Hemi situava-se numa montanha, mas não tão íngreme quanto esta.

Hemi situava-se numa montanha, mas não tão íngreme quanto esta. Ao seu redor havia um pequeno povoado que tinha este nome.

Jeroboão ergueu-se de seu leito mal o róseo do amanhecer coloriu o céu. Era raro ele chegar até àquela hora deitado. Geralmente levantava-se ainda com o escuro da madrugada se espreguiçando sobre os picos nevados do Himalaia. Mas naquele dia saltou da cama um pouco mais tarde. Foi até o pátio e se pôs a fazer exercícios de combate. Com uma lança em mãos, movia-se com velocidade, saltava, agachava-se e desferia lancetadas em algum adversário invisível. O ancião de barbas brancas e de andar manso, agora era um tigre em movimentos rápidos e velozes. Uma transformação espantosa. Estava frio, como sempre, mas não havia neve. O ar era seco e queimava a garganta, quando se inspirava. No entanto, acostumado àquela condição dura do ambiente, Jeroboão não parecia sentir nada. E seu corpo era como uma pluma girando ao sabor do vento. Leve, livre, suave, erguia-se alto, rodopiava, estendia a perna direita num pontapé imaginário, caía de ponta-cabeça e rolava tão suavemente pelo chão que não deixava marcas do corpo na areia macia e escura. Ele só parou seu “combate” quando o primeiro monge surgiu de dentro do grande Templo, trazendo um pesado balde de madeira suspenso na mão direita. Jeroboão dirigiu-se para os fundos do mosteiro onde, em um grande cercado de toras de madeira firmemente coladas uma nas outras, havia água armazenada. Ele tomou de uma concha e jogou aquela água a quase zero grau sobre o corpo nu. Esfregou-se vigorosamente e passou pelo corpo algo como um pedaço de sabão. Não houve muita espuma, mas o perfume daquilo encheu o ar ao redor.

Depois, o rimpoche foi até à cozinha e se alimentou com frutas e mel. Então, entregou-se à faina do dia, lado a lado com os demais monges, todos em silêncio e trabalhando com precisão de relógio suíço. Às 6 horas da manhã chegaram os irmãos Yoseph, Thiago e Matheus. Como sempre a aparência deles não era nada agradável à vista. Cabelos em desalinho, barbas longas, pretas e maltratadas, caras amarfanhadas e expressão de cansaço e sono em todas elas. Tomaram o leite com manteiga de Iaqui; comeram grandes pedaços de pão e rebateram tudo com muitas frutas frescas ou secas. Terminaram o desjejum e correram para o Templo a fim de participarem da primeira oração do dia. Já não mais apresentavam resistência aos rituais do Mosteiro de Hemi. Lá dentro encontraram as mulheres da família. Ao contrário deles, elas estavam bem arrumadas, penteadas e com as roupas adequadas ao ambiente. Após a primeira oração, os homens foram realizar as pesadas tarefas do dia no Mosteiro de Hemi. As mulheres se entregaram também às tarefas que a elas eram destinadas e que, em matéria de peso, não ficavam nada a dever àquelas destinadas aos homens.

Míriam, a mãe, estava toda entregue à lavagem das roupas cerimoniais, juntamente com Ruth e Mírian, suas filhas; e Míriam sua nora, quando o Rimpoche se aproximou e a olhou. Então, quando seus olhares se cruzaram, ele acenou com a cabeça convidando-a a acompanhá-lo.

— Continuem sem mim, filhas. O Rimpoche me chama.

Os dois se distanciaram e se encaminharam para fora do Mosteiro. A estrada estava muito movimentada e os dois andavam contra a mole humana e seus animais de carga. Afinal, depois de quase uma hora, chegaram a uma gruta encarrapitada sobre uma enorme lapa, cuja lateral descia na vertical por uns trezentos metros. O vento batia na pedra gelada e subia com uma força assombrosa, sempre soltando um som cavo, ameaçador. Mas a senda que levada até a gruta era relativamente segura, desde que não houvesse nevado durante a noite. Em tal caso, tornava-se mortalmente escorregadia.

