VOL II – CAP. I – No chalé (conclusão)

Os fenômenos estranhos se sucediam e ninguém os sabia explicar. Por que? Ainda há coisas sobre a Terra que o homem desconhece.

Os fenômenos estranhos se sucediam e ninguém os sabia explicar. Por que? Ainda há coisas sobre a Terra que o homem desconhece.

Após o sopro do pescador, o corpo de Ivaldo perdeu a rigidez. Seu pênis começou a perder a ereção e a sair de dentro de Andréa.

O que está acontecendo, senhor?” — perguntou a mulher, preocupada com o que sentia dentro de si.

— O elemental físico de Ivaldo necessita de descanso, Andréa. É muito intensa a carga energética que você lhe passa. Além disto, está quase na hora de eles retornarem. Você vai descer daí, vai vestir sua roupa e, depois, vestimos o policial. Vamos colocá-lo naquela cadeira preguiçosa ali, no canto da cozinha e de frente para o janelão.

Andréa não questionou a ordem. Embora frustrada, obedeceu.

— Agora, ajude-me a colocar esta mesa diante do policial.

— Sim, senhor.

Colocaram a mesa ao comprido, quase tocando o rosto de Ivaldo. O pescador ordenou que Andréa limpasse a mesa com um pano úmido e a enxugasse. Ela assim o fez. Então, ele tomou da maisena e desenhou um círculo tão perfeito que parecia estar usando um compasso. Traçou duas diagonais perpendiculares entre si no centro do círculo e da extremidade de cada diagonal traçou uma tangente que terminava onde deveria encontrar-se com o prolongamento da outra tangente.

— Por que desenha a suástica, senhor? A Presidência da República aprovou uma Lei que proíbe que se desenhe essa cruz maldita em nosso país.

A Suástica Nazista tem o giro ao contrário da Esvástica Budista.

A Suástica Nazista tem o giro ao contrário da Esvástica Budista.

— E ela fez muito bem, Andréa, mas eu não estou desenhando a suástica. Esta é a cruz Esvástica. Veja, ela é desenhada de pé, enquanto a suástica é desenhada inclinada a quarenta e cinco graus. Veja os traços da Esvástica. Eles dão um sentido de giro igual ao dos ponteiros do relógio à cruz que está no centro, enquanto a suástica imprime um sentido de giro contrário ao  dos ponteiros do relógio. A suástica, minha filha, é a escuridão, a regressão, a perdição. a Esvástica, ao contrário, é a luz, o progresso, a salvação. Elas são o Diabo e Deus e assim como ambas se contêm no círculo, assim também os Dois se contêm no Espaço que é simultaneamente Ambos.

— Não entendi, senhor — e Andréa sentou-se numa cadeira olhando o pescador fazer o seu trabalho.

—  O círculo é o espaço infinito, Andréa. A diagonal em pé, na vertical, é Aquele a quem você chama de Deus. Ele se divide ao meio pela diagonal deitada ou horizontal, que representa o Homem caído. Assim, o seu Deus fica enfraquecido pois uma parte d’ Ele está abaixo do Homem Caído e é, assim, contrária à parte que está acima dele. Se a parte de cima é a Luz, a de baixo é a Escuridão. Se a de cima é a Sabedoria, a de baixo é a Ignorância. Mas veja, se o Homem caído enfraquece Deus, Este também enfraquece o Homem Caído, pois também o divide ao meio. E é assim que o homem encarnado é a semelhança de Deus. A parte esquerda da diagonal horizontal é a Escuridão, a Ignorância no Homem. A parte direita, é a Luz, a Sabedoria no mesmo homem. O homem é o equilíbrio de Deus assim como Este é o Seu equilíbrio e isto está perfeito aqui, neste ponto que é o centro do círculo, Andréa. Se o homem se desloca no eixo horizontal para a esquerda, ele mergulha nas trevas. A Sabedoria de Deus, nele, diminui, na mesma proporção em que a Ignorância nele aumenta. Quando atinge o ponto máximo de distanciamento do centro, o homem se anula e volta a integrar o Nada Absoluto que, aqui, é o Círculo do Infinito.

— Mas se o homem se desloca para a direita, também nele diminuem Deus e o Diabo, não é?

— Sim, Andréa. Vejo que está-me compreendendo.

— Estou, senhor, mas tenho uma dúvida. Quando o homem atinge o ponto máximo de seu distanciamento do ponto central, no sentido da direita, também se anula, pois passa a integrar o Infinito, não é?

— Sim, passa.

— Então, ele volta ao Nada?

— Sim, volta. Mas este Nada, agora, contém o Conhecimento em ascensão.

— Eu não entendi, senhor.

— Um círculo, Andréa, quando de pé tem um lado onde, após atingir o ponto mais alto na sua circunferência, qualquer coisa que nele se mova tem de descer, não é?

— Sim, senhor. É o caso da roda gigante no parque de diversões, estou certa?

— Um exemplo bizarro, mas perfeito, Andréa. Pois bem, tome o lado de sua roda gigante como aquele onde o homem vai terminar chegando quando se desloca para a esquerda. Ele está em queda em direção ao solo, não é?

— Sim… acho que sim.

— Agora, se ele se desloca para a direita  vai terminar chegando ao lado de sua roda gigante que está subindo, que se dirige ao céu, não é?

— Sim, senhor.

— Pois bem, filha, no Universo a coisa se passa mais ou menos assim. Se você se desloca para o lado errado, vai descer com certeza e para descer é preciso que perca sua individualidade e sua Consciência, pois que você se funde com a Ignorância. Do mesmo modo, se se desloca para a direita, vai aumentando sua Consciência de si e das coisas e compreendendo que toda a separatividade é ilusória e tudo é Um. Então, quando atinge o Círculo também perde sua Personalidade, que é sua Individualidade, porque só assim mergulhará no Conhecimento de Deus.

— E quando chegar ao topo do circulo ele volta a descer, é?

— É certo que sim, Andréa. E o deslocamento vai depender de como foi seu aprendizado no Círculo.

— Pode explicar melhor, senhor?

— Se ao se deslocar o homem arrastou atrás de si coisas que não devia, Andréa; se levou  consigo lembranças e resquícios de coisas que deviam ter ficado na metade esquerda da sua diagonal, então, ele voltará a descer. E se o homem se desloca para qualquer lado, está em desequilíbrio e vai voltar com certeza.

— E tudo recomeça, senhor?

— Até que ele adquira a Sabedoria necessária para compreender que não deve desejar nada porque  já tem Tudo.

— Então, não se sai nunca da Cruz?

— Sim, sai-se.

— Como?

— Pelo centro, filha. Pelo equilíbrio total. O deslocamento em qualquer dos eixos indica que a Tríade Sagrada – que os leigos chamam de Alma – não está Sábia. Para fundir-se com Deus é preciso e indispensável ser-se Sábio. Todo o conhecimento da Terra não serve para nos libertar da Cruz. Só a Sabedoria é a chave para isto.

— Tem-se, então, que estudar muito, não é?

— Errado, filha. A instrução é apenas uma ferramenta para exercício da Mente. Mas é uma ferramenta muito perigosa. Com ela você adquire Conhecimento que pode ser um caminho para a Sabedoria, mas certamente não é O Caminho. O Conhecimento é perigoso e tem muito mais probabilidade de fazer cair no Círculo do que de libertar a Tríade deste mesmo Círculo.

— E como se alcança a Sabedoria?

— Por dentro, filha. Usando Corpo, Sentimento e Mente. Não sentindo o mundo; não desejando o mundo; não pensando o mundo, mas sendo somente UM com o mundo. Veja, tudo em sua volta é igual a tudo em qualquer parte do mundo. Muda a forma, muda a aparência, mas tudo é igual. A praia daqui tem água, areia, seixos, montanha e árvores. Assim é em qualquer outra parte do mundo. O homem pode enfeitar, criar formas diferentes, mas jamais mudará a natureza mesma do ambiente praia. As ruas de uma cidade são iguais àquelas outras em quaisquer cidades do mundo. Têm casas, têm esgotos, têm bares, cinemas, teatros, lojas ricas, shoppings e atrações diversas. Ou, ao contrário, nada têm exceto pó, taperas, miséria. Mas são apenas caminhos por onde se transita, independente de se situar na Europa, na América ou na Ásia. As jóias como os diamantes nada mais são que pedras e têm tanto valor quanto um seixo opaco na margem de um rio ignoto. É o Orgulho humano que reveste o diamante de uma forma diferente daquela que possui. E é o Orgulho humano que prende o homem à sua criação, escravizando-o ao desejo e o cegando para a Verdade.

