fabricar leis é porque seus espíritos já não mais pensam com clareza. Já deixaram o reino do Pai e passaram a viver pelas regras do reino dos encarnados. E aqui, a Ilusão domina tudo. Então, aqueles espíritos se perdem. Para sempre, pois é difícil a quem mergulha no Mal Social encontrar saída do vício de fazer o que é mau. No entanto, eu vos digo com minha autoridade de Filho do Homem: a Lei é uma única: Fazei ao vosso irmão o que desejais que ele vos faça.”

— Eu me lembro — disse Luprécio. — Mas é confuso.

— Se tu te esforçares para compreender suas palavras usando o raciocínio comum, não o compreenderás, Luprécio. Mas se pensares assim: “Há dois reinos. Um celestial, correto, sem erros. Outro, humano, terreno, cheio de erros e vícios. Para ordenar os erros o homem tem de criar Leis, mas elas não conseguem o objetivo visado porque atuam de fora para dentro e segundo a vontade de um único homem, o Rei, o Chefe, impondo-se sobre a vontade dos demais. Há, contra suas leis, sempre quem esteja disposto a violá-las. Por que? Ora, porque elas são imperfeitas. Mas em contrapartida, há uma regra de ouro que se deve levar em consideração sempre: não devemos fazer ao nosso próximo o que não queremos que ele faça conosco. Ou seja: não devemos ferir a outro homem ou a outro ser vivente qualquer, pois assim lhes damos o direito de também nos ferirem. Esta Lei está dentro de nós, seres vivos, independentes de sermos humanos ou não. Pertence ao reino de que Ele nos fala – nosso céu interior. É dali que nos são reveladas as verdadeiras Leis do Pai Celestial. Somos guerreiros… ao menos já o fomos e creio que vós, como eu, depois da batalha, vos sentistes mal ao olhar os corpos dos que matastes na luta. Talvez tenhais pensado como eu pensei muitas vezes: para quê tanto sangue derramado?”. 

— Tu acabas de citar a Lei de que ele falou — exclamou Atonchau, com um riso alegre.

— Temos o que comer? — A pergunta levou os três homens a quase saltarem de susto. De pé, diante deles, estava Issa, embora nenhum tivesse dado conta de que ele se tinha levantado de onde estava.

— Sim, nosso almoço já está quase terminado. Temos quatro peixes grandes já assados e dois no braseiro. Se quiserdes…

— Frutas?

— Algumas. Estão aqui — e Atonchau desembrulhou um pano de onde retirou algumas frutas frescas, trazidas da aldeia. Yehoshua sorriu e se sentou ao lado deles.

— Vamos, então, comer. Estou faminto.

E todos se puseram a comer os peixes, inclusive Yehoshua, que, ao terminar o seu, também comeu algumas frutas das que Atonchau tinha trazido. Satisfeitos, lavaram as mãos nas águas do riacho e se sentaram em semi-círculo ao redor do Mestre.

— Issa — falou Atonchau — tu nos citaste uma Lei que não tem erro, o que é raríssimo. Onde tu aprendeste sobre ela? Creio que não é de tua autoria, não é?

Ele foi misterioso até o fim, pois naquele tempo ninguém podia entender seu Poder Absoluto sobre todas as coisas.

Ele foi misterioso até o fim, pois naquele tempo ninguém podia entender seu Poder Absoluto sobre todas as coisas.

— Não. A Lei é do Pai desde quando Ele fez o céu, a terra e tudo o que nela tem existência. E foi citada pela primeira vez antes de eu nascer entre os hebreus, por um pensador chinês, que viveu e morreu muito antes de mim. Chamava-se Confúcio. Como vêdes, a Lei é perene e está acima de qualquer outra que o homem crie. Ela, por si só, regula a vida dos que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir. Mas o espírito desta Lei já regia a vida dos Egípcios uns cinco mil anos antes de Confúcio nascer. Os egípcios praticavam a Paz e buscavam viver em paz com os outros povos porque os tinham como seus irmãos e seus semelhantes. Entre eles não havia a escravidão. Os homens, ainda quando nesta condição, quase sempre por vontade própria a fim de saldar uma dívida que não podiam pagar imediatamente, recebiam bom tratamento e até paga por seus serviços. Não havia o chicote nem a tortura, como há, atualmente, entre os homens que se perderam da Lei.

