Meu amigo chegava a conclusões sui gêneris e se dava por satisfeito com elas.

Meu amigo chegava a conclusões sui gêneris e se dava por satisfeito com elas.

Orozimbo abancou-se em silêncio. Tomou seu café amargo, acendeu seu pito e ficou olhando sério para a Atena, a cadela ruskie que o olha sempre desconfiada. Os dois estavam assim, se encarando, quando eu cheguei e me deitei na rede. Cedo, até que ainda é possível ficar esticado ali, assistindo o Sol crescer no céu azul ou levemente nublado, como está hoje, sabendo que às dez horas (a verdadeira), não é mais possível aguentar o calorão que desce furioso das telhas da varanda. Mesmo com um anteparo feito de isopor, ainda assim é incômodo permanecer ali depois das nove horas. E dizer que minha varanda já foi fria o dia inteiro… Parece até que a recordação me vem de outra encarnação. O clima mudou tão abruptamente aqui, no Centro-Oeste, que tenho a impressão de que aquele frio que era característico da terra centro-oestina pertence a um manvatara que já findou…

É a barba... Se você tem um vizinho que de repente deixa crescer a barba, mate-o depressa para que ele não venha a matá-lo e à sua família, depois.

É a barba… Se você tem um vizinho que de repente deixa crescer a barba, mate-o depressa para que ele não venha a matá-lo e à sua família, depois.

— É a barba — Ouvi Orozimbo falar e demorei um pouco para absorver o que tinha ouvido. Não fazia sentido. A cadela não tem barba. Nem o cão. Do que ele estava falando? Eu lhe fiz a pergunta e ele, dando aquela cusparada, olhou para mim e repetiu: “— É a barba, home”. 

— Que barba? Em quem?

— Bão, véi tem uvido munta gente falando dos tar de terrorista, num sabe? E é da gente ficá de queixo caído cum as matança desimbestada qui eles apronta. Artuzim tem levado uma purção de revista lá pra minha arucaia. Inté já tá me abufelando a paciença, num sabe? A arucaia é petititinha e já num tem mais onde butá tanto papér. Apois bem, véi pede ao minino qui leia as notiça dali e enquanto ele lê sobre as matança desimbestada dos doidão do tar de murçumano, véi observa qui tudo qui é maluco lá daquelas bandas invariavermente tem uma barbona danada de grande e desorganizada, num sabe? Os qui aquerditam em Oxalá ou no Jisus dos cristão, num usa barbona. Pur isto, num indoida e sai matando os otro a torto e a dereito. Véio acha qui o negóço é pegá os bicho barbudo à unha e raspá a cara deles cu’ma navaia bem cega, num sabe? Cega pra daná de duê. Aí, os miolo deles entrava nos eixo de novo.

Soltei aquela gargalhada. A conclusão de Orozimbo era sui gêneris. Segundo ele, a barba fazia toda a diferença entre os tresloucados religiosos muçulmanos e os sãos e sadios cristãos.

— E por que meu amigo chegou a tão fantástica conclusão? — Perguntei, entre risos.

"Matem os cristãos! Para cada 100 mortos você ganha uma virgem novinha em folha! E sem uso, eu garanto!"

“Mate os cristãos! Para cada 100 mortos você ganha uma virgem novinha em folha! E sem uso, eu garanto!”

— Ora, a barba nasce bem debaixo dos miolo, né não? Vem lá de perto das urêia e se ispraia pela cara toda. Num é no tar de crânio qui fica os miolo? Entonce. Acho que a tar de religião muçurmana incha os miolo dos bicho lá daquelas bandas, num sabe? E os miolo inchado aparece debaixo do queixo naqueles pelão duro e assanhado. Feio pra diabo, home. Inté os pade dele, os qui andam com aquele pano isquisito in riba da cabeça e todo imbruiado naqueles pano danado de feio, usa uma barbona imorá qui impresta à cara dos danado uma aparença de diabo doido.

— Mas como é que os miolos dos muçulmanos do Estado Islâmico ficam doidos?

"Meu dízimo é sagradooo! Paguem e eu lhes garanto a salvação. E vamos cantar o Salmo Dai a quem Necessita que Deus lhe paga regiamente!"

“Meu dízimo é sagradooo! Paguem e eu lhes garanto a salvação. E vamos cantar o Salmo Dai a quem Necessita que Deus lhe paga regiamente!”

— Ora, os tar de pade deles deita falação de indoidá os home e as muié. Ansim cuma faiz certos pastor daqui de nossas bandas. Só que os deles de lá, dão de mandá matá os otro e os daqui danam de pedi dinhero. Danam de passá a sacolinha, qui num são besta. Se mandasse matá os otro, home, as igreja deles ia se isvaziá rapidim e o poço logo secava. Nisto, home, os ispertaião religioso daqui são mais sabido qui os barbudão lá daquela gente burra. Lá, o veneno das palavra do doidão qui é pade deles invenena os miolo das pessoa. Aí, os miolo incha e dão o alarma pondo as barba preta pra avisá qui vem chumbo grosso pur aí. Mas o povo, os otro povo, ainda num perceberum isto, num sabe? A cara dos bicho murçumano é cuma a de nordestino brasileiro.

Ele parou para encher o pito de novo e soltar aquela baforada cheirosa. Então, voltou à sua explicação curiosa.

— A gente óia prum nordestino do Brasil e nem percisa preguntá se ele é daquelas banda. A cabeça chata, redonda, interrada no tronco, sem pescoço; o tronco grande, atarracado, e os braço forte. A artura baixa e o andá de macaco já diz logo que o bicho é nordestino cabra da peste. Apois bem, os povo lá das Oropa e dos americano bem qui divia de aprendê a disconfiá de gente cum cara de murçumano. E ficá de oio nos bicho. Assim qui eles cumeçasse a butá aquelas barba imorá pra crescer… Pum! Bala neles antes qui eles metam bala nos otro. É tão simpre, né não? Véi num sabe a rezão dos Presidente daquelas gente ficá cuma fica a doida daqui, gastando saliva à-toa. Se tem de havê morte, intonce que seja a deles, dos barbudão cum cara de murçumano. Véi avisa, home, se argum daqueles peste andá lá pelas banda de minha arucaia, eu vou matá ele a pernada sem pensá duas veis, num sabe? Antes ele do qui nóis, ora…

Eu me dobrava de rir e meu riso aborreceu Orozimbo, que se levantou “abufelado” da vida e se foi sem se despedir.

Barba grande e sinal de miolo doido…

E se ele estiver certo? Não se vê, realmente, nenhum muçulmano que se preze que não use uma barbona danada de grande. E todos andam embrulhado naqueles panos feios…

Ih! O Mal pega, gente! Não é que vou ficar desconfiado de barbudos do meu lado? Principalmente se tiver cara de sírio ou árabe…