— Um diamante igual a um seixo? Não é possível…

— Mas é a verdade. O que você faz com um diamante? Adquire-o e o esconde num cofre de banco porque teme que a cobiça de outro o leva a vir assaltá-lo e tomar a pedra. E um diamante escondido não é uma pedra à margem? Para que serve, senão para alimentar o egoísmo e o orgulho de seu possuidor? Em utilidade, freqüentemente um simples seixo vale mais que um diamante. Como o seixo não está cercado pela ilusão que a Cobiça atribui ao diamante, ele é livre. Ninguém o quer e quem o possui pode criar muitas coisas com ele. Escute, Andréa, um homem deve ser seixo e diamante simultaneamente. Deve ser seixo por fora, para não despertar a cobiça de seus irmãos, mas diamante por dentro para apresentar-se diante de Deus.

— E como se faz para se ser um Diamante?

— Ser humilde, ser útil ao mundo sob qualquer forma, por mais simples que seja a sua contribuição e nunca desejar além do que está ao seu alcance, porque sabe que tudo já lhe pertence desde a criação do mundo. A Natureza do organismo humano, em qualquer que seja a dimensão considerada, é a mesma da pedra, da água, do oceano e do ar. Átomos, Andréa, somos todos átomos, logo, somos iguais a tudo. E no físico somos tão iguais que, quando morremos para esta dimensão, o corpo que ocupávamos volta ao pó porque já era isto antes de ser um corpo.

— Mas as comodidades da vida… Como viver sem as desejar?

— Você as deseja na mesma intensidade com que se percebe separado delas, Andréa.

— Então, não é bom ser rico? É condenável a riqueza?

— Não, Andréa, nada disto. Você pode ser rico, sim. O Mestre Saint Germain geralmente vem à Terra na condição de Conde. Vem cercado de riquezas e poder. Não porque ame a isto, mas porque necessita disto para fazer o seu trabalho. A única vez em que veio como pobre foi quando teve a missão sagrada de ser o Pai Carnal de Yehoshua, ou Jesus de Nazaré, como o chamam os cristãos. A riqueza do ser humano não está nas coisas que consegue amealhar em volta de si, mas está nele mesmo. O mendigo andrajoso pode ser um homem rico, ainda que desprezado pelos seus semelhantes. Se este mendigo é capaz de cuidar de um animal ferido, ou de plantar uma semente de uma árvore que certamente frutificará quando ele não mais estiver aqui; se é capaz de sentir a manhã, o entardecer e o anoitecer com a mesma placidez com que sente o chão sob os pés; de comer os restos de comida que lhe dão e, mesmo pouca, dividi-la com outro ser carinhosamente, então, ele é rico. Se é capaz de limpar a rua por onde passa, evitando para os que o ignoram a peste do rato e das baratas sem com isto se sentir ferido pela ignorância a que é relegado, então ele é rico.  Do mesmo modo, Andréa, o homem que vive cercado de comodidades e de muito poder, que possui tudo o que há de bom e de melhor no mundo graças à criatividade de outros homens, mas que não divide nada, que não cede nada, que só pensa em ter mais e mais, que vê em tudo um meio de ganhar, seja dinheiro, seja poder de barganha, então, para este homem a pobreza é tanta que melhor seria que não tivesse nascido.

— Então, é preciso desprezar o mundo para se sair da Cruz?

— Ao contrário, Andréa. É preciso amar o mundo. Despreza o mundo o rico que separa o que julga que lhe pertence daquilo que acha que pertence ao mundo e aos outros. Quando a pessoa consegue viver simplesmente, sem ganância, sem desejar além do que consegue obter por seus esforços e méritos e, com o que tem, mesmo pouco  diante  dos  olhos dos outros, fazer o melhor que lhe é possível pelo prazer de dar de si, então, esta pessoa usa o corpo, o sentimento e a mente em equilíbrio. Ela consegue sair da cruz com muito mais facilidade do que os que se colocam num templo de pedra a berrar feito desesperados o nome de um mestre, a apregoar milagres em nome deste mestre e a se vender aos olhos dos cegos que o cercam como o representante deste mestre. A pessoa humilde sai mais depressa da cruz do que os que se fecham num monastério a rezar em silêncio, a meditar a vida inteira em seus chakras e sua kundaline e a ler livros e mais livros de ocultismo para adquirir conhecimento esotérico. Este conhecimento não está nos livros que outros escreveram, Andréa. Como tudo o que há sobre a face da Terra, o conhecimento Oculto está no espírito de cada ser vivente. Por isto foi que eu disse que tudo vai depender de como o homem se desloca no Círculo. Se ele se desloca para fora, através do centro, então, ele sai em equilíbrio perfeito. O Círculo e sua cruz permanecem para o resto do mundo, mas Ele se liberta para onde não há limites. Assim fez Gautama Sidarta, mais conhecido como o Buda.

— Senhor, esta é a cruz sagrada de que o senhor falou?

— Sim, esta é a Cruz.

— E onde nós podemos encontrá-la?

O pescador riu e olhou para Andréa com olhar complacente. Ela não tinha compreendido o que ele lhe havia acabado de falar, porque se o tivesse não faria aquela pergunta.

— Esta cruz, minha filha, está em todos nós, em todos os seres humanos. Ela não pode ser vista, embora esteja também na própria Terra. Ela é o chacra básico que você, como eu, como qualquer um, possui na coluna vertebral etérica e cuja boca se abre no local que a medicina chama de períneo. Só partindo do básico é que se pode chegar ao coronário, o chacra do alto da cabeça. Ela é a Cruz Druídica…

— Eu não estou compreendendo, senhor.

— Não faz mal, Andréa. Um dia você compreenderá tudo. Agora, quero que você sente-se bem aqui, no ponto central da Esvástica, minha filha.

— Nua, senhor?

— Não desta vez, Andréa. Você já está limpa e os elementais que havia em sua vestimenta foram retirados dela quando seu corpo voltou a ocupá-la.

Andréa não entendeu bem o que o pescador queria dizer com elementais, mas não fez perguntas. Placidamente obedeceu-o. Sentia-se muito bem junto dele e sua confiança aumentava à medida que o tempo passava.

— Senhor…

— Sim, Andréa?

— Quer dizer que não precisamos de pastores ou de padres e bispos para chegarmos ao Reino de Deus?

— Nem deles, nem da Bíblia, Andréa. Precisamos apenas de Amar. Amar e Meditar fechando a mente para toda e qualquer imagem mnêmica. Concentrar-se em Deus é visualizar ininterruptamente uma grande luminosidade azul no infinito, de onde chove sobre nós, que meditamos, como suave orvalho de luz. Aos poucos nosso Espírito vai-se assimilando àquela Luz e, então, a Paz suprema nos toma para si. E para sempre.

— Então, por que eles, os padres e pastores, existem? Por que foram criados por Jesus?

Exagero do histerismo religioso levado a cabo por "representantes" de Deus feito carne.

Exagero do histerismo religioso levado a cabo por “representantes” de Deus feito carne.