O Rimpoche Jeroboão parou diante da gruta e indicou sua entrada para Míriam.

 — Filha, você vai receber uma visita, aqui. Uma visita que não pode ser vista por mais ninguém. Entre e aguarde. Eu terei de retornar ao Mosteiro, pois a conversa entre vós ambos não deve ser ouvida por mim. Quando terminarem, retorne. Não tema. A senda , hoje, é segura. Não se impressione com o rugido do ar. Ele está sempre de mau humor por aqui.

Sorrindo, o Rimpoche deu as costas a Míriam e encetou a descida com passadas firmes e rápidas para sua idade.

Míriam permaneceu olhando com imensa ternura para com Jeroboão, um homem tão idoso quanto Matusalém e, no entanto, de raciocínio e sabedoria inigualáveis dentro de Hemi. Depois que a figura altiva do Rimpoche desapareceu na curva do caminho, ela se encaminhou para dentro da caverna. Nunca estivera ali, antes. Mas não demonstrava nenhum medo. Encontrou uma pedra arredondada na qual se sentou e permaneceu quieta, aconchegando-se dentro da manta que lhe cobria o corpo para esquentar um pouco o frio que lhe parecia ir até os ossos. Fechou os olhos e relaxou.

Não saberia dizer quanto tempo ficou assim, alheia ao ambiente e ao frio, quando alguém lhe tocou o ombro. Abriu os olhos e soltou uma exclamação de surpresa. Diante dela estava o seu Yoseph, o construtor de casas e barcos. Forte, sorridente, bonito como sempre.

— Estás mais linda que nunca, Míriam.

— Yoseph! Mas como podes estar aqui, se já estás morto há tantos anos?

Yoseph curvou-se e lhe deu um doce beijo na testa, segurando-lhe os ombros com ternura. Míriam encheu os olhos de lágrimas. A saudade, agora, vinha com força lá do mais fundo de seu Espírito.

— Não há morte, Míriam. Ninguém morre. Nem os kittins. Apenas deixamos de usar o envólucro canal. Mas transpor o Portal inter-mundos é o maior perigo para quem vive na Terra. Tem-se de estar muito limpo para não abrir o Portal das casas inferiores. Se assim não for, há-de se chorar lágrimas de desespero por muito, muito tempo. Não foi meu caso. Não será o teu nem o de qualquer de nossos filhos e, também, de nossa nora.

— Então… Por que estás aqui? Por que retornas de onde estás? Tua presença me abriu a grande ferida da saudade…

— Não vim causar dor, embora não possa impedir que tu a sintas. Sei que me amaste de todo teu coração e eu também te amei e te amarei por toda a Eternidade. E sei que foi o maior privilégio para mim tu me teres aceitado como esposo na Terra. Mas agora, não vim por causa deste Amor e, sim, porque necessito apagar de tua lembrança o que tu estás recobrando. Ainda não é tempo de saberes quem és de verdade.

Míriam sorriu. Então, olhando bem nos olhos de seu amado esposo, disse:

— É tarde. Sei quem sou. Eu sou…

— Míriam, a esposa de Yoseph, falecido há muitos anos — cortou o homem cuja figura foi-se transformando e adquirindo roupagens belíssimas, de seda pura, bastante coloridas. Uma barba longa, bem feita, negra, emoldurava um rosto oval, nobilérrimo na expressão, onde olhos escuros sobressaíam na pele alva da face. Um turbante alvíssimo encimava sua testa e nele um grande rubi de vermelho intenso ofuscava o olhar de quem o mirasse. Mas isto não aconteceu com a Buda Avalokiteshwara. Ela olhou para aquele homem de autoridade impressionante e sorriu.

— És aquele que será conhecido por Saint Germain. Então, tu foste meu esposo carnal?

— Sim. Tive esta honra.

— E por que desejas retirar de mim a lembrança de quem sou realmente?