— Já fostes à China? — Admirou-se Atonchau.

— Eu já estive em todo e qualquer lugar da Terra, meu amigo. Onde há seres humanos, lá já estive.

— Mas… Isto é possível?

— Não somente para mim, como também para vós. Podeis fazer o que eu faço e até muito mais. Basta que o queirais com todo vosso coração e com toda vossa Força de Vontade. E eu aproveito este momento para me despedir de vós. Sois, de agora em diante, meus representantes entre os povos que habitam este lado do mundo. Pregai a Boa Lei. Ensinai os homens a se amarem uns aos outros. Ensinai-os a não mentir; a não levantar falso testemunho com vistas a obter alguma vantagem sobre seu irmão. Isto é mau para o Espírito e quando deixarem este corpo, terão de explicar ao Juízo interior deles mesmos, os erros que cometeram porque se entregaram à vida de ilusões. Vede ao vosso redor: nada disto existe de verdade, pois a Verdade é Perene e tudo aqui é passageiro. O que tiverdes vivido ontem só valeu para ontem. O que tiverdes vivido há um instante atrás, só valeu para aquele instante. Tudo é mutável neste mundo, logo, tudo é incerto. Vêde a água deste riacho. No momento em que a olhais, ela está presente diante de vossos olhos. No entanto, não podeis identificar, na corrente, a porção de água que acabastes de ver. Podeis esforçar-vos o quanto quiserdes, mas jamais podereis dizer: “foi para este punhado de água dentro deste riacho que meus olhos olharam agora há pouco”. Assim como é a água, são as verdades dos homens. Elas não existem. São uma corrente sem fronteiras. As civilizações se modificam? Então, as Leis que as regem também se modificam. O que era certo ontem, é errado hoje. E será assim sempre, se o homem não se voltar para a verdadeira Lei. E esta Lei diz que vós deveis amar ao vosso próximo como a vós mesmos e não deveis fazer a ele o que não desejais que ele vos faça. Mas, acima do amor humano fraternal entre vós, ensinai que há um único Deus, um único Pai e este não pode ser questionado. Suas Leis são perenes e são intuídas pelos homens de boa vontade. Nenhum ser celestial vos virá ditar Leis, por mais que vossas fantasias infantis vos digam isto. Na verdade, a Verdade brota na mente dos que se entregam à meditação profunda. E para isto, é mister que o homem se livre da Ilusão. O ouro é ilusão. A prata é ilusão. O domínio de um sobre muitos é ilusão. A espada é ilusão. Todos sois iguais perante nosso Pai. Foi para vos lembrar disto que desci do céu até à Terra. Vós, humanos, estão-se afastando da Verdade e mergulhando na escuridão da ilusão  e isto será vossa perdição, se não mudardes o rumo de vossas vidas. Deixai de lado o orgulho, deixai de lado a arrogância, abdicai da ganância e não dai valor ao que valor nenhum tem. Há somente um Valor entre vós: A Lei que manda que deveis amar ao vosso Pai sobre todas as coisas e a vós mesmos, como irmãos que sois. Não existem celtas, nem romanos, nem germanos nem chineses nem povos nenhuns. Existem homens e independentemente de como se vistam e de como se comportem; independentemente do que acreditam ou não, sois iguais em carne e em Espírito, pois sois a máxima a Criação do Pai sobre esta terra.

Issa calou-se e o silêncio se fez entre eles por um tempo. Então, o Mestre se pôs de pé e aproximou-se de cada um dos três homens, tocou-lhes a fronte enquanto dizia baixinho: “Eu vos concedo a visão interior plena. De hoje em diante, sabereis intuitivamente o que deveis fazer ou dizer quando vos virdes entre lobos raivosos. Não temais. Nosso Pai está sempre convosco e eu, também”.

Então, Issa afastou-se sorrindo um sorriso amoroso, que fazia seu rosto brilhar com uma beleza ímpar. Permaneceu assim, diante dos três homens boquiabertos. E eles começaram a notar que seu corpo se desfazia, ficava cada vez mais translúcido até que onde ele estivera restava somente uma luz em forma de um grande ovo cor de rosa. Um ovo luminoso que também se desfez como uma bolha de sabão…

Os três homens sentiram uma saudade enorme assomar-lhe aos peitos e sentiram uma solidão tão grande como jamais antes tinham sentido…