— Jesus não os criou nem toma conhecimento deles e de seus rituais ridículos, Andréa. O Mestre os despreza porque eles aviltam a Sua memória e criam mentiras e ilusões desastrosas em Seu nome. Veja, hoje, nas Filipinas, muitos tolos se fazem crucificar estupidamente acreditando que assim obtêm o perdão de seus pecados e, pobres tolos, o perdão dos pecados do mundo. Intimamente são profundamente egoístas, pois seu desejo mais oculto é se tornarem iguais ao Mestre diante dos olhos dos que observam horrorizados a sua  “coragem”. Não são corajosos; não são piedosos; não são caridosos. São egoístas e ignorantes da Verdade. Por não terem olhos para ver, acreditam na maior mentira dos séculos, pois Jesus não morreu na cruz para a redenção da humanidade. Seu sacrifício teve outro significado. E os fanáticos atuais serão desprezados sempre que agirem deste modo, seja quando for que venham à Terra. A mesma coisa pode-se dizer dos que se flagelam ou se mortificam de qualquer modo em nome do Mestre. Isto só o entristece profundamente. O Reino de Deus não é feito de dores, mas de alegrias, Felicidade e Amor. A Dor é feia e o Reino de Deus não admite feiúra. Até nisto a sua Santa Madre Igreja erra. Dor, Medo, Culpa nunca entrarão no Reino de Deus, Andréa. E a sua seita, que se diz Cristã, palmilha justamente esta miséria espiritual e ensina a rezar dizendo “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”. É a maior hipócrita dentre os hipócritas que Ele condenou e condena sempre. É a maior responsável pela permanência da humanidade no tormento da Cruz. Isto que digo não exime cada um de sua parcela de responsabilidade, pois, a partir do momento em que o homem adquire a capacidade do Livre Arbítrio, ele tem a obrigação de não abdicar de seu direito de pensar por si, doando-o a terceiros e deixando que estes pensem por ele e o dirijam na vida. Quem assim faz se torna um cego que se deixa levar por cegos. Cairão no abismo com certeza, filha.

Andréa gostava de ser chamada de filha pelo pescador. Sentia muita  ternura para com ele e parecia que ela era uma criança diante de um pai bondoso. Nem mais se lembrava do medo que tivera quando ele chegara lá com a desculpa de pedir comida.

— O que faremos agora, senhor?

— Vamos esperar, minha filha. Vamos esperar.

No Rio

Damastor ficou de pé num pulo e se atirou nágua nadando forte para onde vira Milena afundar. Temia que fosse outra fera daquelas e se perguntava o que faria se fosse isto mesmo. A menos de cem metros ficava a queda d’água da cachoeira, mas pelo rio esta distância aumentava porque ele fazia uma longa curva em U. Damastor chegou ao lugar onde Milena sumira e rodou por debaixo d’água várias vêzes, tentando enxergar alguma coisa naquela escuridão somente quebrada levemente pela forte luz da lua cheia. Não viu nada. Voltou à tona e gritou com desepero pela milionária, mas nenhuma resposta lhe chegou. Então, quando já afundava de novo viu algo confuso emergir a menos de dois metros de onde estava. Nadou para lá por debaixo d’água mesmo, para ganhar tempo. Encontrou dois corpos que lutavam furiosamente sob o rio e um pé muito alvo atingiu-lhe dolorosamente o rosto. O detetive subiu e respirou aliviado. Milena estava ali e lutava contra alguém ou alguma coisa e se ela podia fazer isto, ele também o faria. Voltou a mergulhar quando Milena subia atracada com algo. A milionária tinha a impressão de que bebera metade do rio sozinha e, mesmo assim, sua atacante não se desgrudava de seu corpo. Era uma mulher e parecia disposta a matá-la, mas Milena não estava nem um pouco voltada para satisfazer o desejo da outra. E quando vieram à tona ela conseguiu puxar os cabelos da agressora, enrolando-os na mão. Então, levou a melhor e fez a outra afundar, prendendo-lhe a cabeça entre as pernas. “Desta feita você se danou, minha cara” pensou a milionária apertando as coxas com força. Foi quando Ivaldo surgiu a seu lado.

– O que se passa? – gritou ele para a mulher que lutava furiosamente para se manter à tona.

– Fui atacada – disse ela com dificuldade devido à água que espadanava.

– Por quem?

– Por uma mulher!

– E onde está ela?

– Entre minhas pernas. Vai morrer dentro em pouco. Já sinto que fraqueja.

– Solte-a! – gritou Ivaldo. – vamos, solte-a,  já!

– Não! – E Milena soltou um grito, afundando nas águas do rio. Karina acabava de lhe cravar os dentes na perna, quase lhe arrancando um pedaço da coxa. Livre das pernas de Milena, a repórter emergiu de boca aberta, em desespero. O ar doeu-lhe quando lhe chegou aos pulmões e ela tossiu engasgada. Ivaldo compreendeu que a mulher, fosse quem fosse, estava exausta e não aguentaria novo encontro com a furiosa Milena e tratou de arrastá-la dali. Pegou-a pelo pescoço e puxou-a para fora, gritando-lhe ao ouvido:

– Calma! Fique calma! Eu sou amigo! não lute, por favor.

Enquanto ele saia das águas arrastando a semi-afogada Karina, Milena surgiu mais abaixo soltando impropérios.

– Desgraçada! Ela me mordeu, a infeliz! Quando eu botar as mãos nela, vai ver só uma coisa! Damastor! Onde…? –  avistou o detetive retirando alguém do rio e nadou para lá.

Damastor ajudou a mulher a sentar e levantou-lhe o queixo para olhar seu rosto. Tomou um grande susto quando viu que a desconhecida era a sua amiga Karina. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu a voz de Ivaldo gritando por Ludmila.

– Meu deus! – exclamou ele, pasmo. – Estamos todos aqui?

– O que está acontecendo? Quem gritou? – perguntou Milena aproximando-se do casal. – E quem é a vagabun… KARINA!!! Você também está no meu sonho? E foi você quem me atacou no rio?

Karina apenas acenou afirmativamente com a cabeça. Ainda estava engasgada com a água do rio.

– Por que diabo fez aquilo? – perguntou irritada, a milionária.

– Calma, deixe que ela respire primeiro. Você quase a afogou – disse Damastor, ficando de pé e olhando em direção à cachoeira.

– Ela é que quase me afoga. Puxou minhas pernas e me aplicou uma gravata, me estrangulando. Ficou doida, é? – protestou Milena ainda sob o impacto da raiva.

– Eu… eu pensei… pensei que… que você era… era… um… um…

Karina ainda não conseguia falar porque tossia muito. Milena abaixou-se para olhá-la mais de perto, quando Damastor gritou-lhes:

– Vejam! Tem alguém rolando pelas pedras na cachoeira. Eu vi um corpo caindo. Vamos lá! Pode ser mais um de nosso grupo!

Milena levantou-se ajudando Karina a se por de pé e lhe pedindo desculpas.

– Eu não faria o que fiz se soubesse que era você. Desculpe-me, por favor, sim?

– Nã…não tem porque se… se desculpar – balbuciou Karina com voz sufocada. – Eu a ataquei primeiro.

– Corram! – gritou Damastor já desaparecendo na curva.

– Corra você – disse Karina. – Ainda estou cansada daquela luta.

– Eu também não tenho condições de correr. Ele que socorra os outros. Espero que não aconteça mais nenhuma morte. Um defunto por vez é suficiente para mim – disse Milena pondo-se de pé e ajudando a amiga a também se levantar.

Amparando-se reciprocamente  elas foram andando em direção da cachoeira.

Damastor foi o primeiro a chegar lá e viu duas pessoas debatendo-se n’água.

– Aqui! – gritou-lhes a plenos pulmões, pois o barulho era terrível. – Nadem para este lado! Vocês me ouvem? Nadem para cá!

Mas as duas pessoas não pareciam ao menos ter notado sua presença. Nadavam no sentido contrário. Damastor lançou-se às águas revoltas e compreendeu porque os dois lutavam desesperadamente. Ali, devido à queda d’água, o lago que se formara era revolto e suas águas subiam e desciam como se estivessem fervendo. Damastor conseguiu chegar até Ivaldo a quem reconheceu logo. Tocou-lhe o ombro e lhe apontou a margem de onde viera. Ivaldo assentiu com a cabeça e voltou, enquanto Damastor seguia Ludmila. A ruiva nadava muito bem e o detetive teve muita dificuldade de se aproximar dela. Finalmente alcançou-a e também lhe mostrou a margem de onde se atirara n’água.

– Volte! Este lado vai para o lugar mais fundo e perigoso do rio.

A ruiva acedeu e voltaram com muita dificuldade. Chegaram à margem quando as duas outras mulheres estavam acabando de chegar. Quase não conseguiam falar de tanto cansaço e se deixaram cair sobre a pedra, de bruços, respirando com dificuldade.

– Como é que vocês vieram parar aqui? – perguntou Milena, espantada por ver todos eles naquilo que acreditava ser o seu sonho.