— Porque tu deves sofrer a dor angustiante da mãe amantíssima que vê seu filho pagar por um crime que jamais cometeu. E tu sabes disto. Então, para que não pareças demasiadamente fria e distante com o que o futuro reserva ao nosso filho, não podes não sentir conforme sentem todos os que vivem na carne.

A expressão de alegria de Míriam se anuviou.

— Terei de passar realmente por essa experiência? Não me agrada…

— Ele assim se determinou. Ele assim o quer. Não se pode ir contra Sua vontade. Afinal, Ele tudo pode aqui onde tu estás, e aqui onde estou, agora.

Miriam suspirou. Então, fechou os olhos e murmurou: “Faça-se em mim conforme a Vontade do Pai”. Houve um longo silêncio e ela dormitou. Quando despertou assustada porque estava quase caindo da pedra, olhou em volta à procura da estranha visita de que lhe havia falado o Rimpoche, mas não havia nada ali. Só o frio e a solidão. Então, determinada, pôs-se de pé e encaminhou-se de volta ao Mosteiro. Lá, ia cobrar do Rimpoche uma explicação para aquilo. Deixá-la ali, sozinha, por tanto tempo não fazia sentido. E servindo-se de uma mentira? Era demais.

No entanto, quando chegou ao Mosteiro, havia uma grande algazarra. Curiosa encaminhou-se para onde via sua família agrupada entre muitos monges. Todos riam e faziam uma bulha pouco usual naquele ambiente de sobriedade, trabalho, oração e silêncio. Assim que se aproximou, um homem alto, que ela reconheceu de pronto, abriu caminho entre os do grupo e correu para seus braços.

Era Yehoshua. Míriam sentiu o coração saltar no peito de tanta felicidade e abraçou o filho com muita força, seus olhos marejando de alegria.

— Voltaste! Finalmente, meu filho, tu voltaste para nós! — Dizia ela com voz entrecortada pelo pranto.

— Mãe, eu jamais me afastei de vós. Não esqueçais disto, nunca. Onde quer que eu esteja, acreditai: estarei sempre ao vosso lado e ao lado de toda esta família maravilhosa que tive a honra de possuir neste curto tempo em que aqui ficarei. E há meus discípulos muito amados por mim.  Descer à Terra foi uma decisão imensamente grata ao meu coração, mãe. Tenho, agora, vínculos com esta gente. Vínculos que nunca mais serão desfeitos.

Os dois foram cercados pelo resto da família e em festa se encaminharam para o Templo, onde o Rimpoche, de pé, aguardava-os sorrindo suavemente.

— Jeroboão! Que bom ver teu rosto amigo, meu irmão! — Gritou Yehoshua correndo e se atirando nos braços do ancião, que, rindo, abraçou-o carinhosamente.

— Vem conosco, Yehoshua. Todos estão ansiosos para ouvir de tua boca o que te aconteceu em tuas andanças. Eu, também. Vamos sentar-nos na sala de reuniões, menor que este templo enorme e mais acolhedora. Lá, poderemos conversar e, se aceitares, beberemos um bom vinho. Farei esta exceção em honra a ti.

Sentado entre Míriam, a esposa, e Míriam, a mãe, Yehoshua era só alegria. Enquanto narrava sua aventura nas terras da futura Europa, apertava carinhosamente as duas mulheres contra seu forte tronco e beijava-as carinhosamente os cabelos e os rostos. Ele não poupou detalhes. E o tempo transcorreu assim, até que chegou a hora do almoço. Foram para o grande salão e, após se lavarem rigorosamente, conforme era a lei do Mosteiro de Hemi, alimentaram-se comedidamente. Então, pedindo licença às mulheres e ao Rimpoche, Yehoshua afastou-se na companhia de seus irmãos para um local distante, longe de todos e fora dos muros do Mosteiro. Na pequena vila que se desenvolvera ao redor do Mosteiro, buscou uma pedra afastada da rua central, ainda com muito movimento, e ali reuniu seus irmãos Yoseph, Thiago e Matheus ao redor de si.