– Acredite, não foi fácil – disse Karina brincando e logo lembrou-se de Tamara. Levou as mãos à boca e arregalou os olhos.

– O que foi? – perguntou Milena surpresa.

– Eu tinha esquecido. Tamara está do outro lado da mata, dentro de uma caverna, esperando por mim. tenho de voltar.

– Espere! Vamos todos juntos. Agora que nos encontramos não acho uma boa a gente se separar novamente – disse Ivaldo.

– Novamente? E desde quando estivemos juntos? – estranhou Milena.

–  Aos pares, mas estivemos – disse o detetive sem se dar por achado. – Vocês dois já podem ficar de pé?

Damastor assentiu com a cabeça e Ludmila, apoiando-se em Milena, ergueu-se.

– Estamos uns trapos – falou ela com voz entrecortada.

– Você precisa ver a Tamara. Está semi-morta – informou Karina preocupada. – Ela sofreu envenenamento por gases tóxicos na caverna de onde viemos. Vamos andando? Só eu sei o caminho de volta até ela.

– Vamos – disse Ivaldo amparando a moça pela cintura. E assim, cada qual apoiando-se uns nos outros, lá se foram  seguindo Karina que ia à frente indicando o caminho. Atravessaram novamente o rio, subiram o lajedo e se embrenharam na mata, sempre guiados pela repórter, por sua vez sempre amparada pelo braço forte do jovem detetive. A moça parecia ter um mapa gravado na memória. Finalmente chegaram à gruta.

– É aqui – disse Karina apontando a fenda e desvencilhando-se do abraço de Ivaldo, agradecendo-lhe com um afago no rosto. Então, chamou a colega

– Tamara! Está-me ouvindo?

Nenhuma resposta veio lá de baixo.

– Tamara! – chamou novamente Karina, já apreensiva. Nada.

– TAMARA! – gritaram todos em uníssono. Então, uma voz fraca lhes chegou aos ouvidos.

– Estou ouvindo, não sou surda, diabo. Trouxe o côco?

– Sim – respondeu Karina que tinha pedido a Ivaldo que apanhasse um, quando estavam voltando.

– Então, jogue cá pra baixo. Quem está com você?

– Todo mundo – respondeu Karina. – Não vou jogar o côco. Vamos puxá-la primeiro.

– Por que não joga este maldito côco, droga? Estou muito fraca e com muita fome.

– Por isto mesmo. É mais provável que não o segure e ele desça até aquela lama fedorenta. Você não quereria voltar até lá só para buscá-lo… ou quereria?

– Não enche!

– É ela mesma – disse Karina sorindo para os outros. – Este mal humor é característico quando está estressada. Vamos puxá-la?

– Com quê? – quis saber Milena. – Não temos cordas nem cipós.

– Mas temos saias e calças. Vamos fazer uma corda – disse Karina que não trajava nada mais que a própria pele. Ela apontou as roupas dos colegas e Milena e Ludmila não se fizeram de rogadas. Despiram-se se se incomodar com a presença dos homens e estes lhes seguiram o exemplo. Com exceção de Karina, todos só ficaram com as peças íntimas. Logo tinham uma corda que descia perfeitamente até onde estava a colega. Mas surgiu um problema. Tamara não tinha forças para se segurar ou mesmo amarrar-se na corda improvisada.

– Eu desço até lá – disse Ivaldo.

– Por que não eu? – perguntou Damastor. você está muito cansado.

– E você não fica atrás. Vou eu e não se discute. Sou mais leve e melhor de ser içado.

Todos concordaram e Ivaldo foi baixado. Encontrou Tamara sentada, recostada numa saliência da estalagamite. Estava muito fraca e ele teve de sustentá-la para poder amarrar a corda improvisada em sua cintura.

– Consegue segurar-se?

– Eu… acho que não. Estou com um torpor muito forte nos membros. Tenho muita tontura e estou com náuseas.

– Vocês aí em cima! – gritou Ivaldo pondo-se de pé. – Vão ter de puxar por nós dois juntos. Tamara está fraca demais para subir sozinha.

– E se os vestidos não aguentarem? – perguntou Karina apreensiva olhando os colegas em torno de si.

– Esperem! – disse damastor e gritou lá para baixo – Ivaldo, amarre Tamara sob os braços. Fica mais fácil para ser içada. Você nos ajuda empurrando-a pelas pernas.

– Ela desmaiou – respondeu o detetive. – Não vou poder empurrá-la para cima.

– Parece que a coisa é grave mesmo – falou Milena preocupada. – Meu Deus, eu não queria outra morte…

– Não! – cortou Damastor. – Ela não vai morrer. Karina, você tem o mapa mnemônico do caminho de volta, não tem?

– Sim. Por que?

– Então volte até encontrar uns arbustos espinhosos que dão umas flores roxas de odor muito forte. Colha uma e traga-a para nós. Vá rápido!

– Ivaldo! – chamou Karina.

– O que é?

– Friccione os pulsos dela e faça respiração boca-a-boca se notar que está com dificuldade de inspirar. Depois, mantenha-se friccionando todo o corpo dela, vigorosamente.

– Mas ela está nua – embaraçou-se Ivaldo.

– E daí? Vai-me dizer que nunca viu nem tocou um corpo de mulher, antes? Só não deixe que morra, pelo Amor de Deus!

E Karina disparou em direção à mata, deixando todos à espera e Ivaldo atarefado com o trabalho de manter Tamara viva. O corpo dela exalava um mal cheiro terrível e ele engulhava quando aproximava a boca para insuflar-lhe ar nos pulmões sem vitalidade.

“Em que diabo de lugar estas duas se meteram? Que mal cheiro é este? Parece de ôvo podre, mas é muito pior. Não é para menos que ela esteja desmaiada. A coitada teve de ficar respirando este miasma por muito tempo. Só espero que todo este sacrifício não seja em vão.”

Karina encontrou, finalmente, a flor que Damastor pedira. Estava nos arbustos espinhosos no meio do lajedo e mais próximo da praia que da mata e ela teve alguma dificuldade em colhê-la. Tão atarefada se encontrava no esforço de apanhar a flor que não viu o jaguar. A fera saiu da mata e farejou a mulher. Sentiu o ar no alto e depois abaixou o focinho para pegar o faro. Era fácil. Devagar ela começou a descer a pedra, sempre farejando a presa. Não demorou muito para avistar Karina que, de costas, não podia perceber o perigo mortal sobre quatro patas aveludadas que avançava sobre ela. A mulher mexeu-se e se abaixou  e o jaguar parou o avanço, colando o ventre ao solo. Os olhos amarelos não piscavam, atentos ao menor movimento da sua vítima. O animal era um macho de quase duzentos quilos. Naturalmente de pé sobre as quatro patas ele chegava folgado à altura da cintura de Karina. Parecia um leão e não um jaguar. E estava faminto. Sua cauda sustou o movimento de balanço e a fera avançou raspando o ventre no chão, preparando o bote. Lentamente, cuidadosamente, o jaguar se aproximava. A distância ainda era muito grande para que arriscasse um bote, mesmo sendo capaz de saltar facilmente uns cinco a oito  metros em distância. Era por isto que rastejava cuidadosamente. Sabia que a presa não tinha escapatória. Karina ficou de pé e deu a volta ao arbusto. A fera parou todo e qualquer movimento retesando os fortes músculos, pronta para disparar na carreira se a presa tentasse fugir. Mas não foi o que aconteceu. Karina simplesmente buscava um modo mais fácil de alcançar a flor. Ela estava no meio do espinheiro e este era bem avantajado. Seus galhos duros e altos, quase ultrapassando a altura da mulher, dificultavam e quase mesmo impossibilitavam a ela alcançar o que desejava. Agora, Karina estava de frente para o jaguar e este se abaixou ainda mais, colando o corpo à lage. Nem mesmo a respiração se notava no enorme corpo ocelado. No entanto, as poderosas garras estavam arranhando a lage e os músculos de Sansão estavam prontos para uma arrancada a vinte quilômetros só na saída. A lua surgiu de detrás de uma nuvem e voltou a clarear fortemente a cena. Sua luz traiu o jaguar. Brilhou nos olhos da fera e Karina subconscientemente percebeu algo anormal, estranho, no ar. Seu corpo entrou em alerta instantaneamente e ela como que se petrificou. Apenas os olhos se movimentaram e foram diretos na direção de onde aquela faísca amarela alterara por um átimo a luminosidade do ambiente. O jaguar a olhava fixamente e a mulher compreendeu que a morte lhe sorria dali. Num esforço sobre-humano Karina se controlou e dominou o medo que quase lhe paralisava os movimentos. Seu treino nos combates perigosos do Kung-Fu, agora, punham a guerreira além e acima da mulher comum. Intuiu que não podia dar a entender à fera que a tinha percebido, pois isto dispararia o ataque. Então, aparentando displiscência, ela se abaixou e remexeu a terra parca junto ao espinheiro, ao mesmo tempo que olhava pelo canto dos olhos para os lados, a fim de averiguar suas possibilidades. Nulas. Nem com asa delta escaparia do ataque iminente.  “Calma Karina. você não vai virar coco de onça. Não mesmo. Não é a morte digna para uma mulher bonita e que ainda quer ter filhos com um homem digno. A amarelona vai ter de se virar em outra parte. Pensa! Pensa rápido! O que fazer?” – À sua lembrança veio seu mestre Liu-Ching falando mansamente: “nunca fujam de um combate. Quando a situação parecer sem saída, aí, então, é que é a ocasião para se surpreender o adversário. Ele estará tão confiante na vitória que não tomará cuidado em se precaver para o contra-ataque.” Aquela era uma ocasião típica. O jaguar estava pronto para pegá-la e certamente não tinha cuidados maiores do que lhe vigiar os movimentos de fuga ou de escape. O que não devia fazer era justamente isto. Correr era assinar a sentença de morte. Andar afastando-se do arbusto, também. Ali, junto àquele arbusto espinhoso e sem mais nada a não ser pedra e areia rala sobre esta; ali, onde não havia nada que pudesse servir de arma, era que ela, uma frágil mulher tinha de encontrar a salvação. Como? Onde? Pelo canto dos olhos Karina percebeu que o jaguar se arrastava em direção a ela, encurtando a distância que os separava. Seu coração acelerou e sua boca secou. “Meu Deus, tenho de pensar numa escapatória, rápido! Aqui tem de haver uma saída. Onde? ONDE?” A mulher procurou desligar-se do jaguar e olhou para a  frente. Tinha de avaliar friamente tudo o de que dispunha – que era praticamente nada – para ver como servir-se disto em sua própria defesa.            Os galhos do arbusto eram avermelhados-escuro e seus espinhos assemelhavam-se a garras de um tigre; grossos, encurvados para dentro e muito afiados na parte interna. As pontas voltavam-se todas para dentro, para o centro da moita. As folhas eram lanceoladas e grandes, cobrindo, cada uma, um espinho. Os galhos eram longos e não tinham ramificações. A flor nascia no topo do galho. Ela estava do lado de cá, com a moita entre si e a fera. “Estou errada” – pensou Karina tendo uma idéia. “Tenho de oferecer a maior facilidade para ela a fim de a enganar. Preciso me dar. Como ensina o TAI-CHI, não tenho de resisitir. Preciso aceitar. Então, na hora certa, bloquear e devolver.” Karina pôs-se de pé e caminhou descuidadamente em torno da moita, voltando a ficar em linha direta com o jaguar. Este lambeu as beiçolas. Ia ser moleza. Avançou com mais rapidez, mas sempre agachado. Naquela posição podia lançar-se fulminantemente sobre a mulher que, de costas, parecia totalmente despercebida de sua presença. Karina, no entanto, avaliava a moita. Talvez conseguisse o que planejara. Se não, então era a morte. Só iria ter uma oportunidade e em fração de segundos. Tudo ia depender de sua agilidade. Esta, ela conhecia bem. Mas não fazia a menor idéia de qual era a de sua oponente. Sabia, por ter lido, que os jaguares são muito rápidos num ataque. Mas por mais rápidos que fossem tinham de gastar alguns segundos antes de cairem sobre a presa. E Karina havia treinado seus reflexos ao máximo. Era capaz de jogar uma bola rígida de borracha, conhecida como perereca, na parede com toda a força e apanhá-la com a outra mão antes que ela lhe atingisse o rosto e isto numa distância de somente três metros. A velocidade da bola ultrapassava  a   duzentos  quilômetros  por hora, quando voltava após o impacto com a parede. Era como um raio. Ela treinara duro, pois no Kung-fu aquele era o treino mais eficiente para segurar um soco de outro lutador, disparado quase à queima-roupa. A mulher percebia sensorialmente que a fera se aproximava. Então, virou-se e caminhou diretamente para o jaguar. O animal estancou o avanço, supreendido pela manobra da suposta vítima. Colou novamente o ventre ao chão e a cabeça, também. Karina parou onde desejava e agitou os braços gritando.

– Venha, sua besta amarela! Vamos, não se esconda. Eu já a vi, sua panaca! Vamos! Eia! Eia!

Bateu palmas e saltou no mesmo lugar. O jaguar ergueu a cabeça aturdido. O que queria aquela comida pulando daquele modo? Então, uma pequena pedra acertou-lhe em cheio o focinho. A dor e a surpresa enfureceram o animal. Ele se levantou rugindo e avançou como uma flecha. “É agora ou nunca!” pensou Karina com a adrenalina no máximo. De repente o medo sumiu. Era a morte, ela o sabia muito bem, mas sentia uma euforia insuperável. O espaço, a solidão, ela, o jaguar, a lua e o silêncio da enorme amplidão. Não havia como descrever aquele sentimento de poder, de liberdade total, de unicidade com a própria fera. Karina era Deus. Um Deus frágil e, no entanto, um Deus Todo Poderoso. Tão poderoso que tinha a ousadia de afrontar a morte num corpo superior ao dela em força, em tamanho e em ferocidade.

Ao mesmo tempo em que o jaguar se lançava sobre ela, Karina saltava para trás num arco perfeito, tomando impulso para um salto maior. “São dois saltos antes do decisivo. Espero que  a besta me acompanhe.” O jaguar acompanhava os pulos da mulher e impulsionava-se mais a cada vez que suas patas tocavam o chão. Os pés de Karina tocaram a áspera lage quase junto à moita e, então, seus músculos deram o máximo de si num esforço ao limite. Ela subiu como uma flecha de carne e luz, braços estirados para cima, cabeça voltada para o alto buscando o máximo de amplidão. Seu corpo esguio afinou mais ainda pela distensão dos músculos elásticos. Nesta fração de segundo o jaguar pousava no chão as patas dianteiras e a elas juntava as trazeiras. Ia pular o pulo final. A presa estava perfeita. Tinha a certeza de que cairia com ela na bocarra. Salivou quando seus possantes músculos o impulsionaram no salto mortal em direção ao corpo delicado da mulher que subia num vôo só presenciado pela fera e pela indiferente lua no céu, passando as costas rente às pontas dos arbustos de espinhos aguçados. O enorme corpo ocelado mergulhou direto no espinheiro enquanto o corpo da mulher pousava sobre as mãos do outro lado da moita. A fera impulsionou-se para novo pulo, mas os espinhos prenderam-se em sua pele, cravando-se fundo nela e causando uma dor lancinante quando os músculos se distenderam para o salto. Simultaneamente as mãos de Karina escorregaram na fina camada de areia sobre o lagedo e ela se desequilibrou, batendo com a cabeça na pedra dura e perdendo os sentidos. O belo corpo da jovem lutadora rolou desfalecido em direção à margem do rio, enquanto o felino rugia frustrado e surpreso pela prisão involunária em que se metera. Quanto mais se debatia, mais os espinhos se cravavam em sua pele, prendendo-o de modo inexorável.

Os três, Damastor, Milena e Ludmila ouviram os rugidos frustrados do  jaguar. – Meu Deus! – exclamou Ludmila em pânico – é a onça.

– Que onça? – espantou-se Damastor.

– A que Ivaldo disse que saltou de dentro da gruta e quase esbarrou nele. Está rugindo para o lado onde foi Karina. Será que…?

Fizeram silêncio com os corações aos pulos. Separados ou juntos, eles não tinham qualquer chance se o terrível jaguar resolvesse caçá-los. Os rugidos estavam cada vez mais furiosos, mas não avançavam nem retrocediam.