— O que tendes feito e o que aprendestes aqui, no Mosteiro? — E seus olhos caramelados estavam parecendo negros, ao passear de uma a outra face. Seus irmãos se sentiram incomodados com aquele olhar de punhal acerado e aquela figura que de repente sobressaia-se dentre eles com uma autoridade impressionante e inquestionável. Eles se lembraram do acontecimento estranho e inexplicável que tinham vivido na companhia do irmão misterioso. Fôra na noite em que Yehoshua incendiara com fogo vermelho um califa, no deserto. O homem se urinara de terror e eles quase que tinham feito a mesma coisa. A lembrança fez que se entreolhassem, inquietos.

— Temos trabalhado duro. O Rimpoche não é fácil de se agüentar — disse Thiago.

— E o que mais tendes feito?

— Oramos, sempre, a Yevé, bendito seja seu nome — falou, por sua vez, Yoseph.

— Afora isto, o que tendes aprendido aqui?

Seus irmãos se entreolharam, confusos. 

— O que queres que digamos, Yehoshua? — Perguntou Matheus.

— Eu não quero que digais nada. Quero apenas saber o que fizestes de úteis por vós mesmos. Por exemplo: até onde os ensinamentos do Mosteiro vos quebrou a dura carapaça da religião hebraica? Até onde pudestes perceber o quanto tivestes sido um joguete nas mãos de rabis sem escrúpulos entre nossa gente?

Os três irmãos se entreolharam aflitos. Não estavam compreendendo o que desejava o irmão mais velho deles. Yehoshua esperou um momento e, com um suspiro, falou.

— Vejo que avançastes pouco no que tínheis que ter aprendido. Nem pareceis meus irmãos. Vim de terras longínquas, onde os homens são guerreiros ferozes, mas, entre eles, encontrei pessoas altamente abertas para novos conceitos e novos ensinamentos. E fiquei muito feliz com isto. No entanto, aqui, onde poderíeis ter aprendido muito do que me foi ensinado e, também, poderíeis ter avançado em vossa evolução espiritual, nada fizestes a não ser manter-vos de costas para a Verdade. Não aquela da Torá conspurcada que é ensinada pelos Rabis de mau caráter, que apenas manipulam a crença dos inocentes e dos fracos de espírito para deles retirar ganhos ilícitos e espúrios, mas a que aqui é viva e está presente em cada sílaba que se pronuncia…

— Espera! — Gritou Matheus, olhos arregalados de susto e revolta. — Tu estás ofendendo a Torá!

— Não, não estou. A Torá nasceu aqui, meus irmãos. A Torá, a Verdadeira, tem suas raízes firmemente fincadas nos ensinamentos milenares que aqui se transmite da boca para o ouvido. Eu vos trouxe à fonte da verdadeira vida, e vós, estupidamente, não bebestes da boa água. No entanto, preciso muito que saibais livrar-vos da craca que verdadeiramente é o viver hebraico. E por isto, vou revelar-vos coisas das quais jamais podereis falar, porque certamente vos faltarão as palavras. Segui-me!

E sem se voltar para ver se era obedecido, com passadas elásticas, o Mestre dos Mestres se pôs a caminha em direção à gruta onde sua mãe havia, há poucas horas, recebido a visita de seu pai carnal, Yoseph, o futuro Mestre Saint Germain.

Ali entraram, os irmãos tensos e pressurosos. Yehoshua os fez sentar ao redor da pedra onde ele, por sua vez, se sentara.

— Vou revelar-vos a Grandeza de Nosso Pai Celestial. Não deveis falar do que ides ver, pois sereis apedrejados entre os hebreus, como hereges. Não deveis falar com outras gentes, pois não é tempo de conhecerem tais grandezas e tais feitos do Pai que tudo pode. Eles chegarão ao que vos mostrarei, mas por seus próprios e árduos esforços. O Espírito humano, embotado pela carne, evolui lentamente; demasiado lentamente para meu gosto.

Yehoshua estendeu as mãos sobre as cabeças de seus irmãos e instantaneamente tudo mudou…