– Sei não – falou Damastor, – mas alguma coisa está acontecendo por lá. A fera está rugindo furiosamente como se estivesse acuada… talvez ferida.

– Eu não acredito que Karina tenha conseguido fazer alguma coisa contra o bicho – disse Milena segurando-se fortemente no braço de Damastor.

– É bem capaz. Você não conhece o quanto minha amiga é ardilosa. Acho que se a onça tentou caçá-la deve estar amargando uma tremenda derrota – disse Ludmila.

– Você não está superestimando nossa amiga, não? – falou Damastor olhando preocupado para a mata escura.

– Espero que não. Gosto muito dela para imaginar que… – Ludmila não concluiu a frase e todos compreenderam o motivo, pois o temor era de todos.

– O que há aí em cima? – gritou Ivaldo.

– Nada! – tranquilizou-o Damastor. – Como vai a Tamara?

– Geme baixinho, mas está com a pele muito fria e eu estou me cansando de fazer respiração boca-a-boca. Ela está suja e seu corpo fede pra diabo.

– Isto me preocupa. Acho que Tamara não vai resistir por muito tempo. Fiquem aqui. Eu vou ver o que está acontecendo lá.

– Damastor – chamou Milena. – E nós? Eu confesso que estou com muito medo.

– Não creio que haja mais de um jaguar por aqui, Milena. De qualquer modo, se aparecer algum, desçam pela fenda e se juntem aos dois lá em baixo. Eu não acredito que o animal esteja tão faminto a ponto de se arriscar a ir atrás de vocês.

– Mas eu temo que algo possa acontecer a você também – disse Ludmila.

– Obrigado, amigona. Mas você não acha que alguém deve ir em socorro de Karina… se ela ainda estiver viva?

As duas se entreolharam e assentiram com as cabeças. Damastor pôs-se a caminho. Levava a quarenta e cinco e tinha balas, mas a escuridão não facilitava as coisas para ele. Não podia ver no escuro, mas um jaguar sim. Além disto, não era muito bom em andar pelo mato e tinha somente de confiar no seu ouvido. Ainda bem que a onça esturrava quase sem parar. Os cipós pareciam ter crescido muito mais desde que passara ali guiado por Karina. Agachado-se, saltando, escorregando, caindo, rolando e se emporcalhando todo, Damastor descia sempre pelo emaranhado de cipós. Lembrava-se de que havia uma cobra, na Amazônia, muito venenosa, talvez mais do que as cascavéis do deserto, chamada de Pico de Jaca. Esta coisa ruim vivia na mata, nas árvores e era muito difícil de ser vista de dia, quanto mais à noite e naquela escuridão. “Os olhos deles brilham no escuro. Só tenho de ficar em alerta para notar alguma coisa brilhando. Primeiro mando bala, depois, se tiver tempo, vou ver do que se trata.” Apesar do medo que o fazia suar em bicas, Damastor não encontrou viv’alma no caminho. Veio sair no lagedo, mas muito para a direita de onde estava o jaguar. Ali o capim era mais presente e muito mais fechado. Damastor pôs-se a andar despreocupado em direção aos esturros que ouvia. De repente sentiu alguma coisa cravar-se em sua perna. Como um raio virou-se atirando. Partiu a cobra no meio e a cabeça dela ficou presa a alguns centímetros de seu tornozelo, dentes cravados em sua carne. Nervosamente abaixou-se e tirou cuidadosamente aquela cabeça asquerosa da perna. Os afiados dentes estavam cravados fundos, mas havia um entorpecimento, como se sua perna estivesse anestesiada.  “Maldição! Será que isto é uma cascavel?”  Ele segurou aquela cabeça achatada e de olhos malévolos nas mãos. Não era pequena. Quase enchia toda a sua mão, que também  não era pequena.  “Por via das dúvidas, vamos tirar o veneno que certamente ficou lá dentro.” Ele atirou num dos galhos cheios de espinhos e que tinha uma flor roxa na ponta e o apanhou. Com um dos espinhos rasgou as feridas e fez o sangue sair aos borbotões, mas ficou contrariado porque sentia que o espinho não tinha chegado fundo, até o fim do ferimento. Resolveu ir até o rio e lavar a perna. Talvez a água conseguisse ser mais efetiva do que o espinho. Estranhava a dormência. Pelo rasgão na perna era para estar sentindo muita dor, mas não era o que acontecia. Esqueceu de Karina e do jaguar e foi até o rio. Meteu a perna na água fria e espremeu mais ainda o ferimento, sentindo que a água penetrava fundo e lavava bem o ferimento. Rasgou um pedaço da roupa e fez um torniquete muito forte bem abaixo da ferida e, só então, voltou a subir a lage para buscar Karina. Viu o jaguar preso na moita e compreendeu que ele rugia de dor. Teve pena do animal. Caminhou em sua direção, mas  divisou o corpo de Karina caído a uns sessenta metros dali e  correu até ela. Quando se abaixou viu que a moça tinha sangue correndo da cabeça. Abriu-lhe o cabelo e viu o rasgão. “Bateu feio com a cabeça na pedra. Talvez fugindo da fera ali. Só não sei como é que o bicho se meteu naquela camisa de onze varas..” Damastor apanhou Karina do chão e a colocou sobre os ombros. Desceu, então, em direção ao rio sentindo uma estranha dificuldade em respirar. Sua vista escureceu, mas ele pensou que fosse devido ao esforço. Quando conseguiu chegar à margem, a dificuldade em respirar era bem mais intensa e sua vista estava escurecendo. Não conseguiu depositar a repórter delicadamente na areia, mas caiu com ela dentro d’água e ficou boiando sem forças. Os dois começaram a ser arrastados pela correnteza em direção ao mar. Com esforço sobre-humano o polícia moveu-se e ficou de pé. A água dava em sua cintura. Karina descia mais à frente, ainda desacordada. Damastor foi até ela e lhe segurou um dos pés. Ali, a água chegava-lhe ao pescoço e ele tinha muita dificuldade em trazer a moça para a margem. Quando, finalmente, colocou-a na praia, perdeu os sentidos e desabou a seu lado, rosto mergulhado no rio. Karina moveu-se e voltou a si. Tossiu, engasgou-se e se pôs sentada, ainda sem saber o que havia acontecido. Ouviu primeiro o rugir do jaguar antes de ver o homem caído a seu lado. Demorou segundos para compreender que se tratava de Damastor e que, naquela posição, afogar-se-ia sem apelação. Ela o virou de face para cima e lhe bateu no rosto.

– Damastor! Damastor, o que há com você?

A moça começou a examinar o colega desfalecido e terminou por encontrar a ferida na perna.

– Santo Deus! Uma picada de cobra. Deve ter sido uma cascavel… Ele está morrendo. Salvou minha vida, mas está morrendo e eu não posso fazer nada…

Karina levantou-se e sentiu a vista escurecer. Estava muito fraca e a cabeça lhe doia muito onde a batera. Passou a mão no local e encontrou um tremendo hematoma sob o couro cabeludo. Num segundo tudo lhe veio à recordação. Olhou para os arbustos e viu o jaguar aprisionado. Já não se debatia com tanta fúria,  talvez porque estivesse cansado ou porque a dor o fazia ficar quieto. Lembrou-se de Tamara que também estava numa situação crítica, lá dentro da fenda.

– Será que estamos todos condenados neste maldito lugar? Não há nada que eu possa fazer por eles…

Então lhe veio à lembrança a flor roxa. Fôra por ela que viera até ali e fôra Damastor quem a havia pedido. Para que serviria aquilo?

Karina correu até um outro espinheiro e sem se incomodar com os ferimentos altamente dolorosos que os espinhos lhe causaram, arrancou uma das flores roxas que, estranhamente, estavam quase negras em suas pétalas, embora as corolas estivessem vermelho-vivo. A flor exalava um odor fortíssimo que, quando aspirado de longe, era suave e lembrava aquele das Damas da Noite, mas quando aspirado de muito perto ardia nas narinas e tonteava como o formol. Ela  trouxe a flor  e colocou-a junto às narinas de Damastor. Se aquilo quase “arrancava” o seu nariz, era possível que conseguisse fazê-lo despertar. E o fez. Damastor mexeu a cabeça para o lado e tossiu, sufocado.

– O… o que é isso?

– A sua flor roxa – respondeu ela. Você estava desacordado e eu me recordei de que havia pedido que eu apanhasse uma delas. Queria fazer alguma coisa com a flor em relação a Tamara, mas eu não sei o que era. Como o perfume dela é altamente irritante, coloquei-a junto às suas narinas para ver se conseguia fazê-lo acordar. Agora, diga-me: você foi picado por uma cascavel, não foi?

– Eu… eu não… não consigo respirar direito… – foi a resposta arquejante do policial.

– É, você foi picado por uma cascavel. Que azar danado! Abriu a ferida com o quê?

– Com um espinho. Depois… depois lavei os cortes na água do rio.

– Para que pediu esta flor?

– Ela salvou Milena de algo mortal.

– Um ferimento?

– Pior. Por que pergunta?

Karina não respondeu. Apanhou uma pedra e moeu a flor molhando-a e conseguindo uma papa de pétalas. O odor recrudesceu e ambos quase não conseguiam suportá-lo. Ele lhes virava o estômago.

– Quer perfume nauseabundo! – exclamou Damastor arrastando-se para longe de Karina.

– Vire a perna para mim – ordenou ela, segurando nas mãos a papa de pétalas.

– O que vai fazer?

– Se esta flor salvou Milena de algo pior que um ferimento, então, vamos experimentá-la em sua perna. É a única coisa que temos por aqui da qual sabemos que possui algum efeito curativo. Você está condenado inapelavelmente e não tem muito tempo, não, lamento informar-lhe disto. Por isto, vamos experimentar o efeito que poderá fazer na ferida em sua perna. Concorda?

– Eu.. eu não… – e Damastor caiu para trás espumando pela boca. Karina não esperou por seu consentimento e colocou a papa na ferida, forçando-a bastante contra a perna para que entrasse fundo no ferimento. O homem teve alguns espasmos e começou a se debater como se estivesse com a doença de São Guido. Após alguns minutos sacudiu a perna furiosamente e algum tempo depois levantou-se aos gritos e se atirou no rio sapateando feito doido.

– O que há? – perguntou Karina espantada e se pondo de pé.

– Dói! Dói como se eu estivesse com o tridente do Diabo cravado na perna! – gritou Damastor esfregando a ferida e fazendo correr o “remédio” improvisado de Karina. A dor diminuiu sensivelmente e ele veio até a praia onde se deixou cair exausto.

Após um minuto de silêncio em que ficou observando o companheiro, Karina teve a certeza de que ele estava salvo. Sua respiração voltara ao normal e ele transpirava abundantemente.

– Damastor – chamou ela. – O que se deve fazer com esta flor no que diz respeito a Tamara? Ela deve comê-la?

– Não – respondeu ele após um tempo. – A menos que se queira matá-la, eu acho. Ela só deve cheirar a flor.

– Você pode ficar sozinho aqui?

– Posso. Não acho que a onça vá sair dali tão cedo. Vá, nossa amiga precisa desesperadamente desta flor.

Karina não hesitou nem mais um segundo. Girou nos calcanhares e se pôs a correr lagedo acima, embora sentindo que estava exausta, a vista escurecendo e o peito doendo com o fôlego curto. Passou pela moita onde estava o jaguar e viu um filete de sangue correndo sobre a pedra. Olhou o animal e viu que estava todo enrolado nos espinheiros. Teve dó dele e jurou que voltaria para o libertar, afinal ele não era mau. Queria somente jantar, como qualquer ser que tem fome. Ela parou e olhou nos olhos da fera. Ela lhe devolveu a mirada com um olhar tão sofrido que Karina se chocou. Soltou um ronco que era um nítido pedido de socorro.

– Desculpe – disse com os olhos marejados. – Eu não tinha outro modo de não ser o seu jantar. Aguente firme. Prometo que volto para libertá-la.

Ela se pôs a correr, desta vez com mais ímpeto, pois tinha outra vida a salvar.

– Meu Deus! – gritou Ivaldo – Façam alguma coisa, rápido! Tamara está morrendo.

– Vamos puxá-la daí de qualquer modo – gritou Milena decidida. – Amarre-a pelas axilas.

– De que vai servir isto? – Perguntou Ludmila.

– Eu não sei, mas não posso ficar aqui, parada, enquanto ela morre lá embaixo, droga!

Ludmila deu de ombros e concordou com a milionária.

– Está bem. Ivaldo, prenda nossa colega na corda. Vamos puxá-la. Você deve ficar atento para o caso de ela se soltar e cair. Agarre-a, custe o que custar, entendido?

– Sim! – gritou Ivaldo sentindo-se aliviado. Não estava gostando de ser o único responsável pela sobrevivência da moça, além do que estava quase vomitando pelo mau cheiro que ela exalava.

Com muito esforço Milena e Ludmila tiraram Tamara da fenda.

– Diabo, eu não pensei que ela pesasse tanto – disse Milena, suada pelo esforço.

– É – concordou Ludmila. – Acho que ela precisa fazer um regimezinho.

– Como fede! – falou Milena tapando o nariz.

– É a lama onde caiu, como nos informou Karina. Vamos quebrar o côco e fazê-la beber a água. Talvez isto a reanime.

Elas não pensavam que fosse tão difícil arrebentar um côco sem ter um facão. Estavam todas entregues a este esforço quando Karina chegou. Vinha trêmula, pernas bambas e quase sem respiração.

– Ponham esta flor junto ao nariz dela – disse arfante.

– Você está um trapo. Por que demorou tanto? – perguntou Ludmila, enquanto Milena fazia o que Karina recomendara.

– Tive problemas – disse Karina sentando-se. – E Ivaldo?

 – No buraco. Não temos forças para tirá-lo de lá. Encontrou Damastor?

–  Bem, pra dizer a verdade, foi ele quem me encontrou – respondeu Karina com a cabeça entre as pernas. Pensava na onça e estava querendo refazer-se o mais depressa possível para voltar até lá.

– Por que não veio com você? – quis saber Ludmila.

– Foi picado por uma cascavel e quase morreu. A flor roxa o salvou. Mas não faça mais perguntas. Preciso respirar.

Tamara gemeu baixinho.

– Ela está voltando a si – disse Milena entusiasmada.

– Afaste a flor do nariz dela, senão ela vai levantar furiosa e esbofeteá-la – falou Karina, já mais recomposta. – Conseguiram quebrar o côco?

– Que nada! – respondeu Ludmila frustrada.

– Vocês nunca assitiram a filmes de Tarzã? – perguntou Karina pondo-se de pé e apanhando uma pedra bicuda. -Dê-me o coco, por favor.

Ludmila passou-lhe o fruto. Karina levantou-o bem alto e o desceu sobre o bico da pedra. Ele estalou e rompeu-se, derramando um pouco da água que continha.

– Você daria uma boa Chita – disse Ludmila chateada. Por que não pensara naquilo, em vez de ficar batendo com o fruto na lage?

– Eu sei – concordou Karina sem se ofender. Aproximou o coco da boca de Tamara e verteu nela um pouco da água. A moça bebeu com sofreguidão. Karina repetiu o ato até que a colega bebesse tudo.

– Você se sente melhor? – perguntou Milena carinhosamente.

– Sim… – respondeu com voz fraca a repórter.

– Pode ficar de pé? – quis saber Ludmila.

– Não, ela não pode, não – informou Milena amparando a cabeça de Tamara. Karina abaixou-se junto a amiga e lhe disse, segurando-lhe o queixo:

– É… Você se lembra do que falamos lá embaixo, sobre eu mudar de idéia quando a visse assim, ao luar?

Tamara a olhou com um brilho mais vivo nos olhos.

– Acho que você tinha razão. Estou tentada a mudar, sabe? E se você não reagir, há mais duas que… Quem sabe?

Tamara riu fracamente e respondeu:

– Depravada! Sem-vergonha! Você não perde por esperar.

– Do que vocês estão falando? – quis saber Ludmila.

– Nada. Só queria saber se ela estava bem. Está. Vamos levá-la conosco.

– E o Ivaldo?

– Precisamos dele. Vamos tirá-lo de lá – falou Karina decidida. – Sentemos no chão e firmemos os pés na lage.

– O que pretende? – perguntou Milena.

– Seguramos uma ponta da corda improvisada e o Ivaldo tenta firmar-se na fenda. Quando conseguir, o resto será por conta dele. Nós não vamos puxá-lo. Não temos força para isto. Mas ele deve saber subir uma fenda como eu fiz.

Cinco minutos depois o detetive estava fora do buraco e punha Tamara sobre os ombros. Os cinco então, puseram-se a caminho seguindo Karina. Não demoraram muito a voltar. Karina parou diante da moita onde estava o jaguar. O animal estava quieto. Tinha tantos espinhos pelo corpo que não era possível mexer-se. Nem mesmo inspirar para esturrar ele conseguia.

– Meu Deus, que monstro! – disse Milena arrepiando-se.

– Foi você que o colocou ali? – perguntou Ludmila.

– Não tive escolha. Mas não pretendo deixar a coitada lá. É uma morte inglória para uma animal tão bonito.

– Bonito? – estranhou Milena. – Você acha aquilo bonito?!

– Está feia porque está ferida e em sofrimento, Milena. Mas ela é bonita quando está livre e senhora de toda a sua força. Eu sei. Eu vi! Vamos. Ivaldo e Ludmila estão chegando ao rio.

As duas puseram-se a caminho. Milena pensava em como a repórter pretendia tirar a onça do meio daquele emaranhado sem um facão, sem mesmo um canivete. Quando chegaram, Ivaldo banhava carinhosamente Tamara nas águas do rio, esfregando-lhe todo o corpo para lhe retirar aquela lama fedorenta. Sentado à marge, Damastor contava o que lhe havia acontecido e como Karina intuíra que a flor poderia salvá-lo.

– Deixe que eu faço isto – disse Karina, aproximando-se de Ivaldo e segurando a amiga pela cintura. Ivaldo retirou-se de costas, observando-as atentamente. Eram duas belezas diferentes, mas nem por isto inferior uma à outra.

– Como foi que Karina meteu a onça naquela enrascada infernal? – perguntou Milena a Damastor.

– Eu ainda não sei. Ela não teve tempo de contar – respondeu ele pondo-se de pé.

– Acho que teremos de engendrar uma roupa para Tamara. Ela não pode ficar assim, nua o tempo todo – falou Ivaldo aproximando-se deles.

– Bem, se não lhe conseguirmos uma roupa, tiramos o restante da nossa e ficamos todos iguais – disse Milena maliciosa.    

– Eu só queria saber para onde foi a aldeia que tinha aqui – comentou Damastor perscrutando a escuridão vazia.

– É mesmo! – exclamou Ivaldo. – Com esta confusão toda eu me esqueci dela. O que aconteceu? Você encontrou o homem-bode?

– Sim – respondeu lacônico Damastor.

– E então? – insistiu Ivaldo.

– Do que é que vocês estão falando?

– Da aldeia que estava aqui quando eu passei e entreguei minha pistola para Damastor. Havia uma espécie de festa e eu recebi uma ordem para dizer a ele que atirasse no homem-bode – informou Ivaldo olhando para todos os lados à procura da aldeia.

– Então, tinha uma aldeia mesmo? – admirou-se Milena.

– Você não a viu? – perguntou Ivaldo supreso.

– Não. Eu… Eu pensava que estava sonhando e que Damastor tinha invadido meu sonho. Aí vieram vocês e eu… eu…

As duas repórteres sairam da água. Tamara estava bem recuperada e caminhava sozinha.

– E meu vestido? – perguntou ela às outras.

– Ficou lá na gruta. Fedia muito e você preferiu ficar nua – respondeu Karina.

– Bem, eu não esperava tanta platéia – disse ela cobrindo-se com as mãos.

– Não se preocupe – brincou Karina. – Você, nua, é bem mais bonita do que vestida. Pergunte a eles! Aposto que não vão…

Uma tremenda explosão sacudiu o chão e Milena, com um grito, caiu sentada. Damastor cambalaeou e teve de apoiar-se em Ivaldo para não cair também. Tamara abaixou-se cobrindo a cabeça com as mãos e Karina lançou-se de barriga na margem do rio.

– O que diabo é isto? – gritou Ludmila que escorregara até ficar com água pelos joelhos.

– O mar! – gritou Ivaldo apavorado. Todos olharam para onde ele apontava e perderam a voz. Longe, uma enorme tromba d’água subia para os céus numa coluna de fogo e fumaça.

– É um vulcão! É um enorme vulcão em erupção, gente! – bradou Damastor. – Corram! Vamos subir a rocha! O mar vai vir com ondas gigantes. Seremos varridos!

Ato contínuo ele disparou subindo o lajedo. Cada qual o seguiu como podia e todos se atiraram para cima desesperadamente. Na praia, a água sofreu um recúo de mais de trinta metros, deixando a descoberto um abismo marinho com mais de cinquenta metros de profundidade. O rio secou bruscamente quando suas águas deixaram de ser represadas pela maré e ele, por algum tempo, despencou do paredão que ficara a descoberto, formando uma cachoeira dentro do mar. O espetáculo seria magnífico, se não fosse o horror que se formava no alto mar. Duas outras enormes explosões se fizeram ouvir e novamente uma lingua d’água e fogo subiu aos céus com um estrondo ensurdecedor. Uma onda circular de mais de oitenta metros de altura se formava no cone vulcânico aquático e começava a se espraiar. Aquela onda arrasaria tudo o que encontrasse pela frente. Enquanto isto, os sete amigos arfavam quase sufocando quando passaram pelo jaguar. Ele se debatia desesperadamente, embora muito pouco pudesse fazer para se soltar. Karina parou e puxou o braço de Damastor.

– Sua pistola tem bala? – perguntou arfando.

– Tem – respondeu ele, do mesmo modo.

– Atire na cabeça dela – pediu Karina apontando para o magnífico felino.

– Por que? – surpreendeu-se Damastor.

– Eu não quero que sofra mais! Atire, por favor! – implorou a moça olhando com olhos lacrimejantes para a onça.  

– Damastor hesitou um momento. Depois, sacou a arma e fez pontaria bem na testa do jaguar. Deu ao gatilho e o grande gato apenas deitou-se como se fosse dormir.

– Pronto, está feito. Vamos embora! – e ele recomeçou a corrida puxando a repórter que chorava, pelo braço.

– Ela não sofreu, não é? – perguntou Karina entre soluços. Sem parar a corrida, Damastor a olhou admirado. A moça chorava pela fera que quase a devorara. Aquilo era inacreditável. Se tivesse caído nas garras da onça é certo que não teria tido uma morte bonita, não.

– Diga, Damastor, ela não sofreu, não é? Você tem boa pontaria, não tem?- insistiu a moça.

– Ela não sofreu. Um tiro no meio da testa é como desligar uma luz. Não se sente nada, acredite. E eu atirei bem entre os olhos dela. Agora, por favor, pense em nossa situação. A onça já acabou a agonia, mas nós ainda nem começamos a nossa. CORRA!

Com esforço redobrado conseguiram alcançar os outros. Estavam um trapo e a pernas bambas não davam mais que passadas pesadas. Do céu desceu uma chuva de água salgada e eles compreenderam que era o resultado da primeira explosão do vulcão. A água engrossou como se fosse uma cachoeira e formou correnteza que trazia lama, galhos secos, arvores fracas e muitas pedras rolando com ela. Tamara caiu. Ivaldo tentou abaixar-se para socorrê-la,  mas uma enxurrada de lama e galhos arrastou o corpo de pele parda da repórter fazendo-o sumir na sujeira. Ivaldo levantou-se incrédulo e sem admitir que a moça morrera e, quando se virou para buscar os outros, viu uma enorme árvore ser fendida por um raio esquisito e cair sobre eles. Não teve tempo de sair do lugar e recebeu um galho com mais de cem quilos bem no meio da cabeça. Antes de desmaiar viu o corpo de Karina passar como um furacão, espalhando sangue para todos os lados, espetado pelo meio por um dos galhos da árvore que rolava ladeira abaixo arrastando outras. A moça parecia um boneco desengonçado…